A viola do dia



Este vídeo é uma curiosidade histórica: Al di Meola toca num clube argentino de Buenos Aires, o Oliverio Pub, de supresa e sem anuncio público, numa sexta-feira à noite de Setembro de 1995. O motivo foi um espectáculo de Mario Parmisano, habitual teclista de Di Meola, que o convidou. São variações em cima de uma composição de Astor Piazzolla.
AMANHÃ:PETER CILUZZI

A viola do dia


Este é o "Concerto Mediterrânico" que aconteceu em 1989, de John McLaughlin com a Filarmónica de Munique. Só tenho pena que McLaughlin seja mais rápido do que expressivo, mais cérebro que coração.
AMANHÃ: AL DI MEOLA

As OPA são uma coisa boa?

Ando a ler nos últimos tempos nos jornais especializados que isto de estarem a suceder-se no mercado umas OPA atrás das outras é um sinal positivo para Portugal. A tese é que essas operações, que envolvem investimentos bancários de muitos e muitos milhões, endividamentos monstruosos de empresas portuguesas, movimentos de capitais vindos de fundos estrangeiros mais ou menos desconhecidos para o comum dos mortais, revelam que quem tem dinheiro a sério antevê um relançamento da economia portuguesa e por isso aposta no nosso mercado para ganhar, claro, muito mais dinheiro. 

Tirando o facto de eu constatar que quase sempre, no mundo da alta finança, quem ganhou muito dinheiro fez com que alguém perdesse muito dinheiro, não me parece que essa visão tão optimista da situação seja assim muito realista. 

Esta minha observação à “velho do Restelo” decorre de umas dúvidas que eu, ignorante em assuntos deste tipo, tenho e não vejo respondidas na tal imprensa especializada. Como temos a certeza que o valor que hoje tem para o País a Portugal Telecom, a Sonae, o BCP e o BPI consegue sobreviver a este teste convulsivo? Como pode alguém garantir que nesta luta sem tréguas, onde se decide o destino a dar a milhões de contos e o emprego de milhares de pessoas, não se irão cometer erros fatais, capazes de liquidar, de um dia para o outro, o que ainda temos de vida financeira no País? Como podemos ter a certeza que, no deve e haver final, na contabilidade dos ganhos e perdas, não acabaremos por nos deparar com uma calamidade? Quem nos garante que, afinal, tudo isto não passa de uma suicida fuga para a frente rumo a um angustiante abismo? Sim, estou muito preocupado e com um bocado de medo. 
in 24horas, 25 de Março de 2006

Os primeiros sons da minha filha

O dia em que me apercebi que a minha filha estava viva foi quando o médico pôs um aparelho na barriga da minha mulher para ouvirmos bater o coração do bebé. Era um barulho furioso, à velocidade única de quem corre (e nunca mais chega) à procura de ver a luz do sol, de respirar o ar, de beber água, de saborear comida, de sentir um beijo, de experimentar um colo. Tirando o dia do nascimento da Joana – o único da minha vida em que, juro, voei –, foi a maior emoção de todos estes 16 anos de experiência da paternidade, muito maior, por exemplo, do que a visualização da primeira ecografia, frustrante, pois durante largos minutos descodifiquei apenas borrões e borrões e borrões... 

Memorizei aquela batucada cardíaca para o resto da vida: é um dos sons mais impressionantes do universo. E desde esse dia sinto uma inveja apaixonada de todas as mulheres: esta capacidade de levar na barriga um ser vivo, de ajudá-lo a crescer, escondido e devagarinho, ao longo de nove meses, dá-lhes um poder de deusas e atribuilhes um mistério impossível de desvendar. Eu sei lá o que é essa coisa animal de ter um filho na barriga! Eu sei lá o que é isso de pô-lo cá fora! Eu sei lá, no fundo, o que é realmente a vida! E, mais angustiante ainda, por muitas vezes que faça filhos, por muitas conversas que tenha com mães, por muitos livros que leia, nunca terei hipótese de o saber! Nós, os homens, somos uns seres incompletos. 

Sou incapaz de passar por uma mulher grávida, qualquer uma, sem olhar directamente para aquelas barrigas majestosas, sem me enternecer um pouco, sem voltar a sentir o prazer de ouvir, na minha cabeça, os primeiros sons da minha filha. Bárbara Norton de Matos, linda como quase todas as grávidas, está na capa desta revista a recordar-me tudo. Obrigado. 
in 24horas, 18 de Março de 2006

A viola do dia


Gosto de músicos amadores que, mesmo com limitações técnicas ou com instrumentos fracos, conseguem obter belos sons. É o caso desta canção, Girl, dos The Beatles, tocada numa versão que encontrei no YouTube identificada apenas por ter sido feita em 1996. Eles parecem ser da Europa do Leste, talvez russos e, suponho, não são músicos profissionais. Tudo ali – a melodia, o cenário da casa, o aspecto dos artistas, a forma como abordam o instrumento – respira candura.

A imaginação do mundo da moda

Já publicámos aqui no 24horas inúmeras entrevistas com modelos famosas, encantadoras e deslumbrantes estrelas das passarelas, pessoas de carácter perturbante, gente insensível ao peso dos olhares lúbricos e à exibição erótica do próprio corpo. Mas, para ser sincero, fico perplexo quando elas se põem a falar da adolescência e descrevem, quase invariavelmente, terem sido alcunhadas pelos colegas de carteira de “magrizelas” ou “escanzeladas”. Sugerem assim ser a magreza que as lançou na carreira algo natural, metabólico, e não o fruto de dietas milagrosas ou de plásticas habilidosas. 

O primeiro contacto que tive com o mundo da moda já foi no tempo em que os animais falavam, a televisão era a preto e branco e a patroa do meio era uma senhora chamada Maria Leonor, emblemática locutora dos primórdios da RTP, com um bocado de mau feitio, repleta de arrogância e fatos saia- -casaco. 


Uma amiga minha, já não me lembro como, foi escolhida para desfilar uns vestidos numa passagem que era apresentada e produzida por Maria Leonor. Essa minha amiga era uma morena de cabelos pretos compridos, lindíssima, de corpo muito bem desenhado (sim, estive apaixonado por ela, mas depois passou-me...), que preferia ler Álvaro de Campos a andar naqueles preparos. Mas a perspectiva de ganhar uns tostões e a pressão dos que a rodeavam lá a decidiram. 


O desastre aconteceu quando subiu à passarela: Maria Leonor anunciava ao estimado público que a Ana nascera em Luanda. Daí, insistia, a sua beleza exótica, “com sabor a África”, “selvagem e perturbante”, ideal para vestir as criações de já não sei que costureiro, adepto das “paletas de cores quentes e sensuais, típicas das paisagens africanas”. A Ana, nascida em Lisboa numa qualquer Alfredo da Costa ali ao virar da esquina, ao ouvir tanta aldrabice ia torcendo o pé nos sapatos de salto alto. Perdeu-se assim uma modelo: ela voltou para o Fernando Pessoa e nunca mais quis ouvir falar em moda.
in 24horas, 11 de Março de 2006

A viola do dia


O verdadeiro mestre da guitarra de 10 cordas é Narciso Yepes, que aqui aparece numa excelente gravação, apesar de antiga, a tocar Bach. As quatro cordas adicionais, as mais graves, raramente são dedilhadas mas, por efeito de simpatia, ressoam e dão um timbre especial ao instrumento, que Narciso achava ser mais natural do que o da guitarra de seis cordas.



AMANHÃ: AMADORES TOCAM BEATLES

O irrelevante pontapé do Marco


Na crónica anterior lembrei-me do impacto que o primeiro Big Brother teve no país. O pontapé do Marco abriu o noticiário das 7 da manhã da TSF e, depois, foi chamada de capa dos jornais de referência que, com essa cedência, deram uma vitória para o 24horas da altura, o único diário que tratava o assunto de forma sistemática.

Depois disso seguiram-se debates na televisão sobre os malefícios dos reality shows, crónicas incendiárias contra o programa e o caso dominou, durante semanas, as conversas dos portugueses.A TVI nunca mais deixou de liderar audiências. Deu na queda de Emídio Rangel, que dirigia a SIC e recusou comprar o programa à produtora Endemol. Foi a glória de José Eduardo Moniz, que aceitou os restos recusados pela estação rival. O Correio da Manhã passa a acompanhar o 24horas na cobertura a este tipo de assuntos, as revistas de TV e famosos amplificam o fenómeno e os outros jornais, da classe dos circunspectos, acabam, com maior ou menor destaque e no meio de um coro nas redacções de que "isto não é notícia", por fazer o mesmo que  os tablóides... Até hoje, com a vantagem de já ninguém protestar.

Quanto a estes personagens, que mudaram para sempre o país, é só escolher a pequena história trágico-irrelevante: Do esquecimento à cadeia, da depressão profunda à tentativa patética de voltar à ribalta, nenhum deles consegue na vida real entusiasmar qualquer audiência.

O preço que a fama cobra

Quando se estreou o “Big Brother” andávamos com a cabeça feita num oito. A coisa indignava-nos por haver pessoas que se dispunham a expor toda a sua intimidade às câmaras de televisão. A coisa deixava o País cheio de sentimentos de culpa por os telespectadores se comportarem como uma tribo de voyeurs que espreita pelo buraco da fechadura. A coisa era arrumada na secção dos problemas de consciência que se resolveriam mais tarde pelo facto, inultrapassável, de nos estarmos nas tintas para a moralidade e mamarmos, viciados, os episódios todos, uns atrás dos outros. 

Já passaram cinco anos e hoje já ninguém se impressiona muito com reality shows e a questão moral levantada por estes programas não foi resolvida: está esquecida de vez. A maioria de nós, até, segue os programas com alguma curiosidade mas sem uma pinga de paixão. 

Quando o fenómeno apareceu sonhei logo vir a fazer e a escrever, meia dúzia de anos depois, a reportagem sobre o que aconteceu aos primeiros personagens que entraram na casa da produtora Endemol. Adivinhava as tragédias de vida inevitáveis ao desgaste pessoal que, com o tempo, cada um daqueles rapazes e daquelas raparigas iria sofrer por ter sido famoso e depois ter caído no esquecimento, por ter tentado ser famoso e não o ter conseguido, por ter sonhado ser famoso e, afinal, ter odiado a fama, etc., etc.. 

A prisão de Mário, já depois da dupla tentativa de suicídio de Zé Maria, o primeiro vencedor do programa que alcançou o estatuto de herói nacional, já impunham que esse trabalho se publicasse. Procurámos então saber o que aconteceu a todos os que passaram pelo “Big Brother”. Infelizmente para mim não seria eu a escrever esta reportagem. Mas nesta revista fica documentado, de forma simples e clara, que, mesmo se às vezes for suave, o tempo cobra sempre algum preço à fama. 
in 24horas, 4 de Março de 2006

A viola do dia

Dominique Frasca é um músico experimentalista, de Nova Iorque, que aqui toca, em primeiro lugar, uma viola de 10 cordas (mexendo nela como se fosse um piano, isto é, com as duas mãos “a teclar”) e, em segundo lugar, uma viola de seis cordas, preparada.

AMANHÃ:
NARCISO YEPES

Como se fazem os bebés


A propósito da crónica anterior (ler aqui), confesso que na altura em que me foram relatados "os factos da vida" ainda não era possível utlizarmos recursos audiovisuais como este, proporcionado pelo grupo humorístico britânico dos anos 70/80 The Goodies, que se atreveram, na pública BBC, a abordar este assunto, que tanto medo mete aos pais de filhos pré-adolescentes...

Revelaram-me os factos da vida

meu pai morreu muito cedo por causa de um acidente automóvel e a minha mãe viu-se, de repente, sozinha com três filhos. Naquele tempo uma mulher como a minha mãe tirava um curso menor e inútil na escola, saía directamente de casa dos pais para casa do marido, não trabalhava e diziam-lhe que não devia trabalhar, tinha empregada em casa. Se enviuvasse, o melhor que poderia esperar era que a família a ajudasse. Aos 30 anos a minha mãe não foi nisso e, sem passado ou educação profissional, sem dinheiro, sem contactos, vendo-se numa situação aflitiva num mundo machista e paternalista, não se intimidou, partiu para a luta e venceu. 

Uma das preocupações da minha mãe foi sempre tentar dar aos filhos uma educação adequada aos tempos, longe da austeridade afectiva da sua infância e, apesar das dificuldades implícitas à necessidade de trabalhar de dia e estudar à noite, acompanhando-nos muito de perto e muito “em cima” do crescimento e das mudanças de idade, desde a infância até ao final da adolescência, passando por todas as fases intermédias ou, se quiserem, as diversas “idades do armário”. 

Um dos momentos mais bonitos que passei com a minha mãe foi quando, tinha eu uns 11 ou 12 anos, ela decidiu chamar-me para ter uma conversa séria. O assunto era “falar das coisas da vida”, algo que, em princípio, segundo explicava balbuciante, estaria a cargo do meu pai mas, dadas as circunstâncias, teria de ser ela a fazer. E assim comunicou- -me que afinal aquilo da cegonha trazer crianças era apenas uma fábula, que os meninos e as meninas eram diferentes por uma razão e por aí fora... Tudo terminou com a explicação do que era o preservativo e a pílula. Tenho a dizer que ouvi tudo com muita atenção e toda aquela informação dada assim de repente veio a ser muito útil, uma data de anos mais tarde. E tenho a declarar, para concluir esta história escrita quando já tenho uma filha quase adulta, que, para além de amor, quanto mais velho fico maior admiração sinto pela minha mãe. 
in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

A viola do dia

Hoje volto à guitarra portuguesa,  e apresento uma gravação antiga da RTP 2 com o então ainda “puto” Ricardo Rocha. É pena a qualidade de som…

 

AMANHÃ:
DOMINIC FRASCA

Vejam as cores que eu tenho

Guarda-rios2  Este é um guarda-rios fotografado por um português que se identifica como “Faísca” e que tem uma espectacular galeria de imagens de pássaros, Pode ser vista aqui. Charles Darwin, se no tempo dele tivesse uma máquina fotográfica, não faria certamente melhor.

Tudo se resume a isto: quem come a melhor refeição é que sobrevive

Eis um vídeo da Amnistia Internacional que pode muito bem ser visto no dia em que se celebra a publicação do livro que explica como as espécies mais aptas sobreviveram à lei da evolução…

É difícil andar bem vestido

 Por causa do senhor procurador-geral da República, doutor Souto Moura, tenho aparecido na televisão mais vezes do que gostaria. E, claro, fico sempre irritado com a figura ridícula que faço, com os (des)penteados com que apareço e as roupitas maçadoras que envergo. Resumindo: sou um triste. 

Aminha ideia de guarda-roupa ideal é esta: calças, camisa (camisola no Inverno), sapatos e casaco. Todo este equipamento deve ter uma qualidade única: a de me fazer passar despercebido. Se fosse eu a fazer as compras adquiria o mesmo conjunto de roupas sete vezes e ia mudando à medida das necessidades de lavagem. Por obrigação institucional, guardava no armário, no meio de bolas de naftalina, um conjunto engravatado ao qual me tentaria escapar sempre que possível. 

Infelizmente nunca me consegui organizar de forma a concretizar estes simples objectivos e a minha mulher tem feito tudo para sabotar esta operação. Ainda há bocado, tinha acabado de sair do meu gabinete um procurador que veio fazer uma busca à redacção do 24horas, tocou o meu telefone. Era lá de casa. Perguntaram-me se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Respondi que não, que ela estivesse descansada. Passado um bocado dei por mim a discutir o número de calças que visto, pois como deixei de fumar há um ano e engordei uns 10 quilos, a Catarina tinha dúvidas se o 38 ainda servia. Serve. E pronto, já sei que daqui a uns dias terei umas calcitas lá em casa para substituir as que tenho um bocado coçadas. Se não fosse ela, que compra o que lhe peço, eu não andava vestido como um triste. Andava mas era nu. 
in 24horas, 18 de Fevereiro de 2006

Espécies que já não querem sobreviver

Este vídeo foi produzido pela McCann Eriksson de Portugal para a Quercus, há um ano, a propósito das mudanças climáticas. A linguagem é primária, brutal, mas tremendamente eficaz. No dia em que se comemoram os 150 anos do livro que explicou a sobrevivência das espécies, isto deixa-nos um aperto no coração e um enorme sentimento de culpa…

A viola do dia

Este é o vídeo de uma fracção de um espectáculo de Toquinho na Suíça em 1983, ainda ele tinha muito cabelo escuro e bigode. É uma interpretação de um clássico de Ary Barroso:: “Na Baixa do Sapateiro”.
AMANHÃ:
RICARDO ROCHA

A origem das espécies


Aqui fica uma curta homenagem a Charles Darwin e ao seu revolucionário livro "A Origem das Espécies". Hoje passam 150 anos sobre a data da publicação da primeira edição.




Clique na fotografia para ler um artigo sobre o livro de Darwin

O amor à bandeira é muito bonito

OlegIgorinOleg Igorin é um fotógrafo de moda e publicidade, nascido e criado em Nova Iorque. Pode ser visitado aqui. Este é um trabalho com uma modelo chamada Ioanna e é também mais uma demonstração de que uma das razões porque os Estados Unidos lideram o mundo está nesta permanente exaltação que a sua sociedade faz dos seus símbolos unificadores e identificadores. Uma maçada para os europeus, que já não acham graça nenhuma a coisas como bandeiras, hinos, pátrias… a não ser quando se trata de futebol, claro… Mas já estou a estragar a fotografia com tanta parvoíce.

Dançam com ar de serem muito maus


A propósito da crónica anterior, aqui fica um vídeo que explica a dança Haka do povo Maori da Nova Zelândia, celebrizada mundialmente através dos jogadores de râguebi do país. Mesmo nesta manifestação guerreira há aqui qualquer coisa de sexual, de exibição de virilidade...

O sexo e a dança são perigosos

Já não me lembro qual foi o cerebrozinho que se saiu com esta, mas a frase é a seguinte: “a dança é a expressão vertical de um desejo horizontal”. Tiro desta tenebrosa generalização, claro, as danças de guerra, de desafio ou de trabalho, como a Haka dos Maori da Nova Zelândia, o fandango ribatejano ou o breakdance da Nova Iorque negra. Mas não compliquemos... 


O que quero dizer é que um casal a dançar a valsa, o twist, o sapateado, o disco, o samba, a gafieira, tango, maxixe, swing, salsa, bolero, rumba, o que quiserem – até patinagem artística – parece sempre estar a fazer uma única, exclusiva e significativa coisa: a simulação do acto sexual. É a minha cabecinha imoral que me impele a ver o que lá não está? Precisarei de ajuda psiquiátrica? Talvez de limpar os óculos? Ir mais vezes a casa? Calma aí! Não é preciso ser-se muito observador, não é preciso ser--se muito perspicaz, não é preciso serse muito inteligente para perceber que a dança de que aqui falo é mesmo disso que trata: procura, desafio, sedução, paixão, criação, explosão e agradecimento. Isto é, ou não é, a descrição de um acto sexual? 


Encontrada esta verdade de senhor de la Palisse vem a parte mais complicada: o ciúme. E o ciúme corrói-me por dentro, a mim que não sei dançar, que troco os pés, que sinto vergonha da hesitação destes braços nervosos e incertos, que meneio fora de tempo esta cabeça ridícula, que gingo as pernas aos tropeções descoordenados. E ciúme de quê? De todos os homens e mulheres que dançam. Porquê? Porque exibem ao mundo, espampanantes – belos e leves –, o mais lindo, íntimo e secreto dos desejos humanos. Eu não o posso fazer. E isso é uma terrível impotência. 
in 24horas, 11de Fevereiro de 2006

A viola do dia


Andrés Segóvia, o homem que impôs a viola na música erudita, toca Bach. A clareza da execução é estarrecedora, e impressiona ainda mais pela idade que, na altura desta gravação, o músico já tinha e que, pelos vistos, em nada o prejudicou.
AMANHÃ: TOQUINHO

Se houvesse degraus na Terra


Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.



herberto.helder Herberto Hélder, autor deste poema, nasceu neste dia 23 de Novembro em 1930, faz hoje 79 anos

O mundo é mais simples do que parece

Edgar Martins
Edgar Martins nasceu português, em Macau, estudou e vive em Londres e é habitualmente apresentado como um dos fotógrafos mais influentes da actualidade. Tem uma notável capacidade para depurar a realidade em composições de geometria linear. Gosta da luz e gosta do negro. É um esteta.

Mudamos, sim, mas vamos sempre
dando passinhos até ao fim


Martin Schmidt criou este desenho animado, intitulado “George Grows”  que, na perfeição, ilustra a crónica anterior que publiquei aqui

Todos vivemos sete vidas

Quase todos temos sete vidas para experimentar, como os gatos. Vamos lá ver. Com 1 ano tive pena de deixar de mamar. Com 3 anos adorei ir para a escola e o meu quarto tinha muitos brinquedos. Aos 5 anos planeava ser astronauta e achava as raparigas parvas. Esta foi a minha primeira vida. Foi curta mas diverti-me imenso.

Aos 9 anos planeava guiar autocarros da Carris e namorar uma data de raparigas. Aos 12 anos planeava ganhar um prémio Nobel e namorar uma data de raparigas. Aos 15 anos planeava ser guarda-redes no Sporting e namorar uma data de raparigas. Aos 16 anos planeava mudar o mundo e namorar uma data de raparigas. Aos 18 anos deixei de fazer planos. Esta foi a minha segunda vida. Foi curta e, ainda por cima, não namorei uma data de raparigas.

Aos 20 anos planeava ser uma vedeta da rádio, ajudar o meu partido, encontrar a mulher da minha vida e ter um filho. Aos 25 anos era locutor, trabalhava no meu partido e casei-me. Aos 26 anos tinha uma filha. Aos 30 anos apeteceu-me mudar de vida. Esta foi a minha terceira vida. A felicidade.

Quis ir para os jornais, quis mudar de casa, quis, apenas, mudar. Eu, a minha mulher e a minha filha mudámos. Passei a chefiar a redacção de um jornal diário e isso fazia-me cócegas ao sono, acordava a sorrir. Aos 39 anos puseram-me a dirigir o 24horas e entrei em delírio. Esta é a minha vida actual, a quarta. Ainda é curta, mas deu-me tudo o que quis ter e está a ser óptima.

Tenho um bocadito de medo das três vidas que ainda poderão vir: a maturidade, a reforma, a velhice. Não tenho brinquedos, não tenho planos, não terei mais filhos, acabarei a profissão... Mas, como um gato, se me deixarem, não resistirei à curiosidade de as experimentar. Afinal, estas sete vidas são três dias. Há que aproveitar.

in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

A viola do dia

O Cuarteto de Guitarras Aranjuez fez um arranjo com o tema principal da série televisiva “The Simpsons”. Está óptimo, apesar da captação de som não ser famosa.

AMANHÃ: ANDRÉS SEGÓVIA

Juro! Sou mesmo um rapaz pacato

Eu, conforme tenho desesperadamente tentado demonstrar nestas crónicas, sou um rapaz pacato, nada dado a aventuras amorosas.

Comigo é casa-trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho, dia após dia, após dia, após dia. Comigo não há fitas, não há distracções, não há sorrisinhos cúmplices, não há cafezinhos a meio da tarde. Comigo não há conversas sobre cinema, não há conversas sobre a infância, não há conversas sobre romances de Dostoievski, não há conversas sobre músicas de Marvin Gaye, não há conversas sobre anúncios eróticos de TV, comigo, em suma, não há conversas. É tudo casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho.

Sou mesmo um rapaz pacato. Juro!, que me caia já aqui um raio (noc!, noc!, noc!, o diabo seja cego, surdo e mudo!) se for mentira. Comigo não há trocadilhos inteligentes, comigo não há prendinhas despropositadas, comigo não há carícias teatralmente casuais e inocentes, encostos de cabeças a provocar intimidade, tons de voz macios e melosos, piscares de olhos despropositados ou partidinhas infantis. É como vos digo: casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho. Juro! (entrou agora um tipo no meu gabinete a perguntar-me porque estou a fazer figas com os dedos), mas eu só penso em coisas sérias e o flirt não é uma coisa séria.

Sim, a minha vida é um bocado chata, é verdade, as mulheres olham para mim como se eu sofresse de gota histérica, seja lá o que for essa doença maluca. Mas uma coisa não me acontecerá: o 24horas não publicará a minha fotografia na capa com a frase “a partir corações”, como hoje acontece ao doutor Miguel Beleza (o tipo que entrou há bocado no meu gabinete olhou agora para o ecrã do meu computador e está a dizer “coitado de ti, precisas de um ombro amigo?”, o sacana!).

in 24horas, 28 de Janeiro de 2006

A viola do dia



O espantoso Andy McKee, num exemplo de guitarra percutida, a tocar uma das faixas do seu álbum Art of Motion. Visite-o no My Space
AMANHÃ: CUARTETO DE GUITARRAS ARANJUEZ

Salazar, Espírito Santo, Mello, Champalimaud e os outros todos

O jornalista da revista Sábado, antigo director-adjunto do jornal 24horas e meu amigo, Pedro Jorge Castro, lançou um livro onde revela correspondência e imagens inéditas sobre as relações pessoais entre o ditador Salazar e os chefes da meia-dúzia de famílias ricas que dominavam a economia portuguesa da altura.

Diz a contracapa deste "Salazar e os milionários": “Durante o Estado Novo, quando os milionários portugueses precisavam de um favor politico, sentavam-se à secretária e escreviam a um homem pobre, de origem rural, mas que durante dezenas de anos concentrou em Portugal todo o poder politico.

Com base em cartas, relatórios e documentos, a maior parte inéditos, este livro desenha a surpreendente teia de ligações entre Salazar e as famílias mais ricas de Portugal: os encontros de domingo à noite com Ricardo Espírito Santo, a proximidade com os Mello, os pedidos de Champalimaud ou a aproximação de Cupertino de Miranda no final do regime. Aqui se revela também a relação pessoal que o ditador mantinha com o dinheiro, a sua intervenção nas guerras do petróleo e no comércio dos diamantes de Angola, e as enormes facilidades concedidas aos empresários que, a pedido do próprio governante, fundaram o Hotel Ritz. Uma história recheada de episódios de veneração, discordâncias veladas - e intensas manobras de bastidores”.

Do que vi – ainda só desfolhei - gostei: a edição da Quetzal, apesar de ser em capa mole, é cuidada e tem pormenores engraçados, como o de explicar a origem da fonte de letra usada na impressão; algumas das cartas que li são surpreendentes; as fotografias, em muitos aspectos, são uma revelação e até já fiquei a saber que o par das famosas botas do ditador custou 140 escudos, uma exorbitância para a época…

Já agora, para não nos esquecermos de como era o espírito da coisa, fica aqui um bocadinho do discurso de Salazar no 10.º aniversário da ditadura.



Ai esta televisão que eu amo!

É só para recordar que hoje é Dia Mundial da Televisão.

Bad-Television-Reception-35293Este é um trabalho de Photoshop assinado por AZRainam
para um concurso do site FreakingNews.com

Mas onde é que está o Liu?

Liu Bolin 5
Um artista chinês está a deixar os internautas parvos com o efeito visual que consegue na série de fotografias intituladas “Camuflagem”. Liu Bolin tem 35 anos, nasceu em Shandong, na China, e percorre o mundo para se fotografar coberto de tintas que o fazem ficar “embrulhado” no cenário..
 

Um tornado pode ser frágil

Tenho dois irmãos. E adorávamos fazer bolas de sabão…

O segredo de Soraia Chaves

Hoje o tema desta revista é “cenas de sexo” e, desconfio, não há maneira de me sair bem do empreendimento de escrever sobre ele: inevitavelmente acabarei comprometido. Em primeiro lugar perante a minha mulher que, das duas uma, ou se zanga a sério ou gozará comigo o resto da vida. Em segundo lugar perante os leitores, que ou vão achar que me estou a armar em bom ou pensarão que sofro de uma frustração qualquer.

Vou então para o truque da falsa sociologia (como se houvesse sociologia verdadeira...), não falarei de mim e tentarei responder a uma curiosidade meramente científica (claro...): será que todos os portugueses querem fazer sexo com a Soraia Chaves? Sim, porque o facto de 363.312 pessoas já terem ido a correr ao cinema para ver a cena em que a modelo, nua, dá umas cambalhotas com Jorge Corrula merece reflexão... E como as mulheres que viram “O Crime do Padre Amaro” estavam apenas a tomar conta dos seus homens, a questão é pertinente, até porque há por aí muito filme estrangeiro bastante mais escaldante que este e com êxito muito menor.

A resposta que encontrei, depois de aturada reflexão e investigação estatística, é simples: a Soraia, além de bonita, é portuguesa. No meu tempo os machos iam aos magotes ao Condes ver a Helena Isabel sair nua de uma suposta nave espacial construída em plástico Domplex. Era o máximo do erotismo nacional. Agora os padrões são outros e as cenas mais picantes, mas o mecanismo básico é igual: ao ver uma actriz portuguesa numa cena de sexo, há um fenómeno de proximidade que não se sente com uma actriz americana ou francesa.

É como espreitar o quarto da vizinha. Não somos, portanto, uns tarados sexuais. Somos, apenas, uns impenitentes bisbilhoteiros. Até porque, quanto a sexo fazêmo- lo com alguém que tentamos esconder das bisbilhotices dos outros, debaixo de lençóis e com as cortinas das janelas corridas.
in 24horas, 21 de Janeiro de 2006

A viola do dia



Um excerto de um documentário sobre Paco de Lucia.Visite o site

AMANHÃ: Andy McKee

O segundo em que houve silêncio

David Pinzer

Um fotógrafo alemão, David Pinzer, ganhou um prémio com esta imagem da urbanização empilhada de Kalimpong, na Índia. O título é “Blue Hour” e talvez seja o azul natural do fim do dia, cortado pelo amarelo da luz artificial da rua da esquerda que fazem o segredo desta composição… Até parece um local pacífico… Até nos esquecemos que, dentro daquelas casas, vive gente e mais gente e mais gente.

Talvez o peixe esteja demasiado fresco

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É simples de explicar: este é um restaurante situado no paraíso turístico das Maldivas. O menu é o que menos importa neste caso. Aqui o que interessa é a paisagem proporcionada pelo facto da sala de jantar estar colocada cinco metros abaixo da linha de superfície do mar. O tecto é em forma de bolha transparente, graças a uma cobertura em acrílico concebida por uma firma de design neo-zelandesa, o que permite, enquanto se come o marisco, ver a espectacular fauna marítima passar por cima das nossas cabeças. O Ithaa Undersea Restaurant aceita reservas marcadas com 14 dias de antecedência,  Saiba mais neste link.

Coitos efectuados a bem da Medicina



Pois este extraordinário vídeo da New Scientist relata e mostra uma investigação científica que arranjou maneira de fazer uma Ressonância Magnética (RM) animada a um coito entre um homem e uma mulher. Para o conseguir, os investigadores tiveram em laboratório vários casais a fazerem sexo.

A imagem da RM resultante de tanta actividade sexual é aqui pela primeira vez mostrada ao público em geral. Deu direito a um prémio IgNobel da Medicina, no ano 2000, aos autores do feito: Willibrord Weijmar Schultz, Pek van Andel, e Eduard Mooyaart . Deu também direito a publicação no British Medical Journal, (vol. 319, 1999, pp 1596-1600).

O orgulho de um professor

Em tempos que já lá vão dei aulas de uma disciplina que tinha o enganador nome de “Tecnologias de Informação”. Resumia-se, na prática, a ensinar adolescentes com mais de 16 anos a escrever e a fazer contas num computador. O problema maior era que uma grande parte dos alunos do 10.º e 11.º anos que encontrei nunca poderia ter grande brilhantismo na coisa porque não sabia sequer escrever em papel, quanto mais através de um computador... E quanto a contas, ainda era pior. Mas também é verdade que só havia um PC para cada três alunos, que metade do tempo de ensino era destinado a aulas teóricas que não interessavam nem ao Menino Jesus (eram só um truque do Ministério para iludir a falta de equipamento) e que nos jogos os putos “burros” se revelavam, afinal, muito desembaraçados quanto à utilização da informática. Para ser sincero, adorei a experiência – até porque nas tais aulas teóricas podia falar, falar e falar sem ser interrompido, o que enchia de vento a parte mais pretensiosa do meu ego – mas terminei-a porque o jornalismo começou a pagar-me melhor e a ocupar- -me cada vez mais tempo. E, peço desculpa, também porque o mundinho dentro da sala de professores era insuportável...

Uns dois anos depois estava num centro comercial a comprar óculos. Enquanto olhava para o espelho a ver se uma armação amarela me dava o ar de intelectual modesto com que procurava vender-me ao mundo, oiço ao meu lado uma vozinha tímida: “Professor?...”. Era uma das minhas antigas alunas de informática que estava ali. Senti-me ultraorgulhoso: chamarem-me professor, fora do contexto das aulas, e reconhecerem-me assim, com evidente prazer! Falámos um bocadinho, percebi que a cabeça dela estava bem arrumadinha – por acaso era das moças mais brilhantes que apanhei nas aulas – e, depois, lá nos despedimos. Nunca mais a vi. Mas convenci-me que, com o meu trabalho, dei qualquer coisa àquela rapariga que ela achou ter valido a pena receber. Qualquer coisa mais do que aprender a escrever num computador. Valeu, portanto, a pena.

in 24horas,. 14 de Janeiro de 2006

A viola do dia


O Georgia Guitar Quartet a tocar um arranjo de uma peça de Edvard Grieg. Visite o grupo aqui.
AMANHÃ: Paco de Lucia

Agora querem
que o pecado seja uma coisa bonita!

Alessandro Bavari
Sodoma e Gomorra é vista assim por Alessandro Bavari, um italiano nascido em 1963 que desde que começou a misturar fotografia, técnicas de manipulação digital e pintura, desatou a coleccionar prémios internacionais. Esta fotografia é a primeira de uma série dedicada às cidades do pecado que o Deus do Velho Testamento exterminou e pode ser vista aqui.

Car Wash no telejornal

Este vídeo sugere uma sucessão de contrastes que nos traz  de volta à realidade de um mundo que, neste conforto burguês, ocidental, europeu, do grupo dos 30 ou 35 países mais ricos do mundo, nos leva a dar como garantido um montão de coisas que só uma pequena parte do planeta pode, afinal, usufruir.

Pois o que se passa é isto: uma reportagem na televisão do Quénia dá dois minutos e 25 segundos de tempo de antena ao facto de ter aberto em Nairobi – a capital do país – um novo serviço de lavagem automática de automóveis, que não será o primeiro, suponho, mas que é suficientemente importante para ter direito a tão notável transmissão.

Primeiro contraste: este atraso de, talvez, 40 ou 50 anos em relação a algo que para nós faz tão parte da vulgaridade do dia-a-dia que nunca motivaria dois segundos, sequer, de espaço do pequeno ecrã, é compensado por o sistema, que tanto entusiasmo suscita à NTV queniana, ser computorizado e ter capacidade para reciclar a água que utiliza – o que deve ser bastante invulgar cá no nosso burgo tecnologicamente desenvolvido.

Segundo contraste: o automóvel que é utilizado no final da reportagem pelo jornalista para “testar” a lavagem automática de carros é um Volkswagen Passat de última geração, que fará inveja a muito automobilista “tuga” montado no seu utilitário Clio. O de um cliente é uma carrinha de caixa aberta 4 por 4 bastante cara.

Terceiro contraste: a técnica jornalística seguida é bem melhor do que muita coisa que se vê por aí nas nossas televisões, em situações similares, mesmo se o tema for a inauguração de uma fábrica de circuitos integrados ou o lançamento de uma nova versão do iPhone.

Invadido de cartões de Boas Festas

Nas últimas semanas a minha secretária de trabalho foi invadida por cartões de felicitações de festas felizes e próspero ano novo. Tenho a dizer que grande parte dessas missivas vêm de pessoas ou entidades que eu não conheço mas que, de alguma forma, a minha actividade jornalística e o cargo de director do 24horas levam a que se sintam na obrigação de proceder a esta delicadeza.

Há mesmo alguns que exageram e, a acompanhar o cartão, mandam garrafas de vinho, agendas, bolas de árvores de Natal e um infinito cardápio de produtos de promoção que me deixam irritadíssimo. Porquê? Porque tudo o que tenha valor que se veja é devolvido à procedência – não vá o diabo tecê-las e alguém pensar que se está a comprar um favor qualquer – e tudo o que não tem valor, para ser franco, encaminha-se rapidamente para o lixo, a juntarse aos milhões de toneladas de coisas não biodegradáveis que andam a poluir este mundo. No meio desta confusão acabo por me sentir uma besta insensível, por não ficar grato ao gesto de simpatia dos outros. É um embaraço para mim e para as pessoas e empresas que tentam ser agradáveis comigo e acabam por ter de dirimir um pequeno conflito institucional.

Nesta altura do ano criámos esta necessidade de darmos palmadinhas nas costas uns dos outros, de nos ofertarmos como se fossemos irmãos, apesar de no resto do ano termos andado mutuamente a planear homicídios de carácter, a espalhar rasteiras traiçoeiras e a espetar facadas nas costas. Nesta altura somos santos, no resto do ano somos soezes.

Mas a verdade é que as pessoas fazem isto por bem, eu sei. Sinto-me, portanto, obrigado a participar neste belo movimento social. Mas como sou forreta e já não vou a tempo de comprar cartões de Boas Festas, aproveito este espaço e a todos os esforçados ofertantes retribuo o marketing profissional com os desejos de um feliz Natal e um fantástico ano de 2006.
in 24horas, 24 de Dezembro de 2005

A viola do dia



O Brasil Guitar Duo toca "Zita", de Astor Piazzolla. O site do grupo é aqui.
AMANHÃ: Georgia Guitar Quartet

Quero rir com este peso tão leve

Vanessa Muñoz

Vanessa Muñoz é uma fotógrafa residente em Inglaterra mas que, parece ( o site dela pouco diz sobre ela própria) terá nascido ou terá ascendência mexicana. E isso é importante? Não. O que é importante nesta fotografia são as saudades que ela me atira dos tempos em que brincava com balões.

King Kong contra o dinossauro
e, afinal, quanto dura a memória?


A propósito da recordação de uma crónica minha no 24horas (ver mensagem anterior) lembrei-me de rever uma cena do King Kong de 1933 – onde, para salvar a menina que guincha insuportavelmente, o enorme gorila acaba a lutar com uma espécie de dinossauro de pano…

Está muito bem filmado!

É curioso como são cíclicos estes movimentos de permanente reciclagem do cinema de aventura, sobretudo nos lançamentos de Natal, previsíveis ao ritmo de relógios: O ano passado tivemos Batman – O Cavaleiro das Trevas; em 2007 foi a vez de Spider-man 3; em 2006  tivemos Piratas das Caraíbas – O Cofre do Morto e em 2005, no ano em que escrevi aquela crónica no 24horas, Peter Jackson apresentou a sua versão de King Kong. Este ano já ressuscitaram Star Trek, os Transformers, Harry Potter, o Exterminador e eu sei lá que mais!…

E a pergunta é esta: Isto significa que a memória das pessoas é curta ou, pelo contrário, é duradoura? Não tenho a certeza da resposta, mas lá que as produtoras de Hollywood sabem usar em seu proveito os mistérios da memória colectiva, ai lá isso sabem.

A absurda imaginação humana

Já conheci na vida grandes macacões. O maior foi o King Kong, a moda cinematográfica deste Natal. O que mais impressiona no King Kong não é a sua gigantesca dimensão, a sua força brutal ou a extraordinária capacidade de palitar os dentes com aviões biplanos. O que mais impressiona em King Kong é o facto de, fora de qualquer dúvida, ele representar o maior totó da história do planeta Terra. Vamos lá ver: apesar daquele corpanzil todo, o bicho deixou-se raptar. Acabou por ser transformado em animal de circo, ainda por cima sem receber um salário. Ainda assim conseguiu apaixonar-se perdidamente por um membro da espécie humana, raça que tantos maus tratos lhe infligia. Se isto não é de totó, não sei o que será.

Aliás, nunca percebi qual era a finalidade da paixão do gorila de oito metros e meio de altura. Ao agarrar na moça com uma mão para levá-la ao topo do Empire State Building, que objectivo tinha King Kong? Uma vida de casal numa penthouse de luxo? Não se estava mesmo a ver que o arrendamento do apartamento estava fora do alcance de um nativo do Terceiro Mundo? Já nem quero falar de outra questão: a funcionalidade desse amor estava obviamente comprometida, dada a diferença de estatura entre os amantes... A moça acabaria por trocá-lo por outro, estava-se mesmo a ver!

Sim, toda a história de King Kong é um absurdo. Isso não impede que o filme original, de 1933, tenha o estatuto de obra-prima da cultura norte-americana e esteja sob preservação no National Film Registry. Tiremos, portanto, duas conclusões. A primeira é que a imaginação humana pode seguir por vias ridículas e incongruentes, mas, surpreendentemente, ser capaz de nos maravilhar – e isto é apenas uma das coisas que fazem de nós seres especiais. A segunda conclusão é que, afinal, dos totós também reza a história.

in 24horas, 17 de DEzembro de 2005

A viola do dia


Não é viola. É guitarra portuguesa e, claro, Carlos Paredes a tocar "Verdes Anos".

AMANHÃ: Brasil Guitar Duo

O melhor jogo de futebol
de todos os tempos

E aqui fica (com uma imagem bera, mas é o que se pode arranjar)), o, para mim, melhor jogo de futebol de todos os tempos: Inglaterra 2 – Portugal 3. A explicação para isto, recordo, está na crónica que coloquei aqui e no vídeo que pus aqui.  O autor da montagem pode ser visitado aqui.

Uma correria infinita pelo deserto infinito

Ben Taher

Não sei o que Ben Taher, o autor desta fotografia que assim se identifica no Flicr, pensa do filme Lawrence da Arábia. Ele é libanês, conhece o deserto e tem um contacto relativamente frequente com as tribos tuaregues. Talvez, por isso, ache o clássico cinematográfico do inglês David Lean uma mera visão folclórica e colonialista da cultura e modo de vida desta gente. Ou talvez não. O que tenho a certeza é que este fotógrafo amador encheria as medidas de Lean (ou deixá-lo-ia a roer-se de inveja) pois, tal como ele, manufactura o pó, a luz, as linhas da areia, o horizonte, o sol, os cavalos e as pessoas para nos atirar à cara uma esmagadora emoção estética. Veja mais neste endereço. O nome desta fotografia é “The Hooves of the Horses”.

Já agora fica aqui a recordação

A propósito da crónica anterior, aqui fica um resumo de cinco minutos do jogo de futebol mais bem desenhado (e não o melhor) que já vi, numa época em que as marcações ligeiras a meio campo facilitavam o espectáculo. Aqui até é a cores, ao contrário do que, na época, pude televisionar. Acompanha um locutor brasileiro que, à maneira dos avós portugueses, na hora da derrota inflama um discurso de “vitória moral”.

Ninguém é objectivo no futebol

O jogo de futebol mais bonito que vi na vida foi ainda numa televisão a preto e branco. Trata-se do Itália-Brasil do Mundial de 1982. A selecção canarinha tinha Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, o pior guarda-redes do mundo, Waldir Peres, e um ponta-de-lança gigante e infantil, Serginho. A Itália tinha Dino Zoff, um guarda-redes de 40 ou 41 anos, que defendia tudo sem sair de entre os postes, uma defesa de betão e um avançado que só foi bom naquele Mundial, mesmo assim o suficiente para entrar para a história do futebol: Paolo Rossi.

O Brasil, dizem os entendidos, apresentou naquela altura uma das melhores, senão mesmo a melhor equipa de todos os tempos. Eles pareciam os globe-trotters do futebol, a trocar os olhos aos adversários. Eram tão bons, tão bons, que se podiam dar ao luxo de jogar só com 9, pois o guarda-redes e o ponta-de-lança não contavam...

Pois, eram uma maravilha, mas quem marcou três golos na baliza do Brasil foi Paolo Rossi e o Zoff só foi buscar a bola ao fundo das redes duas vezes.

Desde 1982 que espero viver no futebol 90 minutos tão completos de arte, força, garra e geometria como aqueles. Já estive perto, mas nunca se repetiu.

Mesmo assim, o melhor jogo de futebol que já vi na vida não foi este. Há um que teve mais que, simplesmente, qualidade: há um que mexeu com o meu coração. Foi o Inglaterra-Portugal do Europeu de 2000 com a espectacular reviravolta do 2-0 para 2-3 que Figo e companheiros conseguiram.

O futebol é isto: a magia só se completa se à arte, à força, à garra, à geometria se juntar a camisola, o adepto. É por isso que em Portugal o melhor jogo de futebol de sempre terá de ser um jogo com uma equipa portuguesa. O Itália-Brasil, sim, foi muito lindo, mas o Inglaterra-Portugal foi divino.

in 24horas, 10 de Dezembro de 2005

A viola do dia



Edgar Cruz toca em guitarra clássica a Bohemian Rhapsody dos Queen e, na segunda parte do vídeo, ensina como se faz. O site deste músico do Oklahoma pode ser visto aqui.

Já agora recordo que o álbum “A Night at The Opera”, que originou esta canção, foi lançado a 21 de Novembro de 1975, fará no sábado que vem 34 anos.

AMANHÃ: Carlos Paredes

Um grão de areia
na engrenagem do cinema


Alguém que se identifica como "folkdirector" pôs no Vimeo este espectacular video, uma publicidade a um fornecedor de acesso à internet que é uma animação feita com areia. Não sei quem é o autor. O nome da obra é este: "Sand Motion"

Eu queria que o branco fosse puro


Marta Ferreira ganhou um prémio com esta fotografia, atribuído pela revista "Digital Photographer". É habitual fotógrafa oficial dos espectáculos de La Feria. O seu site pode ser visto aqui... Porque será que as mulheres têm tanto fascínio pelos véus brancos?

Canções de Ary dos Santos
Rua da Saudade





Está aí no mercado aquilo que é descrito assim: "No ano em que se assinalam os 25 anos da morte de um dos mais talentosos poetas portugueses, Ary dos Santos, há uma homenagem cantada por Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti, numa selecção de 11 temas. 'Rua da Saudade' apresenta nova roupagem de canções singulares como Estrela da Tarde, Retalhos, Cavalo a Solta, entre outras."


Isto fez-me lembrar a melhor canção de Fernando Tordo - uma letra de Ary dos Santos - que ficou em 3.º lugar no Festival RTP da Canção de 1971. O festival foi ganho, nesse ano (quando ainda imperava o smoking alugado e o vestido comprido), pelo tema "Menina", também letra de Ary dos Santos, cantado por Tonicha. Mas "Cavalo à Solta" resiste muito melhor aos anos...

Ah!, a apresentadora é Ana Maria Lucas!

15/11/2009

Os aventureiros do ano

Dean S. Potter - Sky Flier

Aqueles dois pássaros desfocados da imagem de cima são, na realidade, dois homens que vestem um fato para voar. Atiram-se de uma montanha e aí vão eles!

A National Geographic acaba de nomear os aventureiros do ano e fez vários vídeos (veja aqui) que condensam as histórias de cada um dos malucos, com pouco amor à vida, que se dedicam a estranhas actividades. Pode-se eleger o aventureiro do ano votando no site da revista.

Refira-se que nenhum destes aventureiros se dedica à actividade financeira ou bancária. Mas há um que é professor... no Afeganistão. (A National Geographic tinha de meter política nisto).

Roupas explosivas
no escritório do paraíso


Este é um anúncio original de uma marca de pronto a vestir - a Pact - produzido pela Terri Timely Studios.

O Natal como uma Guerra Fria

Eu adoro o Natal, a festa da família. Mas há um grande problema no Natal: a família. E a família é um grande problema porque o melhor que há na vida é, de facto, a família.

Lá em casa, no Natal, enchemo-nos de expectativas. Queremos juntar toda a gente à mesa, na noite de 24 de Dezembro: as crianças, os pais, os avós, as tias, os primos, os cães, os gatos, os periquitos e o meu irmão solteiro (ia-me esquecendo dele). Em Setembro, no fim das férias, começa a guerra: “Então, este ano, o Natal é em casa de quem?”, pergunta um desordeiro qualquer do clã. Todas as mulheres deste agrupamento de apelidos iniciam então um processo comparável à Guerra Fria: cada bloco ameaça o outro com armas nucleares – tudo serve para assustar o inimigo, desde a hipótese de deserdar dissidentes até brandir o fantasma de as crianças deixarem de ter contacto com os adultos “do outro lado”. A finalidade é conseguir organizar a grande festa do ano. Os homens fingem ignorar o assunto. Até vão para os copos juntos mas, quando regressam para as suas esposas, delatam as confissões dos companheiros: “Vê lá tu que a Luísa disse ao Francisco que vai comprar um peru congelado. Onde já se viu, peru congelado no Natal!?”.

Em Novembro já quase ninguém se fala e cada núcleo familiar pensa que vai passar o Natal sozinho. Mas em pleno Dezembro, debaixo da pressão do tempo, uma das mulheres promove uma reunião de emergência feminina e, não se sabe como (os homens nunca conseguiram lá entrar nem nunca obtiveram um relato fiável do acontecimento), a paz é decretada. O Natal, por consenso, passa-se em casa de uma das negociadoras e todos ajudam, com trabalho e géneros, para o êxito da festa. A comida é sempre óptima, as prendas fantásticas e as crianças riem toda a noite... Ah!, no dia 24 de Dezembro, às três da tarde, o meu irmão solteiro telefona: “Olha lá, afinal vou ter aonde?”. Não sei porquê mas, todos os anos, esquecemo-nos dele...

in 24horas, 3 de Dezembro de 2005