A viola do dia
A viola do dia
As OPA são uma coisa boa?
Os primeiros sons da minha filha
A viola do dia
A imaginação do mundo da moda
Uma amiga minha, já não me lembro como, foi escolhida para desfilar uns vestidos numa passagem que era apresentada e produzida por Maria Leonor. Essa minha amiga era uma morena de cabelos pretos compridos, lindíssima, de corpo muito bem desenhado (sim, estive apaixonado por ela, mas depois passou-me...), que preferia ler Álvaro de Campos a andar naqueles preparos. Mas a perspectiva de ganhar uns tostões e a pressão dos que a rodeavam lá a decidiram.
A viola do dia
O irrelevante pontapé do Marco
Na crónica anterior lembrei-me do impacto que o primeiro Big Brother teve no país. O pontapé do Marco abriu o noticiário das 7 da manhã da TSF e, depois, foi chamada de capa dos jornais de referência que, com essa cedência, deram uma vitória para o 24horas da altura, o único diário que tratava o assunto de forma sistemática.
Depois disso seguiram-se debates na televisão sobre os malefícios dos reality shows, crónicas incendiárias contra o programa e o caso dominou, durante semanas, as conversas dos portugueses.A TVI nunca mais deixou de liderar audiências. Deu na queda de Emídio Rangel, que dirigia a SIC e recusou comprar o programa à produtora Endemol. Foi a glória de José Eduardo Moniz, que aceitou os restos recusados pela estação rival. O Correio da Manhã passa a acompanhar o 24horas na cobertura a este tipo de assuntos, as revistas de TV e famosos amplificam o fenómeno e os outros jornais, da classe dos circunspectos, acabam, com maior ou menor destaque e no meio de um coro nas redacções de que "isto não é notícia", por fazer o mesmo que os tablóides... Até hoje, com a vantagem de já ninguém protestar.
Quanto a estes personagens, que mudaram para sempre o país, é só escolher a pequena história trágico-irrelevante: Do esquecimento à cadeia, da depressão profunda à tentativa patética de voltar à ribalta, nenhum deles consegue na vida real entusiasmar qualquer audiência.
O preço que a fama cobra
A viola do dia
Dominique Frasca é um músico experimentalista, de Nova Iorque, que aqui toca, em primeiro lugar, uma viola de 10 cordas (mexendo nela como se fosse um piano, isto é, com as duas mãos “a teclar”) e, em segundo lugar, uma viola de seis cordas, preparada.
AMANHÃ:
NARCISO YEPES
Como se fazem os bebés
Revelaram-me os factos da vida
A viola do dia
Hoje volto à guitarra portuguesa, e apresento uma gravação antiga da RTP 2 com o então ainda “puto” Ricardo Rocha. É pena a qualidade de som…
AMANHÃ:
DOMINIC FRASCA
Vejam as cores que eu tenho
Este é um guarda-rios fotografado por um português que se identifica como “Faísca” e que tem uma espectacular galeria de imagens de pássaros, Pode ser vista aqui. Charles Darwin, se no tempo dele tivesse uma máquina fotográfica, não faria certamente melhor.
Tudo se resume a isto: quem come a melhor refeição é que sobrevive
É difícil andar bem vestido
Espécies que já não querem sobreviver
Este vídeo foi produzido pela McCann Eriksson de Portugal para a Quercus, há um ano, a propósito das mudanças climáticas. A linguagem é primária, brutal, mas tremendamente eficaz. No dia em que se comemoram os 150 anos do livro que explicou a sobrevivência das espécies, isto deixa-nos um aperto no coração e um enorme sentimento de culpa…
A viola do dia
RICARDO ROCHA
A origem das espécies

O amor à bandeira é muito bonito
Oleg Igorin é um fotógrafo de moda e publicidade, nascido e criado em Nova Iorque. Pode ser visitado aqui. Este é um trabalho com uma modelo chamada Ioanna e é também mais uma demonstração de que uma das razões porque os Estados Unidos lideram o mundo está nesta permanente exaltação que a sua sociedade faz dos seus símbolos unificadores e identificadores. Uma maçada para os europeus, que já não acham graça nenhuma a coisas como bandeiras, hinos, pátrias… a não ser quando se trata de futebol, claro… Mas já estou a estragar a fotografia com tanta parvoíce.
Dançam com ar de serem muito maus
A propósito da crónica anterior, aqui fica um vídeo que explica a dança Haka do povo Maori da Nova Zelândia, celebrizada mundialmente através dos jogadores de râguebi do país. Mesmo nesta manifestação guerreira há aqui qualquer coisa de sexual, de exibição de virilidade...
O sexo e a dança são perigosos
A viola do dia
AMANHÃ: TOQUINHO
Se houvesse degraus na Terra
Se houvesse degraus na terra...
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Hélder, autor deste poema, nasceu neste dia 23 de Novembro em 1930, faz hoje 79 anos
O mundo é mais simples do que parece
Edgar Martins nasceu português, em Macau, estudou e vive em Londres e é habitualmente apresentado como um dos fotógrafos mais influentes da actualidade. Tem uma notável capacidade para depurar a realidade em composições de geometria linear. Gosta da luz e gosta do negro. É um esteta.
Mudamos, sim, mas vamos sempre
dando passinhos até ao fim
Martin Schmidt criou este desenho animado, intitulado “George Grows” que, na perfeição, ilustra a crónica anterior que publiquei aqui
Todos vivemos sete vidas
Aos 9 anos planeava guiar autocarros da Carris e namorar uma data de raparigas. Aos 12 anos planeava ganhar um prémio Nobel e namorar uma data de raparigas. Aos 15 anos planeava ser guarda-redes no Sporting e namorar uma data de raparigas. Aos 16 anos planeava mudar o mundo e namorar uma data de raparigas. Aos 18 anos deixei de fazer planos. Esta foi a minha segunda vida. Foi curta e, ainda por cima, não namorei uma data de raparigas.
Aos 20 anos planeava ser uma vedeta da rádio, ajudar o meu partido, encontrar a mulher da minha vida e ter um filho. Aos 25 anos era locutor, trabalhava no meu partido e casei-me. Aos 26 anos tinha uma filha. Aos 30 anos apeteceu-me mudar de vida. Esta foi a minha terceira vida. A felicidade.
Quis ir para os jornais, quis mudar de casa, quis, apenas, mudar. Eu, a minha mulher e a minha filha mudámos. Passei a chefiar a redacção de um jornal diário e isso fazia-me cócegas ao sono, acordava a sorrir. Aos 39 anos puseram-me a dirigir o 24horas e entrei em delírio. Esta é a minha vida actual, a quarta. Ainda é curta, mas deu-me tudo o que quis ter e está a ser óptima.
Tenho um bocadito de medo das três vidas que ainda poderão vir: a maturidade, a reforma, a velhice. Não tenho brinquedos, não tenho planos, não terei mais filhos, acabarei a profissão... Mas, como um gato, se me deixarem, não resistirei à curiosidade de as experimentar. Afinal, estas sete vidas são três dias. Há que aproveitar.
A viola do dia
O Cuarteto de Guitarras Aranjuez fez um arranjo com o tema principal da série televisiva “The Simpsons”. Está óptimo, apesar da captação de som não ser famosa.
AMANHÃ: ANDRÉS SEGÓVIA
Juro! Sou mesmo um rapaz pacato
Eu, conforme tenho desesperadamente tentado demonstrar nestas crónicas, sou um rapaz pacato, nada dado a aventuras amorosas.
Comigo é casa-trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho, dia após dia, após dia, após dia. Comigo não há fitas, não há distracções, não há sorrisinhos cúmplices, não há cafezinhos a meio da tarde. Comigo não há conversas sobre cinema, não há conversas sobre a infância, não há conversas sobre romances de Dostoievski, não há conversas sobre músicas de Marvin Gaye, não há conversas sobre anúncios eróticos de TV, comigo, em suma, não há conversas. É tudo casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho.
Sou mesmo um rapaz pacato. Juro!, que me caia já aqui um raio (noc!, noc!, noc!, o diabo seja cego, surdo e mudo!) se for mentira. Comigo não há trocadilhos inteligentes, comigo não há prendinhas despropositadas, comigo não há carícias teatralmente casuais e inocentes, encostos de cabeças a provocar intimidade, tons de voz macios e melosos, piscares de olhos despropositados ou partidinhas infantis. É como vos digo: casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho. Juro! (entrou agora um tipo no meu gabinete a perguntar-me porque estou a fazer figas com os dedos), mas eu só penso em coisas sérias e o flirt não é uma coisa séria.
Sim, a minha vida é um bocado chata, é verdade, as mulheres olham para mim como se eu sofresse de gota histérica, seja lá o que for essa doença maluca. Mas uma coisa não me acontecerá: o 24horas não publicará a minha fotografia na capa com a frase “a partir corações”, como hoje acontece ao doutor Miguel Beleza (o tipo que entrou há bocado no meu gabinete olhou agora para o ecrã do meu computador e está a dizer “coitado de ti, precisas de um ombro amigo?”, o sacana!).
in 24horas, 28 de Janeiro de 2006
A viola do dia
O espantoso Andy McKee, num exemplo de guitarra percutida, a tocar uma das faixas do seu álbum Art of Motion. Visite-o no My Space
Salazar, Espírito Santo, Mello, Champalimaud e os outros todos
Diz a contracapa deste "Salazar e os milionários": “Durante o Estado Novo, quando os milionários portugueses precisavam de um favor politico, sentavam-se à secretária e escreviam a um homem pobre, de origem rural, mas que durante dezenas de anos concentrou em Portugal todo o poder politico.
Com base em cartas, relatórios e documentos, a maior parte inéditos, este livro desenha a surpreendente teia de ligações entre Salazar e as famílias mais ricas de Portugal: os encontros de domingo à noite com Ricardo Espírito Santo, a proximidade com os Mello, os pedidos de Champalimaud ou a aproximação de Cupertino de Miranda no final do regime. Aqui se revela também a relação pessoal que o ditador mantinha com o dinheiro, a sua intervenção nas guerras do petróleo e no comércio dos diamantes de Angola, e as enormes facilidades concedidas aos empresários que, a pedido do próprio governante, fundaram o Hotel Ritz. Uma história recheada de episódios de veneração, discordâncias veladas - e intensas manobras de bastidores”.
Do que vi – ainda só desfolhei - gostei: a edição da Quetzal, apesar de ser em capa mole, é cuidada e tem pormenores engraçados, como o de explicar a origem da fonte de letra usada na impressão; algumas das cartas que li são surpreendentes; as fotografias, em muitos aspectos, são uma revelação e até já fiquei a saber que o par das famosas botas do ditador custou 140 escudos, uma exorbitância para a época…
Já agora, para não nos esquecermos de como era o espírito da coisa, fica aqui um bocadinho do discurso de Salazar no 10.º aniversário da ditadura.
Ai esta televisão que eu amo!
É só para recordar que hoje é Dia Mundial da Televisão.
Este é um trabalho de Photoshop assinado por AZRainam
para um concurso do site FreakingNews.com
Mas onde é que está o Liu?
Um artista chinês está a deixar os internautas parvos com o efeito visual que consegue na série de fotografias intituladas “Camuflagem”. Liu Bolin tem 35 anos, nasceu em Shandong, na China, e percorre o mundo para se fotografar coberto de tintas que o fazem ficar “embrulhado” no cenário..
O segredo de Soraia Chaves
Vou então para o truque da falsa sociologia (como se houvesse sociologia verdadeira...), não falarei de mim e tentarei responder a uma curiosidade meramente científica (claro...): será que todos os portugueses querem fazer sexo com a Soraia Chaves? Sim, porque o facto de 363.312 pessoas já terem ido a correr ao cinema para ver a cena em que a modelo, nua, dá umas cambalhotas com Jorge Corrula merece reflexão... E como as mulheres que viram “O Crime do Padre Amaro” estavam apenas a tomar conta dos seus homens, a questão é pertinente, até porque há por aí muito filme estrangeiro bastante mais escaldante que este e com êxito muito menor.
A resposta que encontrei, depois de aturada reflexão e investigação estatística, é simples: a Soraia, além de bonita, é portuguesa. No meu tempo os machos iam aos magotes ao Condes ver a Helena Isabel sair nua de uma suposta nave espacial construída em plástico Domplex. Era o máximo do erotismo nacional. Agora os padrões são outros e as cenas mais picantes, mas o mecanismo básico é igual: ao ver uma actriz portuguesa numa cena de sexo, há um fenómeno de proximidade que não se sente com uma actriz americana ou francesa.
É como espreitar o quarto da vizinha. Não somos, portanto, uns tarados sexuais. Somos, apenas, uns impenitentes bisbilhoteiros. Até porque, quanto a sexo fazêmo- lo com alguém que tentamos esconder das bisbilhotices dos outros, debaixo de lençóis e com as cortinas das janelas corridas.
O segundo em que houve silêncio
Um fotógrafo alemão, David Pinzer, ganhou um prémio com esta imagem da urbanização empilhada de Kalimpong, na Índia. O título é “Blue Hour” e talvez seja o azul natural do fim do dia, cortado pelo amarelo da luz artificial da rua da esquerda que fazem o segredo desta composição… Até parece um local pacífico… Até nos esquecemos que, dentro daquelas casas, vive gente e mais gente e mais gente.
Talvez o peixe esteja demasiado fresco
É simples de explicar: este é um restaurante situado no paraíso turístico das Maldivas. O menu é o que menos importa neste caso. Aqui o que interessa é a paisagem proporcionada pelo facto da sala de jantar estar colocada cinco metros abaixo da linha de superfície do mar. O tecto é em forma de bolha transparente, graças a uma cobertura em acrílico concebida por uma firma de design neo-zelandesa, o que permite, enquanto se come o marisco, ver a espectacular fauna marítima passar por cima das nossas cabeças. O Ithaa Undersea Restaurant aceita reservas marcadas com 14 dias de antecedência, Saiba mais neste link.
Coitos efectuados a bem da Medicina
O orgulho de um professor
Uns dois anos depois estava num centro comercial a comprar óculos. Enquanto olhava para o espelho a ver se uma armação amarela me dava o ar de intelectual modesto com que procurava vender-me ao mundo, oiço ao meu lado uma vozinha tímida: “Professor?...”. Era uma das minhas antigas alunas de informática que estava ali. Senti-me ultraorgulhoso: chamarem-me professor, fora do contexto das aulas, e reconhecerem-me assim, com evidente prazer! Falámos um bocadinho, percebi que a cabeça dela estava bem arrumadinha – por acaso era das moças mais brilhantes que apanhei nas aulas – e, depois, lá nos despedimos. Nunca mais a vi. Mas convenci-me que, com o meu trabalho, dei qualquer coisa àquela rapariga que ela achou ter valido a pena receber. Qualquer coisa mais do que aprender a escrever num computador. Valeu, portanto, a pena.
A viola do dia
Agora querem
que o pecado seja uma coisa bonita!
Sodoma e Gomorra é vista assim por Alessandro Bavari, um italiano nascido em 1963 que desde que começou a misturar fotografia, técnicas de manipulação digital e pintura, desatou a coleccionar prémios internacionais. Esta fotografia é a primeira de uma série dedicada às cidades do pecado que o Deus do Velho Testamento exterminou e pode ser vista aqui.
Car Wash no telejornal
Pois o que se passa é isto: uma reportagem na televisão do Quénia dá dois minutos e 25 segundos de tempo de antena ao facto de ter aberto em Nairobi – a capital do país – um novo serviço de lavagem automática de automóveis, que não será o primeiro, suponho, mas que é suficientemente importante para ter direito a tão notável transmissão.
Primeiro contraste: este atraso de, talvez, 40 ou 50 anos em relação a algo que para nós faz tão parte da vulgaridade do dia-a-dia que nunca motivaria dois segundos, sequer, de espaço do pequeno ecrã, é compensado por o sistema, que tanto entusiasmo suscita à NTV queniana, ser computorizado e ter capacidade para reciclar a água que utiliza – o que deve ser bastante invulgar cá no nosso burgo tecnologicamente desenvolvido.
Segundo contraste: o automóvel que é utilizado no final da reportagem pelo jornalista para “testar” a lavagem automática de carros é um Volkswagen Passat de última geração, que fará inveja a muito automobilista “tuga” montado no seu utilitário Clio. O de um cliente é uma carrinha de caixa aberta 4 por 4 bastante cara.
Terceiro contraste: a técnica jornalística seguida é bem melhor do que muita coisa que se vê por aí nas nossas televisões, em situações similares, mesmo se o tema for a inauguração de uma fábrica de circuitos integrados ou o lançamento de uma nova versão do iPhone.
Invadido de cartões de Boas Festas
Há mesmo alguns que exageram e, a acompanhar o cartão, mandam garrafas de vinho, agendas, bolas de árvores de Natal e um infinito cardápio de produtos de promoção que me deixam irritadíssimo. Porquê? Porque tudo o que tenha valor que se veja é devolvido à procedência – não vá o diabo tecê-las e alguém pensar que se está a comprar um favor qualquer – e tudo o que não tem valor, para ser franco, encaminha-se rapidamente para o lixo, a juntarse aos milhões de toneladas de coisas não biodegradáveis que andam a poluir este mundo. No meio desta confusão acabo por me sentir uma besta insensível, por não ficar grato ao gesto de simpatia dos outros. É um embaraço para mim e para as pessoas e empresas que tentam ser agradáveis comigo e acabam por ter de dirimir um pequeno conflito institucional.
Nesta altura do ano criámos esta necessidade de darmos palmadinhas nas costas uns dos outros, de nos ofertarmos como se fossemos irmãos, apesar de no resto do ano termos andado mutuamente a planear homicídios de carácter, a espalhar rasteiras traiçoeiras e a espetar facadas nas costas. Nesta altura somos santos, no resto do ano somos soezes.
Mas a verdade é que as pessoas fazem isto por bem, eu sei. Sinto-me, portanto, obrigado a participar neste belo movimento social. Mas como sou forreta e já não vou a tempo de comprar cartões de Boas Festas, aproveito este espaço e a todos os esforçados ofertantes retribuo o marketing profissional com os desejos de um feliz Natal e um fantástico ano de 2006.
A viola do dia
Quero rir com este peso tão leve
Vanessa Muñoz é uma fotógrafa residente em Inglaterra mas que, parece ( o site dela pouco diz sobre ela própria) terá nascido ou terá ascendência mexicana. E isso é importante? Não. O que é importante nesta fotografia são as saudades que ela me atira dos tempos em que brincava com balões.
King Kong contra o dinossauro
e, afinal, quanto dura a memória?
Está muito bem filmado!
É curioso como são cíclicos estes movimentos de permanente reciclagem do cinema de aventura, sobretudo nos lançamentos de Natal, previsíveis ao ritmo de relógios: O ano passado tivemos Batman – O Cavaleiro das Trevas; em 2007 foi a vez de Spider-man 3; em 2006 tivemos Piratas das Caraíbas – O Cofre do Morto e em 2005, no ano em que escrevi aquela crónica no 24horas, Peter Jackson apresentou a sua versão de King Kong. Este ano já ressuscitaram Star Trek, os Transformers, Harry Potter, o Exterminador e eu sei lá que mais!…
E a pergunta é esta: Isto significa que a memória das pessoas é curta ou, pelo contrário, é duradoura? Não tenho a certeza da resposta, mas lá que as produtoras de Hollywood sabem usar em seu proveito os mistérios da memória colectiva, ai lá isso sabem.
A absurda imaginação humana
Já conheci na vida grandes macacões. O maior foi o King Kong, a moda cinematográfica deste Natal. O que mais impressiona no King Kong não é a sua gigantesca dimensão, a sua força brutal ou a extraordinária capacidade de palitar os dentes com aviões biplanos. O que mais impressiona em King Kong é o facto de, fora de qualquer dúvida, ele representar o maior totó da história do planeta Terra. Vamos lá ver: apesar daquele corpanzil todo, o bicho deixou-se raptar. Acabou por ser transformado em animal de circo, ainda por cima sem receber um salário. Ainda assim conseguiu apaixonar-se perdidamente por um membro da espécie humana, raça que tantos maus tratos lhe infligia. Se isto não é de totó, não sei o que será.
Aliás, nunca percebi qual era a finalidade da paixão do gorila de oito metros e meio de altura. Ao agarrar na moça com uma mão para levá-la ao topo do Empire State Building, que objectivo tinha King Kong? Uma vida de casal numa penthouse de luxo? Não se estava mesmo a ver que o arrendamento do apartamento estava fora do alcance de um nativo do Terceiro Mundo? Já nem quero falar de outra questão: a funcionalidade desse amor estava obviamente comprometida, dada a diferença de estatura entre os amantes... A moça acabaria por trocá-lo por outro, estava-se mesmo a ver!
Sim, toda a história de King Kong é um absurdo. Isso não impede que o filme original, de 1933, tenha o estatuto de obra-prima da cultura norte-americana e esteja sob preservação no National Film Registry. Tiremos, portanto, duas conclusões. A primeira é que a imaginação humana pode seguir por vias ridículas e incongruentes, mas, surpreendentemente, ser capaz de nos maravilhar – e isto é apenas uma das coisas que fazem de nós seres especiais. A segunda conclusão é que, afinal, dos totós também reza a história.
A viola do dia
O melhor jogo de futebol
de todos os tempos
Uma correria infinita pelo deserto infinito
Não sei o que Ben Taher, o autor desta fotografia que assim se identifica no Flicr, pensa do filme Lawrence da Arábia. Ele é libanês, conhece o deserto e tem um contacto relativamente frequente com as tribos tuaregues. Talvez, por isso, ache o clássico cinematográfico do inglês David Lean uma mera visão folclórica e colonialista da cultura e modo de vida desta gente. Ou talvez não. O que tenho a certeza é que este fotógrafo amador encheria as medidas de Lean (ou deixá-lo-ia a roer-se de inveja) pois, tal como ele, manufactura o pó, a luz, as linhas da areia, o horizonte, o sol, os cavalos e as pessoas para nos atirar à cara uma esmagadora emoção estética. Veja mais neste endereço. O nome desta fotografia é “The Hooves of the Horses”.
Já agora fica aqui a recordação
Ninguém é objectivo no futebol
O jogo de futebol mais bonito que vi na vida foi ainda numa televisão a preto e branco. Trata-se do Itália-Brasil do Mundial de 1982. A selecção canarinha tinha Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, o pior guarda-redes do mundo, Waldir Peres, e um ponta-de-lança gigante e infantil, Serginho. A Itália tinha Dino Zoff, um guarda-redes de 40 ou 41 anos, que defendia tudo sem sair de entre os postes, uma defesa de betão e um avançado que só foi bom naquele Mundial, mesmo assim o suficiente para entrar para a história do futebol: Paolo Rossi.
O Brasil, dizem os entendidos, apresentou naquela altura uma das melhores, senão mesmo a melhor equipa de todos os tempos. Eles pareciam os globe-trotters do futebol, a trocar os olhos aos adversários. Eram tão bons, tão bons, que se podiam dar ao luxo de jogar só com 9, pois o guarda-redes e o ponta-de-lança não contavam...
Pois, eram uma maravilha, mas quem marcou três golos na baliza do Brasil foi Paolo Rossi e o Zoff só foi buscar a bola ao fundo das redes duas vezes.
Desde 1982 que espero viver no futebol 90 minutos tão completos de arte, força, garra e geometria como aqueles. Já estive perto, mas nunca se repetiu.
Mesmo assim, o melhor jogo de futebol que já vi na vida não foi este. Há um que teve mais que, simplesmente, qualidade: há um que mexeu com o meu coração. Foi o Inglaterra-Portugal do Europeu de 2000 com a espectacular reviravolta do 2-0 para 2-3 que Figo e companheiros conseguiram.
O futebol é isto: a magia só se completa se à arte, à força, à garra, à geometria se juntar a camisola, o adepto. É por isso que em Portugal o melhor jogo de futebol de sempre terá de ser um jogo com uma equipa portuguesa. O Itália-Brasil, sim, foi muito lindo, mas o Inglaterra-Portugal foi divino.
A viola do dia
Edgar Cruz toca em guitarra clássica a Bohemian Rhapsody dos Queen e, na segunda parte do vídeo, ensina como se faz. O site deste músico do Oklahoma pode ser visto aqui.
Já agora recordo que o álbum “A Night at The Opera”, que originou esta canção, foi lançado a 21 de Novembro de 1975, fará no sábado que vem 34 anos.
Um grão de areia
na engrenagem do cinema
Alguém que se identifica como "folkdirector" pôs no Vimeo este espectacular video, uma publicidade a um fornecedor de acesso à internet que é uma animação feita com areia. Não sei quem é o autor. O nome da obra é este: "Sand Motion"
Eu queria que o branco fosse puro
Marta Ferreira ganhou um prémio com esta fotografia, atribuído pela revista "Digital Photographer". É habitual fotógrafa oficial dos espectáculos de La Feria. O seu site pode ser visto aqui... Porque será que as mulheres têm tanto fascínio pelos véus brancos?
Canções de Ary dos Santos
Rua da Saudade
Está aí no mercado aquilo que é descrito assim: "No ano em que se assinalam os 25 anos da morte de um dos mais talentosos poetas portugueses, Ary dos Santos, há uma homenagem cantada por Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti, numa selecção de 11 temas. 'Rua da Saudade' apresenta nova roupagem de canções singulares como Estrela da Tarde, Retalhos, Cavalo a Solta, entre outras."
Isto fez-me lembrar a melhor canção de Fernando Tordo - uma letra de Ary dos Santos - que ficou em 3.º lugar no Festival RTP da Canção de 1971. O festival foi ganho, nesse ano (quando ainda imperava o smoking alugado e o vestido comprido), pelo tema "Menina", também letra de Ary dos Santos, cantado por Tonicha. Mas "Cavalo à Solta" resiste muito melhor aos anos...
Ah!, a apresentadora é Ana Maria Lucas!
15/11/2009
Os aventureiros do ano
Aqueles dois pássaros desfocados da imagem de cima são, na realidade, dois homens que vestem um fato para voar. Atiram-se de uma montanha e aí vão eles!
A National Geographic acaba de nomear os aventureiros do ano e fez vários vídeos (veja aqui) que condensam as histórias de cada um dos malucos, com pouco amor à vida, que se dedicam a estranhas actividades. Pode-se eleger o aventureiro do ano votando no site da revista.
Refira-se que nenhum destes aventureiros se dedica à actividade financeira ou bancária. Mas há um que é professor... no Afeganistão. (A National Geographic tinha de meter política nisto).
Roupas explosivas
no escritório do paraíso
Este é um anúncio original de uma marca de pronto a vestir - a Pact - produzido pela Terri Timely Studios.
O Natal como uma Guerra Fria
Eu adoro o Natal, a festa da família. Mas há um grande problema no Natal: a família. E a família é um grande problema porque o melhor que há na vida é, de facto, a família.
Lá em casa, no Natal, enchemo-nos de expectativas. Queremos juntar toda a gente à mesa, na noite de 24 de Dezembro: as crianças, os pais, os avós, as tias, os primos, os cães, os gatos, os periquitos e o meu irmão solteiro (ia-me esquecendo dele). Em Setembro, no fim das férias, começa a guerra: “Então, este ano, o Natal é em casa de quem?”, pergunta um desordeiro qualquer do clã. Todas as mulheres deste agrupamento de apelidos iniciam então um processo comparável à Guerra Fria: cada bloco ameaça o outro com armas nucleares – tudo serve para assustar o inimigo, desde a hipótese de deserdar dissidentes até brandir o fantasma de as crianças deixarem de ter contacto com os adultos “do outro lado”. A finalidade é conseguir organizar a grande festa do ano. Os homens fingem ignorar o assunto. Até vão para os copos juntos mas, quando regressam para as suas esposas, delatam as confissões dos companheiros: “Vê lá tu que a Luísa disse ao Francisco que vai comprar um peru congelado. Onde já se viu, peru congelado no Natal!?”.
Em Novembro já quase ninguém se fala e cada núcleo familiar pensa que vai passar o Natal sozinho. Mas em pleno Dezembro, debaixo da pressão do tempo, uma das mulheres promove uma reunião de emergência feminina e, não se sabe como (os homens nunca conseguiram lá entrar nem nunca obtiveram um relato fiável do acontecimento), a paz é decretada. O Natal, por consenso, passa-se em casa de uma das negociadoras e todos ajudam, com trabalho e géneros, para o êxito da festa. A comida é sempre óptima, as prendas fantásticas e as crianças riem toda a noite... Ah!, no dia 24 de Dezembro, às três da tarde, o meu irmão solteiro telefona: “Olha lá, afinal vou ter aonde?”. Não sei porquê mas, todos os anos, esquecemo-nos dele...
