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Tudo o que sei sobre divórcios

Estou casado vai para 18 anos mas, não fosse eu jornalista, é claro que tenho opiniões muito definitivas, inteligentes e inúteis acerca do divórcio. Vou dar três...

Em primeiro lugar, o divórcio não é um negócio de duas pessoas mas sim, no mínimo, do casal e mais uma: ou um amante, ou uma mãe, ou uma sogra, ou um amigo, ou um advogado, ou um agente imobiliário; há sempre alguém exterior que ajuda a desatar o nó do casamento. Duas pessoas sozinhas nunca o conseguem. Até Adão e Eva, condenados à eternidade no Paraíso, à falta de melhor procuraram a serpente para se libertarem da jura de fidelidade a Deus.

Em segundo lugar, o divórcio é mesmo uma morte, é mesmo o fim de uma vida e, tragicamente, há muita gente incapaz de renascer depois desse corte abrupto consigo próprio, desse confronto com a fraude do seu amor, dessa vergonha pelo tempo de falsificação da sua representação pública como indivíduo acasalado. É verdade que há quem aproveite as lágrimas – inevitáveis – para regar a alma e sair do processo florido e viçoso, pronto para outra metamorfose. Só que, lamento, mesmo esse renascimento é feito à custa da perda da inocência, da perda de tempo, da perda da juventude, da perda da espontaneidade, da perda... Nunca mais seremos os mesmos.

Em terceiro lugar, o divórcio é a prova que a Matemática é obra do demónio (talvez da mesma serpente que ajudou Adão e Eva): a divisão dos livros, a divisão das fotografias, a divisão dos discos, a divisão da casa, a divisão dos animais domésticos, a divisão das loiças, a divisão dos quadros, a divisão dos filhos (sim, até eles!), é a multiplicação de problemas insolúveis, é um somatário de agressões violentas, é a subtracção da nossa capacidade de discernimento.

A propósito de contas, reparo que me enganei no número de anos em que estou casado. Espero, por isso, não vir a aprender alguma coisa realmente útil acerca de divórcios...

in 24horas, 15 de Abril de 2006

Todos vivemos sete vidas

Quase todos temos sete vidas para experimentar, como os gatos. Vamos lá ver. Com 1 ano tive pena de deixar de mamar. Com 3 anos adorei ir para a escola e o meu quarto tinha muitos brinquedos. Aos 5 anos planeava ser astronauta e achava as raparigas parvas. Esta foi a minha primeira vida. Foi curta mas diverti-me imenso.

Aos 9 anos planeava guiar autocarros da Carris e namorar uma data de raparigas. Aos 12 anos planeava ganhar um prémio Nobel e namorar uma data de raparigas. Aos 15 anos planeava ser guarda-redes no Sporting e namorar uma data de raparigas. Aos 16 anos planeava mudar o mundo e namorar uma data de raparigas. Aos 18 anos deixei de fazer planos. Esta foi a minha segunda vida. Foi curta e, ainda por cima, não namorei uma data de raparigas.

Aos 20 anos planeava ser uma vedeta da rádio, ajudar o meu partido, encontrar a mulher da minha vida e ter um filho. Aos 25 anos era locutor, trabalhava no meu partido e casei-me. Aos 26 anos tinha uma filha. Aos 30 anos apeteceu-me mudar de vida. Esta foi a minha terceira vida. A felicidade.

Quis ir para os jornais, quis mudar de casa, quis, apenas, mudar. Eu, a minha mulher e a minha filha mudámos. Passei a chefiar a redacção de um jornal diário e isso fazia-me cócegas ao sono, acordava a sorrir. Aos 39 anos puseram-me a dirigir o 24horas e entrei em delírio. Esta é a minha vida actual, a quarta. Ainda é curta, mas deu-me tudo o que quis ter e está a ser óptima.

Tenho um bocadito de medo das três vidas que ainda poderão vir: a maturidade, a reforma, a velhice. Não tenho brinquedos, não tenho planos, não terei mais filhos, acabarei a profissão... Mas, como um gato, se me deixarem, não resistirei à curiosidade de as experimentar. Afinal, estas sete vidas são três dias. Há que aproveitar.

in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

O problema da existência de Deus

A religião é um assunto que me embaraça. Em primeiro lugar acho que, das duas uma, ou Deus não existe ou se existe não quer saber de nós, o que vai dar ao mesmo no que diz respeito à necessidade de o adorarmos. Mas o meu embaraço é provocado por outra razão: pelas muitas pessoas que amo ou respeito e, genuinamente, têm fé. Há uma boa parte da personalidade delas que não entendo, que não atinjo, e isso cria um fosso e uma distância inultrapassáveis entre nós. É uma angústia.

Outro nível de embaraço é um terrível sentimento transmitido por muitos dos supostos católicos que me rodeiam: pura hipocrisia. Ou só são religiosos na hora de aflição, ou só são religiosos para tirarem vantagens do meio social onde se inserem ou, até, só são religiosos quando isso dá direito a farra, como casamentos e baptizados. Aqui o embaraço é provocado por isto: eu terei de admitir que esta minha apreciação pode ser absolutamente injusta, pois como não tenho fé não posso entender quaisquer manifestações de fé, ainda por cima heterodoxas. Fico, portanto, caladinho.

Mas nesta questão a hora da verdade é mesmo a hora da morte. E, nestes 42 anos de vida, já vi muito ateu, muito agnóstico, a fraquejar nos momentos finais e a receber os sacramentos religiosos como o mais devoto dos católicos. Eles levaram uma vida de costas voltadas para Deus, mas, no fim, encomendam-lhes a alma. Talvez, quando chegar a minha vez, acabe por fazer o mesmo. Acho que não mas... e se Ele existe? Ficará muito zangado comigo? Afinal eu até sou bom rapaz. E uma eternidade no inferno é uma carrada de tempo...


in 24horas, 22 de Outubro de 2005

Como se foge da advocacia

Tinha eu uns 14 anos quando a minha mãe, preocupada, decidiu mandar-me fazer aquilo que na altura chamávamos de “psicoteste”. A finalidade era perceber se, afinal, eu era estúpido que nem um calhau ou se ainda havia esperança e existia alguma faísca dentro deste obscuro cérebro que iluminasse o meu futuro profissional.

Após dois dias de preenchimento de testes de cruzinhas e de respostas a coisas tão idiotas como “Quem escreveu os ‘Lusíadas’ não foi Luís de Camões mas sim outro poeta com o mesmo nome. Quem escreveu os ‘Lusíadas’?”, chegaram à conclusão que eu era capaz de apertar os atacadores dos sapatos sem entalar os dedos. “Portanto”, disse-me uma senhora gorda com óculos na ponta do nariz e um diploma emoldurado na parede do gabinete, “você vai ser advogado”. Inscrevi-me num curso de electrotecnia para ser engenheiro, chumbei, e acabei um pobre e modesto jornalista.

O que tornou impossível a minha adesão à advocacia foi a prosápia. Eles falam, falam, horas e horas e, de facto, não dizem nada. Pronunciam frases gongóricas com ar sério, representam tragédias gregas num palco onde se decide o destino dos coitados, dramatizam intensamente argumentos de vida e de morte para, assim que o espectáculo acaba, se comportarem como se tivessem acabado de discutir o futebol do fim-de-semana num grupo de amigos. É uma esquizofrenia que eu não aguentaria. Por outro lado, confesso, não me estava a ver vestido de toga. Fui um pateta? Sim. Mas ser pateta é coisa que não me tira o sono.


in 24horas, 8 de Outubro de 2005

Os irónicos benefícios do stresse

As pessoas stressadas são as mais felizes. Atenção, que me estou a referir ao significado que normalmente damos à palavra e não ao seu estrito sentido médico-científico. Quando dizemos que “aquele tipo é um stressado” não estamos a pensar em alguém que, sujeito a condições extremas e antagónicas, entra num processo de exaustão que o pode levar à morte.

Aliás, creio que ninguém admite mortes por stresse. Preferimos culpar o coração, o tabaco, a vida sedentária, a má alimentação ou outra coisa qualquer. Morrer por stresse é algo que nos parece antinatural, é uma morte só admissível para os fracos de espírito. Morrer por stresse culpa o morto, é uma espécie de suicídio...

E por que é que temos tantas reservas em admitir mortes por stresse? Por que pensamos, no nosso íntimo, que as pessoas stressadas são, de facto, mais felizes.

Esses queridos tontos apoplécticos, que se enervam, que estão num permanente estado de exaltação, que se excitam com o trabalho, que parecem permanentemente apaixonados pela vida, que lutam por objectivos como se a vida do planeta dependesse deles, esses queridos tontos, repito, que estão numa correria incessante, são mais felizes que os outros, não tenham dúvidas.

Eles não param para perguntar se alguma coisa à sua volta não faz sentido. Eles não param para ver se alguém ao seu lado precisa de uma mãozinha. Eles não param para se verem ao espelho, à procura de rugas. Eles não param, logo existem. E quando param, desligam, totalmente, e pronto, continuam felizes. O stresse é uma bênção de ignorância.
in 24horas, 14 de Maio de 2005

Saramago

Está por aí um reboliço por causa de Saramago e da sua declaração de fé no ateísmo. Ao ver e ao ouvir o que ele diz, com rosto e voz de fragilidade que, inevitavelmente, profetizam o encontro com a morte, pergunto-me: Como é que alguém pode sentir-se indignado por palavras que, afinal, repetem só o sentido que Saramago encontrou para a sua própria existência? Como lhe podem exigir, agora, uma outra vida que não esta que ele teve e tem, onde Deus e o diabo foram e são, apenas e unicamente, o Homem?


Reportagem de Pedro Coelho/SIC

O Jornal e a Música da Nossa Vida (agora com imagens)

Depois de experimentar um podcast com feeds para o iTunes e um reprodutor de mp3 inserido no post anterior, resolvi ver como é que isto ficava com imagens. Uma gloriosa produção Windows Movie Maker e You Tube. Disponível em qualquer computador…


Adeus

No dia 11 de Fevereiro de 2003 apareceu pela primeira vez o nome do jornalista que assina esta crónica no cabeçalho do 24horas. “Director: Pedro Tadeu”, anunciava-se. Nos 1733 números anteriores o peso da função tinha caído nos ombros de quatro outros jornalistas, a começar pelo fundador do jornal, Rocha Vieira, e a terminar no homem que o salvou do fecho iminente, Alexandre Pais. Desde esse dia o 24horas fez várias coisas notáveis. Passo a registar algumas.

O 24horas trouxe para a imprensa a coragem do sorriso crítico. Impediu que o processo Casa Pia fosse um linchamento judiciário. Demonstrou que as relações pessoais e privadas entre poderosos e famosos são decisivas para a vida pública, para os negócios e para a política que governa os portugueses. Descobriu José Castelo Branco e todos os outros e todas as outras. Revelou o mundo das festas snobs, a entrada destes “famosos” na TV, os negócios de agenciamento, publicidade e relações públicas que os acompanharam. Fez a crónica de costumes do país, traçou o carácterde vedetas, políticos, líderes de opinião e narrou as pequenas e grandes mudanças éticas e de conduta desta gente que define os comportamentos quotidianos de toda a sociedade.

O 24horas não teve medo de nenhum dos três governos e dois Presidentes que ao longo do tempo passaram. Ignorou a política politiqueira que atravessa tanta outra imprensa... a não ser que nos fizesse rir!... Mostrou os bastidores do governo de Santana Lopes, o que foi decisivo para a queda desse Executivo. E recusou fazer propaganda nazi disfarçada de candidatura eleitoral.


O 24horas deu, com verdadeira independência, os vários lados dos casos Apito Dourado, Carolina Salgado, Freeport, BPN e BPP. Escreveu como antes ninguém tinha escrito sobre dirigentes do futebol, jornalistas poderosos, economistas, banqueiros, figuras da Justiça. Esteve na vanguarda do noticiário do caso Maddie e do caso Joana. Desmascarou as fragilidades da investigação criminal. Impediu o alarmismo e foi pedagógico em casos de saúde pública, como o da gripe das aves ou o da gripe A. Obrigou a entretanto empossada ERC a respeitar este jornal e os jornalistas que cá trabalham.

O 24horas trouxe para a imprensa portuguesa um largo leque de novas técnicas jornalísticas, de assuntos invulgares, de ângulos de abordagem originais, de nova organização de trabalho de redacção. Técnicas que foram depois copiadas, repetidas e, até, melhoradas por outros.

O 24horas, quando o mercado de imprensa se alimentava a golpes de marketing, também esteve à frente do seu tempo. Em tempo de crise, acabada a fonte do marketing, apostou em formatos novos como o actual, antecipando uma tendência e colocando-se novamente um passo à frente da concorrência.

O 24horas envergonhou os jornais de referência ao tratar com verdadeira dignidade os direitos de resposta das pessoas que se sentiram atingidas pelas suas notícias. Fez corar toda a imprensa falsamente moralista, ao dar destaque de manchete aos erros que reconheceu ter cometido, coisa até então inédita. Estabeleceu um novo padrão ético, muito mais exigente, na publicação de notícias e fotografias de menores.

O 24horas revelou que a liberdade de imprensa pode em qualquer altura ser violada pelo poder, não é garantida, como foi exemplificado pela notícia do “Envelope 9” e as subsequentes buscas e apreensões ilegais feitas nesta redacção.

O 24horas demonstrou, com três administrações diferentes – lideradas, respectivamente, por Henrique Granadeiro, Luís Delgado e Joaquim Oliveira, que nesta questão foram absolutamente exemplares e solidários – ser ainda possível manter a independência dos jornais e dos jornalistas, desde que aquilo que eles publicam esteja ancorado na verdade e na lealdade.

O 24horas foi dos famosos e dos anónimos. Sem fazer disso uma manobra publicitária hipócrita, este jornal, através das contribuições financeiras dos seus leitores, ajudou inúmeras pessoas cujos problemas e dificuldades foram aqui notícia. Chegámos a construir uma vivenda adaptada a um deficiente; pagámos cursos artísticos a jovens de talento e até entregámos um cheque à mãe de um polícia morto em serviço. O 24horas fez aquilo que os leitores quiseram fazer com ele.

Hoje, 3 de Agosto de 2009, o meu nome aparece pela última vez no cabeçalho da primeira página. Achei que já era tempo, pois 2352 edições sempre em tensão conflitual, após 149 processos judiciais (e, até agora, nenhuma condenação), sempre a tentar inovar e a ser arrojado, num jornalismo sério mas tablóide, desgastam qualquer um. Esse desgaste prejudica o jornal. Amanhã, o jornalista Nuno Azinheira vai sentir a mesma emoção que eu senti em Fevereiro de 2003 e, garanto-lhe, caro leitor ou leitora, fará tudo, certamente muito mais e melhor do que eu faço, para que você sinta que este 24horas não é dos jornalistas ou dos directores de jornalistas. O 24horas é, isso sim, dos seus leitores... Vou morrer de saudades, mas aqui fica o meu adeus.

In 24horas, 3 de Agosto de 2009