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O que é a verdadeira importância

A relação mais próxima que tive com Mário Bettencourt Resendes começou quando ele foi administrador, sob a presidência executiva de Luís Delgado, da Lusomundo. O grupo, da Portugal Telecom, era na altura dono deste Diário de Notícias, onde agora escrevo, e do 24horas, que, na altura, eu dirigia.
Foi em Setembro de 2004. Dias depois de os dois jornalistas tomarem posse como administradores, chamaram-me. O problema era este: tinha de reduzir despesas. A solução era esta: cortar nas colaborações externas, de forma radical. Eu que decidisse como... É um velho clássico da vida dos jornais.
Uma semana depois, apresentei o relatório sobre o cumprimento dessa missão. Agradeceram-me a presteza e nunca mais me maçaram. Pelo contrário, começou, quer com o Mário quer com o Luís, uma relação

Uma ironia do destino...

Quando me demiti da direcção do 24horas, há um ano, recebi elogios públicos de apenas três pessoas: Ruben de Carvalho (é suspeito pela amizade que temos), Luís Delgado e Clara Pinto Correia.
Agora, após o fecho do jornal, recebi um elogio, totalmente inesperado, de Óscar Mascarenhas, antigo presidente do Conselho Deontológico e o melhor especialista nesta matéria que temos em Portugal.
É uma ironia receber este elogio, de onde não esperava, após tantas omissões pelo silêncio, de onde também não esperava.
Reproduzo o artigo do Óscar, que muito me sensibilizou, publicado no Jornal de Notícias a 5 de Julho passado com o título "O nome do palácio":
"O 'Público' e o 'Diário de Notícias' titularam algo como: «Primeira visita oficial do Presidente Cavaco Silva é ao Hospital da Estefânia.» O '24Horas' fez diferente: «Cavaco visita Hospital da Estefânia para pagar

A denúncia de Henrique Granadeiro
no Parlamento

Aqui há uma semana Henrique Granadeiro disse, na Comissão de Ética parlamentar que discute uma tentativa governamental de controlo da comunicação social, ter sido obrigado a demitir-se da liderança da administração dos jornais que nessa altura pertenciam à Portugal Telecom. Afirmou ele que o Governo PSD lhe exigiu a cabeça de três directores: José Leite Pereira, ainda hoje director do Jornal de Notícias, Joaquim Vieira, director da entretanto extinta Grande Reportagem, e eu próprio, que nessa altura dirigia o jornal 24horas.

Acho oportuno, dado que o meu nome foi trazido à liça, recordar o que a 11 de Setembro de 2004 escrevi no 24horas, na sequência da demissão do seu administrador máximo: "Granadeiro é um homem da comunicação social. Entende a gestão deste tipo de empresas com base em duas ideias nucleares: liberdade e responsabilidade. Aqui tivemos, no 24horas, toda a liberdade. Aqui se exigiu a máxima responsabilidade. Parece simples mas, posso garantir, não é fácil. Nem muito vulgar. É encontrar alguém com visão de Estado sobre o papel da imprensa em democracia, disposto a pagar todos os preços para garantir a independência dos jornalistas mas sendo igualmente implacável perante obscuros interesses corporativos ou laxismos que, por vezes, minam a profissão. Para conjugar isto, nos dias de hoje, é preciso quase ser-se um herói."

Quero acrescentar, para que não haja qualquer equívoco, que a administração que se seguiu, liderada pelo jornalista Luís Delgado, nomeada pela Portugal Telecom no mesmo contexto político que vitimou Henrique Granadeiro, não só não me demitiu como foi outro caso exemplar: nunca tive da parte de Delgado uma reunião, uma crítica, uma análise, um telefonema, uma conversa de circunstância, uma mera interjeição de reprovação sobre quaisquer notícias publicadas pelos jornalistas do 24horas.

Essas duas administrações exigiram-me a prática do jornalismo e a recusa da traficância informativa. Se com Granadeiro me tinha saído a taluda da liberdade de imprensa, com Delgado dupliquei o prémio.

Para resistir aos ataques do poder político a imprensa precisa de várias coisas, desde estabilidade financeira a verdadeira diversificação de proprietários. Mas concluo também, por experiência própria, vivida, comprovada, que a imprensa necessita de ter à sua frente gente digna, firme e vertical. É preciso "quase ser-se um herói"… O problema é que hoje quase ninguém está para heroísmos.


in "Diário de Notícias", 16 de Março de 2010

As minhas férias preferidas

Estou prontinho para partir de férias e o meu destino é este: a minha casa. Não, não se trata de alguma mansão no Algarve que possua, como os ricos, é mesmo a casa onde vivo: vou enfiar-me lá e, pelo menos durante uma semana, ninguém me tira dali.

Eu não sei como a minha família me aguenta, mas a verdade, a verdadinha, é esta: detesto ir à praia, detesto viajar, detesto calor, detesto agitação, detesto discotecas e, para ser franco, não gosto muito de férias, pois, dado o que atrás ficou explanado, não sei o que fazer nesse período.

Para mim as férias só têm uma vantagem: licença para dormir. Na primeira semana de paragem de trabalho a actividade mais assinalável a que me dedico é viajar da cama para o sofá frente ao televisor e, em ambos os locais, dedicar-me ao acto criativo de ressonar melodias interessantes. No intervalo viajo lentamente até à mesa de jantar para trincar alguma coisa, mas, depressa, depressinha, volto a deitar- -me perante as imagens das velharias transmitidas pela SIC Comédia – uma droga soporífera ultra-eficaz.

Os outros dias das férias são mais difíceis para mim, mas aceito fazer algumas concessões de sociabilidade. Passo-os, no entanto, da forma mais introspectiva possível: não faço projectos nem planos, não tomo iniciativas, não dou sugestões. Olho para o infinito como se estivesse a pensar em algo e, simplesmente, vou atrás, arrastando-me, da minha mulher e da minha filha para onde elas quiserem. De vez em quando refilo um bocadinho a ver se consigo voltar para casa.

Conclusão: tendo eu uma vida tão desinteressante só me restava mesmo ser jornalista e dedicar-me a bisbilhotar a vida dos outros. Boas férias, leitor.

in 24horas, 29 de Julho de 2006

A trabalheira de criar filhos

Se fui, sou ou virei a ser um pai razoável só a minha filha soube, saberá ou virá a saber. Seja como for, eu nunca lhe perguntei, nem lhe pergunto, nem lhe irei perguntar alguma coisa sobre esse assunto, não vá o diabo tecê-las...

Mas sei que lhe mudei dezenas de vezes as fraldas. Sei que andei quilómetros em círculo, às escuras, horas e horas, carregando-a no colo à espera do bendito sono dela. Sei que acordei milhares de vezes, assustado, e fui a correr à sua cama para acabar com o que a fazia chorar. Sei que lhe limpei um milhão de vezes a boca suja de papa. Sei que lhe segurei a mão quando, pela primeira vez, ela conseguiu andar. Sei que a ensinei a lavar as mãos com sabonete. Sei que arranjei um truque para ela deixar de dizer “mánica fotogáfrica”. Sei que a segurei pelos pés e a virei ao contrário para ela rir às gargalhadas. Sei que inventei uma maneira de brincarmos na rua, a passear, que era só nossa. Sei que a levantava até ela lá chegar e a deixava marcar os códigos e tirar o dinheiro das caixas multibanco, para desespero dos coitados que ficavam atrás de mim, na fila, à espera. Sei que lhe expliquei o que era a morte quando ela perguntou o que acontecera a um primo nosso. E sei que me lembro disto tudo, do tempo em que ela foi bebé, e que ela agora, quase uma mulher, não se lembra de quase nada.

Enquanto os nossos filhos são pequeninos nós temos essa grande vantagem sobre eles: tudo o que eles nos deram é mesmo só nosso, toda essa memória feliz ficou guardada cá dentro e mais ninguém, nem eles, sabem voltar a vê-la, ouvila, senti-la ou cheirá-la. É por isso que para nós, os afortunados da vida, os favorecidos pela sorte, não houve sacrifício, cansaço, insónia, confusão, medos ou gritos. Houve, apenas, sorrisos, sorrisos e sorrisos.

in 24horas, 22 de Julho de 2006

O mundo secreto das grávidas

Há uma fase na gravidez das mulheres de tal maneira enternecedora que nos dá uma vontade quase irreprimível de as enchermos de miminhos. É numa altura em que a barriga delas parece uma pequena bola, de vez em quando acariciada, com toda a suavidade, pela macieza maternal de umas mãos ligeiramente papudas. De resto, todo o corpo delas já inchou um bocadinho, mas ainda não é um peso, parece apenas ter decidido chamar a atenção do mundo para reclamar o direito a sorrisos de cumplicidade dos transeuntes: “Olha, que giro! Vai ali uma grávida”, parecem exclamar, inevitáveis, os sorrisos nas caras dos que se cruzam com essas mulheres. Mas elas, metidas consigo mesmo, passam indiferentes aos olhares dos outros, obcecadas em ver para dentro de si próprias, em ouvir, em tactear, em cheirar, em saborear a invasão que ocupou tudo aquilo que elas são. E, por sua vez, sorriem, sorriem muito, vá lá saber-se claramente porquê.

Aqui na redacção há, neste momento, três mulheres a atravessar essa fase mansa da gravidez. Cada vez que tenho de falar com alguma recebo um ligeiríssimo sobressalto, como quem acorda de um sono ligeiro. Sinto sempre que estou a interromper qualquer coisa que não devia, mas lá ponho a minha carantonha de director e trato dos im-por-tan-tís-si-mos afazeres profissionais que motorizam a minha vida. Mas, claro, elas relativizam a minha pressa, a minha ansiedade, porque acerca de coisas verdadeiramente importantes, agora, elas é que sabem tudo, não eu. E lá ando, pequenino, humilde, a pedir atenção e o favor de, no intervalo dos segredinhos com a barriga, elas escreverem a noticiazinha de capa deste jornal...

Bom... Acho que vou ali fazer uma escala de serviço para as mulheres desta redacção engravidarem à vez...

in 24horas, 15 de Julho de 2006

A educação dos filhos da televisão

O êxito extraordinário dos “Morangos com Açúcar” foi olimpicamente ignorado pela maioria dos jornais (com a excepção, desculpem lá a gabarolice, aqui do 24horas) até ao momento do acidente de automóvel que vitimou mortalmente o jovem que encarnava a personagem “Dino” naquela série. E isto apesar de, provavelmente, este programa de televisão ter mais influência na formação moral e ética de toda uma geração de jovens do que o próprio sistema de ensino e, lamento, uma grande massa de pais incapazes.

Juntou-se agora a “Floribella”, o êxito repete-se, soma-se e chega para os dois programas, apesar de me parecer que a aposta da SIC terá adeptos um pouco mais novos que a produção da TVI. Mas isso, para a questão que me traz aqui, é irrelevante.

E a questão que me traz aqui é esta: os “Morangos” e a “Floribella” estão a fazer bem ou mal aos nossos adolescentes? Vou falar pela minha experiência que vale o mesmo que a de qualquer outro pai. Quando os “Morangos” começaram a ser transmitidos a minha filha estava na idade de se interessar e, disfarçadamente – como fiz com séries brasileiras congéneres como a “Malhação” – espreitei, não fosse o Diabo tecê-las...

E tenho a dizer bem. As séries deste tipo tratam os adolescentes como gente inteligente. Não lhes impingem um mundo cor-de-rosa e ajudam-nos a problematizar temas centrais na vida deles, como as primeiras relações amorosas, os conflitos na escola e em casa, a droga, etc. Há um sentido de bem e de mal que se sobrepõe ao próprio enredo da série que corresponde ao sentido de bem e de mal que nós desejamos que os nossos filhos adquiram. Há um frequente apelo à solidariedade e ao empenhamento cívico que me parece relevante. E com a vantagem de tudo isto ser servido sem ponta de paternalismo. Por mim, acho brilhante e, como pai, agradeço a ajudinha.

in 24horas, 8 de Julho de 2006

Utilização do corpo na publicidade

Na publicidade o corpo feminino é explorado há centena e meia de anos, com maior ou menor despudor, para nos chamar a atenção e, dessa forma, queimar a primeira etapa do processo de sedução que nos acaba por convencer a comprar qualquer coisa. A maior caricatura da coisa são os clássicos anúncios de automóveis, em cima dos quais se deitam mulheres lindíssimas, seminuas. É uma técnica publicitária com barbas, que deve resultar imenso, pois resiste ao tempo e às modas, mas que ultrapassa a minha compreensão, pois não consigo vislumbrar no automóvel qualquer conotação sexual e não consigo ler na mulher deitada qualquer informação relevante.

Durante muito tempo ouvi mulheres a protestar por esse tipo de publicidade ser sexista, discriminatório e imoral. Tinham razão mas ninguém as levou a sério. O protesto não lhes valeu de nada e, de há 20 anos para cá, perdeu um bocado de sentido por também o corpo masculino ter começado a aparecer em preparos semelhantes. Ou seja, as femininistas tiverem uma vitória de Pirro.

Como sou director de jornal e pagam-me para escrever todos os dias, sou obrigado a ter teorias sobre tudo, mesmo que a maior parte delas seja, simplesmente, idiota. A minha teoria de hoje é que com o excesso de corpos seminus na publicidade e na comunicação social, o poder da sugestão sensual com fins comerciais vai, pura e simplesmente, desaparecer, pois acabaremos todos por ficar fartos...

Claro, é uma teoria parva e, por via das dúvidas, até pus na capa desta revista uma foto lindíssima da Mónica Sofia – uma das mulheres mais bonitas de Portugal – para ver se o convencia a si, seduzível leitor ou leitora, a comprar o 24horas. Pronto, pode chamar-me, também, grande hipócrita.


in 24horas, 1 de Julho de 2006

O problema do tampo da sanita

Mandei uma rapariga fazer uma reportagem sobre os defeitos dos maridos portugueses e, pimba!, levei logo com a história do homem que não baixa o tampo da sanita, no caso o coitado do José Maria Tallon. Quando eu e a minha mulher começámos a namorar tínhamos uma amiga comum que fazia jogo duplo e me contava tudo – pensava eu – sobre o que a Catarina comentava a meu respeito. Pois apesar de ela achar que eu poderia vir a ser o pai dos filhos dela, indicava como um dos meus defeitos insuportáveis esse de não baixar o tampo da sanita.

Pior. Um dia lá tive de ir a casa da mãe da Catarina para ser apresentado como namorado oficial. Fui simpático, como me competia, não me atrapalhei muito com o previsível inquérito policial a que fui sujeito. Jantei lá e, ao fim da noite, pediram-me para ir à cozinha buscar qualquer coisa. Pouco antes de voltar a entrar na sala ouvi este diálogo: – Então mãe? Que achas dele? – Parece bom rapaz. Mas, de certeza, não fecha a tampa da sanita. Pronto, ficou-me o trauma e de vez em quando, durante anos, dei por mim a pensar: “Mas que obsessão têm as mulheres com esta questão da tampa da sanita? Qual é o drama? Será por razões estéticas? Será uma fobia? Porquê?”

Só ao fim de uns anos é que tive coragem para falar disto à minha mulher e a resposta dela foi exactamente igual à explicação que Sofia Ribeiro dá no caso de Tallon: “É que vocês, homens, esquecem-se que nós podemos precisar de utilizar a sanita a seguir a vocês, pelo que podiam facilitar-nos a vida e deixar o tampo para baixo”.

Conclusão? Como é óbvio, o problema não está no subir ou no baixar do tal tampo, coisa fácil que demora meio segundo. O problema está é que nem na casa-de-banho as mulheres admitem que nós, homens, deixemos de pensar nelas.

in 24horas, 24 de Junho de 2006

Alice Vieira mete-se na minha vida

A história mais encantadora que hoje publicamos nesta revista é contada na primeira pessoa e resulta da entrevista a Alice Vieira. Entre outras coisas boas que fez na vida, Alice Vieira ensinou a minha filha a ler. Não no sentido de ela aprender a juntar letras – isso foi a professora primária, claro – mas no sentido de a Joana ter descoberto com ela a excitação de explorar uma narrativa em livro.

Uma vez fui à festa do “Avante!” com a minha menina e lá, numa tenda que funcionava como livraria, estava José Saramago a dar autógrafos. A fila de fãs do prémio Nobel era imensa, o ar estava abafado, o calor era insuportável e a Joana, agarrada à minha mão, parecia estar prestes a cair para o lado, de cansaço. Resolvi sair para voltar mais tarde, com mais sossego, ver os escaparates. Mas a Joana, que teria na altura uns 6 ou 7 anos, de repente, começou a dar-me puxões à camisa e a gritar excitada: “Ó pai! Ó pai!, está ali a Alice Vieira!”. A escritora entrava na tenda para, por sua vez, iniciar também uma sessão de autógrafos. E já não consegui sair dali sem gramar com meia hora de fila indiana para recolher um rabisco e uma saudação da, na altura, escritora preferida da minha filha que, de resto, achou o prémio Nobel José Saramago – que prosseguia a sua odisseia de assinaturas ao lado da heroína dos miúdos – um velhote um bocado carrancudo.

Por estas e por outras, sempre que oiço falar em Alice Vieira, instintivamente, como os cães, fico logo de orelha espetada. E, antes de tudo o que tive de fazer para esta revista ir para as bancas, fui ler a entrevista que hoje publicamos. Diverti-me imenso e acho que ela deve ser uma mulher extraordinária. Não sei é se a Joana, se agora a visse, seria capaz de a reconhecer.

in 24horas, 17 de Junho de 2006

Rapazes e mulheres do futebol

Não sei se o lugar-comum “por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher” – frase que soa a terrível machismo ao implicar a secundarização do papel da mulher, mas que pacifica e acriticamente vamos usando – se aplica aos jogadores de futebol. Sei é que se olharmos para o ranking que hoje o 24horas publica se revela uma evidência: por detrás de um grande jogador de futebol está sempre uma mulher extraordinariamente bonita.

Posso garantir, pela experiência profissional e pela vida pessoal que já levo, que por detrás de um grande engenheiro, de um grande médico, de um grande empresário, de um grande jornalista, de um grande advogado estarão quase sempre mulheres extraordinárias, mas não é regra que sejam especialmente bonitas: pode ser que sim, mas também pode ser que sejam feias como a noite de trovões.

Mas esta observação nada tem de especial, é mesmo óbvia. A pergunta a que teremos de responder, o mistério que há para resolver é outro: porque terão os grande jogadores de futebol, invariavelmente, mulheres muito belas? O que os leva, sempre, a procurar raparigasmodelo, de corpo escultural e dentição perfeita? É verdade que os grandes ídolos têm milhares de fãs a rojarem-se aos seus pés, o que diversifica a oferta delas. Mas isto não explica o tipo de procura deles.

Eu não tenho a resposta, mas sei uma coisa: todos os miúdos sonham ser jogadores de futebol e cobrir- -se assim de glória, serem heróis modernos, talvez como o Figo. Na Grécia Antiga todos os miúdos sonhavam ser príncipes gloriosos, causadores de grandes guerras, talvez como Páris. Este tinha Helena de Tróia, aquele tem Helen Swedin.

A queda na valeta da fama

Todas as crianças querem ser artistas famosas. E o problema maior é que os paizinhos também querem que as suas crianças sejam artistas famosas. Nas classes sociais remediadas – sem meios para dar formação artística a sério aos seus rebentos, mas onde se anseia e alimenta uma congénita ilusão acerca deste assunto – isso justifica o elevado número de inscrições de raparigas fisicamente desproporcionadas em fictícias escolas de dança jazz e hip-hop ou o extraordinário número da rapazes de ouvido duro que dedicam duas horas por semana do seu tempo a martelar um piano numa escola de música de vão de escada. Em 90 por cento dos casos essas miúdas e esses miúdos, ao fim de três meses, estão a pedir para sair dali, naquela que será a primeira de muitas desistências que farão na vida. Mas, muito francamente, as consequências negativas de tudo isto são diminutas e, na verdade, eles até ficam a ganhar alguma coisa com a experiência.

A indústria da televisão, ou melhor, a indústria das novelas e séries que a TVI e a NBP construíram em Portugal, mais os “Ídolos” e quejandos, vieram abrir uma variante a este panorama. É a geração de jovens – por ano são muitos milhares – que se atira à sorte de um casting. Os que acabam por entrar – às dezenas por ano – chegam verdinhos a um demolidor mundo profissional para o qual nada os preparou. E, ao contrário da fantasia das meninas e meninos das escolas de dança e música, aqui não há recuo, ninguém – pais, produtores, managers, agências – aceitará que eles desistam, a não ser quando a pórpria indústria decide desistir deles, mandando-os para uma espécie de valeta da fama. O problema está em que, depois, ninguém vai lá tirá-los da fossa.

in 24horas, 3 de Junho de 2006

Os tempos antes do CD

Quando os Xutos & Pontapés já eram gente ainda não havia CD. Numa dada fase da minha vida andei a pôr discos em discotecas e festas. Ainda há bocadinho lembraram-me que numa dessas festas, por acaso um festival organizado na antiga FIL, um amigo meu alugou aos organizadores um leitor de discos compactos, o primeiro modelo comercializado em Portugal, da Philips. O “DJ” da festa era eu. Os promotores do evento (nessa altura não se usava esta expressão, mas agora seria assim que os designariam nos jornais) resolveram, na publicidade, anunciar o facto com relevância: o dito festival ia passar – passo a citar como se destacava no cartaz colocado à entrada – “música laser”!

Entre as 20 ou 30 gravações de discos compactos disponíveis no mercado nada havia, nessa altura, de Xutos & Pontapés, mas tínhamos, de facto, qualquer coisa a soar a “música laser”: Vangelis. Era música terrível, ainda por cima impossível de dançar, mas... era o que havia. Uns 15 anos depois desconfiei que António Guterres passou por esse “evento”, quando o vi na TV a subir a um palanque, aplaudido pela multidão, ao som dessa “música laser”.

Os Xutos & Pontapés nasceram, portanto, antes da época da “música laser”, venceram nela e vencem na época do mp3. O Vangelis, não. Qual é o segredo dos Xutos? Fácil, leiam por exemplo esta letra: “Se isto não te diz nada/Olha para a rapaziada/Vê a vida que o povo tem/Vê a vida que o povo tem/Vê a vida que o povo tem”. Pronto, é só ver a vida que o povo tem e, depois, escrever uma canção.

in 24horas, 27 de Maio de 2006

Como deixei de ser incomodado

Como não sou um tipo famoso nunca fui assediado por fãs. Mas é verdade que ao longo desta minha vidinha de jornalista recebi, de vez em quando, cartas ameaçadoras ou telefonemas incómodos. Os mais aborrecidos e insistentes ocorreram há cerca de três anos, quando o noticiário sobre o processo Casa Pia reflectia a recente prisão de Carlos Cruz: inúmeros SMS e até algumas chamadas de voz para o meu telemóvel informaram-me que havia alguém que achava que eu estava feito com os pedófilos, que eu tinha sido comprado pelos pedófilos, que eu próprio era pedófilo, que um dia esse alguém trataria, de forma sexual e violenta, de me mostrar o castigo que um pedófilo merece e, finalmente, que todos os que trabalhavam no 24horas eram (adivinhem lá...) pedófilos. Era um bocado chato e muita pedofilia para um telemóvel só.

Mas foi muito fácil resolver o problema. Não mudei de número nem dei o aparelho à minha secretária para ela passar a atender as chamadas: simplesmente desliguei-o. Ao fim de uns dias desistiram. Agora só o ligo quando preciso de fazer chamadas ou em alturas, raras, onde quem me interessa não me pode contactar de outra maneira.

Devo dizer que sou obrigado a agradecer aos senhores que tanto me insultaram, pois assim proporcionaram-me uma alteração de hábitos que melhorou substancialmente a qualidade da minha vida: todos os que me rodeiam já sabem que, no telemóvel, raramente me apanham e, por isso, a quantidade de vezes que me chateiam por razões tolas é mínima. Foi uma espécie de libertação de um escravo: agora quase só tenho conversas realmente úteis. Adeus stresse de jornalista, adeus boatos e tricas, adeus “não publique essa notícia!”, adeus choque tecnológico. Conclusão? O problema nestas sociedades da comunicação é mesmo o “blá blá” a mais.

in 24horas, 20 de Maio de 2006

O jogo que eu já não quero jogar

Estava a discutir o título para a capa desta revista quando me saí com uma frase pateta: “Bem, no trabalho eu também passo muitas horas por dia com raparigas e não me ponho por aí a apaixonar-me”. Uma das jornalistas presentes nessa reunião, sem me deixar tempo para respirar, atirou: “O Tadeu desculpe, mas o Tadeu é casado!...”. Portanto, a mim, no consenso generalizado das mulheres que me rodeiam, desde há 18 anos, desde o dia em que dei o nó, já não se aplica o estatuto de pessoa que pode apaixonar-se. Está proibido, acabou, finito... Eis qualquer coisa que me chocou.

Há 18 anos jurei fidelidade à minha mulher e o problema que se coloca é este: estando fora de causa um envolvimento sexual com alguém – por favor, não vamos por aí! –, será motivo para alegar infidelidade uma paixoneta platónica, um simples encantamento até legitimado pelo facto de à minha volta trabalharem várias mulheres inteligentes, bonitas e excelentes pessoas? Não poderia, no recato da minha consciência, no segredo dos meus pensamentos secretos, reservar algum tipo de sentimento romântico que, mesmo sem se manifestar exteriormente, me alimentasse os sonhos, o ego, a autoestima?

A coisa está moralmente resolvida por uma regra simples que tento seguir: “não faças aos outros o que não queres que façam a ti”. A minha opção, portanto, é nunca me apaixonar. Portanto, meninas, têm razão, para mim a excitação do jogo da conquista terminou, essa competição já não me serve, estou fora. Podem ver-me como um eunuco, que as alegrias do matrimónio são mais que muitas.

Então qual é o meu problema? É que aquela frase daquela jornalista, naquela reunião, no fundo, no fundo, lembrou-me que tenho saudades de jogar uma, só uma partidinha mais...

in 24horas, 13 de Maio de 2006

Os pivôs de telejornal são deuses?

Aquilo que geralmente se pede a um apresentador de telejornal é uma impossibilidade física: por um lado, de modo a garantir a credibilidade da sua estação, tem de manter uma atitude fria e distante em relação aos palpitantes acontecimentos que relata; por outro lado, exigem-lhe, para assegurar audiências, que encante e cative o telespectador. É coisa para um deus. A excepção que conheço foi a de Manuela Moura Guedes, que se estava nas tintas para o papel de deusa mas acabou por se transformar numa espécie de terror justiceiro para os alvos das notícias que apresentava. Tiraram-na do ar.

O jornalista de imprensa, como eu, está muito mais protegido. No secretismo da minha redacção, eu posso, se me apetecer, soltar um palavrão indignado perante uma medida errada do Governo, rir a rolar no chão com um “número” do José Castelo Branco ou chorar comovido ao saber de um assassinato de uma criança pela própria mãe. Depois, mais calmo, com as emoções já controladas, lá penso como vou transmitir a notícia aos leitores do 24horas...

Eu gosto dos principais e mais solicitados pivôs portugueses. Mas atenção: conheço meia dúzia deles pessoalmente e, para dizer a verdade, já apanhei tremendas desilusões. Porquê? Ao desempenharem tão bem a sua profissão, ao conseguirem de forma tão natural aquela irrealizável mistura de frieza distante e cumplicidade cativante, atingem, mesmo aos meus olhos cínicos, o estatuto de verdadeiros deuses. O problema é quando lhes apertamos a mão e falamos com eles de futebol, política, cinema, livros, qualquer coisa terrena: descobrimos que, afinal, eles são mesmo humanos e, caramba, o trambolhão do céu à terra é mesmo muito grande.

in 24horas, 6 de Maio de 2006

Ganhar dinheiro só por ir ao sítio

Um dos negócios mais estranhos que as notícias do 24horas e de algumas revistas revelaram ao País, ao fim de anos de clandestinidade mal escondida, é este: famosos ou candidatos a famosos que obtêm o estatuto suficiente para conseguirem receber dinheiro em troca de agraciarem os pagantes com a sua “presença” numlocal. E o que é uma “presença”? É ir a um sítio, beber uns copos, comer uns canapés, sorrir, assinar uns autógrafos, deixar-se fotografar na companhia da pessoa que paga e, depois, ir-se embora com o cheque no bolso.

Discotecas, bares, lançamentos de livros, de discos ou de artigos de moda, inaugurações, tudo serve para alguém vender as sua ida ao local e alguém querer comprar o direito de mostrar essa pessoa ao mundo, anunciando-a à comunicação social que, se os nomes prometidos no evento forem suficientemente apelativos, não faltará com um batalhão de fotógrafos e câmaras de televisão.

A coisa está altamente profissionalizada, há agências que gerem esta “carreira” para os seus “artistas” e nelas estão inscritas as mais fantásticas pessoas: modelos, actores, escritores, empresários, gente de boas famílias, gente gira, eu sei lá! Tudo isto já movimenta milhões de contos por ano. Carla Matadinho, por exemplo, conta nesta revista que ganha mais com uma “presença” dessas do que muita gente com um mês de trabalho e há, por dia, dezenas de iniciativas com a “presença” de famosos pagos. As Finanças, se soubessem, eram capazes de achar muita graça mas, como nós no 24horas, não resolveriam o eterno problema do ovo e da galinha: quem nasce primeiro, a fama ou o proveito?

E porque é que isto é um negócio estranho? Porque, na minha cabecinha de quarentão, quem vai a um bar ou a uma discoteca não recebe dinheiro – paga e não é pouco. Mas, pelos vistos, isso é coisa desactualizada.

in 24horas, 29 de Abril de 2009

Bronca com Jorge Lima Barreto

Não é só nas televisões que acontecem broncas monumentais. Um dia, há uns 20 anos, mandaram-me entrevistar um génio da teoria musical, Jorge Lima Barreto, e um génio da sensibilidade musical, o guitarrista Vítor Rua. Juntos formam um duo que é, “apenas”, uma referência mundial da música de vanguarda: o Telectu. Com Jorge Lima Barreto não se pode ter uma conversa simples e desapaixonada. O fulano é uma inteligência superior e cultiva o estatuto de provocador profissional. Virou-se para o ignorante jornalista e fuzilou-o com uma conversa enciclopédica sobre música minimal repetitiva, música mimética, música concreta, música funcional, música totalmente improvisada, música electro-acústica, nova música, eu sei lá!... Sei que era género musical a mais para a minha pequena camioneta cultural. E ainda tive de levar uma formação acelerada em temas como “performance”, “instalação artística”, “rock de vanguarda”, “tecno-pop”, “concerto multimédia” e não sei já quantas outras expressões da gíria vanguardista dos anos 80... que banho! Às tantas, ao fim de duas horas de aula, aproveitei um momento em que Lima Barreto precisou, finalmente, de respirar, e fugi para conversar uns minutos com Vítor Rua que, acho, estava com pena de mim. Fiz-lhe umas perguntas sobre uma guitarra estranha que ele estava a experimentar, um aparelho electrónico já não me lembro se com 8 ou 10 cordas simples, sem caixa, apenas com braço, como se fosse um longo pau.

Quando fui para a redacção escrever só tinha uma preocupação: reproduzir fielmente e com rigor todo o jargão complicado de Lima Barreto, batalha vencida a golpes de dicionários especializados e incursões arrojadas no arquivo do jornal. No fim, para amenizar, lá pus um texto pequeno sobre o novo instrumento do Vítor Rua. No dia seguinte recebi um telefonema. Era Lima Barreto. “Então, gostou da entrevista?”, perguntei. Do lado de lá a voz ironizava: “Estava óptima, estava até muito bem mas, francamente, ter posto o Vítor Rua agarrado ao bife é que não me parece coisa razoável...” Fui ver e... nem queria acreditar. A tal guitarra tinha um nome bastante simples: era um “stick” que em inglês significa também pau, vara, bengala, bastão, etc. Mas o que é que o Tadeu escreveu, pelo menos uma dezena de vezes, no meio da sua baralhação de termos e conceitos complicados? Nada mais, nada menos que Vítor Rua tocava “steak”, ou seja, e realmente, bife... E ainda perorava sobre os extraordinários sons que saíam do tal “bife”. Que vergonha!

in 24horas, 22 de Abril de 2006

Tudo o que sei sobre divórcios

Estou casado vai para 18 anos mas, não fosse eu jornalista, é claro que tenho opiniões muito definitivas, inteligentes e inúteis acerca do divórcio. Vou dar três...

Em primeiro lugar, o divórcio não é um negócio de duas pessoas mas sim, no mínimo, do casal e mais uma: ou um amante, ou uma mãe, ou uma sogra, ou um amigo, ou um advogado, ou um agente imobiliário; há sempre alguém exterior que ajuda a desatar o nó do casamento. Duas pessoas sozinhas nunca o conseguem. Até Adão e Eva, condenados à eternidade no Paraíso, à falta de melhor procuraram a serpente para se libertarem da jura de fidelidade a Deus.

Em segundo lugar, o divórcio é mesmo uma morte, é mesmo o fim de uma vida e, tragicamente, há muita gente incapaz de renascer depois desse corte abrupto consigo próprio, desse confronto com a fraude do seu amor, dessa vergonha pelo tempo de falsificação da sua representação pública como indivíduo acasalado. É verdade que há quem aproveite as lágrimas – inevitáveis – para regar a alma e sair do processo florido e viçoso, pronto para outra metamorfose. Só que, lamento, mesmo esse renascimento é feito à custa da perda da inocência, da perda de tempo, da perda da juventude, da perda da espontaneidade, da perda... Nunca mais seremos os mesmos.

Em terceiro lugar, o divórcio é a prova que a Matemática é obra do demónio (talvez da mesma serpente que ajudou Adão e Eva): a divisão dos livros, a divisão das fotografias, a divisão dos discos, a divisão da casa, a divisão dos animais domésticos, a divisão das loiças, a divisão dos quadros, a divisão dos filhos (sim, até eles!), é a multiplicação de problemas insolúveis, é um somatário de agressões violentas, é a subtracção da nossa capacidade de discernimento.

A propósito de contas, reparo que me enganei no número de anos em que estou casado. Espero, por isso, não vir a aprender alguma coisa realmente útil acerca de divórcios...

in 24horas, 15 de Abril de 2006

O drama da falta de originalidade

Até há uns anos atrás odiava parecer banal. Estava mesmo convencido que se não misturasse sabiamente um certo ar de superioridade intelectual com uma dose apropriada de indiferença pelo mundo terreno corria o risco de passar por estúpido. Portanto, estúpida e banalmente, andava na vida a fingir uma originalidade bizarra, tal como todos os milhares de aspirantes a intelectuais que me rodeavam. O mais patético era a voz afectada e grave com que me dirigia ao mundo, uma distorção que só não arrasou de vez as minhas cordas vocais graças a toneladas de comprimidos Bradoral. Doía mas eu não desistia!

Uma manhã tive a sorte de estar no Louvre. Passei duas horas e meia numa fila até conseguir entrar e, claro, quando saí, no fim da tarde, ficou um mundo por ver. Não me modifiquei por causa disso, mantive-me o imbecil do costume e até tive a grandessíssima lata de comentar na roda de amigos ser o Louvre, em muitos aspectos, “uma desilusão” . Ser-se novo e arrogante é mesmo um perigo!

Mas, agora que sou um bocado velho e já não me importo com o que os outros pensam de mim, posso confessar que foi no Louvre que tive uma das maiores emoções estéticas de toda a minha vida. Foi no Louvre que percebi que uma obra-prima da arte visual se reconhece ao primeiro olhar, ao primeiro impacto, sem apelo nem agravo, sem que a procuremos: ela chama-nos, de longe e, simplesmente, não resistimos, embrenhamo-nos e, depois, deixamos cair uma lagrimita.

Mas como poderia eu confessar, palhaço diletante, ter sentido tudo isso no meio de uma overdose da história da pintura ocidental, cheia de frescos geniais, apenas por ter reparado num quadrito tão vulgar, tão trivial, tão pouco original como... a “Gioconda” de Da Vinci. Isto de ser-se humano é uma grande fatalidade!


in 24horas, 8 de Abril de 2006