Mostrar mensagens com a etiqueta Christopher Hitchens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Christopher Hitchens. Mostrar todas as mensagens

A morte não é igual para todos

Todos temos um destino igual, a morte, mas todos somos diferentes na forma como a encaramos. A morte é o desenlace perplexo de todas as marcas feitas pela vida na nossa personalidade, intelectual e física; é a paragem de uma contínua e complexa soma de acontecimentos criadores de uma unidade orgânica irrepetível, a que chamamos indivíduo. A morte, o fim de uma história pessoal numa dada geografia física e social, nunca pode ser igual para todos, mesmo dentro de um grupo humano que procure, no governo da vida, igualdade de oportunidades para cada um se construir como indivíduo. A morte é ingovernável.

Texto publicado no suplemento cultural do Diário de Notícias, Quociente de Inteligência, em 23 de Fevereiro de 2012

Durante 19 meses um profeta do ateísmo, Christopher Hitchens, lidou, amparado e também, por vezes, incomodado pela mais moderna medicina, com o desenvolvimento de um cancro no esófago. A sua mente brilhante transformara-o numa vedeta dos meios intelectuais norte-americanos, graças a 17 livros sobre política, literatura e religião, a par de uma infinidade de textos em jornais revistas. Era um orador de agenda cheia para conferências e idas à televisão. Resolveu escrever para a Vanity Fair uma reportagem da sua doença, um relato da ida a uma terra a que chamou “Tumorlândia”. Depois da morte, a 15 de dezembro de 2011, esses textos foram coligidos num livrinho intitulado, na sua versão portuguesa, Mortalidade”, acabada de ser editada.

Hitchens foi estoico, foi esperançoso e foi ao ponto. Ele analisa os lugares mais comuns das mortes por doença prolongada: a tentativa de estender no tempo, até ao insuportável, aquilo a que chamamos uma vida normal; a relação com a família, os amigos íntimos e as resultantes da sua atividade profissional; os rituais da medicina e o carácter do pessoal de saúde; a violência dos tratamentos e os seus vários passos; a degradação das capacidades físicas; a dor.

Brinca, várias vezes, à medida que se sente cada vez mais fraco, com a ironia de uma expressão geralmente atribuída a Friedrich Nietzsche(1): “O que não me mata torna-me mais forte.” Expõe cruamente as esperanças e as desilusões dadas pelos vários tratamentos e pelos avanços mais recentes da medicina. Ilustra o medo pelos efeitos entorpecedores nas funções neurológicas das drogas administradas para controlar a dor. Nega, talvez com enganador orgulho, a teoria das etapas de Elisabeth Kübler-Ross(2) segundo a qual os doentes deste tipo passariam – embora, como explica em Educar para a Morte, João Carlos Gama Martins Macedo, sem sequências ou ritmos iguais – da negação da doença à revolta, da negociação à depressão, até chegarem, por fim, à aceitação.

É detalhado na descrição do sofrimento físico, mas nunca dá um sinal de verdadeiro desespero. Também não mostra qualquer tipo de abalo na sua convicção ateia nem sobre a existência, ou não, de outra vida para além desta. Nunca coloca, apesar do frequente, longo e violento sofrimento físico, que detalha, a questão de antecipar o fim, de morrer por suicídio assistido ou por eutanásia. Da primeira à última página escreve, aparentemente, um homem feliz.