Na quarta-feira deitei-me tarde. Dormi mal, sonhos intermitentes. Imagine-se que a dada altura vi uma televisão de ecrã a preto e branco. Nela, um antigo estúdio da RTP, decorado a reposteiro, encenava uma entrevista. Frente a frente, sentados a uma mesa fabricada pela Olaio, estavam, de um lado, os notáveis jornalistas (sem ironia) João Coito e José Mensurado e, do outro lado, António de Oliveira Salazar.
Neste anacronismo, o ditador repetia: "Quero contrapor a minha narrativa à narrativa posta a correr pelos inimigos do Estado Novo e que foi deixada vingar praticamente sem oposição."
O jornalista da revista Sábado, antigo director-adjunto do jornal 24horas e meu amigo, Pedro Jorge Castro, lançou um livro onde revela correspondência e imagens inéditas sobre as relações pessoais entre o ditador Salazar e os chefes da meia-dúzia de famílias ricas que dominavam a economia portuguesa da altura.
Diz a contracapa deste "Salazar e os milionários": “Durante o Estado Novo, quando os milionários portugueses precisavam de um favor politico, sentavam-se à secretária e escreviam a um homem pobre, de origem rural, mas que durante dezenas de anos concentrou em Portugal todo o poder politico.
Com base em cartas, relatórios e documentos, a maior parte inéditos, este livro desenha a surpreendente teia de ligações entre Salazar e as famílias mais ricas de Portugal: os encontros de domingo à noite com Ricardo Espírito Santo, a proximidade com os Mello, os pedidos de Champalimaud ou a aproximação de Cupertino de Miranda no final do regime. Aqui se revela também a relação pessoal que o ditador mantinha com o dinheiro, a sua intervenção nas guerras do petróleo e no comércio dos diamantes de Angola, e as enormes facilidades concedidas aos empresários que, a pedido do próprio governante, fundaram o Hotel Ritz. Uma história recheada de episódios de veneração, discordâncias veladas - e intensas manobras de bastidores”.
Do que vi – ainda só desfolhei - gostei: a edição da Quetzal, apesar de ser em capa mole, é cuidada e tem pormenores engraçados, como o de explicar a origem da fonte de letra usada na impressão; algumas das cartas que li são surpreendentes; as fotografias, em muitos aspectos, são uma revelação e até já fiquei a saber que o par das famosas botas do ditador custou 140 escudos, uma exorbitância para a época…
Já agora, para não nos esquecermos de como era o espírito da coisa, fica aqui um bocadinho do discurso de Salazar no 10.º aniversário da ditadura.