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Jornalistas propõem aulas de literacia dos media no ensino público

Apresentei esta proposta ao 4.º Congresso dos Jornalistas - aprovada por larga maioria juntamente com outra parecida apresentada pelo Luís Humberto e pelo professor Manuel Pinto - e cuja ideia essencial foi incluída na resolução final aprovada por unanimidade pelos jornalistas presentes: 


Apelo dos jornalistas portugueses à introdução de uma disciplina de literacia da comunicação de massas no ensino básico 
Os jornalistas portugueses, reunidos no 4.º Congresso dos Jornalistas, recomendam à Assembleia da República e ao Governo português a tomada de iniciativas que possibilitem a criação, no sistema de ensino público básico, de uma disciplina de literacia da comunicação de massas que possa dar aos jovens portugueses competências fulcrais para lidarem responsavelmente e conscientemente com os novos sistemas comunicacionais e aumentem as suas capacidades efetivas para o exercício de uma cidadania ativa e responsável. Entre outros objetivos, pretende-se: 

Jornalistas chumbam proposta sobre declaração de interesses na profissão

Eis a proposta que entreguei no Congresso dos Jornalistas e que foi rejeitada merecendo, apenas, 21 votos favoráveis entre os presentes:

Recomendação à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista sobre uma declaração de interesses dos jornalistas 
O jornalismo em todo o mundo passa por uma crise de credibilidade que põe em causa o seu futuro. Independentemente de muitos factores externos aos próprios jornalistas estarem a criar essa situação, cabe individualmente a cada um dos jornalistas tudo fazer para tentar inverter, na sua limitada esfera de ação, a degradação da imagem pública da sua profissão e o consequente empobrecimento do seu estatuto. Uma das vias para o conseguir é adotar medidas de transparência profissional que levem os leitores, espectadores, ouvintes e interlocutores do jornalismo a acreditarem na independência e seriedade dos seus profissionais. 
O 4.º Congresso dos Jornalistas portugueses recomenda à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista que crie no seu sítio da internet um formulário adequado para que todos os jornalistas portugueses possam tornar pública uma declaração de interesses voluntária, não obrigatória, atualizável em qualquer altura, que abranja as influências ou ligações profissionais, contratuais, patronais, políticas, familiares, económicas, desportivas, culturais ou outras que possam, de alguma forma, direta ou indiretamente, influenciar o exercício da sua profissão e que o jornalista considere, livremente, seguindo apenas o seu próprio e exclusivo critério pessoal, ser seu dever, para assegurar a transparência da sua atividade profissional, revelar. 
Lisboa, 15 de janeiro de 2017 
Pedro Tadeu 

A defesa possível no debate sobre a declaração de interesses

Por falta de tempo, deram-me apenas dois minutos para tentar defender a proposta sobre a existência de uma forma de declaração de interesses para os jornalistas. Eis o que li ao congresso dos jornalistas:

Começo por dizer o que não é esta proposta de declaração de interesses: não é uma declaração de rendimentos, não é uma exposição da vida privada, não é uma ecografia pública das nossas consciências, não é sequer obrigatória. O que que proponho é um meio de defesa dos jornalistas e um instrumento de transparência na relação com os seus leitores que defenda a sua credibilidade, por um lado, e a sua liberdade, por outro lado.
Esta declaração de interesses não é a solução para os problemas da profissão mas é um pequeno passo – apenas um pequeno passo – que pode ser aplicado de forma imediata e sem dificuldade, no longo e penoso caminho que teremos de percorrer para reconquistar a credibilidade do jornalista junto do público.

Voltar a acreditar no jornalismo

A comunicação que li no 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses

A mentira
O jornalismo tornou-se essencial nas nossas vidas porque conseguiu fazer com que os leitores acreditassem nele. Independentemente dos projetos editoriais, dos interesses económicos, políticos ou culturais que estivessem por detrás desses projetos editoriais, o jornalismo moderno prometeu sempre procurar a verdade, jurou tudo fazer para distinguir o boato da verdadeira notícia. 
Publicar a verdade é, porém, cada vez mais difícil. 
Todos os dias jornais, rádios e televisões mostram-se decididos em ganhar em velocidade a batalha nas redes sociais. A informação é cada vez menos procurada, avaliada, verificada ou explicada; é, cada vez mais, apenas replicada, disparada. Depois, apesar da fragilidade da sua sustentação, essas “notícias” são comentadas por um exército de opinadores (onde eu me tenho incluído), de escassa diversidade e muitas vezes ausente pluralidade ideológica e cultural, que acabam por caucionar e amplificar para a opinião pública uma provável falsa realidade.
Todos os dias os jornais, em todo o mundo, estão assim a violar o compromisso com a verdade, seja em notícias muito relevantes, seja em relatos pouco importantes, e estão a deixar de ser o local onde os leitores e telespectadores conseguem distinguir o boato, exponencialmente amplificado pelas redes sociais e muitas vezes reproduzido como verdade pela imprensa, daquilo que é a verdadeira e comprovada notícia. 
Este caminho levará à vitória do facebook e à irrelevância da profissão do jornalista.

Perigos para a liberdade de imprensa em Portugal

 

1 . Fui convidado a fazer esta intervenção na sequência, conforme me foi dito, de um texto de opinião que escrevi no Diário de Notícias sobre o atentado em França ao jornal Charlie Hebdo. Permitam-me recordar esse texto:

“Defendem o direito de publicar um cartoon de Maomé, nu, genitais à mostra, rabo espetado com uma estrela no cu mas convivem com a lei que promete três anos de cadeia a quem injurie o Presidente da República.

“Gritam pela liberdade de imprensa mas só reconhecem o direito de ser jornalista a quem o Estado e a elite da classe aceitem passar um cartão profissional.

Eu também sou Charlie mas não vou com a manada

Defendem o direito de publicar um cartoon de Maomé, nu, genitais à mostra, rabo espetado com uma estrela no cu mas convivem com a lei que promete três anos de cadeia a quem injurie o Presidente da República.

Gritam pela liberdade de imprensa mas só reconhecem o direito de ser jornalista a quem o Estado e a elite da classe aceitem passar um cartão profissional.

São cúmplices por inação da opacidade informativa do governo, da Comissão Europeia, das autarquias, da justiça, dos bancos, das grandes empresas, dos clubes, dos falsos ricos, de uma hipócrita e ideológica noção de reserva da vida privada utilizada como álibi para não dar notícias.

Uma cábula de Passos para jornalistas preguiçosos

O primeiro-ministro indignou-se com os jornalistas por, supostamente, dizerem que a despesa pública está igual a 2011: "Chega a ser patético verificar a dificuldade que gente que se diz independente tem de assumir que errou, que foi preguiçosa, que não leu, que não estudou, que não comparou, que não se interessou a não ser em causar uma boa impressão, em dizer (Maria vai com as outras) o que toda a gente diz..."

Espero que a pontuação usada por mim na tentativa de reproduzir a oralidade do tribuno das Jornadas Parlamentares do PSD-CDS seja fiel ao pensamento exarado... Adiante.

Confesso, caro leitor e cara leitora: sou um preguiçoso. Quem preguiça, pensa; logo, eu preguiço.

A palhaçada de Rodrigo Guedes de Carvalho

Uns quantos paladinos da moral e dos bons costumes jornalísticos exerceram o legítimo direito de criticar Rodrigo Guedes de Carvalho, subdiretor da redação da SIC, por ter simulado uma entrevista "a sério" ao grupo cómico apresentado como Gato Fedorento. Aqui o DN destacou duas reações - a professora doutora Estrela Serrano e o presidente do Observatório de Imprensa, Joaquim Vieira.

Escreve a senhora que já foi a alma da Entidade Reguladora para a Comunicação Social: "Quando RGC (sim, a professora doutora reduziu Rodrigo Guedes de Carvalho a uma sigla) voltar a falar-nos como jornalista 'a sério' na sua cadeira de pivô do Jornal da Noite haverá quem se pergunte qual o papel que nesse dia vai representar. A credibilidade é a fonte da legitimidade de um jornalista. Hipotecá-la assim parece leviano e sem sentido."

O segredo e Duarte Lima

Uma personalidade pública portuguesa está envolvida num processo judicial onde não há segredo de justiça. O homicídio de Rosalina Ribeiro, cliente do advogado Duarte Lima, está a ser investigado no Brasil. Neste país o Código de Processo Penal só admite segredo de justiça se um juiz quiser preservar a imagem de um ofendido. Ao contrário de cá, o segredo de justiça brasileiro não pode ser utilizado para blindar a investigação, os arguidos ou os assistentes ou, indirectamente, a imagem da polícia e do Ministério Público.

No caso de Duarte Lima, os jornais portugueses têm citado regularmente o delegado Felipe Ettore, chefe da brigada de homicídios que desvenda o crime. Quando não é Ettore que fala, a comunicação social identifica, sem ambiguidade, a polícia brasileira e

O que é a verdadeira importância

A relação mais próxima que tive com Mário Bettencourt Resendes começou quando ele foi administrador, sob a presidência executiva de Luís Delgado, da Lusomundo. O grupo, da Portugal Telecom, era na altura dono deste Diário de Notícias, onde agora escrevo, e do 24horas, que, na altura, eu dirigia.
Foi em Setembro de 2004. Dias depois de os dois jornalistas tomarem posse como administradores, chamaram-me. O problema era este: tinha de reduzir despesas. A solução era esta: cortar nas colaborações externas, de forma radical. Eu que decidisse como... É um velho clássico da vida dos jornais.
Uma semana depois, apresentei o relatório sobre o cumprimento dessa missão. Agradeceram-me a presteza e nunca mais me maçaram. Pelo contrário, começou, quer com o Mário quer com o Luís, uma relação

Uma ironia do destino...

Quando me demiti da direcção do 24horas, há um ano, recebi elogios públicos de apenas três pessoas: Ruben de Carvalho (é suspeito pela amizade que temos), Luís Delgado e Clara Pinto Correia.
Agora, após o fecho do jornal, recebi um elogio, totalmente inesperado, de Óscar Mascarenhas, antigo presidente do Conselho Deontológico e o melhor especialista nesta matéria que temos em Portugal.
É uma ironia receber este elogio, de onde não esperava, após tantas omissões pelo silêncio, de onde também não esperava.
Reproduzo o artigo do Óscar, que muito me sensibilizou, publicado no Jornal de Notícias a 5 de Julho passado com o título "O nome do palácio":
"O 'Público' e o 'Diário de Notícias' titularam algo como: «Primeira visita oficial do Presidente Cavaco Silva é ao Hospital da Estefânia.» O '24Horas' fez diferente: «Cavaco visita Hospital da Estefânia para pagar

A denúncia de Henrique Granadeiro
no Parlamento

Aqui há uma semana Henrique Granadeiro disse, na Comissão de Ética parlamentar que discute uma tentativa governamental de controlo da comunicação social, ter sido obrigado a demitir-se da liderança da administração dos jornais que nessa altura pertenciam à Portugal Telecom. Afirmou ele que o Governo PSD lhe exigiu a cabeça de três directores: José Leite Pereira, ainda hoje director do Jornal de Notícias, Joaquim Vieira, director da entretanto extinta Grande Reportagem, e eu próprio, que nessa altura dirigia o jornal 24horas.

Acho oportuno, dado que o meu nome foi trazido à liça, recordar o que a 11 de Setembro de 2004 escrevi no 24horas, na sequência da demissão do seu administrador máximo: "Granadeiro é um homem da comunicação social. Entende a gestão deste tipo de empresas com base em duas ideias nucleares: liberdade e responsabilidade. Aqui tivemos, no 24horas, toda a liberdade. Aqui se exigiu a máxima responsabilidade. Parece simples mas, posso garantir, não é fácil. Nem muito vulgar. É encontrar alguém com visão de Estado sobre o papel da imprensa em democracia, disposto a pagar todos os preços para garantir a independência dos jornalistas mas sendo igualmente implacável perante obscuros interesses corporativos ou laxismos que, por vezes, minam a profissão. Para conjugar isto, nos dias de hoje, é preciso quase ser-se um herói."

Quero acrescentar, para que não haja qualquer equívoco, que a administração que se seguiu, liderada pelo jornalista Luís Delgado, nomeada pela Portugal Telecom no mesmo contexto político que vitimou Henrique Granadeiro, não só não me demitiu como foi outro caso exemplar: nunca tive da parte de Delgado uma reunião, uma crítica, uma análise, um telefonema, uma conversa de circunstância, uma mera interjeição de reprovação sobre quaisquer notícias publicadas pelos jornalistas do 24horas.

Essas duas administrações exigiram-me a prática do jornalismo e a recusa da traficância informativa. Se com Granadeiro me tinha saído a taluda da liberdade de imprensa, com Delgado dupliquei o prémio.

Para resistir aos ataques do poder político a imprensa precisa de várias coisas, desde estabilidade financeira a verdadeira diversificação de proprietários. Mas concluo também, por experiência própria, vivida, comprovada, que a imprensa necessita de ter à sua frente gente digna, firme e vertical. É preciso "quase ser-se um herói"… O problema é que hoje quase ninguém está para heroísmos.


in "Diário de Notícias", 16 de Março de 2010

Sócrates, Moniz, Manela e Crespo

Fiquei com a impressão de que o PS (ou seja, José Sócrates) conseguiu convencer a Portugal Telecom (ou seja, Zeinal Bava) a gastar uns valentes milhões de euros para dominar a TVI. Este investimento tinha como retorno o fim do noticiário de Manuela Moura Guedes. Que loucura!

Fiquei com a impressão de que José Eduardo Moniz soube de toda esta conspiração e aceitou ir embora, provisoriamente calado depois de negociar uma indemnização paga pela Media Capital. Que loucura!

Fiquei com a impressão de que a Ongoing ajudou à festa e aceitou empregar Moniz. Não percebo é porque Nuno Vasconcelos, o dono dessa empresa, se apresta para dominar a Media Capital. Será que, no final, Moniz volta à TVI? Que loucura!

E acho que Moniz estava há anos à espera do momento em que pudesse exigir a Cavaco Silva a demissão de José Sócrates. E que a Media Capital aceitou afastar Manuela Moura Guedes a troco de coisa nenhuma. Fiquei com a convicção de que todos aqueles senhores são doidos a gerir dinheiro. Que loucura!

Fiquei com a certeza de que Manuela Moura Guedes foi perseguida. Ela foi vítima de um atentado contra a liberdade de imprensa. Mas lembro-me de que Moniz e Manela não foram tão combativos quando o perseguido, na mesma TVI, foi Marcelo Rebelo de Sousa, o patrão se chamava Pais do Amaral e o perseguidor PSD (ou seja, Durão Barroso e/ou Santana Lopes). Nessa altura acabaram por meter a viola no saco. Que loucura!

Fiquei com a impressão de que Mário Crespo é um paladino da liberdade de imprensa, o que é esquisito, pois, quando o jornal 24horas foi invadido ilegalmente pelo Ministério Público (ilegalidade confirmada em todos os tribunais que julgaram o caso e os respectivos recursos), este grande jornalista recusou subscrever um abaixo-assinado de apoio aos seus camaradas de profissão. “Sabe-se lá quem está por detrás daquela gente!” ou “o texto do abaixo-assinado é um bocado radical”, ouviram-no dizer no bar da SIC (nota: à luz dos critérios de Mário Crespo, informações obtidas por tagarelice em ambiente hoteleiro são jornalisticamente válidas). Que loucura!

Fiquei com a convicção de que o primeiro-ministro acha que Crespo é doido e que este mesmo Sócrates tem muita sorte por a justiça em Portugal ser, simplesmente, maluca e conseguir o que o factor opositor, da lógica matemática, garante ser impossível: menos por menos dá… ainda menos.
Quanto a mim, viciado em jornais, não consigo parar de ler. Resta-me, para resistir ao contágio e não ficar lelé da cuca, intoxicar-me em antipsicóticos. Que loucura! Que loucura!

in Diário de Notícias, 9 de Fevereiro de 2010

Manuela Moura Guedes
auxilia Ministério Público

O Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes, na TVI, foi silenciado há três meses. Talvez para celebrar a efeméride a jornalista anunciou nos últimos dias que se constituíra assistente no processo "Face Oculta". Disse que o fez para "auxiliar o Ministério Público na procura da verdade".

Moura Guedes pretende assim levar à letra aquilo que o Código do Processo Penal determina sobre o papel dos assistentes num processo judicial e que é o seguinte: "Os assistentes têm a posição de colaboradores do Ministério Público, a cuja actividade subordinam a sua intervenção no processo, salvas as excepções da lei." Temos pois esta jornalista a oferecer-se para "colaborar" com o Ministério Público, estando mesmo disposta a "subordinar-se à sua intervenção".

Para o jornalismo, que supostamente terá no ADN um cromossoma de garantia de total independência face aos poderes político, económico, judicial ou outros, esta posição de serventia face a uma das partes de um conflito jurídico é, embora não inédita, no mínimo bizarra e, em princípio, condenável. E não é por, neste caso, uma das partes desse conflito jurídico ser o representante do Estado que o problema da falta de independência jornalística fica sanado, pelo contrário.

Não sabemos o que liquidou, a 19 de Outubro passado, o Jornal Nacional. Não sabemos se Moura Guedes foi mesmo calada pelo poder político ou se, apenas, se estampou sozinha por andar a perseguir, sem razão, o poder político.

Mas se for verdade que Manuela Moura Guedes foi afastada da TVI por motivos políticos? Pode ela manter uma "independência" bacteriologicamente pura? Não.

Mas se for verdade que Manuela Moura Guedes foi vítima de um poder que não se identifica, que não se mostra, que é subterrâneo e mais forte ainda que o poder do Ministério Público? Terá de ficar quieta? Terá de ficar resignada? Não.

Mas se for verdade que Manuela Moura Guedes foi calada para impedir que as notícias desfavoráveis a José Sócrates tivessem a repercussão que tinham, quando ela comandava o principal telejornal do País? Teria ela de ficar quietinha à espera da carta final de despedimento da TVI? Não.

O caso de Manuela Moura Guedes é ilustrável por um dos velhos princípios de Newton, que todos aprendemos na escola: para toda uma acção há uma reacção, oposta e de igual intensidade. A acção que determinou o fim do Jornal Nacional da TVI levou a uma reacção de igual intensidade, cuja consequência será, inevitavelmente, esta: um novo passo atrás na liberdade de imprensa, seja por Moura Guedes ter sido perseguida por José Sócrates, seja por Moura Guedes ter andado a perseguir José Sócrates.

in "Diário de Notícias", 12 de Janeiro de 2010

Utilização do corpo na publicidade

Na publicidade o corpo feminino é explorado há centena e meia de anos, com maior ou menor despudor, para nos chamar a atenção e, dessa forma, queimar a primeira etapa do processo de sedução que nos acaba por convencer a comprar qualquer coisa. A maior caricatura da coisa são os clássicos anúncios de automóveis, em cima dos quais se deitam mulheres lindíssimas, seminuas. É uma técnica publicitária com barbas, que deve resultar imenso, pois resiste ao tempo e às modas, mas que ultrapassa a minha compreensão, pois não consigo vislumbrar no automóvel qualquer conotação sexual e não consigo ler na mulher deitada qualquer informação relevante.

Durante muito tempo ouvi mulheres a protestar por esse tipo de publicidade ser sexista, discriminatório e imoral. Tinham razão mas ninguém as levou a sério. O protesto não lhes valeu de nada e, de há 20 anos para cá, perdeu um bocado de sentido por também o corpo masculino ter começado a aparecer em preparos semelhantes. Ou seja, as femininistas tiverem uma vitória de Pirro.

Como sou director de jornal e pagam-me para escrever todos os dias, sou obrigado a ter teorias sobre tudo, mesmo que a maior parte delas seja, simplesmente, idiota. A minha teoria de hoje é que com o excesso de corpos seminus na publicidade e na comunicação social, o poder da sugestão sensual com fins comerciais vai, pura e simplesmente, desaparecer, pois acabaremos todos por ficar fartos...

Claro, é uma teoria parva e, por via das dúvidas, até pus na capa desta revista uma foto lindíssima da Mónica Sofia – uma das mulheres mais bonitas de Portugal – para ver se o convencia a si, seduzível leitor ou leitora, a comprar o 24horas. Pronto, pode chamar-me, também, grande hipócrita.


in 24horas, 1 de Julho de 2006

Os pivôs de telejornal são deuses?

Aquilo que geralmente se pede a um apresentador de telejornal é uma impossibilidade física: por um lado, de modo a garantir a credibilidade da sua estação, tem de manter uma atitude fria e distante em relação aos palpitantes acontecimentos que relata; por outro lado, exigem-lhe, para assegurar audiências, que encante e cative o telespectador. É coisa para um deus. A excepção que conheço foi a de Manuela Moura Guedes, que se estava nas tintas para o papel de deusa mas acabou por se transformar numa espécie de terror justiceiro para os alvos das notícias que apresentava. Tiraram-na do ar.

O jornalista de imprensa, como eu, está muito mais protegido. No secretismo da minha redacção, eu posso, se me apetecer, soltar um palavrão indignado perante uma medida errada do Governo, rir a rolar no chão com um “número” do José Castelo Branco ou chorar comovido ao saber de um assassinato de uma criança pela própria mãe. Depois, mais calmo, com as emoções já controladas, lá penso como vou transmitir a notícia aos leitores do 24horas...

Eu gosto dos principais e mais solicitados pivôs portugueses. Mas atenção: conheço meia dúzia deles pessoalmente e, para dizer a verdade, já apanhei tremendas desilusões. Porquê? Ao desempenharem tão bem a sua profissão, ao conseguirem de forma tão natural aquela irrealizável mistura de frieza distante e cumplicidade cativante, atingem, mesmo aos meus olhos cínicos, o estatuto de verdadeiros deuses. O problema é quando lhes apertamos a mão e falamos com eles de futebol, política, cinema, livros, qualquer coisa terrena: descobrimos que, afinal, eles são mesmo humanos e, caramba, o trambolhão do céu à terra é mesmo muito grande.

in 24horas, 6 de Maio de 2006

Google Wave e jornalismo vendido
por um prato de lentinhas

Repare-se que na apresentação do Google Wave (ler aqui) o anfitrião diz logo no início à plateia de programadores e, certamente, de jornalistas vindos de todo o mundo esperar que eles tivessem gostado do telemóvel Andróide - que tem um sistema operativo da Google - que lhes fora oferecido na véspera. Uma prenda de qualquer coisa como 500 euros, um preço baixito para fazer do Google Wave um sucesso, pelo menos na versão do que será escrito nas publicações ali representadas, é quase certo. O senhor, aliás, foi de imediato aplaudido na sala pelos, nota-se, já amestrados e agradecidos espectadores...

Infelizmente há cada vez mais jornalistas em todo o mundo a achar este tipo de prendas normal - e depois esperam que os cidadãos confiem nas coisas que publicam.

Estão a matar a minha profissão.

Quem quer ensinar-me?

Este anuncio, numa página de classificados de um jornal ribatejano, enterneceu-me.


A maioria de nós deseja, mesmo, aprender, não ficar de fora.
in "O Mirante", 22 de Outubro de 2009

Adeus

No dia 11 de Fevereiro de 2003 apareceu pela primeira vez o nome do jornalista que assina esta crónica no cabeçalho do 24horas. “Director: Pedro Tadeu”, anunciava-se. Nos 1733 números anteriores o peso da função tinha caído nos ombros de quatro outros jornalistas, a começar pelo fundador do jornal, Rocha Vieira, e a terminar no homem que o salvou do fecho iminente, Alexandre Pais. Desde esse dia o 24horas fez várias coisas notáveis. Passo a registar algumas.

O 24horas trouxe para a imprensa a coragem do sorriso crítico. Impediu que o processo Casa Pia fosse um linchamento judiciário. Demonstrou que as relações pessoais e privadas entre poderosos e famosos são decisivas para a vida pública, para os negócios e para a política que governa os portugueses. Descobriu José Castelo Branco e todos os outros e todas as outras. Revelou o mundo das festas snobs, a entrada destes “famosos” na TV, os negócios de agenciamento, publicidade e relações públicas que os acompanharam. Fez a crónica de costumes do país, traçou o carácterde vedetas, políticos, líderes de opinião e narrou as pequenas e grandes mudanças éticas e de conduta desta gente que define os comportamentos quotidianos de toda a sociedade.

O 24horas não teve medo de nenhum dos três governos e dois Presidentes que ao longo do tempo passaram. Ignorou a política politiqueira que atravessa tanta outra imprensa... a não ser que nos fizesse rir!... Mostrou os bastidores do governo de Santana Lopes, o que foi decisivo para a queda desse Executivo. E recusou fazer propaganda nazi disfarçada de candidatura eleitoral.


O 24horas deu, com verdadeira independência, os vários lados dos casos Apito Dourado, Carolina Salgado, Freeport, BPN e BPP. Escreveu como antes ninguém tinha escrito sobre dirigentes do futebol, jornalistas poderosos, economistas, banqueiros, figuras da Justiça. Esteve na vanguarda do noticiário do caso Maddie e do caso Joana. Desmascarou as fragilidades da investigação criminal. Impediu o alarmismo e foi pedagógico em casos de saúde pública, como o da gripe das aves ou o da gripe A. Obrigou a entretanto empossada ERC a respeitar este jornal e os jornalistas que cá trabalham.

O 24horas trouxe para a imprensa portuguesa um largo leque de novas técnicas jornalísticas, de assuntos invulgares, de ângulos de abordagem originais, de nova organização de trabalho de redacção. Técnicas que foram depois copiadas, repetidas e, até, melhoradas por outros.

O 24horas, quando o mercado de imprensa se alimentava a golpes de marketing, também esteve à frente do seu tempo. Em tempo de crise, acabada a fonte do marketing, apostou em formatos novos como o actual, antecipando uma tendência e colocando-se novamente um passo à frente da concorrência.

O 24horas envergonhou os jornais de referência ao tratar com verdadeira dignidade os direitos de resposta das pessoas que se sentiram atingidas pelas suas notícias. Fez corar toda a imprensa falsamente moralista, ao dar destaque de manchete aos erros que reconheceu ter cometido, coisa até então inédita. Estabeleceu um novo padrão ético, muito mais exigente, na publicação de notícias e fotografias de menores.

O 24horas revelou que a liberdade de imprensa pode em qualquer altura ser violada pelo poder, não é garantida, como foi exemplificado pela notícia do “Envelope 9” e as subsequentes buscas e apreensões ilegais feitas nesta redacção.

O 24horas demonstrou, com três administrações diferentes – lideradas, respectivamente, por Henrique Granadeiro, Luís Delgado e Joaquim Oliveira, que nesta questão foram absolutamente exemplares e solidários – ser ainda possível manter a independência dos jornais e dos jornalistas, desde que aquilo que eles publicam esteja ancorado na verdade e na lealdade.

O 24horas foi dos famosos e dos anónimos. Sem fazer disso uma manobra publicitária hipócrita, este jornal, através das contribuições financeiras dos seus leitores, ajudou inúmeras pessoas cujos problemas e dificuldades foram aqui notícia. Chegámos a construir uma vivenda adaptada a um deficiente; pagámos cursos artísticos a jovens de talento e até entregámos um cheque à mãe de um polícia morto em serviço. O 24horas fez aquilo que os leitores quiseram fazer com ele.

Hoje, 3 de Agosto de 2009, o meu nome aparece pela última vez no cabeçalho da primeira página. Achei que já era tempo, pois 2352 edições sempre em tensão conflitual, após 149 processos judiciais (e, até agora, nenhuma condenação), sempre a tentar inovar e a ser arrojado, num jornalismo sério mas tablóide, desgastam qualquer um. Esse desgaste prejudica o jornal. Amanhã, o jornalista Nuno Azinheira vai sentir a mesma emoção que eu senti em Fevereiro de 2003 e, garanto-lhe, caro leitor ou leitora, fará tudo, certamente muito mais e melhor do que eu faço, para que você sinta que este 24horas não é dos jornalistas ou dos directores de jornalistas. O 24horas é, isso sim, dos seus leitores... Vou morrer de saudades, mas aqui fica o meu adeus.

In 24horas, 3 de Agosto de 2009