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O irrelevante pontapé do Marco


Na crónica anterior lembrei-me do impacto que o primeiro Big Brother teve no país. O pontapé do Marco abriu o noticiário das 7 da manhã da TSF e, depois, foi chamada de capa dos jornais de referência que, com essa cedência, deram uma vitória para o 24horas da altura, o único diário que tratava o assunto de forma sistemática.

Depois disso seguiram-se debates na televisão sobre os malefícios dos reality shows, crónicas incendiárias contra o programa e o caso dominou, durante semanas, as conversas dos portugueses.A TVI nunca mais deixou de liderar audiências. Deu na queda de Emídio Rangel, que dirigia a SIC e recusou comprar o programa à produtora Endemol. Foi a glória de José Eduardo Moniz, que aceitou os restos recusados pela estação rival. O Correio da Manhã passa a acompanhar o 24horas na cobertura a este tipo de assuntos, as revistas de TV e famosos amplificam o fenómeno e os outros jornais, da classe dos circunspectos, acabam, com maior ou menor destaque e no meio de um coro nas redacções de que "isto não é notícia", por fazer o mesmo que  os tablóides... Até hoje, com a vantagem de já ninguém protestar.

Quanto a estes personagens, que mudaram para sempre o país, é só escolher a pequena história trágico-irrelevante: Do esquecimento à cadeia, da depressão profunda à tentativa patética de voltar à ribalta, nenhum deles consegue na vida real entusiasmar qualquer audiência.

O preço que a fama cobra

Quando se estreou o “Big Brother” andávamos com a cabeça feita num oito. A coisa indignava-nos por haver pessoas que se dispunham a expor toda a sua intimidade às câmaras de televisão. A coisa deixava o País cheio de sentimentos de culpa por os telespectadores se comportarem como uma tribo de voyeurs que espreita pelo buraco da fechadura. A coisa era arrumada na secção dos problemas de consciência que se resolveriam mais tarde pelo facto, inultrapassável, de nos estarmos nas tintas para a moralidade e mamarmos, viciados, os episódios todos, uns atrás dos outros. 

Já passaram cinco anos e hoje já ninguém se impressiona muito com reality shows e a questão moral levantada por estes programas não foi resolvida: está esquecida de vez. A maioria de nós, até, segue os programas com alguma curiosidade mas sem uma pinga de paixão. 

Quando o fenómeno apareceu sonhei logo vir a fazer e a escrever, meia dúzia de anos depois, a reportagem sobre o que aconteceu aos primeiros personagens que entraram na casa da produtora Endemol. Adivinhava as tragédias de vida inevitáveis ao desgaste pessoal que, com o tempo, cada um daqueles rapazes e daquelas raparigas iria sofrer por ter sido famoso e depois ter caído no esquecimento, por ter tentado ser famoso e não o ter conseguido, por ter sonhado ser famoso e, afinal, ter odiado a fama, etc., etc.. 

A prisão de Mário, já depois da dupla tentativa de suicídio de Zé Maria, o primeiro vencedor do programa que alcançou o estatuto de herói nacional, já impunham que esse trabalho se publicasse. Procurámos então saber o que aconteceu a todos os que passaram pelo “Big Brother”. Infelizmente para mim não seria eu a escrever esta reportagem. Mas nesta revista fica documentado, de forma simples e clara, que, mesmo se às vezes for suave, o tempo cobra sempre algum preço à fama. 
in 24horas, 4 de Março de 2006