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E não se discutem os salários do PSI-20?

Somam 61 milhões de euros as remunerações anuais recebidas pelos gestores de 19 empresas do PSI-20 (o Jornal de Negócios, que me referencia, não sabe os valores de uma das cotadas deste índice da Bolsa de Lisboa, a Portucel).

101 gestores de segunda linha receberam uma média de 608 mil euros, umas 55 vezes acima do salário médio anual de um trabalhador, que estimo em 11 mil euros (sim, estou a ser otimista). Estes 101 doutores e engenheiros criam, por si só, individualmente considerados, a riqueza produzida por 55 trabalhadores?... Duvido.

Os 19 presidentes de conselhos de administração destas empresas, que em média receberam 812 826 euros, valem, com o seu talento, esforço, dedicação e sabedoria (nunca postos em causa), o talento, o esforço, a dedicação e a sabedoria de 120 trabalhadores (sempre postos em causa e, nestes tempos, a caminho do despedimento) contratados pelo salário mínimo? Este fosso justifica-se?

Como é óbvio, Sócrates não desilude

Não interessa que a esquerda some mais deputados, nas questões económicas o PS alia-se sempre à direita. Ao menos neste aspecto José Sócrates não desilude e prepara, com PSD e PP, um orçamento do Estado a coberto do "papão grego", da crise financeira, da desconfiança dos mercados, do défice orçamental excessivo, do "sentido de responsabilidade", da competitividade e de todo um longo argumentário, sonolento e conformista, habitual na ideologia tecnocrática dominante.

No final a receita será a do costume: exigir mais sacrifícios para quem trabalha, deixar que as empresas despeçam com facilidade, não permitir ou limitar aumentos salariais e limpar a consciência com uns apoios piedosos aos profissionais da caça ao subsídio.

Tudo o resto será para o Estado sustentar a sua própria gordura ou para distribuir favores a quem gere em nome dos ricos. É assim há mais de 30 anos.

Se há rosto para a crise é o rosto da banca. Em Portugal e lá fora. Nos últimos dois anos, José Sócrates disponibilizou não sei quantos milhares de milhões de euros para salvar bancos portugueses. Só que eles não estavam propriamente em crise, exceptuando o BPN, por motivos criminais, e o BPP, por bebedeira especulativa.

Os cinco maiores bancos portugueses somaram 2.100 milhões de euros de lucro no ano de 2005, 2.660 milhões em 2006 e 2.900 milhões em 2007. No auge da crise financeira mundial, em 2008, estes mesmos bancos conseguiram lucrar 1.730 milhões. E só nos primeiros noves meses de 2009, BES, BCP, BPI, CGD e Santander Totta lucraram 1.448 milhões. Ao longo destes cinco anos estes cinco bancos ganharam mais de seis milhões de euros por dia.

Em contrapartida, em 2005, a banca em Portugal pagou impostos sobre apenas 11,7% dos seus rendimentos. Em 2006 este valor subiu para 19,4%. Em 2007 desceu para 14,5%. Em 2008 voltou a descer para 12,8%. E, segundo a Associação Portuguesa de Bancos, no primeiro semestre de 2009 a banca pagou impostos sobre, apenas, 9,9% das suas receitas! Como isto é possível, não sei.

Sei é que Barack Obama, que não é um perigoso comunista ou um inimigo da economia de mercado, anunciou quinta-feira um novo imposto à banca. Acabada a crise e as ajudas financeiras, o cofre do Estado norte-americano espera cobrar de volta, em 10 anos, 90 mil milhões de dólares.

Por cá ninguém fala disto. Para a esquerda José Sócrates oferece bandeiras como o "casamento gay", de resto uma lei um bocado maricas por proibir a adopção por casais homossexuais. Para a direita reservou a arma que realmente interessa: um orçamento que não incomoda a banca.

in "Diário de Notícias", 19 de Janeiro de 2010