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António José Seguro é contrarrevolucionário?

Quase todos os dias, nas notícias ou na publicidade, aparece a palavra "revolucionário" associada a um novo medicamento, a um automóvel, a um champô, a um aparelho eletrónico. Essa sedução pela mudança, pela rutura com o caduco, esse desejo de chegar mais rapidamente ao melhor está tão arreigado à natureza humana que se tornou instrumento de comércio global.

Ser "revolucionário" é, no entanto, no nosso mundo ocidental, um conceito político delatado, combatido, ridicularizado ou temido.

O preço que a fama cobra

Quando se estreou o “Big Brother” andávamos com a cabeça feita num oito. A coisa indignava-nos por haver pessoas que se dispunham a expor toda a sua intimidade às câmaras de televisão. A coisa deixava o País cheio de sentimentos de culpa por os telespectadores se comportarem como uma tribo de voyeurs que espreita pelo buraco da fechadura. A coisa era arrumada na secção dos problemas de consciência que se resolveriam mais tarde pelo facto, inultrapassável, de nos estarmos nas tintas para a moralidade e mamarmos, viciados, os episódios todos, uns atrás dos outros. 

Já passaram cinco anos e hoje já ninguém se impressiona muito com reality shows e a questão moral levantada por estes programas não foi resolvida: está esquecida de vez. A maioria de nós, até, segue os programas com alguma curiosidade mas sem uma pinga de paixão. 

Quando o fenómeno apareceu sonhei logo vir a fazer e a escrever, meia dúzia de anos depois, a reportagem sobre o que aconteceu aos primeiros personagens que entraram na casa da produtora Endemol. Adivinhava as tragédias de vida inevitáveis ao desgaste pessoal que, com o tempo, cada um daqueles rapazes e daquelas raparigas iria sofrer por ter sido famoso e depois ter caído no esquecimento, por ter tentado ser famoso e não o ter conseguido, por ter sonhado ser famoso e, afinal, ter odiado a fama, etc., etc.. 

A prisão de Mário, já depois da dupla tentativa de suicídio de Zé Maria, o primeiro vencedor do programa que alcançou o estatuto de herói nacional, já impunham que esse trabalho se publicasse. Procurámos então saber o que aconteceu a todos os que passaram pelo “Big Brother”. Infelizmente para mim não seria eu a escrever esta reportagem. Mas nesta revista fica documentado, de forma simples e clara, que, mesmo se às vezes for suave, o tempo cobra sempre algum preço à fama. 
in 24horas, 4 de Março de 2006

Contas

O Presidente da República fez bem em convocar eleições. Santana Lopes teve a maior derrota eleitoral de todos os primeiros-ministros da democracia portuguesa. Foi bebé, foi incubadora, foi tudo. Portas, que achou que fez tudo bem, deve a esta hora maldizer um erro: ter aceite, depois da saída de Durão, fazer um Governo com Santana em vez de ter ido logo a eleições. José Sócrates deu ao PS aquilo que só Cavaco conseguira: uma maioria absoluta. O pânico é pensar que os socialistas a podem usar num forrobodó de mordomias distribuídas pelos camaradas. Mas, para já, ele tem o benefício da dúvida e um definitivo lugar na história, que nenhum líder do PS conseguiu, nem Mário Soares. Jerónimo de Sousa é um vencedor e deixa apardalados a esmagadora maioria dos comentadores que há pelo menos 20 anos anunciam a extinção do PCP. É o prémio da seriedade, das convicções e da escolha dos militantes do PCP. Francisco Louçã tem uma subida extraordinária e o Bloco, nas grandes zonas urbanas, está cada vez mais forte. O partido dos comentadores já é um pouco mais que uma moda elitista. Os 60% de votos à esquerda mostram uma coisa: mais do que os líderes, a economia e a justiça social voltaram a contar para ganhar eleições.
in 24horas, 21 de Fevereiro de 2005