O processo Sócrates é igual ao dos submarinos?
Não, os processos não são paralelos porque Portas nunca foi arguido, sai totalmente ilibado sem contestação relevante enquanto Sócrates, preso preventivo, terá de ser mesmo condenado para salvar a face da Justiça: se, por burrice inultrapassável do Ministério Público, acabar por ser libado, verá metade do país acreditar que os políticos manipularam os tribunais e “cozinharam” uma fraca inocência.
Paulo Portas devia reformar-se
Talvez fosse boa altura para Paulo Portas pensar na reforma. Ele trabalha desde os anos 70 e, suponho, a sua precoce visão de estadista (aquela onde levanta ligeiramente o olhar por cima das cabeças da multidão, observando, fascinado, o horizonte...) certamente o impediu de fazer batota nos descontos para a Segurança Social.
Sim, Portas só tem 51 anos mas vai pelo menos com 36 de carreira contributiva (dizem que começou a trabalhar aos 15) e um brilhante currículo a identificá-lo como jurista, jornalista, professor universitário, líder de uma empresa de sondagens e político.
A celebração da vitória de Pedro Passos Coelho
Passos Coelho teve uma grande vitória depois de conseguir que o Presidente da República ressuscitasse o seu governo, dado como irrevogavelmente morto há já três longas semanas. É a primeira vez que comemora algo na política, desde a noite eleitoral de 5 de junho de 2011.
O primeiro-ministro, seja por estratégia inteligente seja por obstinação estúpida, recusou demitir--se quando tudo ruia à sua volta. Este gesto, tomado contra o senso comum e ridicularizando a tradição politiqueira lusitana (lembrem António Guterres, lembrem Durão Barroso), candidatou-o, na alma dos apoiantes e na mente dos mais crédulos, a mártir da Nação.
Aceitou todas as condições impostas pelo instável parceiro de coligação, Paulo Portas. Todas? Não. Todas menos uma: a revogação da nomeação da ministra das Finanças, que é o cargo que realmente interessa controlar, pelo menos até junho de 2014, quando terminar esta primeira fase de subordinação de Portugal à troika. Na alma dos apoiantes e na mente dos mais crédulos, Passos Coelho passou a almejar o estatuto de líder agregador e de campeão do diálogo.
Lições com Paulo Portas
Ficámos a saber que Paulo Portas é homem capaz de trair na sexta-feira a consciência pessoal que invocara na terça-feira para tomar a decisão "irrevogável" de sair do Governo.
Apreendemos as maravilhas de ser país do Eurogrupo com dívida de 72 mil milhões de euros ao FMI, à Comissão Europeia e ao BCE: só podemos ter um ministro das Finanças se aquela troika gostar, só podemos antecipar eleições se essa troika não se importar, só podemos mudar de governo se a dita troika nada objetar. E sem discussão!
Não sabemos, caso tenhamos eleições regulares em 2015, se os resultados terão, também, de ser previamente aprovados. Talvez não.
A esquizofrenia moral do doutor Paulo Portas
Foi o próprio Paulo Portas que colocou a questão em termos éticos e morais: "Vivo a circunstância política em que tenho de cumprir com o meu dever perante o País e devo também procurar ser quem sou, o que significa estar em paz com a minha consciência."
Imagino que a consciência do cidadão Portas pense que "a liderança é antes de tudo o mais um mistério que nem sempre pode ser explicado pela racionalidade lógica". Talvez por isso o ministro de Estado imponha aos funcionários públicos a chantagem da escolha entre a mobilidade especial - 18 meses com salário reduzido e, depois, desemprego - ou a aceitação de rescisões imediatas.
Imagino que a consciência do líder democrata-cristão se interrogue: "Haverá alguma coisa mais humilhante do que estar condenado a não poder ganhar o seu próprio sustento?" Mas o dever do líder do PP conforma-se em atirar para o desemprego, sem direito a subsídio, mais 30 mil pessoas.