O processo Sócrates é igual ao dos submarinos?
Não, os processos não são paralelos porque Portas nunca foi arguido, sai totalmente ilibado sem contestação relevante enquanto Sócrates, preso preventivo, terá de ser mesmo condenado para salvar a face da Justiça: se, por burrice inultrapassável do Ministério Público, acabar por ser libado, verá metade do país acreditar que os políticos manipularam os tribunais e “cozinharam” uma fraca inocência.
As viagens do Mercedes de Sócrates
Um bilhete de avião custaria uns 280 euros e dava para ir e voltar no mesmo dia. O próprio Sócrates, em vez de escravizar o motorista, poderia aproveitar as suas viagens semanais a Lisboa para comentar a política nos estúdios da RTP e enfiar uns milhares de euros no bolso do casaco. Mesmo que vissem as notas no raio X do aeroporto da Portela, alguém o interrogaria?...
E se Carlos Alexandre bate à porta de Passos Coelho?
Muitos dos que põem hoje o juiz Carlos Alexandre nos píncaros da moral jurídica passariam rapidamente a diabolizá-lo como justiceiro irresponsável. As fugas de informação, as violações do segredo de justiça, o assassinato reputacional subsequentes seriam violentamente criticados, com razão, e não relativizados como agora acontece no caso de Sócrates. A infeção ideológica, o interesse pessoal ou o empenho partidário nas apreciações que vou lendo são demasiadas vezes óbvios e angustiantemente tristes, sobretudo por não serem claramente assumidos.
Homenagem ao malandro roubada a Chico Buarque*
Eu quis fazer um fado em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço da vida dos jornais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem:
Aquela fina malandragem
Não mora lá mais.
Agora já não é normal
Malandro ir p’ro Estado governar o maralhal,
Malandro respeitado com cargo institucional,
Malandro medalhado como herói profissional,
Malandro com retrato na revista trivial,
Malandro com contrato, com banco e capital
Sem nunca se dar mal!
A prisão de Sócrates é justiça ou vingança?
Prender e condenar em tribunal criminosos da política, da banca, das polícias, é bom para o país. Prender mas falhar depoisas condenações desses poderosospor incompetência ou má-fédas investigações é uma enorme tragédia para Portugal. A pergunta que não sai da minha cabeça é esta: a prisão de José Sócrates é um ato de justiça ou é uma vingança?
O magistrado Rosário Teixeira, o homem que lidera a Operação Marquês, que deteve o antigo primeiro-ministro, é o mesmo que no dia 15 de fevereiro de 2006 dirigiu a equipa que invadiu a redação do jornal 24horas, então dirigido por mim, para fazer buscas a tentar descobrir a origem de notícias publicadas que, comprovadamente verdadeiras, desagradaram nessa época à Procuradoria-Geral da República, apesar de não violarem o segredo de justiça.
Rodrigues dos Santos confronta José Sócrates
José Rodrigues dos Santos repetiu e repetiu a pergunta: há ou não há uma contradição entre as críticas feitas pelo José Sócrates de hoje à política de austeridade do Governo, com as declarações do José Sócrates primeiro-ministro em 2011 a defender a austeridade como "o único caminho" para o País?
Sócrates respondeu e respondeu: acompanhou sempre as medidas de austeridade com outras de investimento público para fazer crescer a economia. Isso faz toda a diferença em relação à austeridade, sem mais nada, de Passos Coelho.
Sócrates julgado pela moral de Sócrates
José Sócrates escreveu um livro sobre a tortura em democracia. Explica, numa das entrevistas do último fim de semana, especialmente notável entre conversas notáveis, que, excetuando decisões entradas nos domínios do risco da vida humana e do sofrimento, não é um deontologista, não segue "correntes morais dos que acham que têm imperativos categóricos e uma ética da convicção". E explicita: "A boa ação é aquela de que resulta mais felicidade do que sofrimento. É um cálculo."
José Sócrates defende, convicto, o realismo virtuoso do paradoxo dissimulado: "É preciso medir as consequências da boa ação." Por isso, como político, garante que nunca aceitaria dar uma ordem de tortura. No entanto, sobre quase tudo o resto, sobre toda a ação política quotidiana, recusa o moralismo predestinado: o que é verdadeiramente moral na política é "o cálculo do mal menor", defende. Chama a isto "ética da responsabilidade".
A entrevista a Sócrates deu-me cabo do sono
Na quarta-feira deitei-me tarde. Dormi mal, sonhos intermitentes. Imagine-se que a dada altura vi uma televisão de ecrã a preto e branco. Nela, um antigo estúdio da RTP, decorado a reposteiro, encenava uma entrevista. Frente a frente, sentados a uma mesa fabricada pela Olaio, estavam, de um lado, os notáveis jornalistas (sem ironia) João Coito e José Mensurado e, do outro lado, António de Oliveira Salazar.
Neste anacronismo, o ditador repetia: "Quero contrapor a minha narrativa à narrativa posta a correr pelos inimigos do Estado Novo e que foi deixada vingar praticamente sem oposição."
"Estou tramado!", pensa o procurador
É obviamente verdade que o caso Freeport foi instrumentalizado - quer para liquidar José Sócrates, por um lado, quer para liquidar a investigação a José Sócrates, por outro.
Existe um problema de pressão política às investigações em Portugal - há excesso abusivo (com sinais
Ricardo Rodrigues, o moralista
Nada tem de surpreendente a alegação do deputado socialista como, aliás, nada têm de surpreendentes as conclusões do deputado bloquista: não se esperaria outra coisa de quem está no partido do Governo - apoio incondicional ao primeiro-ministro, mesmo se este não tiver razão - nem de quem está na oposição - prosseguir na estratégia de fragilização do líder do Executivo, mesmo se ele até tiver razão.
O que é surpreendente é ser este deputado socialista, este Ricardo Rodrigues, o homem que está a tentar dar lições de moral aos deputados da oposição. Para quem esteja distraído, recordo que este é o mesmo
Será que vão prender Sócrates?
Aqui há uns dias, na estação do Marquês de Pombal, ouvi pela primeira vez uma réplica portuguesa. Era tão comprida que nem consegui decorar. Pareceu-me isto: "Esteja atento, nas entradas e nas saídas, ao intervalo entre o comboio e o cais..." Bolas! À quarta palavra já me perdi, já não sei o que me querem dizer, já vou, aliás, na escada rolante. Este vício talvez seja indelével ao carácter português. Tem um nome: complicador.
O complicador mais relevante da última semana foi ligado quando José Sócrates utilizou, na Portugal Telecom, a golden share (vejam como esta expressão, simples, teria mesmo de ser inglesa...). O primeiro-
Sócrates, o adorador de Chico Buarque
Este Chico Buarque é o letrista que em 1975 saudou entusiasmado a nossa Revolução dos Cravos e, depois, lhe fez o funeral ao mudar o texto de "Tanto Mar" para proclamar, triste: "já murcharam tua festa pá" e "ainda guardo renitente um velho cravo para mim".
Este Chico Buarque é o músico que veio tocar a uma Festa do Avante!, do PCP. Este Chico Buarque é o escritor que visita com frequência Fidel Castro em Cuba. Este Chico Buarque é o cantor que, sobre uma "Morena de Angola" a declara "bichinha danada, minha camarada do MPLA". Este Chico Buarque é o
Os desempregados que paguem a crise
José Sócrates, por seu lado, confirmou-se a si próprio como mero poder transitório ao, no final dessa encenação política, anunciar aos portugueses que a resposta que tinha, a resposta do seu Partido Socialista para a "ofensiva" dos mercados financeiros, era um corte nos subsídios sociais. Traduzido por miúdos, foi o mesmo que ouvi-lo dizer, em horário nobre: "Os desempregados que paguem a crise!" Como suicídio político, foi do mais confrangedor que já se viu...
Mas o essencial da questão não é isso. O elemento mais relevante desse momento de suposta união nacional
Indiferentes a José Sócrates
Faz-me impressão o generoso José Sócrates - à época presidente da concelhia do PS na Covilhã, líder da federação do partido em Castelo Branco e deputado eleito pelo distrito - alegar em sua defesa ter elaborado estas 21 pérolas da engenharia civil beirã a pedido de amigos, sem receber um tostão… Como se assinar projectos "por cunha" e, pelo que parece ser sugerido, "de cruz", fosse actividade isenta de crítica e totalmente insuspeita!
Faz-me impressão o primeiro- -ministro José Sócrates insistir em atirar-se ao jornalismo: as notícias sobre a tentativa de controlo da comunicação social são "mau jornalismo". As notícias sobre o que fez ou não fez no Freeport são "mau jornalismo". As notícias sobre a licenciatura na Universidade Independente são "mau
Companheiros de Alberto João Jardim
Portugal precisa de contraditório público ao poder (ou poderes) mesmo que tenha por detrás o trabalho subterrâneo de outro poder (ou de outros poderes) como, já ouvi insinuar, teria acontecido na chamada "perseguição a Sócrates" levada a cabo pela TVI e/ou pelo semanário Sol.
Impedir a flutuação pela opinião pública de notícias que põem em xeque os poderosos, desde que estejam ancoradas num rochedo de verdade (e mesmo que essa rocha tenha sedimentos de traficância, engano, ilusão, promiscuidade e sacanice), significa abrir mais caminho para o abuso do poder; significa menor capacidade de fiscalização e controlo desse mesmo poder; significa permitir a perpetuação de tiranetes abençoados pelo voto.
A informação livre é como uma vacina: utiliza toxinas, bactérias e vírus para combater uma doença. Pode não ser um processo bonito, pode até ser um pouco perigoso, mas funciona e não há substituto mais seguro.
Portanto, ainda bem que ficámos a saber que um grupo de idiotas do PS montou uma infame operação de eliminação de Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz do comando da TVI. Um facto incontestável.
Contestável é a turba de políticos, comentadores profissionais e jornalistas repetir horas e horas a fio, numa chinfrineira acéfala, acrítica, ignorante e insensata, opiniões e conclusões incrivelmente assombrosas.
Pelo que vi na TV, o País - sim, é Portugal inteiro, pois o tom desta gente não admite contestação - pensa que há censura prévia em Portugal. O País acha mesmo que o golpe dos mentecaptos, para além da TVI, abarcava a Impresa, a Cofina e esta casa onde trabalho, a Controlinveste. O País, depois de ler o Sol de sexta-feira, ficou cheio de certezas, eliminou todas as dúvidas sobre os tentáculos do "polvo". O País ignora que, no seu tempo, Mário Soares interferiu na imprensa. E Cavaco Silva. E Guterres. E Durão. E Santana...
O País que me desculpe, mas quando vejo Alberto João Jardim, putativo tirano do Funchal, surgir na linha da frente dos defensores da liberdade de imprensa, barricado ao lado de Pacheco Pereira, um batalhão dogmático de jornalistas em ajuste de contas e um contingente de comentadores oficiais do regime, sou obrigado a concluir que o País está estúpido.
Sócrates, Moniz, Manela e Crespo
Fiquei com a impressão de que José Eduardo Moniz soube de toda esta conspiração e aceitou ir embora, provisoriamente calado depois de negociar uma indemnização paga pela Media Capital. Que loucura!
Fiquei com a impressão de que a Ongoing ajudou à festa e aceitou empregar Moniz. Não percebo é porque Nuno Vasconcelos, o dono dessa empresa, se apresta para dominar a Media Capital. Será que, no final, Moniz volta à TVI? Que loucura!
E acho que Moniz estava há anos à espera do momento em que pudesse exigir a Cavaco Silva a demissão de José Sócrates. E que a Media Capital aceitou afastar Manuela Moura Guedes a troco de coisa nenhuma. Fiquei com a convicção de que todos aqueles senhores são doidos a gerir dinheiro. Que loucura!
Fiquei com a certeza de que Manuela Moura Guedes foi perseguida. Ela foi vítima de um atentado contra a liberdade de imprensa. Mas lembro-me de que Moniz e Manela não foram tão combativos quando o perseguido, na mesma TVI, foi Marcelo Rebelo de Sousa, o patrão se chamava Pais do Amaral e o perseguidor PSD (ou seja, Durão Barroso e/ou Santana Lopes). Nessa altura acabaram por meter a viola no saco. Que loucura!
Fiquei com a impressão de que Mário Crespo é um paladino da liberdade de imprensa, o que é esquisito, pois, quando o jornal 24horas foi invadido ilegalmente pelo Ministério Público (ilegalidade confirmada em todos os tribunais que julgaram o caso e os respectivos recursos), este grande jornalista recusou subscrever um abaixo-assinado de apoio aos seus camaradas de profissão. “Sabe-se lá quem está por detrás daquela gente!” ou “o texto do abaixo-assinado é um bocado radical”, ouviram-no dizer no bar da SIC (nota: à luz dos critérios de Mário Crespo, informações obtidas por tagarelice em ambiente hoteleiro são jornalisticamente válidas). Que loucura!
Fiquei com a convicção de que o primeiro-ministro acha que Crespo é doido e que este mesmo Sócrates tem muita sorte por a justiça em Portugal ser, simplesmente, maluca e conseguir o que o factor opositor, da lógica matemática, garante ser impossível: menos por menos dá… ainda menos.
Quanto a mim, viciado em jornais, não consigo parar de ler. Resta-me, para resistir ao contágio e não ficar lelé da cuca, intoxicar-me em antipsicóticos. Que loucura! Que loucura!
in Diário de Notícias, 9 de Fevereiro de 2010
Como é óbvio, Sócrates não desilude
No final a receita será a do costume: exigir mais sacrifícios para quem trabalha, deixar que as empresas despeçam com facilidade, não permitir ou limitar aumentos salariais e limpar a consciência com uns apoios piedosos aos profissionais da caça ao subsídio.
Tudo o resto será para o Estado sustentar a sua própria gordura ou para distribuir favores a quem gere em nome dos ricos. É assim há mais de 30 anos.
Se há rosto para a crise é o rosto da banca. Em Portugal e lá fora. Nos últimos dois anos, José Sócrates disponibilizou não sei quantos milhares de milhões de euros para salvar bancos portugueses. Só que eles não estavam propriamente em crise, exceptuando o BPN, por motivos criminais, e o BPP, por bebedeira especulativa.
Os cinco maiores bancos portugueses somaram 2.100 milhões de euros de lucro no ano de 2005, 2.660 milhões em 2006 e 2.900 milhões em 2007. No auge da crise financeira mundial, em 2008, estes mesmos bancos conseguiram lucrar 1.730 milhões. E só nos primeiros noves meses de 2009, BES, BCP, BPI, CGD e Santander Totta lucraram 1.448 milhões. Ao longo destes cinco anos estes cinco bancos ganharam mais de seis milhões de euros por dia.
Em contrapartida, em 2005, a banca em Portugal pagou impostos sobre apenas 11,7% dos seus rendimentos. Em 2006 este valor subiu para 19,4%. Em 2007 desceu para 14,5%. Em 2008 voltou a descer para 12,8%. E, segundo a Associação Portuguesa de Bancos, no primeiro semestre de 2009 a banca pagou impostos sobre, apenas, 9,9% das suas receitas! Como isto é possível, não sei.
Sei é que Barack Obama, que não é um perigoso comunista ou um inimigo da economia de mercado, anunciou quinta-feira um novo imposto à banca. Acabada a crise e as ajudas financeiras, o cofre do Estado norte-americano espera cobrar de volta, em 10 anos, 90 mil milhões de dólares.
Por cá ninguém fala disto. Para a esquerda José Sócrates oferece bandeiras como o "casamento gay", de resto uma lei um bocado maricas por proibir a adopção por casais homossexuais. Para a direita reservou a arma que realmente interessa: um orçamento que não incomoda a banca.
Pedro Tadeu e o jornalismo geneticamente modificado
(...)
Para o jornalismo, que supostamente terá no ADN um cromossoma de garantia de total independência face aos poderes político, económico, judicial ou outros, esta posição de serventia face a uma das partes de um conflito jurídico é, embora não inédita, no mínimo bizarra e, em princípio, condenável. E não é por, neste caso, uma das partes desse conflito jurídico ser o representante do Estado que o problema da falta de independência jornalística fica sanado, pelo contrário. "
Pedro Tadeu assentou arraiais como comentador no DN. Teria importância nula, caso fosse mais um, mas não é assim. Foi director do famigerado 24Horas, apostando num jornalismo de "famosos, dinheiro e crime" e escreve agora como figura de referência jornalística, com ética de profissão para dar e vender, pelos vistos.
O que escreve na crónica de hoje, sobre o facto de a jornalista Manuela Moura Guedes ter optado por se constituir assistente no processo Face Oculta, destapa a ignorância e enviezamento profissional do antigo director do 24 Horas.
Ao escrever que o MP é um representante do Estado e uma das partes no processo penal, onde segundo o mesmo cronista, há um conflito jurídico, de partes e em que o MP é uma delas, mostra que sabe nada de nada do b+a=ba do assunto.
Ao escrever que "o jornalismo, supostamente terá no ADN um cromossoma de garantia de total independência face aos poderes político, económico, judicial ou outros," só denota que lhe falta esse cromossoma básico e de tal modo que nem o reconhece nos outros.
O que espanta no caso de Pedro Tadeu, é que haja pessoas assim a escrever em jornais. Ou que os dirijam. O que, aliás, pode ser menos grave, como se verifica em alguns casos.
Manuela Moura Guedes
auxilia Ministério Público
Moura Guedes pretende assim levar à letra aquilo que o Código do Processo Penal determina sobre o papel dos assistentes num processo judicial e que é o seguinte: "Os assistentes têm a posição de colaboradores do Ministério Público, a cuja actividade subordinam a sua intervenção no processo, salvas as excepções da lei." Temos pois esta jornalista a oferecer-se para "colaborar" com o Ministério Público, estando mesmo disposta a "subordinar-se à sua intervenção".
Para o jornalismo, que supostamente terá no ADN um cromossoma de garantia de total independência face aos poderes político, económico, judicial ou outros, esta posição de serventia face a uma das partes de um conflito jurídico é, embora não inédita, no mínimo bizarra e, em princípio, condenável. E não é por, neste caso, uma das partes desse conflito jurídico ser o representante do Estado que o problema da falta de independência jornalística fica sanado, pelo contrário.
Não sabemos o que liquidou, a 19 de Outubro passado, o Jornal Nacional. Não sabemos se Moura Guedes foi mesmo calada pelo poder político ou se, apenas, se estampou sozinha por andar a perseguir, sem razão, o poder político.
Mas se for verdade que Manuela Moura Guedes foi afastada da TVI por motivos políticos? Pode ela manter uma "independência" bacteriologicamente pura? Não.
Mas se for verdade que Manuela Moura Guedes foi vítima de um poder que não se identifica, que não se mostra, que é subterrâneo e mais forte ainda que o poder do Ministério Público? Terá de ficar quieta? Terá de ficar resignada? Não.
Mas se for verdade que Manuela Moura Guedes foi calada para impedir que as notícias desfavoráveis a José Sócrates tivessem a repercussão que tinham, quando ela comandava o principal telejornal do País? Teria ela de ficar quietinha à espera da carta final de despedimento da TVI? Não.
O caso de Manuela Moura Guedes é ilustrável por um dos velhos princípios de Newton, que todos aprendemos na escola: para toda uma acção há uma reacção, oposta e de igual intensidade. A acção que determinou o fim do Jornal Nacional da TVI levou a uma reacção de igual intensidade, cuja consequência será, inevitavelmente, esta: um novo passo atrás na liberdade de imprensa, seja por Moura Guedes ter sido perseguida por José Sócrates, seja por Moura Guedes ter andado a perseguir José Sócrates.
in "Diário de Notícias", 12 de Janeiro de 2010
Lá que há muita coisa oculta, ai lá isso há!
São ocultas as interpretações jurídicas que motivam um procurador e um juiz a acharem que ouviram um crime onde, garante agora Noronha de Nascimento, não haverá afinal nada que dê “sugestão de algum comportamento com valor para ser ponderado em dimensão de ilícito penal”.
São ocultas as atracções fatais que empurram para o precipício do descrédito, cada vez que abrem a boca em público, mentes brilhantes como as do presidente do Supremo Tribunal de Justiça ou do procurador-geral da República.
São ocultas as leituras que levaram um juiz de instrução criminal a achar que deviam ser válidas escutas com o primeiro-ministro, quando a Lei diz o contrário. Mais obscuros ainda são os raciocínios que ditaram a existência dessa Lei, escrita para “salvar”da coscuvilhice judiciária, em casos que não envolvem o exercício de funções de Estado, o Presidente da República, o primeiro-ministro e o presidente da AR, num abuso de privilégio de Poder digno de sinistras ditaduras.
São ocultos os acordos de corredor feitos a seguir a processos-crime com políticos e quelevam a uma repetida modificação “a la carte”de partes do Código Penal e do Código do Processo Penal.
São ocultas as investigações que começam por “prometer” à opinião pública um suborno de 10 mil euros e acabam com uma pífia acusação de “crime de tráfico de influência”. Mas também são ocultos os mecanismos que levam a, na paz dos anjos, o arguido Armando Vara ter ontem regressado ao banco onde jurou não voltar até tudo estar esclarecido.
São ocultas as alavancas que empurram José Sócrates para a suspeita constante: O homem já mastigou insinuações de alegada homossexualidade, dúvidas acerca da obtenção de um diploma universitário, um hipotético caso de suborno no licenciamento do Freeport e conversas que poderiam configurar um crime contra o Estado de Direito.
São ocultos os caminhos que levam as sucessivas investigações ao primeiro-ministro, jornalísticas e criminais, acabarem num desencantado silêncio ilibatório. É insólito haver tanto tiro contra um homem só mas, ao mesmo tempo, é muito mais estranho a pontaria de tantos atiradores estar coerente e aparentemente desafinada.
Conclusão: O irónico homem que inventou o nome “Face Oculta” para identificar uma fraude sucateira conhece mesmo muito bem o país onde vive.