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Quem foi o burro que deu o canudo aos professores burros?

Se eu acreditar no ministro da Educação (acreditar em Nuno Crato é difícil...) parece que na prova de avaliação de 2.490 professores (0,14% do universo total dos professores do ensino público) houve quem desse "20 erros numa frase". Vamos admitir a veracidade da informação e a conclusão implícita: há professores burros a dar aulas. Nem vou discutir isso, vou apenas perguntar: "se é assim, quem foi o burro que lhes deu o canudo para serem professores?"

Os examinados tinham todos menos de cinco anos de profissão pelo que a certificação do curso que lhes validou a habilitação para a docência só pode ter acontecido com Maria de Lurdes Rodrigues ou com o próprio Nuno Crato.

Os professores em greve traíram ontem o País?

Este texto sintetiza o pensamento e o discurso de qualquer governante, militante do PS, do PSD, do CDS ou alegado independente que nos últimos 30 anos tenha opinado sobre a greve. Qualquer greve. É toda uma filosofia política. Passo, então, a citar.

"Os professores podem fazer greve, é um direito, mas essa luta não pode afetar a vida dos alunos. Os maquinistas, os ferroviários, os motoristas da Carris e da STCP também, é legítimo, mas devem salvaguardar o transporte das pessoas que querem trabalhar."

"A greve é um direito inalienável, mas os estivadores devem levar em conta o superior interesse nacional e descarregar os navios. Também os pilotos e os controladores aéreos podem fazer greve se os aviões importantes voarem. Os bombeiros têm direito à greve se ficarem em alerta para emergências. Os guardas prisionais grevistas devem levar os presos a passear ao pátio da cadeia. Mas, repito, não pode estar em causa o direito à greve."

Como acabar com este atraso de vida

Parece que se discute agora a obrigatoriedade da disciplina da Educação Sexual nas escolas. É um assunto obviamente delicado mas, convenhamos, também é coisa do século passado. Quando fui aluno do secundário, há mais de 30 anos, projectava-se a existência de uma disciplina desse tipo. Ao fim deste tempo todo estamos exactamente no mesmo sítio, a discutir se sim, se não. Um atraso de vida, constata-se.
A famosa reforma educativa de Maria de Lurdes Rodrigues, espremida, não significava mais do que arranjar maneira de reduzir as despesas do Estado com a educação pública. O resto, imaginativo, erudito e hipócrita, era um exercício de malabarismo para defender, ideológica, legal e pedagogicamente, a odisseia. Quantos

A educação dos filhos da televisão

O êxito extraordinário dos “Morangos com Açúcar” foi olimpicamente ignorado pela maioria dos jornais (com a excepção, desculpem lá a gabarolice, aqui do 24horas) até ao momento do acidente de automóvel que vitimou mortalmente o jovem que encarnava a personagem “Dino” naquela série. E isto apesar de, provavelmente, este programa de televisão ter mais influência na formação moral e ética de toda uma geração de jovens do que o próprio sistema de ensino e, lamento, uma grande massa de pais incapazes.

Juntou-se agora a “Floribella”, o êxito repete-se, soma-se e chega para os dois programas, apesar de me parecer que a aposta da SIC terá adeptos um pouco mais novos que a produção da TVI. Mas isso, para a questão que me traz aqui, é irrelevante.

E a questão que me traz aqui é esta: os “Morangos” e a “Floribella” estão a fazer bem ou mal aos nossos adolescentes? Vou falar pela minha experiência que vale o mesmo que a de qualquer outro pai. Quando os “Morangos” começaram a ser transmitidos a minha filha estava na idade de se interessar e, disfarçadamente – como fiz com séries brasileiras congéneres como a “Malhação” – espreitei, não fosse o Diabo tecê-las...

E tenho a dizer bem. As séries deste tipo tratam os adolescentes como gente inteligente. Não lhes impingem um mundo cor-de-rosa e ajudam-nos a problematizar temas centrais na vida deles, como as primeiras relações amorosas, os conflitos na escola e em casa, a droga, etc. Há um sentido de bem e de mal que se sobrepõe ao próprio enredo da série que corresponde ao sentido de bem e de mal que nós desejamos que os nossos filhos adquiram. Há um frequente apelo à solidariedade e ao empenhamento cívico que me parece relevante. E com a vantagem de tudo isto ser servido sem ponta de paternalismo. Por mim, acho brilhante e, como pai, agradeço a ajudinha.

in 24horas, 8 de Julho de 2006

O orgulho de um professor

Em tempos que já lá vão dei aulas de uma disciplina que tinha o enganador nome de “Tecnologias de Informação”. Resumia-se, na prática, a ensinar adolescentes com mais de 16 anos a escrever e a fazer contas num computador. O problema maior era que uma grande parte dos alunos do 10.º e 11.º anos que encontrei nunca poderia ter grande brilhantismo na coisa porque não sabia sequer escrever em papel, quanto mais através de um computador... E quanto a contas, ainda era pior. Mas também é verdade que só havia um PC para cada três alunos, que metade do tempo de ensino era destinado a aulas teóricas que não interessavam nem ao Menino Jesus (eram só um truque do Ministério para iludir a falta de equipamento) e que nos jogos os putos “burros” se revelavam, afinal, muito desembaraçados quanto à utilização da informática. Para ser sincero, adorei a experiência – até porque nas tais aulas teóricas podia falar, falar e falar sem ser interrompido, o que enchia de vento a parte mais pretensiosa do meu ego – mas terminei-a porque o jornalismo começou a pagar-me melhor e a ocupar- -me cada vez mais tempo. E, peço desculpa, também porque o mundinho dentro da sala de professores era insuportável...

Uns dois anos depois estava num centro comercial a comprar óculos. Enquanto olhava para o espelho a ver se uma armação amarela me dava o ar de intelectual modesto com que procurava vender-me ao mundo, oiço ao meu lado uma vozinha tímida: “Professor?...”. Era uma das minhas antigas alunas de informática que estava ali. Senti-me ultraorgulhoso: chamarem-me professor, fora do contexto das aulas, e reconhecerem-me assim, com evidente prazer! Falámos um bocadinho, percebi que a cabeça dela estava bem arrumadinha – por acaso era das moças mais brilhantes que apanhei nas aulas – e, depois, lá nos despedimos. Nunca mais a vi. Mas convenci-me que, com o meu trabalho, dei qualquer coisa àquela rapariga que ela achou ter valido a pena receber. Qualquer coisa mais do que aprender a escrever num computador. Valeu, portanto, a pena.

in 24horas,. 14 de Janeiro de 2006

A vida dos meninos ricos

A particularidade mais relevante da vida de um adolescente rico não faz parte dos pequenos luxos que se somam no dia-a-dia de filho de milionário: não é a mota aos 16 anos, não são as viagens a Londres ou Paris em low-cost (a mesada, apesar de tudo, não dá para mais...), nem são as festas nos montes alentejanos da família. A particularidade mais relevante da história que contamos no 24horas de hoje é a de constatarmos este facto: Está generalizada a prática de que todos estes meninos e meninas, depois de terminarem a escola secundária, devem ir tirar o seu curso universitário no estrangeiro, de preferência nos Estados Unidos da América. É aqui que a chamada “classe alta” marca as distâncias, mantém a sua posição de elite e garante a própria sobrevivência da espécie. Há 50 anos a classe média tirava o 5.º ano dos liceus, a burguesia mais endinheirada o 7.º ano e as universidades eram exclusivas das elites. Agora, a classe média tira uma licenciatura, a burguesia mais endinheirada avança para um mestrado e as “boas famílias” subsidiam um diploma estrangeiro para os seus jovens. O dinheiro, como já se sabe, mantém sempre as distâncias.
In 24horas, 12 de Julho de 2009