Os cortes não definitivos de Passos
"Não quero contribuir para criar uma ideia incorreta. Uma coisa é transformar uma medida temporária numa medida duradoura. A contribuição extraordinária de solidariedade [CES] foi desenhada com caráter de emergência. Não vai ser cristalizada para futuro, vai ter de ser substituída."
Ver mais frases da entrevista aqui neste link.
Psicanálise ao filho de António Passos Coelho
A história pessoal do Dr. António Passos Coelho, contada pelo próprio, tem carga simbólica. O pai do atual primeiro-ministro foi para Angola em 1970. Montou e dirigiu num hospital um serviço de pneumonologia apontado como "moderno". Há o 25 de Abril, há a descolonização, há a guerra entre MPLA e UNITA. O médico teve de ir embora, tal como a mulher e os quatro filhos. Embarcou no último avião de carreira para Lisboa, em novembro de 1975. Uma odisseia pessoal, semelhante à que traumatizou todos aqueles que, na altura, classificámos com um vagamente paternalista e um tendencialmente insultuoso termo: "retornado".
Diz o autor do livro "Angola, amor Impossível", numa entrevista à agência Lusa, que achou Portugal "sujo e imundo". Refere o desleixo das pessoas de então, que achou mal vestidas. Impressionou-lhe ver tantas barbas mal feitas. Notou nos rostos "uma alegria que não parecia natural".
Ainda bem que Passos Coelho não percebe
Já li e ouvi tantas interpretações sobre a decisão do Tribunal Constituicional de impedir o corte de pensões aos reformados do Estado que fico meio abananado: como é que 11 dos 13 juízes assinam uma declaração de inconstitucionalidade (duas juízas votaram da mesma maneira mas com razões diferentes) e os políticos afetos ao Governo encontram ali argumentos para preparar outra proposta de lei que obtenha a finalidade agora falhada?
O melhor mesmo é citar o dito acórdão e a hipótese académica que ele abre: "Uma medida que pudesse intervir de forma a reduzir o montante de pensões a pagamento teria de ser uma medida tal que encontrasse um forte apoio numa solução sistémica, estrutural, destinada efetivamente a atingir os três desideratos (...): sustentabilidade do sistema público de pensões, igualdade proporcional e solidariedade entre gerações."
Passos Coelho respeita a sua geração rasca
No dia seguinte o jornal Público coloca a fotografia do momento na capa e titula: "Geração rasca". Um editorial do diretor acusa os estudantes de transformarem a manifestação "num desfile de palavrões, cartazes e gestos obscenos, piadas de caserna ou trocadilhos no mais decrépito estilo das velhas 'repúblicas' coimbrãs" .
O Diário de Notícias titula na capa "Protesto Global" e guarda a foto de um traseiro ao léu para as páginas interiores. O diretor adjunto defende a atuação da PSP e acusa os estudantes de "se atirarem aos agentes e se ferirem ao 'chocar' com os bastões policiais".
Passos Coelho é um campeão
Há ou não há uma crise de desemprego sem precedentes neste país? É ou não é verdade que a OCDE prevê que, no final do ano, estarão sem trabalho 650 mil portugueses? E isto não significa quase 12% de população activa sem produzir? Não teremos famílias e famílias a viver do Estado, dos subsídios de desemprego, e a consumir muito pouco do que o mercado tiver para vender? Isso não é, inevitavelmente, calamitoso?
E as empresas que, nos últimos três anos, puseram na rua 210 mil trabalhadores? Tiveram alguma dificuldade em fazê-lo? Não chegaram a Tribunal de Trabalho com argumentos tão vagos quanto o das "dificuldades conjunturais" ou o da "necessidade de redimensionamento"? Não conseguiram os
Os desempregados que paguem a crise
José Sócrates, por seu lado, confirmou-se a si próprio como mero poder transitório ao, no final dessa encenação política, anunciar aos portugueses que a resposta que tinha, a resposta do seu Partido Socialista para a "ofensiva" dos mercados financeiros, era um corte nos subsídios sociais. Traduzido por miúdos, foi o mesmo que ouvi-lo dizer, em horário nobre: "Os desempregados que paguem a crise!" Como suicídio político, foi do mais confrangedor que já se viu...
Mas o essencial da questão não é isso. O elemento mais relevante desse momento de suposta união nacional
Pedro Passos Coelho,
o jovial e bom rapaz
Mas isto de ver caras corresponde a não ver corações e, afinal, o eterno jovem arrisca-se a ser líder do PSD e, a partir daí, a correr para derrubar Sócrates e o PS. Há dias lançou um livro, intitulado "Mudar", onde explana o seu pensamento político.
Resolvi tentar saber o que vai por ali. Mas como também me custa dar 15 euros por um texto certamente maçador, resolvi ir ao site passoscoelho-mudar.com e ver, gratuitamente, as 18 páginas que lá estão.
A primeira frase que pude ler foi esta: "Nós, portugueses, como acontece certamente com todos os outros povos, nunca estaremos conjuntamente de acordo quanto ao conteúdo das políticas que devemos prosseguir." Esta evidência está ao nível do "se não estivesse morto, estaria vivo" que celebrizou o marechal La Palice. Belo!
Não me deixei ir abaixo e prossegui: Fiquei então a saber que este Pedro acha que o Estado deve preocupar-se com apenas quatro questões: segurança, justiça, defesa e diplomacia.
Fiquei a saber que este jovial político defende "a passagem de um Estado prestador de serviços para um Estado regulador", assim uma espécie de Alta Autoridade de coisas genéricas.
Fiquei a saber que, para este bom rapaz, a educação e a saúde devem ser asseguradas pelo sector privado ou pagos ("co-financiados", diz ele) pelos utilizadores. Fiquei a suspeitar, nas entrelinhas, que ele está quase convencido a cobrar propinas no ensino obrigatório, a exigir lucros no tratamento do cancro ou a aliviar os ricos de taxas para a Segurança Social. Mas, querido povo, descansai que ficará o Estado "a regular" tudo…
E, finalmente, fiquei a saber que a profundidade deste cérebro acha que o Estado "precisa de ter, para além do controlo democrático do Parlamento, o que podemos chamar de conselhos de opinião ou conselhos consultivos". Para quê? Para, pagos pelo Estado, "regular" o próprio Estado. Que belo instrumento de controlo político e de distribuição de "tachos"!
Não preciso de ficar a saber mais. Com Passos Coelho poderemos ganhar um bom rapaz no Governo, mas os maus rapazes do costume, na noite em que ele for eleito, abrirão garrafas de champanhe.