O casamento do intelectual e da vedeta

O senhor Newman gostava de ler escritos anónimos nas paredes: os insultos, as ameaças, os palavrões. Para ele esses rabiscos eram, cito, "um jornal secreto a publicar o que as pessoas realmente pensavam, não diluídas pelos medos da propriedade e pelos interesses egoístas".

O senhor Newman é o protagonista da primeira novela do escritor Arthur Miller. O autor de Morte de Um Caixeiro Viajante foi, por sua vez, personagem na vida da atriz Marilyn Monroe: amolgados na imprensa durante um fulminante namoro, casaram-se, sofreram cinco anos e separaram-se em 1961. Um ano e meio depois ela morreu, encharcada em álcool e barbitúricos.

Sócrates julgado pela moral de Sócrates

José Sócrates escreveu um livro sobre a tortura em democracia. Explica, numa das entrevistas do último fim de semana, especialmente notável entre conversas notáveis, que, excetuando decisões entradas nos domínios do risco da vida humana e do sofrimento, não é um deontologista, não segue "correntes morais dos que acham que têm imperativos categóricos e uma ética da convicção". E explicita: "A boa ação é aquela de que resulta mais felicidade do que sofrimento. É um cálculo."

José Sócrates defende, convicto, o realismo virtuoso do paradoxo dissimulado: "É preciso medir as consequências da boa ação." Por isso, como político, garante que nunca aceitaria dar uma ordem de tortura. No entanto, sobre quase tudo o resto, sobre toda a ação política quotidiana, recusa o moralismo predestinado: o que é verdadeiramente moral na política é "o cálculo do mal menor", defende. Chama a isto "ética da responsabilidade".

Uma fundada suspeita de abuso da lei

A defesa de um sector empresarial do Estado saudável, seja qual for a dimensão e a missão que se pretenda dele, tem de conjugar a probidade com a competitividade. Esta evidência torna absolutamente demagógico defender um nivelamento por baixo das remunerações dos quadros dessas empresas se elas tiverem de lutar no mesmo mercado de outras empresas privadas onde se pratiquem remunerações mais elevadas do que o padrão definido para o gestor público. A alternativa é contratar maus profissionais e, com isso, contribuir para levar essas empresas públicas à ruína, acabando por favorecer o sector privado ou criando condições políticas para que a opinião pública aceite uma privatização ao desbarato, como já aconteceu várias vezes no passado.

Como este Governo ajuda os desvalidos

Pois este prestimoso Governo não se limita a cortar salários na função pública, a diminuir pensões e reformas a velhos e viúvos, a recrear impostos brutais sobre quem trabalha, a transformar o subsídio de férias e de Natal numa inexistência.

Este diligente Governo também quer ser amigo dos desvalidos e, por isso, traduz a raiva popular contra o poder num corte de 15% sobre as subvenções vitalícias de políticos desativados.

Paulo Portas devia reformar-se

Talvez fosse boa altura para Paulo Portas pensar na reforma. Ele trabalha desde os anos 70 e, suponho, a sua precoce visão de estadista (aquela onde levanta ligeiramente o olhar por cima das cabeças da multidão, observando, fascinado, o horizonte...) certamente o impediu de fazer batota nos descontos para a Segurança Social.

Sim, Portas só tem 51 anos mas vai pelo menos com 36 de carreira contributiva (dizem que começou a trabalhar aos 15) e um brilhante currículo a identificá-lo como jurista, jornalista, professor universitário, líder de uma empresa de sondagens e político.

Seis verdades sobre as eleições

1. A abstenção foi elevada mas não atingiu os 47,4% apontados pelos dados oficiais. O censos de 2011 indica que havia então 10 milhões e meio de habitantes em Portugal. Não é possível termos nove milhões e meio de eleitores, como os cadernos eleitorais apontam, pois há pelo menos dois milhões de portugueses sem idade para votar (podem confirmar os dados no site Pordata). A abstenção real de domingo variará entre 39% e 42% dos que realmente poderiam participar no sufrágio. O coro de lamentações habitual sobre uma crise nacional de participação política é, assim, factualmente exagerado.

2. O PS não teve a maior vitória de sempre. Ganhou 150 câmaras (contando com a coligação no Funchal) é verdade, mas perdeu 241 mil votos, ou seja, registou, em relação a 2009, menos 11% de cruzinhas nos boletins de votos camarários, manuscritas no quadrado colocado à frente do seu símbolo. Mesmo em Lisboa, na sua maior vitória, perdeu quase sete mil votos.