Porque é que o DN é mais importante que os outros?

Alexandre leu no site do Diário de Notícias que apenas 67 dos 150 doentes com hepatite C em risco de vida receberam o medicamento inovador que o ministro da Saúde prometera entregar até ao fim do ano. Alexandre foi um dos privilegiados. Tinha, agora, 90% de hipóteses de salvar a vida. Mas estava indignado. Chamou a filha: “Joana, estás a ver aqui isto no DN? Estes tipos continuam a condenar à morte uma data de gente…” e, ao mesmo tempo, lembrou- se do dia em que o pai o chamou, de jornal na mão, a perguntar: “Estás a ver aqui isto?...”
“Fizeste agora 10 anos, já tens idade para começar a perceber estas coisas.” A notícia anunciava para o domingo seguinte, 6 de outubro de 1974, a mobilização da população para um dia de trabalho gratuito. “No domingo vamos com uns amigos limpar a estátua do Marquês do Pombal”, declarou João Mário, à espera das perguntas do Alexandre, ao mesmo tempo que se lembrava do dia em que a mãe também o chamou, de DN na mão, a perguntar: “Estás a ver aqui isto?...”

As viagens do Mercedes de Sócrates

Uma das decisões mais curiosas que José Sócrates teria supostamente tomado para usar o dinheiro que (dizem os jornalistas com autoproclamado acesso a dados da investigação) o amigo Carlos Santos Silva lhe passava para as mãos era a de obrigar o motorista a transportar umas notas para França, de carro, aconchegadas num envelope. A viagem de ida e volta, garante o guia Michelin, duraria, se o condutor não dormisse, umas 38 horas. Além disso custaria 726 euros em gasolina consumida pelo Mercedes Classe S que João Perna tinha para guiar, mais uns 220 euros em portagens. Totalizaria 946 euros. Está cara a boa vida!...
Um bilhete de avião custaria uns 280 euros e dava para ir e voltar no mesmo dia. O próprio Sócrates, em vez de escravizar o motorista, poderia aproveitar as suas viagens semanais a Lisboa para comentar a política nos estúdios da RTP e enfiar uns milhares de euros no bolso do casaco. Mesmo que vissem as notas no raio X do aeroporto da Portela, alguém o interrogaria?...

Ninguém quer saber das irmãs que fazem bolos

No Parlamento perguntaram a Pedro Queiroz Pereira: “Poderá dizer-se que se tivesse chegado a acordo com Ricardo Salgado no conflito sobre o controlo da Semapa não teria feito a denúncia sobre o Grupo Espírito Santo ao Banco de Portugal?” O até então descontraído industrial fechou o rosto, refletiu numa pausa e admitiu: “Poderá dizer-se que não. Não teria feito a denúncia.” Esta é a confissão da amoralidade nas alianças e nos conflitos desse mundo que a comissão de inquérito ao caso BES nos dá a conhecer: quase nenhum inquirido, na realidade, quer saber muito do respeito pela lei, das perdas dos pequenos acionistas, da honra pessoal ofendida ou do destino das pobres irmãs Salgado que fazem bolos à noite, coitaditas...
Quando Ricardo Salgado aparenta, em dez horas de audiência extenuante, uma mistura de fresca inteligência discursiva com uma, literalmente, inacreditável ignorância sobre a criação do buraco financeiro que acabou por destruir o império familiar que liderou, está a guiar-se por essa amoralidade.

E se Carlos Alexandre bate à porta de Passos Coelho?

O entusiasmo da fação de opinadores felizes com o trabalho da justiça portuguesa na investigação à corrupção, branqueamento de capitais e fuga ao fisco de José Sócrates (um péssimo primeiro- ministro) seria igual se o juiz que elabora a instrução desse processo fosse bater à porta do atual primeiro- ministro (candidato a ser tão mau quanto o antecessor) com um mandado resultante da ligação de Passos Coelho à empresa Tecnoforma?
Muitos dos que põem hoje o juiz Carlos Alexandre nos píncaros da moral jurídica passariam rapidamente a diabolizá-lo como justiceiro irresponsável. As fugas de informação, as violações do segredo de justiça, o assassinato reputacional subsequentes seriam violentamente criticados, com razão, e não relativizados como agora acontece no caso de Sócrates. A infeção ideológica, o interesse pessoal ou o empenho partidário nas apreciações que vou lendo são demasiadas vezes óbvios e angustiantemente tristes, sobretudo por não serem claramente assumidos.

Homenagem ao malandro roubada a Chico Buarque*

Eu quis fazer um fado em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço da vida dos jornais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem:
Aquela fina malandragem
Não mora lá mais.

Agora já não é normal
Malandro ir p’ro Estado governar o maralhal,
Malandro respeitado com cargo institucional,
Malandro medalhado como herói profissional,
Malandro com retrato na revista trivial,
Malandro com contrato, com banco e capital
Sem nunca se dar mal!