Combater pela liberdade a dar tiros à liberdade

Infetamos de paixão, de ideologia e de religião o debate sobre a resposta europeia ao terrorismo, a caminho da legitimação de uma deriva securitária que fará de todos nós uns prisioneiros do aparelho policial e militar que, cinicamente, se montará para defender a liberdade europeia. Estamos, portanto, lixados.

O combate ao terrorismo islâmico na Europa, tal como a luta contra qualquer forma de crime organizado, passa por coisas óbvias, corretas: detetar e eliminar a circulação ilegal de armas na Europa; partilhar informações entre polícias; recusar pagar raptos a terroristas; estancar fontes de financiamento destas organizações; restabelecer medidas básicas de segurança civil aplicadas durante décadas de atentados frequentes na Grã-Bretanha, Espanha, Alemanha e Itália quando o IRA, a ETA, o Baader-Meinhof, inúmeros grupos radicais (alguns a soldo de serviços secretos ocidentais) e a máfia abatiam pessoas ou faziam explodir bombas nas ruas.

Eu também sou Charlie mas não vou com a manada

Defendem o direito de publicar um cartoon de Maomé, nu, genitais à mostra, rabo espetado com uma estrela no cu mas convivem com a lei que promete três anos de cadeia a quem injurie o Presidente da República.

Gritam pela liberdade de imprensa mas só reconhecem o direito de ser jornalista a quem o Estado e a elite da classe aceitem passar um cartão profissional.

São cúmplices por inação da opacidade informativa do governo, da Comissão Europeia, das autarquias, da justiça, dos bancos, das grandes empresas, dos clubes, dos falsos ricos, de uma hipócrita e ideológica noção de reserva da vida privada utilizada como álibi para não dar notícias.

O processo Sócrates é igual ao dos submarinos?

O processo dos submarinos que atingiu a imagem de Paulo Portas tem algum paralelo com o processo que liquidou a reputação de Sócrates? Sim e não. Sim porque as violações de segredo de justiça provenientes da investigação e as interpretações sobre essas informações feitas por atores do palco mediático envenenaram o julgamento da opinião pública quer sobre Portas quer sobre Sócrates, embora com gradações e intensidades diferentes.
Não, os processos não são paralelos porque Portas nunca foi arguido, sai totalmente ilibado sem contestação relevante enquanto Sócrates, preso preventivo, terá de ser mesmo condenado para salvar a face da Justiça: se, por burrice inultrapassável do Ministério Público, acabar por ser libado, verá metade do país acreditar que os políticos manipularam os tribunais e “cozinharam” uma fraca inocência.