Não temos autoridade para criticar os polícias

Cabeças que se orgulham de exibir um carimbo de sensatez na testa têm anunciado o descalabro da autoridade, o fim da solidez democrática, talvez mesmo o esboroamento da Pátria, a propósito da manifestação de polícias da passada quinta-feira.

Recordo a evolução dos acontecimentos: as grades que separavam 10 mil agentes da PSP dos elementos da Unidade Especial de Polícia foram, a dada altura, levantadas. Um grupo de manifestantes subiu a escadaria do Parlamento. A polícia de choque deixou seguir. Os homens pararam antes das arcadas, gritaram palavras de ordem e, minutos depois, voltaram a descer. Tudo em grande excitação mas em relativa paz - nem um papel caído no mármore ficou a conspurcar o solo que pisam os deputados da Nação.

César das Neves não pode ficar calado

Ele acha que sem uma descida generalizada de ordenados o País não se safa. Ele garante ser disparatado subir o salário mínimo pois isso prejudica os pobres, os trabalhadores menos qualificados, enviados dessa forma para um despedimento certo. Ele não acredita no Estado. Contraditoriamente, ele acha que o Estado deve pagar aos pais para ficarem em casa alguns anos a cuidar dos filhos.

Ele acusa Portugal de ter desperdiçado dinheiro em consumo fútil. Ele atira-se ao Tribunal Constitucional por fazer política. Ele ataca os sindicatos dos médicos, dos juízes e dos professores com um nome crismado de pecado: corporações. Ele acusa a maior parte dos pensionistas que protesta de estar a fingir ser pobre.

Álvaro Cunhal a subir uma escadaria infinita

Um dia Ruben de Carvalho iniciou o que, durante alguns anos, vigorou como ritual intermitente. Na sala de reuniões do Avante! o então chefe de redação do jornal, a Ivone e a Noémia montaram na grande mesa umas fatias generosas de presunto e pão alentejanos, chouriços transmontanos, queijo serrano e vinho verde minhoto - Alvarinho, uma bebida fantástica e, para a função pretendida, uma piada óbvia.

Chamou-se o Álvaro propriamente dito à surpresa de aniversário e passámos uma hora ou duas a brincar às futilidades, beberricando o diminutivo, fresco.

Portugal e Angola foram sacaneados

Os editoriais do Jornal de Angola a desancar Portugal são insuportáveis. A forma é gongórica, o tom arrogante, a visão distorcida, a sabujice evidente, a parolice risível. Aquilo lembra a escola do pós-guerra do Diário da Manhã, num exercício de jornalismo falsamente legitimado pelos interesses da Pátria e interpretado por uma moral política inspirada em Salazar. Isto quer dizer que Portugal se tem portado bem com Angola? Não.

Tenho hesitado em escrever aqui sobre este diferendo. No entanto, quando o ministro Rui Machete fez a estúpida figura de simular na rádio angolana um pedido de desculpas pelo desempenho da justiça portuguesa estive quase, mesmo quase, a alinhavar um comentário... Mas desisti. Desisti por muita coisa escondida nos bastidores do palco onde esta peça se desenrola me escapar e por, supostamente, capitais angolanos estarem a negociar a sua entrada no corpo acionista da empresa onde trabalho. Isto coloca--me, apesar do meu estatuto de mero empregado da Controlinveste, sob suspeita. Mesmo assim, hoje, ultrapassado o que considero ser o limite de um comportamento aceitável por parte do meu país, arrisco.