O engenheiro Belmiro de Azevedo, dono há 23 anos do Público, fez, em entrevista ao seu próprio jornal, múltiplos comentários sobre o diário e sobre os seus jornalistas. As afirmações que me interessam são, no entanto, apenas duas.
Na primeira, o magnata da Sonae diz que "os diretores são uns cagarolas e cada vez que um quer mexer numa peça é automaticamente acusado de censura".
Na segunda, o capitalista marca Continente declara que "os custos do Público estão bem identificados: 50% são encargos com pessoal, 38% são custos de produção do jornal e 12% são custos de telecomunicações e outros. Os custos com pessoal devem descer substancialmente".
Comecei nos jornais em 1983. Passámos da máquina de escrever ao computador, do telex à Internet, do filme em negativo à fotografia digital, da fotocomposição ao computer to plate, do suporte em papel aos websites, telemóveis e tablets. Trabalhamos agora com texto, fotos, gráficos, som e vídeo.
Nestes 30 anos a medida mais popular de gestão nos jornais em crise foi sempre a mesma: cortar custos salariais, despedir. Quase sempre a empresa jornalística que a aplicou ficou, depois, em pior situação financeira. Como diria Cavaco Silva, é uma espiral recessiva.
O pior da manifestação é mesmo o dia seguinte
O problema das enormes manifestações, como a de sábado passado, é o dia seguinte, quando se exige um pouco mais de nós do que uma pueril discussão sobre o alegado milhão ou os supostos 500 mil que realmente protestaram nas ruas.
No dia seguinte, dizem os defensores do Governo, ninguém apresenta alternativas às políticas de Pedro Passos Coelho. Isso não é, simplesmente, verdade. PS, PCP e Bloco, inúmeros economistas (independentes, de esquerda, do "centrão", gente biograficamente ligada ao PSD e ao PP), jornalistas, vários académicos, todos os parceiros sociais e até intelectuais estrangeiros têm listado, com maior ou menor arrojo, com maior ou menor dissonância em relação ao programa vigente, inúmeras ideias diferentes, de pormenor ou de fundo, para tentar melhorar a situação. Só por desonestidade intelectual se pode dizer que todas elas são irrealismo radical impraticável, demagogia populista ou ilusão revolucionária anacrónica.
No dia seguinte, dizem os defensores do Governo, ninguém apresenta alternativas às políticas de Pedro Passos Coelho. Isso não é, simplesmente, verdade. PS, PCP e Bloco, inúmeros economistas (independentes, de esquerda, do "centrão", gente biograficamente ligada ao PSD e ao PP), jornalistas, vários académicos, todos os parceiros sociais e até intelectuais estrangeiros têm listado, com maior ou menor arrojo, com maior ou menor dissonância em relação ao programa vigente, inúmeras ideias diferentes, de pormenor ou de fundo, para tentar melhorar a situação. Só por desonestidade intelectual se pode dizer que todas elas são irrealismo radical impraticável, demagogia populista ou ilusão revolucionária anacrónica.
A morte não é igual para todos
Todos temos um destino igual, a morte, mas todos somos diferentes na forma como a encaramos. A morte é o desenlace perplexo de todas as marcas feitas pela vida na nossa personalidade, intelectual e física; é a paragem de uma contínua e complexa soma de acontecimentos criadores de uma unidade orgânica irrepetível, a que chamamos indivíduo. A morte, o fim de uma história pessoal numa dada geografia física e social, nunca pode ser igual para todos, mesmo dentro de um grupo humano que procure, no governo da vida, igualdade de oportunidades para cada um se construir como indivíduo. A morte é ingovernável.
Texto publicado no suplemento cultural do Diário de Notícias, Quociente de Inteligência, em 23 de Fevereiro de 2012
Durante 19 meses um profeta do ateísmo, Christopher Hitchens, lidou, amparado e também, por vezes, incomodado pela mais moderna medicina, com o desenvolvimento de um cancro no esófago. A sua mente brilhante transformara-o numa vedeta dos meios intelectuais norte-americanos, graças a 17 livros sobre política, literatura e religião, a par de uma infinidade de textos em jornais revistas. Era um orador de agenda cheia para conferências e idas à televisão. Resolveu escrever para a Vanity Fair uma reportagem da sua doença, um relato da ida a uma terra a que chamou “Tumorlândia”. Depois da morte, a 15 de dezembro de 2011, esses textos foram coligidos num livrinho intitulado, na sua versão portuguesa, Mortalidade”, acabada de ser editada.
Hitchens foi estoico, foi esperançoso e foi ao ponto. Ele analisa os lugares mais comuns das mortes por doença prolongada: a tentativa de estender no tempo, até ao insuportável, aquilo a que chamamos uma vida normal; a relação com a família, os amigos íntimos e as resultantes da sua atividade profissional; os rituais da medicina e o carácter do pessoal de saúde; a violência dos tratamentos e os seus vários passos; a degradação das capacidades físicas; a dor.
Brinca, várias vezes, à medida que se sente cada vez mais fraco, com a ironia de uma expressão geralmente atribuída a Friedrich Nietzsche(1): “O que não me mata torna-me mais forte.” Expõe cruamente as esperanças e as desilusões dadas pelos vários tratamentos e pelos avanços mais recentes da medicina. Ilustra o medo pelos efeitos entorpecedores nas funções neurológicas das drogas administradas para controlar a dor. Nega, talvez com enganador orgulho, a teoria das etapas de Elisabeth Kübler-Ross(2) segundo a qual os doentes deste tipo passariam – embora, como explica em Educar para a Morte, João Carlos Gama Martins Macedo, sem sequências ou ritmos iguais – da negação da doença à revolta, da negociação à depressão, até chegarem, por fim, à aceitação.
É detalhado na descrição do sofrimento físico, mas nunca dá um sinal de verdadeiro desespero. Também não mostra qualquer tipo de abalo na sua convicção ateia nem sobre a existência, ou não, de outra vida para além desta. Nunca coloca, apesar do frequente, longo e violento sofrimento físico, que detalha, a questão de antecipar o fim, de morrer por suicídio assistido ou por eutanásia. Da primeira à última página escreve, aparentemente, um homem feliz.
Hitchens foi estoico, foi esperançoso e foi ao ponto. Ele analisa os lugares mais comuns das mortes por doença prolongada: a tentativa de estender no tempo, até ao insuportável, aquilo a que chamamos uma vida normal; a relação com a família, os amigos íntimos e as resultantes da sua atividade profissional; os rituais da medicina e o carácter do pessoal de saúde; a violência dos tratamentos e os seus vários passos; a degradação das capacidades físicas; a dor.
Brinca, várias vezes, à medida que se sente cada vez mais fraco, com a ironia de uma expressão geralmente atribuída a Friedrich Nietzsche(1): “O que não me mata torna-me mais forte.” Expõe cruamente as esperanças e as desilusões dadas pelos vários tratamentos e pelos avanços mais recentes da medicina. Ilustra o medo pelos efeitos entorpecedores nas funções neurológicas das drogas administradas para controlar a dor. Nega, talvez com enganador orgulho, a teoria das etapas de Elisabeth Kübler-Ross(2) segundo a qual os doentes deste tipo passariam – embora, como explica em Educar para a Morte, João Carlos Gama Martins Macedo, sem sequências ou ritmos iguais – da negação da doença à revolta, da negociação à depressão, até chegarem, por fim, à aceitação.
É detalhado na descrição do sofrimento físico, mas nunca dá um sinal de verdadeiro desespero. Também não mostra qualquer tipo de abalo na sua convicção ateia nem sobre a existência, ou não, de outra vida para além desta. Nunca coloca, apesar do frequente, longo e violento sofrimento físico, que detalha, a questão de antecipar o fim, de morrer por suicídio assistido ou por eutanásia. Da primeira à última página escreve, aparentemente, um homem feliz.
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