O meu poder de jornalista

A experiência de decidir quais são os 10 melhores filmes de todos os tempos é muito engraçada, como podem verificar mais à frente pelo relato do jornalista Hugo Soares acerca das angústias do júri convidado pelo 24horas a tentar o feito. 

Um livro de divulgação do cinema que adorei em miúdo foi escrito por Luís de Pina e tinha lá um ranking deste tipo. Já não me recordo o método seguido, mas creio que a eleição tinha sido feita na América e era dada como muito credível. O primeiro lugar foi conseguido por “E Tudo o Vento Levou”. Hoje, passados uns 35 anos, só um dos elementos do nosso júri o referiu como um filme elegível entre os 10 melhores e apenas em terceiro lugar. O segundo lugar era “O Couraçado Potemkin”, do russo Sergei Eisenstein. Este já nem aparece, embora Miguel Portas ainda cite, do mesmo cineasta, “Ivan, o Terrível”. “Casablanca”, é claro, estava no livro de Pina. No ranking do 24horas houve apenas uma pessoa que se lembrou dele. 

Quando decidimos fazer esta classificação desejei, mentalmente, que a vitória acabasse por ir para “Citizen Kane”, de Orson Wells. Queria vingar a injustiça cometida sobre o filme no tal livro do malogrado Luís de Pina, que o classificava, “apenas”, em quinto ou sexto lugar. E o júri do24horas, por magra vantagem e sem o saber, fez-me a vontade. Foi feita justiça e eu, prova-se, sou um tipo poderoso, capaz de reparar erros de décadas! 

É estranho que um filme que denuncia os males do jornalismo tenha sido tão decisivo para a minha vida. Bem, se calhar isso nada tem de estranho... Mas juro, juro mesmo: nunca comecei uma guerra internacional para conseguir vender mais jornais. 


in 24horas, 29 de Outubro de 2005

Sem comentários:

Enviar um comentário