Ter ou não ter olhos na cara

Não conheço profissão que se vista pior, que se apresente mais desleixada no seu local de trabalho, que cultive até à insanidade uma olímpica indiferença perante a roupa, do que esta profissão de jornalista.

Dos, para aí, 10 mil jornalistas que existem há apenas algumas centenas de excepções à regra dos maltrapilhos do Poder: as do mundo do jornalismo televisivo, entre os tipos dos jornais económicos, de, apesar de tudo, um número significativo de mulheres e, ainda, entre directores de jornais (sem contar comigo, pois, como toda a gente sabe, sou um selvagem sem educação e, por isso, para irritação da minha mãezinha, ando sempre mal-pronto).

E, no entanto, os jornalistas – como nós aqui no 24horas –, esses pretensiosos na garganta e parolos na traparia, têm a grandessíssima lata de analisar e criticar as vestimentas dos profissionais do bom aspecto: modelos, artistas, socialites, costureiros, apresentadores de televisão, políticos, donos de bares, jogadores de futebol, etc., etc. Então sobre mulheres, somos mesmo impiedosos. Que grande lata!

Respeitando essa tradição de despeito no mundo dos jornais, esta semana decidimos eleger aquelas que, na nossa habilitada opinião, são as 10 mulheres mais mal vestidas do País. Foi feita uma eleição na redacção e deu o resultado que, mais à frente, poderão analisar. Uma das “vítimas” desta nossa maldade respondeu-nos, acerca deste assunto: “Acho que as pessoas que votaram em mim não têm olhos na cara.” Em teoria, face ao que atrás foi exposto, ela até é bem capaz ter razão. Mas, caro leitor, temos maneira de resolver esta questão: certamente será pessoa com olhos na cara, por isso, veja as fotos, e ajuíze por si.
in 24horas, 28 de Maio de 2005

Apanhámos um bando de vigaristas

Fomos tentar saber quem são os 10 escritores portugueses vivos que venderam mais livros durante o ano de 2004. Primeiro batemos à porta da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, que representa a esmagadora maioria dos patrões dos livros em Portugal. Disseram-nos que não sabiam responder-nos. Depois, apelámos às editoras, uma a uma. Pois, caro leitor, muitas tiveram a lata de nos dizer que não sabiam o que tinham vendido em 2004! Alguém, neste tempo de computadores, contabilistas e gestores de fato cinzento, acredita nesta maravilhosa resposta?


Também houve quem não fosse tão descarado e fugisse com o rabo à seringa, argumentando de outra maneira: “Mas que interesse tem saber quem vende mais ou menos?”, ou ainda “Compilar esses dados é uma trabalheira imensa...”. E houve quem, cinicamente, prometesse responder mais tarde para, a seguir, deixar de atender telefonemas.


Para que conste, aqui informo que as editoras Caminho, Oficina do Livro, Presença, Gradiva e Temas e Debates entregaram-nos esses dados. Todas as outras que contactámos arranjaram maneira de não o fazer. O que nos valeu foi a Fnac, que, em três tempos, nos deu as suas vendas na loja do Colombo – a maior livraria do País – e os próprios autores, que forneceram informações adicionais que a suas editoras recusaram dar.


Bem. Que posso eu pensar sobre isto? Vou fazer uma frase simples: as editoras que não nos responderam são dirigidas por um bando de vigaristas que, em nome da cultura, montou um negócio de fuga aos impostos. Há alguma outra hipótese para explicar este fenómeno?


in 24horas, 21 de Maio de 2005