Porque é que o DN é mais importante que os outros?
“Fizeste agora 10 anos, já tens idade para começar a perceber estas coisas.” A notícia anunciava para o domingo seguinte, 6 de outubro de 1974, a mobilização da população para um dia de trabalho gratuito. “No domingo vamos com uns amigos limpar a estátua do Marquês do Pombal”, declarou João Mário, à espera das perguntas do Alexandre, ao mesmo tempo que se lembrava do dia em que a mãe também o chamou, de DN na mão, a perguntar: “Estás a ver aqui isto?...”
As viagens do Mercedes de Sócrates
Um bilhete de avião custaria uns 280 euros e dava para ir e voltar no mesmo dia. O próprio Sócrates, em vez de escravizar o motorista, poderia aproveitar as suas viagens semanais a Lisboa para comentar a política nos estúdios da RTP e enfiar uns milhares de euros no bolso do casaco. Mesmo que vissem as notas no raio X do aeroporto da Portela, alguém o interrogaria?...
Ninguém quer saber das irmãs que fazem bolos
Quando Ricardo Salgado aparenta, em dez horas de audiência extenuante, uma mistura de fresca inteligência discursiva com uma, literalmente, inacreditável ignorância sobre a criação do buraco financeiro que acabou por destruir o império familiar que liderou, está a guiar-se por essa amoralidade.
E se Carlos Alexandre bate à porta de Passos Coelho?
Muitos dos que põem hoje o juiz Carlos Alexandre nos píncaros da moral jurídica passariam rapidamente a diabolizá-lo como justiceiro irresponsável. As fugas de informação, as violações do segredo de justiça, o assassinato reputacional subsequentes seriam violentamente criticados, com razão, e não relativizados como agora acontece no caso de Sócrates. A infeção ideológica, o interesse pessoal ou o empenho partidário nas apreciações que vou lendo são demasiadas vezes óbvios e angustiantemente tristes, sobretudo por não serem claramente assumidos.
Homenagem ao malandro roubada a Chico Buarque*
Eu quis fazer um fado em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço da vida dos jornais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem:
Aquela fina malandragem
Não mora lá mais.
Agora já não é normal
Malandro ir p’ro Estado governar o maralhal,
Malandro respeitado com cargo institucional,
Malandro medalhado como herói profissional,
Malandro com retrato na revista trivial,
Malandro com contrato, com banco e capital
Sem nunca se dar mal!
A prisão de Sócrates é justiça ou vingança?
Prender e condenar em tribunal criminosos da política, da banca, das polícias, é bom para o país. Prender mas falhar depoisas condenações desses poderosospor incompetência ou má-fédas investigações é uma enorme tragédia para Portugal. A pergunta que não sai da minha cabeça é esta: a prisão de José Sócrates é um ato de justiça ou é uma vingança?
O magistrado Rosário Teixeira, o homem que lidera a Operação Marquês, que deteve o antigo primeiro-ministro, é o mesmo que no dia 15 de fevereiro de 2006 dirigiu a equipa que invadiu a redação do jornal 24horas, então dirigido por mim, para fazer buscas a tentar descobrir a origem de notícias publicadas que, comprovadamente verdadeiras, desagradaram nessa época à Procuradoria-Geral da República, apesar de não violarem o segredo de justiça.
E se a justiça estiver a errar nos vistos gold?
Oiço à minha volta preocupação generalizada com a degradação da imagem das instituições do Estado por causa das recentes detenções de funcionários públicos de topo. Contraditoriamente, a manifestar afinal grande fé no mesmo edifício que sustenta o Estado, leio generalizado aplauso a esse movimento das autoridades em combate à corrupção nos vistos gold. Nesta minha cabeça tortuosa, no entanto, a pergunta assalta-me, angustiante: e se a justiça, que tantas vezes nos enganou ou desiludiu, está, mais uma vez, a cometer um erro? Que imagem do Estado resultará de uma outra hecatombe dessas?
Vejo no Diário de Notícias que o diretor dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, Manuel Palos, cuja carreira está liquidada, esperou vários dias na cadeia para responder a perguntas sobre a aceitação de duas garrafas de vinho (repito, duas garrafas de vinho) enviadas pelo seu colega, também preso, diretor do Instituto de Registos e Notariado, António Figueiredo... Ai...
A cooperação que passa a colonização
Se observarmos o movimento dos astros tendo como ponto de referência o planeta que pisamos teremos toda a legitimidade para garantir, com certeza científica, tragicamente errada, que o Sol roda à volta da Terra. Diremos mesmo mais: o nosso mundo é o centro do universo. Se não mudarmos esse referencial, nada há que possa comprovar o contrário. Não é estupidez, é erro de análise.
Durante séculos, aos poucos que se atreviam a dizer que a Terra girava em torno do Sol o disparate instituído como doutrina podia até sentenciar penas de morte e excomunhões. Durante séculos, o erro de análise foi uma certeza sagrada, um dogma.
E eles já gritam: “Vêm aí os russos. Viva!”
Estranhei a diligência, a pressa e, palpita-me, a alegria com que as autoridades portuguesas divulgaram duas passagens, a 160 quilómetros da costa portuguesa, de bombardeiros russos e o envio, por ordem da NATO, de caças F-16 nacionais para os vigiarem.
Os testes que Putin mandou fazer à velocidade de resposta das forças ocidentais nada intencionam de bom, é claro, mas o espalhafato feito com este e outros incidentes recentes contrasta com o tradicional secretismo que a Aliança Atlântica impõe a estes assuntos.
Conta a história que o presidente norte-americano, Dwight Eisenhower, um republicano crítico dos défices do Estado, atrapalhado com uma economia anémica, gastou dinheiro dos contribuintes em obras públicas como nem o despesista Franklin Roosevelt, em tempo de paz, fez com o seu New Deal.
Comissão Europeia prevê défices de 4,9% e 3,3%
Para este ano, diz Bruxelas, o défice do Estado português será de 3,3% em 2015 (o governo prevê 2,7%, mesmo assim acima dos 2,3% prometidos à troika) enquanto este ano será de 4.9%, contra os 4% previstos pelo executivo português.
Antevejo a reação de Passos Coelho: "Chega a ser patético verificar a dificuldade que gente que se diz independente tem de assumir que errou, que foi preguiçosa, que não leu, que não estudou, que não comparou, que não se interessou a não ser em causar uma boa impressão, em dizer (Maria vai com as outras) o que toda a gente diz..."
Uma cábula de Passos para jornalistas preguiçosos
O primeiro-ministro indignou-se com os jornalistas por, supostamente, dizerem que a despesa pública está igual a 2011: "Chega a ser patético verificar a dificuldade que gente que se diz independente tem de assumir que errou, que foi preguiçosa, que não leu, que não estudou, que não comparou, que não se interessou a não ser em causar uma boa impressão, em dizer (Maria vai com as outras) o que toda a gente diz..."
Espero que a pontuação usada por mim na tentativa de reproduzir a oralidade do tribuno das Jornadas Parlamentares do PSD-CDS seja fiel ao pensamento exarado... Adiante.
Confesso, caro leitor e cara leitora: sou um preguiçoso. Quem preguiça, pensa; logo, eu preguiço.