Uma pessoa que conheço, que estimo, com quem já trabalhei, recebeu uma pena de morte: uma velha hepatite C degenerou em cirrose.
Os
médicos deram-lhe, no entanto, forma de escapar à cruciação: novos
medicamentos prometem a cura de, pelo menos, 90% dos casos e em apenas
três meses.
O Infarmed e o Ministério da Saúde, porém, voltaram a
confirmar a condenação: o processo burocrático que define as
comparticipações do Serviço Nacional de Saúde não está concluído. Por
isso, o Estado não fornece ainda esse medicamento aos doentes.
"Eu
pago!", pensou ele, na inocência dos espíritos livres. "São 48 mil
euros", decretou o mundo real, em que a liberdade só é garantida para os
ricos... mas até estes, se estivessem na mesma situação, enfrentariam o
embaraço de todo o sistema, que não saberia como vender um fármaco
hospitalar com processo de aprovação ainda pendente em Portugal, apesar
de em novembro a Agência Europeia do Medicamento o ter recomendado para
toda a União. Mas a questão já nem se põe ao meu antigo camarada de
trabalho, pois a economia familiar não arranja assim 48 mil euros. O
pagamento de uma caução que substituisse a pena capital está, em suma,
fora de questão.