PSD aumenta o salário mínimo... A sério?!

Uma parte da explicação para a descrença nos partidos do chamado arco do poder - nos quais, recorde-se, apenas 45% dos eleitores inscritos votam em legislativas - foi bem demonstrada no último fim de semana no Congresso do PSD: o que se passou naquele areópago teve pouco que ver com o comum dos mortais.

As mentes naquela sala estiveram ocupadas, no essencial, em saber como se iam distribuir os lugares disponíveis, desde o modesto assento no Conselho Nacional até à recompensadora candidatura ao Parlamento Europeu.

Graças a Marcelo Rebelo de Sousa, até esteve subliminada a discussão sobre quem poderia ali vir a ser, um dia, presidente da República.

O campeonato das esquerdas

Há a esquerda responsável, há a esquerda radical e há a esquerda revolucionária. Em teoria têm tudo para se unir: defendem as três a igualdade; o laicismo; a prevalência dos interesses dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos sobre a velocidade do crescimento económico ou do direito à propriedade; lutam pela preservação do meio ambiente; pela defesa dos direitos das minorias; são antifascistas e recusam uma sociedade que só dá direitos aos mais aptos.

E, no entanto, a esquerda não se une. Porquê? Eu explico: há a esquerda responsável, há a esquerda radical e há a esquerda revolucionária.

A Europa prometeu-nos o paraíso. Lembra-se?

Primeiro é a Suíça. Seguir-se-ão, é previsível, a Grã-Bretanha e a França (entretanto liderada por Marine Le Pen) e, depois, uma catadupa de Estados pequenos mas ainda abastados da União Europeia até, finalmente, chegar a vez da Alemanha. Se eu tiver razão - e espero que não - dentro de meia dúzia de anos acabou-se a liberdade de circulação de trabalhadores entre os países assinantes do tratado de Schengen e da União Europeia.

Em contrapartida, cada um destes países, que procura livrar-se de imigrantes vendedores de mão-de-obra, tenta ser mais competitivo do que os seus aliados na capacidade de atração de capital estrangeiro.

O Meco em segredo de justiça. Porquê?

O artigo 86 do Código do Processo Penal é taxativo: o segredo de justiça só pode ser declarado se um juiz aceitar um pedido razoável de um arguido, de um assistente ou do ofendido. É o parágrafo 2. Também pode existir segredo de justiça na fase de inquérito do processo, quando o Ministério Público entender que, passo a citar, "os interesses da investigação ou os direitos dos sujeitos processuais o justifiquem". É o parágrafo 3. E como é o primeiro parágrafo, o que determina o "espírito" da lei? Proclama: "O processo penal é, sob pena de nulidade, público, ressalvadas as exceções previstas na lei."

A lei é hipocritamente aplicada. A maior parte dos processos são públicos mas apenas por não interessarem à imprensa. Nas poucas dezenas que os jornais acompanham a regra é declarar-se o segredo de justiça e, a partir daí, desencadear--se uma batalha, paralela à guerra jurídica, em que as partes envolvidas pingam detalhes a conta-gotas, selecionados e não verificáveis pela leitura das peças processuais.

A universidade forma escravos e opressores

A praxe estudantil é sempre violenta. Um homem ser humilhado é um ato de violência. Uma mulher ser humilhada é um ato de violência. Dirão alguns: "Violência? Como? Os praxados estão lá por quererem, por opção própria!" Duvido mas, se assim for, pior é.

Uma instituição capaz de criar um cerimonial de integração cuja resultante deliberada é a aceitação voluntária de castigos e penas, mesmo se aparentemente leves, mesmo se aparentememnte inócuos, é uma organização perversamente violenta.

"... E as notícias ainda eram lidas em jornais!"

Lembrei-me que o 25 de Abril de 1974 vai fazer 40 anos e de como Portugal era diferente: guerra nas colónias, bairros de lata, analfabetismo, pessoas descalças nas ruas, censura prévia na imprensa, presos políticos, tribunais plenários, direito de voto limitado, licença para poder usar isqueiro... Penso nos dias de hoje, no quanto, apesar de tudo, avançámos. Tenho esperança que um meu neto, daqui a 40 anos, vá um dia enumerar, com espanto:

"Imaginem que no tempo do meu avô os estudantes universitários eram praxados, obrigados a cacarejar como galinhas ou a simular atos sexuais em público; as crianças abandonadas em instituições não podiam ser adotadas por casais homossexuais; ninguém participava na gestão do seu bairro; os pais achavam que quem devia educar os filhos eram os professores; os adultos nunca mais estudavam quando começavam a trabalhar; Fernando Pessoa, José Saramago e Gonçalo M. Tavares quase não eram lidos no ensino obrigatório; a Matemática, a certa altura, era facultativa e, vejam lá, não existia a disciplina de Descodificação da Comunicação Social e das Tecnologias de Informação."

Passos, os outros todos e Cristiano Ronaldo

Esta semana discutimos se Eusébio tinha lugar no Panteão Nacional. Esta semana debatemos a hipótese de Cristiano Ronaldo não ganhar a Bola de Ouro. Esta semana enganámos a crise, fingindo não estarmos preocupados com ela. E, no entanto, reparo que Passos Coelho foi ontem o primeiro político a anunciar ao povo que congratulara "calorosamente" o capitão da seleção nacional pela vitória na eleição de melhor jogador do mundo. Estamos nós a tentar esquecê-lo, mas ele não nos deixa em paz, caramba!

É, neste aspeto, Passos Coelho pior do que os outros políticos portugueses de topo, nos vários partidos e nas várias instituições nacionais? Não. Desta vez até foi, objetivamente, o melhor, pois liderou a correria para apanhar as primeiras migalhas desse bolo-rei cozinhado de êxito chamado Cristiano Ronaldo.

Comparemos Eusébio com Cristiano Ronaldo

Correção - Este texto tem dois erros factuais que, no entanto, não alteram a ideia central apresentada: o convite da Juventus a Eusébio foi em 1964 e não em 1966 (nesta altura foi o Inter de Milão que, depois, desistiu da proposta por ter saído, entretanto, uma lei em Itália a proibir a contratação de estrangeiros) e a seleção onde Eusébio alinhou que só tinha dois jogadores nascidos em Portugal foi a que disputou o apuramento para um Mundial e jogou com a Inglaterra a 25 de Outubo de 1961 e não a que disputou o Mundial de Inglaterra em 1966.O meu pedido de desculpas aos leitores - é o que dá confiar na memória. (Pedro Tadeu, 07/01/2014, 14 horas)

Quando, em 1966, se pôs a hipótese de Eusébio ir jogar para a Juventus por 16 mil contos, uma quantia, para a época, enorme, o ditador Oliveira Salazar não permitiu. Classificou, cinicamente, o moçambicano de "património nacional" e não o deixou sair de Portugal. O Benfica aumentou-o para 4000 contos.

Os porcos da Europa que compram Bimbys

O respeitado, influente e aparentemente empenhado em arruinar a nossa vida Wall Street Journal publicou uma reportagem sobre o que leva muitos portugueses a comprarem Bimbys. Avia-nos com uma frase-chavão: "Os portugueses adoram gadgets e, apesar dos tempos difíceis, parecem determinados em manter a sua tradição de se juntarem regularmente para jantar."

Acontece que neste 2013 que agora termina (já agora: bom ano de 2014, caro leitor ou leitora) esse robô de cozinha, que custa 966 euros, bateu um recorde de vendas. Exclama o WST ser caso único na Europa pois, em ano de crise, esta máquina "vende mais do que os últimos iPads em Portugal e é mais popular no Facebook do que a banda de rock mais conhecida do país".

Ainda bem que Passos Coelho não percebe

Já li e ouvi tantas interpretações sobre a decisão do Tribunal Constituicional de impedir o corte de pensões aos reformados do Estado que fico meio abananado: como é que 11 dos 13 juízes assinam uma declaração de inconstitucionalidade (duas juízas votaram da mesma maneira mas com razões diferentes) e os políticos afetos ao Governo encontram ali argumentos para preparar outra proposta de lei que obtenha a finalidade agora falhada?

O melhor mesmo é citar o dito acórdão e a hipótese académica que ele abre: "Uma medida que pudesse intervir de forma a reduzir o montante de pensões a pagamento teria de ser uma medida tal que encontrasse um forte apoio numa solução sistémica, estrutural, destinada efetivamente a atingir os três desideratos (...): sustentabilidade do sistema público de pensões, igualdade proporcional e solidariedade entre gerações."

A palhaçada de Rodrigo Guedes de Carvalho

Uns quantos paladinos da moral e dos bons costumes jornalísticos exerceram o legítimo direito de criticar Rodrigo Guedes de Carvalho, subdiretor da redação da SIC, por ter simulado uma entrevista "a sério" ao grupo cómico apresentado como Gato Fedorento. Aqui o DN destacou duas reações - a professora doutora Estrela Serrano e o presidente do Observatório de Imprensa, Joaquim Vieira.

Escreve a senhora que já foi a alma da Entidade Reguladora para a Comunicação Social: "Quando RGC (sim, a professora doutora reduziu Rodrigo Guedes de Carvalho a uma sigla) voltar a falar-nos como jornalista 'a sério' na sua cadeira de pivô do Jornal da Noite haverá quem se pergunte qual o papel que nesse dia vai representar. A credibilidade é a fonte da legitimidade de um jornalista. Hipotecá-la assim parece leviano e sem sentido."