A universidade forma escravos e opressores

A praxe estudantil é sempre violenta. Um homem ser humilhado é um ato de violência. Uma mulher ser humilhada é um ato de violência. Dirão alguns: "Violência? Como? Os praxados estão lá por quererem, por opção própria!" Duvido mas, se assim for, pior é.

Uma instituição capaz de criar um cerimonial de integração cuja resultante deliberada é a aceitação voluntária de castigos e penas, mesmo se aparentemente leves, mesmo se aparentememnte inócuos, é uma organização perversamente violenta.

"... E as notícias ainda eram lidas em jornais!"

Lembrei-me que o 25 de Abril de 1974 vai fazer 40 anos e de como Portugal era diferente: guerra nas colónias, bairros de lata, analfabetismo, pessoas descalças nas ruas, censura prévia na imprensa, presos políticos, tribunais plenários, direito de voto limitado, licença para poder usar isqueiro... Penso nos dias de hoje, no quanto, apesar de tudo, avançámos. Tenho esperança que um meu neto, daqui a 40 anos, vá um dia enumerar, com espanto:

"Imaginem que no tempo do meu avô os estudantes universitários eram praxados, obrigados a cacarejar como galinhas ou a simular atos sexuais em público; as crianças abandonadas em instituições não podiam ser adotadas por casais homossexuais; ninguém participava na gestão do seu bairro; os pais achavam que quem devia educar os filhos eram os professores; os adultos nunca mais estudavam quando começavam a trabalhar; Fernando Pessoa, José Saramago e Gonçalo M. Tavares quase não eram lidos no ensino obrigatório; a Matemática, a certa altura, era facultativa e, vejam lá, não existia a disciplina de Descodificação da Comunicação Social e das Tecnologias de Informação."

Passos, os outros todos e Cristiano Ronaldo

Esta semana discutimos se Eusébio tinha lugar no Panteão Nacional. Esta semana debatemos a hipótese de Cristiano Ronaldo não ganhar a Bola de Ouro. Esta semana enganámos a crise, fingindo não estarmos preocupados com ela. E, no entanto, reparo que Passos Coelho foi ontem o primeiro político a anunciar ao povo que congratulara "calorosamente" o capitão da seleção nacional pela vitória na eleição de melhor jogador do mundo. Estamos nós a tentar esquecê-lo, mas ele não nos deixa em paz, caramba!

É, neste aspeto, Passos Coelho pior do que os outros políticos portugueses de topo, nos vários partidos e nas várias instituições nacionais? Não. Desta vez até foi, objetivamente, o melhor, pois liderou a correria para apanhar as primeiras migalhas desse bolo-rei cozinhado de êxito chamado Cristiano Ronaldo.

Comparemos Eusébio com Cristiano Ronaldo

Correção - Este texto tem dois erros factuais que, no entanto, não alteram a ideia central apresentada: o convite da Juventus a Eusébio foi em 1964 e não em 1966 (nesta altura foi o Inter de Milão que, depois, desistiu da proposta por ter saído, entretanto, uma lei em Itália a proibir a contratação de estrangeiros) e a seleção onde Eusébio alinhou que só tinha dois jogadores nascidos em Portugal foi a que disputou o apuramento para um Mundial e jogou com a Inglaterra a 25 de Outubo de 1961 e não a que disputou o Mundial de Inglaterra em 1966.O meu pedido de desculpas aos leitores - é o que dá confiar na memória. (Pedro Tadeu, 07/01/2014, 14 horas)

Quando, em 1966, se pôs a hipótese de Eusébio ir jogar para a Juventus por 16 mil contos, uma quantia, para a época, enorme, o ditador Oliveira Salazar não permitiu. Classificou, cinicamente, o moçambicano de "património nacional" e não o deixou sair de Portugal. O Benfica aumentou-o para 4000 contos.

Os porcos da Europa que compram Bimbys

O respeitado, influente e aparentemente empenhado em arruinar a nossa vida Wall Street Journal publicou uma reportagem sobre o que leva muitos portugueses a comprarem Bimbys. Avia-nos com uma frase-chavão: "Os portugueses adoram gadgets e, apesar dos tempos difíceis, parecem determinados em manter a sua tradição de se juntarem regularmente para jantar."

Acontece que neste 2013 que agora termina (já agora: bom ano de 2014, caro leitor ou leitora) esse robô de cozinha, que custa 966 euros, bateu um recorde de vendas. Exclama o WST ser caso único na Europa pois, em ano de crise, esta máquina "vende mais do que os últimos iPads em Portugal e é mais popular no Facebook do que a banda de rock mais conhecida do país".

Ainda bem que Passos Coelho não percebe

Já li e ouvi tantas interpretações sobre a decisão do Tribunal Constituicional de impedir o corte de pensões aos reformados do Estado que fico meio abananado: como é que 11 dos 13 juízes assinam uma declaração de inconstitucionalidade (duas juízas votaram da mesma maneira mas com razões diferentes) e os políticos afetos ao Governo encontram ali argumentos para preparar outra proposta de lei que obtenha a finalidade agora falhada?

O melhor mesmo é citar o dito acórdão e a hipótese académica que ele abre: "Uma medida que pudesse intervir de forma a reduzir o montante de pensões a pagamento teria de ser uma medida tal que encontrasse um forte apoio numa solução sistémica, estrutural, destinada efetivamente a atingir os três desideratos (...): sustentabilidade do sistema público de pensões, igualdade proporcional e solidariedade entre gerações."

A palhaçada de Rodrigo Guedes de Carvalho

Uns quantos paladinos da moral e dos bons costumes jornalísticos exerceram o legítimo direito de criticar Rodrigo Guedes de Carvalho, subdiretor da redação da SIC, por ter simulado uma entrevista "a sério" ao grupo cómico apresentado como Gato Fedorento. Aqui o DN destacou duas reações - a professora doutora Estrela Serrano e o presidente do Observatório de Imprensa, Joaquim Vieira.

Escreve a senhora que já foi a alma da Entidade Reguladora para a Comunicação Social: "Quando RGC (sim, a professora doutora reduziu Rodrigo Guedes de Carvalho a uma sigla) voltar a falar-nos como jornalista 'a sério' na sua cadeira de pivô do Jornal da Noite haverá quem se pergunte qual o papel que nesse dia vai representar. A credibilidade é a fonte da legitimidade de um jornalista. Hipotecá-la assim parece leviano e sem sentido."

O punho de Mandela

Um punho fechado tem significado. Simboliza a mão que se fecha sobre a ferramenta que aperta, bate, empurra, constrói. Simboliza o poder dos imperadores romanos que, de polegar para cima ou para baixo, decidiam vidas de gladiadores escravizados. Simboliza a vitória de um desportista, a luta de classes de um operário, o voo do Super-Homem ou (não se esqueça, caro leitor) a imagem oficial do Partido Socialista português.

A semiótica do punho fechado é ideologicamente contraditória mas tem uma componente sempre presente, unificadora: a força.

Um embaraço chamado Papa Francisco

Andava desconfiado de que alguns dirigentes da Igreja Portuguesa e uma parte da elite católica estavam embaraçados com o que o Papa Francisco dizia. O mote dessas reações, sempre que do Vaticano saía uma frase para a primeira página dos jornais, foi repetidamente este: "Mas a Igreja sempre disse isto. Não há aqui novidade. O Santo Padre limita-se a sublinhar algo que já há muito faz parte da nossa doutrina."

O entusiasmo mediático com Francisco é assim recebido, por estas pessoas, com uma cerebral e analítica contextualização, contrastante com a verve emocional com que os mesmos protagonistas popularizaram e glorificaram as intervenções de João Paulo II.

Essa minha desconfiança reforçou-se com a notícia elaborada pela Agência Ecclesia sobre o "Evangelii Gaudium", conhecido na semana passada, escrito pelo Papa.

Não temos autoridade para criticar os polícias

Cabeças que se orgulham de exibir um carimbo de sensatez na testa têm anunciado o descalabro da autoridade, o fim da solidez democrática, talvez mesmo o esboroamento da Pátria, a propósito da manifestação de polícias da passada quinta-feira.

Recordo a evolução dos acontecimentos: as grades que separavam 10 mil agentes da PSP dos elementos da Unidade Especial de Polícia foram, a dada altura, levantadas. Um grupo de manifestantes subiu a escadaria do Parlamento. A polícia de choque deixou seguir. Os homens pararam antes das arcadas, gritaram palavras de ordem e, minutos depois, voltaram a descer. Tudo em grande excitação mas em relativa paz - nem um papel caído no mármore ficou a conspurcar o solo que pisam os deputados da Nação.

César das Neves não pode ficar calado

Ele acha que sem uma descida generalizada de ordenados o País não se safa. Ele garante ser disparatado subir o salário mínimo pois isso prejudica os pobres, os trabalhadores menos qualificados, enviados dessa forma para um despedimento certo. Ele não acredita no Estado. Contraditoriamente, ele acha que o Estado deve pagar aos pais para ficarem em casa alguns anos a cuidar dos filhos.

Ele acusa Portugal de ter desperdiçado dinheiro em consumo fútil. Ele atira-se ao Tribunal Constitucional por fazer política. Ele ataca os sindicatos dos médicos, dos juízes e dos professores com um nome crismado de pecado: corporações. Ele acusa a maior parte dos pensionistas que protesta de estar a fingir ser pobre.