A palhaçada de Rodrigo Guedes de Carvalho

Uns quantos paladinos da moral e dos bons costumes jornalísticos exerceram o legítimo direito de criticar Rodrigo Guedes de Carvalho, subdiretor da redação da SIC, por ter simulado uma entrevista "a sério" ao grupo cómico apresentado como Gato Fedorento. Aqui o DN destacou duas reações - a professora doutora Estrela Serrano e o presidente do Observatório de Imprensa, Joaquim Vieira.

Escreve a senhora que já foi a alma da Entidade Reguladora para a Comunicação Social: "Quando RGC (sim, a professora doutora reduziu Rodrigo Guedes de Carvalho a uma sigla) voltar a falar-nos como jornalista 'a sério' na sua cadeira de pivô do Jornal da Noite haverá quem se pergunte qual o papel que nesse dia vai representar. A credibilidade é a fonte da legitimidade de um jornalista. Hipotecá-la assim parece leviano e sem sentido."

O punho de Mandela

Um punho fechado tem significado. Simboliza a mão que se fecha sobre a ferramenta que aperta, bate, empurra, constrói. Simboliza o poder dos imperadores romanos que, de polegar para cima ou para baixo, decidiam vidas de gladiadores escravizados. Simboliza a vitória de um desportista, a luta de classes de um operário, o voo do Super-Homem ou (não se esqueça, caro leitor) a imagem oficial do Partido Socialista português.

A semiótica do punho fechado é ideologicamente contraditória mas tem uma componente sempre presente, unificadora: a força.

Um embaraço chamado Papa Francisco

Andava desconfiado de que alguns dirigentes da Igreja Portuguesa e uma parte da elite católica estavam embaraçados com o que o Papa Francisco dizia. O mote dessas reações, sempre que do Vaticano saía uma frase para a primeira página dos jornais, foi repetidamente este: "Mas a Igreja sempre disse isto. Não há aqui novidade. O Santo Padre limita-se a sublinhar algo que já há muito faz parte da nossa doutrina."

O entusiasmo mediático com Francisco é assim recebido, por estas pessoas, com uma cerebral e analítica contextualização, contrastante com a verve emocional com que os mesmos protagonistas popularizaram e glorificaram as intervenções de João Paulo II.

Essa minha desconfiança reforçou-se com a notícia elaborada pela Agência Ecclesia sobre o "Evangelii Gaudium", conhecido na semana passada, escrito pelo Papa.

Não temos autoridade para criticar os polícias

Cabeças que se orgulham de exibir um carimbo de sensatez na testa têm anunciado o descalabro da autoridade, o fim da solidez democrática, talvez mesmo o esboroamento da Pátria, a propósito da manifestação de polícias da passada quinta-feira.

Recordo a evolução dos acontecimentos: as grades que separavam 10 mil agentes da PSP dos elementos da Unidade Especial de Polícia foram, a dada altura, levantadas. Um grupo de manifestantes subiu a escadaria do Parlamento. A polícia de choque deixou seguir. Os homens pararam antes das arcadas, gritaram palavras de ordem e, minutos depois, voltaram a descer. Tudo em grande excitação mas em relativa paz - nem um papel caído no mármore ficou a conspurcar o solo que pisam os deputados da Nação.

César das Neves não pode ficar calado

Ele acha que sem uma descida generalizada de ordenados o País não se safa. Ele garante ser disparatado subir o salário mínimo pois isso prejudica os pobres, os trabalhadores menos qualificados, enviados dessa forma para um despedimento certo. Ele não acredita no Estado. Contraditoriamente, ele acha que o Estado deve pagar aos pais para ficarem em casa alguns anos a cuidar dos filhos.

Ele acusa Portugal de ter desperdiçado dinheiro em consumo fútil. Ele atira-se ao Tribunal Constitucional por fazer política. Ele ataca os sindicatos dos médicos, dos juízes e dos professores com um nome crismado de pecado: corporações. Ele acusa a maior parte dos pensionistas que protesta de estar a fingir ser pobre.

Álvaro Cunhal a subir uma escadaria infinita

Um dia Ruben de Carvalho iniciou o que, durante alguns anos, vigorou como ritual intermitente. Na sala de reuniões do Avante! o então chefe de redação do jornal, a Ivone e a Noémia montaram na grande mesa umas fatias generosas de presunto e pão alentejanos, chouriços transmontanos, queijo serrano e vinho verde minhoto - Alvarinho, uma bebida fantástica e, para a função pretendida, uma piada óbvia.

Chamou-se o Álvaro propriamente dito à surpresa de aniversário e passámos uma hora ou duas a brincar às futilidades, beberricando o diminutivo, fresco.

Portugal e Angola foram sacaneados

Os editoriais do Jornal de Angola a desancar Portugal são insuportáveis. A forma é gongórica, o tom arrogante, a visão distorcida, a sabujice evidente, a parolice risível. Aquilo lembra a escola do pós-guerra do Diário da Manhã, num exercício de jornalismo falsamente legitimado pelos interesses da Pátria e interpretado por uma moral política inspirada em Salazar. Isto quer dizer que Portugal se tem portado bem com Angola? Não.

Tenho hesitado em escrever aqui sobre este diferendo. No entanto, quando o ministro Rui Machete fez a estúpida figura de simular na rádio angolana um pedido de desculpas pelo desempenho da justiça portuguesa estive quase, mesmo quase, a alinhavar um comentário... Mas desisti. Desisti por muita coisa escondida nos bastidores do palco onde esta peça se desenrola me escapar e por, supostamente, capitais angolanos estarem a negociar a sua entrada no corpo acionista da empresa onde trabalho. Isto coloca--me, apesar do meu estatuto de mero empregado da Controlinveste, sob suspeita. Mesmo assim, hoje, ultrapassado o que considero ser o limite de um comportamento aceitável por parte do meu país, arrisco.

O casamento do intelectual e da vedeta

O senhor Newman gostava de ler escritos anónimos nas paredes: os insultos, as ameaças, os palavrões. Para ele esses rabiscos eram, cito, "um jornal secreto a publicar o que as pessoas realmente pensavam, não diluídas pelos medos da propriedade e pelos interesses egoístas".

O senhor Newman é o protagonista da primeira novela do escritor Arthur Miller. O autor de Morte de Um Caixeiro Viajante foi, por sua vez, personagem na vida da atriz Marilyn Monroe: amolgados na imprensa durante um fulminante namoro, casaram-se, sofreram cinco anos e separaram-se em 1961. Um ano e meio depois ela morreu, encharcada em álcool e barbitúricos.

Sócrates julgado pela moral de Sócrates

José Sócrates escreveu um livro sobre a tortura em democracia. Explica, numa das entrevistas do último fim de semana, especialmente notável entre conversas notáveis, que, excetuando decisões entradas nos domínios do risco da vida humana e do sofrimento, não é um deontologista, não segue "correntes morais dos que acham que têm imperativos categóricos e uma ética da convicção". E explicita: "A boa ação é aquela de que resulta mais felicidade do que sofrimento. É um cálculo."

José Sócrates defende, convicto, o realismo virtuoso do paradoxo dissimulado: "É preciso medir as consequências da boa ação." Por isso, como político, garante que nunca aceitaria dar uma ordem de tortura. No entanto, sobre quase tudo o resto, sobre toda a ação política quotidiana, recusa o moralismo predestinado: o que é verdadeiramente moral na política é "o cálculo do mal menor", defende. Chama a isto "ética da responsabilidade".

Uma fundada suspeita de abuso da lei

A defesa de um sector empresarial do Estado saudável, seja qual for a dimensão e a missão que se pretenda dele, tem de conjugar a probidade com a competitividade. Esta evidência torna absolutamente demagógico defender um nivelamento por baixo das remunerações dos quadros dessas empresas se elas tiverem de lutar no mesmo mercado de outras empresas privadas onde se pratiquem remunerações mais elevadas do que o padrão definido para o gestor público. A alternativa é contratar maus profissionais e, com isso, contribuir para levar essas empresas públicas à ruína, acabando por favorecer o sector privado ou criando condições políticas para que a opinião pública aceite uma privatização ao desbarato, como já aconteceu várias vezes no passado.

Como este Governo ajuda os desvalidos

Pois este prestimoso Governo não se limita a cortar salários na função pública, a diminuir pensões e reformas a velhos e viúvos, a recrear impostos brutais sobre quem trabalha, a transformar o subsídio de férias e de Natal numa inexistência.

Este diligente Governo também quer ser amigo dos desvalidos e, por isso, traduz a raiva popular contra o poder num corte de 15% sobre as subvenções vitalícias de políticos desativados.