Uma fundada suspeita de abuso da lei

A defesa de um sector empresarial do Estado saudável, seja qual for a dimensão e a missão que se pretenda dele, tem de conjugar a probidade com a competitividade. Esta evidência torna absolutamente demagógico defender um nivelamento por baixo das remunerações dos quadros dessas empresas se elas tiverem de lutar no mesmo mercado de outras empresas privadas onde se pratiquem remunerações mais elevadas do que o padrão definido para o gestor público. A alternativa é contratar maus profissionais e, com isso, contribuir para levar essas empresas públicas à ruína, acabando por favorecer o sector privado ou criando condições políticas para que a opinião pública aceite uma privatização ao desbarato, como já aconteceu várias vezes no passado.

Como este Governo ajuda os desvalidos

Pois este prestimoso Governo não se limita a cortar salários na função pública, a diminuir pensões e reformas a velhos e viúvos, a recrear impostos brutais sobre quem trabalha, a transformar o subsídio de férias e de Natal numa inexistência.

Este diligente Governo também quer ser amigo dos desvalidos e, por isso, traduz a raiva popular contra o poder num corte de 15% sobre as subvenções vitalícias de políticos desativados.

Paulo Portas devia reformar-se

Talvez fosse boa altura para Paulo Portas pensar na reforma. Ele trabalha desde os anos 70 e, suponho, a sua precoce visão de estadista (aquela onde levanta ligeiramente o olhar por cima das cabeças da multidão, observando, fascinado, o horizonte...) certamente o impediu de fazer batota nos descontos para a Segurança Social.

Sim, Portas só tem 51 anos mas vai pelo menos com 36 de carreira contributiva (dizem que começou a trabalhar aos 15) e um brilhante currículo a identificá-lo como jurista, jornalista, professor universitário, líder de uma empresa de sondagens e político.

Seis verdades sobre as eleições

1. A abstenção foi elevada mas não atingiu os 47,4% apontados pelos dados oficiais. O censos de 2011 indica que havia então 10 milhões e meio de habitantes em Portugal. Não é possível termos nove milhões e meio de eleitores, como os cadernos eleitorais apontam, pois há pelo menos dois milhões de portugueses sem idade para votar (podem confirmar os dados no site Pordata). A abstenção real de domingo variará entre 39% e 42% dos que realmente poderiam participar no sufrágio. O coro de lamentações habitual sobre uma crise nacional de participação política é, assim, factualmente exagerado.

2. O PS não teve a maior vitória de sempre. Ganhou 150 câmaras (contando com a coligação no Funchal) é verdade, mas perdeu 241 mil votos, ou seja, registou, em relação a 2009, menos 11% de cruzinhas nos boletins de votos camarários, manuscritas no quadrado colocado à frente do seu símbolo. Mesmo em Lisboa, na sua maior vitória, perdeu quase sete mil votos.

Como o Governo salvou Cláudia e Natália

Cláudia e Natália, 45 e 41 anos, estavam à frente da firma de construção civil herdada do pai quando a crise estalou. Contam que, de repente, deixaram de ter clientes, perderam o crédito bancário e despediram 250 trabalhadores. Ficaram com 150. Isto foi em 2008. Agora gabam-se de ter conseguido expandir o negócio e de a firma viver em prosperidade. Não leram como foi? Eu conto.

O Governo, dizia a notícia, abriu uma linha de crédito de 1,1 mil milhões de euros para apoiar as pequenas e médias empresas. Esse apoio foi utilizado pelas irmãs como garantia para obter empréstimos bancários. Compraram uma fábrica de cimento.

O Governo grita: "Este país é só para velhos"

Trataram de aumentar os impostos de quem trabalha, investe e consome. Levaram patrões à falência ou a despedir milhares de trabalhadores. Cancelaram dezenas de milhares de contratos com funcionários sem vínculo ao Estado.

Mudaram as regras do subsídio de desemprego e diminuíram os apoios sociais. Convidaram os jovens, que educámos superiormente com os nossos impostos, a emigrar. O PIB, a riqueza produzida no País, caiu. A sociedade entra em incumprimento crónico: o número dos que não podem pagar os seus empréstimos à banca dispara.

A direita discute o quê?

A acusação, agora, é esta: a esquerda é desumana porque critica as ideias das pessoas de direita que morreram. Por outro lado, não está disponível para debater política, pelo que não contribui para o progresso do País.
Houve uma exceção entre os que se dedicaram à questão da suposta honra ofendida de António Borges: Vasco Pulido Valente repetiu pela enésima vez que todos, à esquerda e à direita, são ignorantes. Sendo essa uma constatável verdade, não nos desempata, porém, o antagonismo.
Vamos à primeira questão: querem que cite os textos de pessoas de direita que, reconhecendo as capacidades intelectuais de Álvaro Cunhal, o estraçalharam até ao limite de lhe atribuírem uma objetiva cumplicidade com os crimes hediondos do estalinismo? E isto na semana em que ele morreu?

A "notícia" do consultor

Aguardo publicação no jornal Diário Económico do seguinte exercício de direito de resposta, acerca de declarações do líder da empresa de consultores em comunicação, Cunha Vaz & Associados:
"António Cunha Vaz enganou os leitores do Diário Económico.
"Na edição de 29 de Agosto passado do Diário Económico, António Cunha Vaz declarou, numa entrevista intitulada "Há jornalistas dispostos a fazer favores a amigos", o seguinte: "Um tal Pedro Tadeu, que foi diretor do 24horas, já aceitou uma encomenda num processo que eu pus ao Manuel Maria Carrilho. Esse indivíduo foi testemunhar contra mim em tribunal".
"1 - Nunca depus, nunca fui chamado a depor nem, tanto quanto sei, alguma vez constei da lista de qualquer rol de testemunhas relativas a processos que envolvessem António Cunha Vaz e Manuel Maria Carrilho.

Não me esqueço de António Borges

Uma coisa é noticiar a importância de uma personalidade na sociedade portuguesa, relatar a sua influência, documentar aquilo que dizem sobre ela pessoas relevantes, contextualizar e analisar o significado da sua atividade. Outra coisa é ter opinião sobre ela.

Ao noticiarmos a vida de António Borges não podemos deixar de realçar os méritos técnicos e profissionais que só uma inteligência invulgar, aplicada ao longo de muitos anos de trabalho, consegue alcançar.

Judite Sousa merece ser criticada?

Tivemos Isabel Jonet humilhada por dizer que o povo não devia comer bifes todos os dias. Tivemos o jovem Martim Neves, graças a uma confusão televisiva no Prós e Contras da RTP, endeusado como empreendedor do ano por aos 15 anos de idade vender camisolas estampadas. Tivemos Cristina Espírito Santo, da família banqueira, a ser copiosamente insultada por contar que nas férias levava uma vida mais simples a, cito, "brincar aos pobrezinhos". Tivemos a jornalista Judite Sousa a saborear o fel das redes sociais depois de perguntar na TVI a um jovem herdeiro, Lorenzo Carvalho, se não achava que podia ser visto como uma pessoa fútil e se a forma como gastava dinheiro não podia ser considerada ofensiva.

Jonet disse um disparate mas merecia crédito pelo trabalho que faz no Banco Alimentar Contra a Fome e direito a ser desculpada por, no fundo, repetir, em modo cru, o discurso da altura de Passos Coelho e companhia - afinal ela é só uma entre mais de dois milhões e meio de portugueses que votaram a favor da tese estupidamente suicida "gastámos acima das nossas possibilidades, agora temos de pagar".

Porque são os políticos cada vez piores?

António Guterres comparado com Durão Barroso, deixou saudades. Durão comparado com Santana Lopes, deixou saudades. Santana comparado com José Sócrates, deixou saudades (bom, talvez aqui haja uma excepção que confirme a regra...). Sócrates, comparado com Passos Coelho, deixou saudades. Antóno José Seguro, se tomar o poder, vai deixar-nos, quase de certeza, com saudades do Passos Coelho que hoje detestamos.

As teorias sobre as razões da continuada degradação da classe política podem somar-se: o carreirismo partidário clientelar; a fraca aprendizagem académica e profissional fora da vida política; a profissão política mal paga e exposta; um rotativismo partidário circular que, por isso, perde competência, imaginação e criatividade; o sistema eleitoral. Há quem alvitre isso, parte disso ou a soma total disso. Não chega.