Como o Governo salvou Cláudia e Natália

Cláudia e Natália, 45 e 41 anos, estavam à frente da firma de construção civil herdada do pai quando a crise estalou. Contam que, de repente, deixaram de ter clientes, perderam o crédito bancário e despediram 250 trabalhadores. Ficaram com 150. Isto foi em 2008. Agora gabam-se de ter conseguido expandir o negócio e de a firma viver em prosperidade. Não leram como foi? Eu conto.

O Governo, dizia a notícia, abriu uma linha de crédito de 1,1 mil milhões de euros para apoiar as pequenas e médias empresas. Esse apoio foi utilizado pelas irmãs como garantia para obter empréstimos bancários. Compraram uma fábrica de cimento.

O Governo grita: "Este país é só para velhos"

Trataram de aumentar os impostos de quem trabalha, investe e consome. Levaram patrões à falência ou a despedir milhares de trabalhadores. Cancelaram dezenas de milhares de contratos com funcionários sem vínculo ao Estado.

Mudaram as regras do subsídio de desemprego e diminuíram os apoios sociais. Convidaram os jovens, que educámos superiormente com os nossos impostos, a emigrar. O PIB, a riqueza produzida no País, caiu. A sociedade entra em incumprimento crónico: o número dos que não podem pagar os seus empréstimos à banca dispara.

A direita discute o quê?

A acusação, agora, é esta: a esquerda é desumana porque critica as ideias das pessoas de direita que morreram. Por outro lado, não está disponível para debater política, pelo que não contribui para o progresso do País.
Houve uma exceção entre os que se dedicaram à questão da suposta honra ofendida de António Borges: Vasco Pulido Valente repetiu pela enésima vez que todos, à esquerda e à direita, são ignorantes. Sendo essa uma constatável verdade, não nos desempata, porém, o antagonismo.
Vamos à primeira questão: querem que cite os textos de pessoas de direita que, reconhecendo as capacidades intelectuais de Álvaro Cunhal, o estraçalharam até ao limite de lhe atribuírem uma objetiva cumplicidade com os crimes hediondos do estalinismo? E isto na semana em que ele morreu?

A "notícia" do consultor

Aguardo publicação no jornal Diário Económico do seguinte exercício de direito de resposta, acerca de declarações do líder da empresa de consultores em comunicação, Cunha Vaz & Associados:
"António Cunha Vaz enganou os leitores do Diário Económico.
"Na edição de 29 de Agosto passado do Diário Económico, António Cunha Vaz declarou, numa entrevista intitulada "Há jornalistas dispostos a fazer favores a amigos", o seguinte: "Um tal Pedro Tadeu, que foi diretor do 24horas, já aceitou uma encomenda num processo que eu pus ao Manuel Maria Carrilho. Esse indivíduo foi testemunhar contra mim em tribunal".
"1 - Nunca depus, nunca fui chamado a depor nem, tanto quanto sei, alguma vez constei da lista de qualquer rol de testemunhas relativas a processos que envolvessem António Cunha Vaz e Manuel Maria Carrilho.

Não me esqueço de António Borges

Uma coisa é noticiar a importância de uma personalidade na sociedade portuguesa, relatar a sua influência, documentar aquilo que dizem sobre ela pessoas relevantes, contextualizar e analisar o significado da sua atividade. Outra coisa é ter opinião sobre ela.

Ao noticiarmos a vida de António Borges não podemos deixar de realçar os méritos técnicos e profissionais que só uma inteligência invulgar, aplicada ao longo de muitos anos de trabalho, consegue alcançar.

Judite Sousa merece ser criticada?

Tivemos Isabel Jonet humilhada por dizer que o povo não devia comer bifes todos os dias. Tivemos o jovem Martim Neves, graças a uma confusão televisiva no Prós e Contras da RTP, endeusado como empreendedor do ano por aos 15 anos de idade vender camisolas estampadas. Tivemos Cristina Espírito Santo, da família banqueira, a ser copiosamente insultada por contar que nas férias levava uma vida mais simples a, cito, "brincar aos pobrezinhos". Tivemos a jornalista Judite Sousa a saborear o fel das redes sociais depois de perguntar na TVI a um jovem herdeiro, Lorenzo Carvalho, se não achava que podia ser visto como uma pessoa fútil e se a forma como gastava dinheiro não podia ser considerada ofensiva.

Jonet disse um disparate mas merecia crédito pelo trabalho que faz no Banco Alimentar Contra a Fome e direito a ser desculpada por, no fundo, repetir, em modo cru, o discurso da altura de Passos Coelho e companhia - afinal ela é só uma entre mais de dois milhões e meio de portugueses que votaram a favor da tese estupidamente suicida "gastámos acima das nossas possibilidades, agora temos de pagar".

Porque são os políticos cada vez piores?

António Guterres comparado com Durão Barroso, deixou saudades. Durão comparado com Santana Lopes, deixou saudades. Santana comparado com José Sócrates, deixou saudades (bom, talvez aqui haja uma excepção que confirme a regra...). Sócrates, comparado com Passos Coelho, deixou saudades. Antóno José Seguro, se tomar o poder, vai deixar-nos, quase de certeza, com saudades do Passos Coelho que hoje detestamos.

As teorias sobre as razões da continuada degradação da classe política podem somar-se: o carreirismo partidário clientelar; a fraca aprendizagem académica e profissional fora da vida política; a profissão política mal paga e exposta; um rotativismo partidário circular que, por isso, perde competência, imaginação e criatividade; o sistema eleitoral. Há quem alvitre isso, parte disso ou a soma total disso. Não chega.

A vida privada acabou

O jornalista lida todos os dias com o problema da melhor definição dos limites de vida privada que deve respeitar. Diz a minha experiência que, na maior parte das vezes, a questão é levantada para tentar impedir a divulgação de factos relevantes e pertinentes. Pois este problema do jornalista, que teve o seu exemplo extremo e negro nas escutas do tabloide britânico News of the World, deixou de fazer sentido, parece mesmo assunto ridículo, por o seu objeto de debate já não existir: a vida privada, tal como a entendemos até aqui, acabou.
O jovem Edward Snowden era um dos quatro milhões (sim, quatro milhões!) funcionários ao serviço de agências dos Estados Unidos da América com acesso a informações secretas. Ele denunciou o abuso da utilização do PRISM, um programa de vigilância eletrónica do governo dos Estados Unidos (que está legalmente autorizado) e que permite à agência NSA ter acesso a correio eletrónico, conversas de voz (por IP, áudio ou vídeo), transferências de arquivos, sons, imagens e, ainda, a notificações de login de quem use programas da Microsoft, Google, Facebook, Yahoo!, Apple, YouTube ou Skype, entre outras firmas.

A questão moral de Maria Luís Albuquerque

Maria Luís Albuquerque protagoniza um velho problema moral da política portuguesa? Sim. A tradição a que me refiro não está, porém, na mentira que ela terá dito numa Comissão Parlamentar de Inquérito (aparte: peço desculpa, mas não vou escrever, hipocritamente, frases como "ter faltado à verdade" com que os políticos e os analistas bem comportados, cínica e politicamente corretos, têm descrito este problema).

Uma hipotética nova questão dos casos swap não é, com certeza, a de uma mentira dita por um governante em sede institucional: em 39 anos de democracia não é esta a primeira vez que os deputados são enganados nestes inquéritos. Mas será a primeira vez que uma ministra das Finanças é apanhada a mentir durante esse ritual solene.

Isso é, de facto, novo, mas não modifica o problema moral em si: quem mente de forma oficial aos representantes do povo não pode exercer funções oficiais em representação desse povo. Há muito que esta relação está apreendida e o resultado lógico e coerente desse entendimento seria a decorrente demissão de Maria Luís, exigida pelos partidos de oposição.

A celebração da vitória de Pedro Passos Coelho

Passos Coelho teve uma grande vitória depois de conseguir que o Presidente da República ressuscitasse o seu governo, dado como irrevogavelmente morto há já três longas semanas. É a primeira vez que comemora algo na política, desde a noite eleitoral de 5 de junho de 2011.

O primeiro-ministro, seja por estratégia inteligente seja por obstinação estúpida, recusou demitir--se quando tudo ruia à sua volta. Este gesto, tomado contra o senso comum e ridicularizando a tradição politiqueira lusitana (lembrem António Guterres, lembrem Durão Barroso), candidatou-o, na alma dos apoiantes e na mente dos mais crédulos, a mártir da Nação.

Aceitou todas as condições impostas pelo instável parceiro de coligação, Paulo Portas. Todas? Não. Todas menos uma: a revogação da nomeação da ministra das Finanças, que é o cargo que realmente interessa controlar, pelo menos até junho de 2014, quando terminar esta primeira fase de subordinação de Portugal à troika. Na alma dos apoiantes e na mente dos mais crédulos, Passos Coelho passou a almejar o estatuto de líder agregador e de campeão do diálogo.

Estão mesmo a tentar salvar a nação?

O que é um acordo de salvação nacional? O que significa salvar o País? O que se quer salvar? Quem se quer salvar?

Os políticos do PSD, PS e CDS que negoceiam umas frases para um papel onde ficará timbrado o percurso para essa dita salvação nacional são os dirigentes dos partidos responsáveis pelo percurso político de Portugal nos últimos 30 anos. São estes os partidos que levaram o Estado, oito vezes secular, à ruína, à perda de independência económica e ao abandono de uma parte da sua soberania política.

Os líderes do PSD, PS e CDS, que discutem agora como erguer os três pilares que suportarão o edifício da suposta salvação nacional, são dirigentes dos mesmos partidos que a golpes de incompetência, ganância, corrupção e inconsciência arruinaram a administração central, empurraram milhares e milhares de pessoas para o abismo da miséria e criaram no seu estômago a fome voraz, monstruosa, que só foi saciada com o alimento do crime económico e financeiro, como denunciam os nomes PPP, BPN ou swaps.