A "notícia" do consultor

Aguardo publicação no jornal Diário Económico do seguinte exercício de direito de resposta, acerca de declarações do líder da empresa de consultores em comunicação, Cunha Vaz & Associados:
"António Cunha Vaz enganou os leitores do Diário Económico.
"Na edição de 29 de Agosto passado do Diário Económico, António Cunha Vaz declarou, numa entrevista intitulada "Há jornalistas dispostos a fazer favores a amigos", o seguinte: "Um tal Pedro Tadeu, que foi diretor do 24horas, já aceitou uma encomenda num processo que eu pus ao Manuel Maria Carrilho. Esse indivíduo foi testemunhar contra mim em tribunal".
"1 - Nunca depus, nunca fui chamado a depor nem, tanto quanto sei, alguma vez constei da lista de qualquer rol de testemunhas relativas a processos que envolvessem António Cunha Vaz e Manuel Maria Carrilho.

Não me esqueço de António Borges

Uma coisa é noticiar a importância de uma personalidade na sociedade portuguesa, relatar a sua influência, documentar aquilo que dizem sobre ela pessoas relevantes, contextualizar e analisar o significado da sua atividade. Outra coisa é ter opinião sobre ela.

Ao noticiarmos a vida de António Borges não podemos deixar de realçar os méritos técnicos e profissionais que só uma inteligência invulgar, aplicada ao longo de muitos anos de trabalho, consegue alcançar.

Judite Sousa merece ser criticada?

Tivemos Isabel Jonet humilhada por dizer que o povo não devia comer bifes todos os dias. Tivemos o jovem Martim Neves, graças a uma confusão televisiva no Prós e Contras da RTP, endeusado como empreendedor do ano por aos 15 anos de idade vender camisolas estampadas. Tivemos Cristina Espírito Santo, da família banqueira, a ser copiosamente insultada por contar que nas férias levava uma vida mais simples a, cito, "brincar aos pobrezinhos". Tivemos a jornalista Judite Sousa a saborear o fel das redes sociais depois de perguntar na TVI a um jovem herdeiro, Lorenzo Carvalho, se não achava que podia ser visto como uma pessoa fútil e se a forma como gastava dinheiro não podia ser considerada ofensiva.

Jonet disse um disparate mas merecia crédito pelo trabalho que faz no Banco Alimentar Contra a Fome e direito a ser desculpada por, no fundo, repetir, em modo cru, o discurso da altura de Passos Coelho e companhia - afinal ela é só uma entre mais de dois milhões e meio de portugueses que votaram a favor da tese estupidamente suicida "gastámos acima das nossas possibilidades, agora temos de pagar".

Porque são os políticos cada vez piores?

António Guterres comparado com Durão Barroso, deixou saudades. Durão comparado com Santana Lopes, deixou saudades. Santana comparado com José Sócrates, deixou saudades (bom, talvez aqui haja uma excepção que confirme a regra...). Sócrates, comparado com Passos Coelho, deixou saudades. Antóno José Seguro, se tomar o poder, vai deixar-nos, quase de certeza, com saudades do Passos Coelho que hoje detestamos.

As teorias sobre as razões da continuada degradação da classe política podem somar-se: o carreirismo partidário clientelar; a fraca aprendizagem académica e profissional fora da vida política; a profissão política mal paga e exposta; um rotativismo partidário circular que, por isso, perde competência, imaginação e criatividade; o sistema eleitoral. Há quem alvitre isso, parte disso ou a soma total disso. Não chega.

A vida privada acabou

O jornalista lida todos os dias com o problema da melhor definição dos limites de vida privada que deve respeitar. Diz a minha experiência que, na maior parte das vezes, a questão é levantada para tentar impedir a divulgação de factos relevantes e pertinentes. Pois este problema do jornalista, que teve o seu exemplo extremo e negro nas escutas do tabloide britânico News of the World, deixou de fazer sentido, parece mesmo assunto ridículo, por o seu objeto de debate já não existir: a vida privada, tal como a entendemos até aqui, acabou.
O jovem Edward Snowden era um dos quatro milhões (sim, quatro milhões!) funcionários ao serviço de agências dos Estados Unidos da América com acesso a informações secretas. Ele denunciou o abuso da utilização do PRISM, um programa de vigilância eletrónica do governo dos Estados Unidos (que está legalmente autorizado) e que permite à agência NSA ter acesso a correio eletrónico, conversas de voz (por IP, áudio ou vídeo), transferências de arquivos, sons, imagens e, ainda, a notificações de login de quem use programas da Microsoft, Google, Facebook, Yahoo!, Apple, YouTube ou Skype, entre outras firmas.

A questão moral de Maria Luís Albuquerque

Maria Luís Albuquerque protagoniza um velho problema moral da política portuguesa? Sim. A tradição a que me refiro não está, porém, na mentira que ela terá dito numa Comissão Parlamentar de Inquérito (aparte: peço desculpa, mas não vou escrever, hipocritamente, frases como "ter faltado à verdade" com que os políticos e os analistas bem comportados, cínica e politicamente corretos, têm descrito este problema).

Uma hipotética nova questão dos casos swap não é, com certeza, a de uma mentira dita por um governante em sede institucional: em 39 anos de democracia não é esta a primeira vez que os deputados são enganados nestes inquéritos. Mas será a primeira vez que uma ministra das Finanças é apanhada a mentir durante esse ritual solene.

Isso é, de facto, novo, mas não modifica o problema moral em si: quem mente de forma oficial aos representantes do povo não pode exercer funções oficiais em representação desse povo. Há muito que esta relação está apreendida e o resultado lógico e coerente desse entendimento seria a decorrente demissão de Maria Luís, exigida pelos partidos de oposição.

A celebração da vitória de Pedro Passos Coelho

Passos Coelho teve uma grande vitória depois de conseguir que o Presidente da República ressuscitasse o seu governo, dado como irrevogavelmente morto há já três longas semanas. É a primeira vez que comemora algo na política, desde a noite eleitoral de 5 de junho de 2011.

O primeiro-ministro, seja por estratégia inteligente seja por obstinação estúpida, recusou demitir--se quando tudo ruia à sua volta. Este gesto, tomado contra o senso comum e ridicularizando a tradição politiqueira lusitana (lembrem António Guterres, lembrem Durão Barroso), candidatou-o, na alma dos apoiantes e na mente dos mais crédulos, a mártir da Nação.

Aceitou todas as condições impostas pelo instável parceiro de coligação, Paulo Portas. Todas? Não. Todas menos uma: a revogação da nomeação da ministra das Finanças, que é o cargo que realmente interessa controlar, pelo menos até junho de 2014, quando terminar esta primeira fase de subordinação de Portugal à troika. Na alma dos apoiantes e na mente dos mais crédulos, Passos Coelho passou a almejar o estatuto de líder agregador e de campeão do diálogo.

Estão mesmo a tentar salvar a nação?

O que é um acordo de salvação nacional? O que significa salvar o País? O que se quer salvar? Quem se quer salvar?

Os políticos do PSD, PS e CDS que negoceiam umas frases para um papel onde ficará timbrado o percurso para essa dita salvação nacional são os dirigentes dos partidos responsáveis pelo percurso político de Portugal nos últimos 30 anos. São estes os partidos que levaram o Estado, oito vezes secular, à ruína, à perda de independência económica e ao abandono de uma parte da sua soberania política.

Os líderes do PSD, PS e CDS, que discutem agora como erguer os três pilares que suportarão o edifício da suposta salvação nacional, são dirigentes dos mesmos partidos que a golpes de incompetência, ganância, corrupção e inconsciência arruinaram a administração central, empurraram milhares e milhares de pessoas para o abismo da miséria e criaram no seu estômago a fome voraz, monstruosa, que só foi saciada com o alimento do crime económico e financeiro, como denunciam os nomes PPP, BPN ou swaps.

Lições com Paulo Portas

Ficámos a saber que Paulo Portas é homem capaz de trair na sexta-feira a consciência pessoal que invocara na terça-feira para tomar a decisão "irrevogável" de sair do Governo.

Apreendemos as maravilhas de ser país do Eurogrupo com dívida de 72 mil milhões de euros ao FMI, à Comissão Europeia e ao BCE: só podemos ter um ministro das Finanças se aquela troika gostar, só podemos antecipar eleições se essa troika não se importar, só podemos mudar de governo se a dita troika nada objetar. E sem discussão!

Não sabemos, caso tenhamos eleições regulares em 2015, se os resultados terão, também, de ser previamente aprovados. Talvez não.

O "briefing" de Maria Luís Albuquerque

Quem se interessa pelos problemas sérios desta sociedade terá ignorado a novidade: os briefing (a tradução literal deste termo inglês é "instruções") que todos os dias úteis, às 12 horas, serão dados aos jornalistas pelo Governo. Ontem foi o primeiro.

Às 10 da manhã os jornalistas credenciados foram avisados: o tema a tratar duas horas depois seria o dos swaps (tradução literal: "trocas") e estaria lá a secretária de Estado Maria Luís Albuquerque.

Pedro Lomba, o mestre de cerimónias destes eventos, graduado em secretário de Estado, recebeu os antigos colegas de profissão e explicou as regras: uma delas era que poderia acontecer haver momentos em que as declarações feitas aos 30 ou 40 jornalistas presentes seriam em on (que mania têm pelo inglês!) e poderiam ser publicadas identificando a fonte da informação ou, em alternativa, em off (irra!), situação em que as ditas declarações passariam a ser citáveis sem atribuição de fonte.

... Portanto, espero não estar a ser mais um totó

A lista já pesa: assim, de repente e de memória, sou capaz de citar uma série de casos onde as autoridades e o poder executivo, judicial e legislativo tentam apertar os limites de utilização da liberdade de expressão. O leitor ou leitora não está preocupado com isso? Eu também não mas, já agora, repare nas notícias.

Temos Miguel Sousa Tavares,a palavra palhaço usada como possível insulto a Cavaco Silva e um processo levantado pelo Ministério Público, depois de um pedido de intervenção feito pelo Presidente da República.

Temos um cidadão em Elvas, totalmente desenquadrado de manifestações autorizadas, que no Dia de Portugal decide verberar o Presidente da República. Acabou detido e, em 24 horas, levado e condenado em tribunal - sentença que, por não poder ser julgada em processo sumário, o Ministério Público pretende agora anular.

Os professores em greve traíram ontem o País?

Este texto sintetiza o pensamento e o discurso de qualquer governante, militante do PS, do PSD, do CDS ou alegado independente que nos últimos 30 anos tenha opinado sobre a greve. Qualquer greve. É toda uma filosofia política. Passo, então, a citar.

"Os professores podem fazer greve, é um direito, mas essa luta não pode afetar a vida dos alunos. Os maquinistas, os ferroviários, os motoristas da Carris e da STCP também, é legítimo, mas devem salvaguardar o transporte das pessoas que querem trabalhar."

"A greve é um direito inalienável, mas os estivadores devem levar em conta o superior interesse nacional e descarregar os navios. Também os pilotos e os controladores aéreos podem fazer greve se os aviões importantes voarem. Os bombeiros têm direito à greve se ficarem em alerta para emergências. Os guardas prisionais grevistas devem levar os presos a passear ao pátio da cadeia. Mas, repito, não pode estar em causa o direito à greve."

Miguel Sousa Tavares, afinal, está safo!

Nem queria acreditar! O professor Cavaco Silva, num discurso oficial , enquanto Chefe do Estado, no Dia de Portugal e no pior ano que vivemos de crise, achou ser boa altura tentar reabilitar o seu passado como primeiro-ministro (José Sócrates tem, afinal, um mestre!) e resume assim 25 anos de política agrícola (dos quais os primeiros 10 comandou): "apesar de o número de agricultores ser então muito superior ao atual - cerca de 600 mil, contra cerca de 300 mil nos dias de hoje - a produtividade da terra cresceu 22% e a produtividade do trabalho agrícola aumentou 180%."

Cavaco Silva discursou aquele raciocínio sem se rir. Explicou querer desfazer assim "ideias feitas e preconceitos"... Como?!

Entre 1989 e 2009, o número de explorações agrícolas caiu 50% e a superfície agrícola utilizada diminuiu 9%. O valor acrescentado bruto criado pelo sector primário caiu de 10% para 2% - o peso do sector primário na riqueza criada no País dividiu-se assim por cinco.

António José Seguro é contrarrevolucionário?

Quase todos os dias, nas notícias ou na publicidade, aparece a palavra "revolucionário" associada a um novo medicamento, a um automóvel, a um champô, a um aparelho eletrónico. Essa sedução pela mudança, pela rutura com o caduco, esse desejo de chegar mais rapidamente ao melhor está tão arreigado à natureza humana que se tornou instrumento de comércio global.

Ser "revolucionário" é, no entanto, no nosso mundo ocidental, um conceito político delatado, combatido, ridicularizado ou temido.

Cavaco e Sousa Tavares

A investigação do Ministério Público a uma declaração de Miguel Sousa Tavares sobre Cavaco Silva não tem piada. Os assuntos de Estado são sérios, muito sérios.

O Código Penal prevê cadeia e multas para quem ofenda a honra do Presidente da República e para quem "ultraja" (sic) os símbolos nacionais: bandeira e hino. O Presidente representa a República, garante a independênia nacional, a unidade do Estado, o regular funcionamento das instituições e jura fazer cumprir a Constitução.

Num país que levasse os seus símbolos e a honra do Presidente a sério, todas as escolas, esquadras, tribunais, hospitais e outros edifícios públicos teriam, neste momento, a bandeira nacional hasteada e o retrato de Cavaco Silva exposto nos locais mais frequentados. Todos os funcionários da administração central ou autárquica saudariam a bandeira e cantariam o hino em diversas reuniões coletivas, formais ou informais.

O Conselho de Estado adivinha o futuro?

Estava a pensar na reunião do Conselho de Estado que ontem ocupou o Presidente da República. Aceitando de barato a agenda tornada pública, mais ou menos validada por dois membros da simpática sinecura que se dedicam à atividade bem mais lucrativa e prestigiante do comentário político em canal televisivo de sinal aberto, ter-se-á discutido o Portugal do pós-troika, o destino a dar ao pouco que sobrará da chacina financeira em curso .

Para visionar esse futuro, a um ano e picos de distância, se tudo correr como previsto - o que seria extraordinário, pois nos últimos dois anos nada do que a troika e o Governo programaram veio a acontecer, a não ser a espoliação generalizada dos bens dos cidadãos - temos sentado numa das 19 cadeiras reservadas a cérebros da Nação, aceites em Belém, um brilhante neurologista.

E não se discutem os salários do PSI-20?

Somam 61 milhões de euros as remunerações anuais recebidas pelos gestores de 19 empresas do PSI-20 (o Jornal de Negócios, que me referencia, não sabe os valores de uma das cotadas deste índice da Bolsa de Lisboa, a Portucel).

101 gestores de segunda linha receberam uma média de 608 mil euros, umas 55 vezes acima do salário médio anual de um trabalhador, que estimo em 11 mil euros (sim, estou a ser otimista). Estes 101 doutores e engenheiros criam, por si só, individualmente considerados, a riqueza produzida por 55 trabalhadores?... Duvido.

Os 19 presidentes de conselhos de administração destas empresas, que em média receberam 812 826 euros, valem, com o seu talento, esforço, dedicação e sabedoria (nunca postos em causa), o talento, o esforço, a dedicação e a sabedoria de 120 trabalhadores (sempre postos em causa e, nestes tempos, a caminho do despedimento) contratados pelo salário mínimo? Este fosso justifica-se?

A esquizofrenia moral do doutor Paulo Portas

Foi o próprio Paulo Portas que colocou a questão em termos éticos e morais: "Vivo a circunstância política em que tenho de cumprir com o meu dever perante o País e devo também procurar ser quem sou, o que significa estar em paz com a minha consciência."

Imagino que a consciência do cidadão Portas pense que "a liderança é antes de tudo o mais um mistério que nem sempre pode ser explicado pela racionalidade lógica". Talvez por isso o ministro de Estado imponha aos funcionários públicos a chantagem da escolha entre a mobilidade especial - 18 meses com salário reduzido e, depois, desemprego - ou a aceitação de rescisões imediatas.

Imagino que a consciência do líder democrata-cristão se interrogue: "Haverá alguma coisa mais humilhante do que estar condenado a não poder ganhar o seu próprio sustento?" Mas o dever do líder do PP conforma-se em atirar para o desemprego, sem direito a subsídio, mais 30 mil pessoas.

É com o consenso que o País se trama

Foi consensual aderir à Comunidade Económica Europeia. Foi consensual aderir à Zona Euro. Foi consensual vivermos 25 anos a engordar com os investimentos financiados pelos Quadros Comunitários de Apoio.
Foi consensual destruirmos inúmeras produções na indústria, na agricultura e nas pescas. Foi consensual passar a viver de crédito bancário. Foi consensual construir autoestradas, a Expo 98, o Euro 2004. Foi consensual deixar as câmaras municipais licenciarem selvas urbanísticas.
Foi consensual deixar crescer o Estado de uma maneira clientelar, corrompendo o seu papel na sociedade. Foi consensual desvalorizar a profissão de político até a tornar atraente, apenas, a malucos idealistas ou a imbecis carreiristas.

Cavaco une Portugal e dá posse a Jerónimo

Leia esta frase: "O meu país necessita de renegociar as condições do nosso ajustamento. Digo-o e repito-o. Renegociar as condições de ajustamento com metas e prazo reais."

Agora, leia esta: "O que vejo com preocupação é que FMI, a Comissão Europeia e o BCE só reagem, só corrigem o caminho depois de se tornar estupidamente óbvio que é preciso mudar de caminho."

Com paciência leia, também, esta: "O novo rumo e a nova política de que Portugal precisa têm de romper com a crescente submissão e subordinação externas."

E, finalmente, esta: "Portugal é um país democrático, é um Estado de Direito com uma ordem constitucional que tem de ser respeitada. E a exigência por esse respeito dá ao Governo possibilidade de exigir melhores condições no campo internacional."

Estas quatro afirmações, feitas em semana louca, sugerem uma mais do que óbvia linha de pensamento comum: os portugueses têm de impor limites à troika, ou, pelo menos, devem tentá-lo.