É com o consenso que o País se trama
Foi consensual destruirmos inúmeras produções na indústria, na agricultura e nas pescas. Foi consensual passar a viver de crédito bancário. Foi consensual construir autoestradas, a Expo 98, o Euro 2004. Foi consensual deixar as câmaras municipais licenciarem selvas urbanísticas.
Foi consensual deixar crescer o Estado de uma maneira clientelar, corrompendo o seu papel na sociedade. Foi consensual desvalorizar a profissão de político até a tornar atraente, apenas, a malucos idealistas ou a imbecis carreiristas.
Cavaco une Portugal e dá posse a Jerónimo
Leia esta frase: "O meu país necessita de renegociar as condições do nosso ajustamento. Digo-o e repito-o. Renegociar as condições de ajustamento com metas e prazo reais."
Agora, leia esta: "O que vejo com preocupação é que FMI, a Comissão Europeia e o BCE só reagem, só corrigem o caminho depois de se tornar estupidamente óbvio que é preciso mudar de caminho."
Com paciência leia, também, esta: "O novo rumo e a nova política de que Portugal precisa têm de romper com a crescente submissão e subordinação externas."
E, finalmente, esta: "Portugal é um país democrático, é um Estado de Direito com uma ordem constitucional que tem de ser respeitada. E a exigência por esse respeito dá ao Governo possibilidade de exigir melhores condições no campo internacional."
Estas quatro afirmações, feitas em semana louca, sugerem uma mais do que óbvia linha de pensamento comum: os portugueses têm de impor limites à troika, ou, pelo menos, devem tentá-lo.
A entrevista a Sócrates deu-me cabo do sono
Na quarta-feira deitei-me tarde. Dormi mal, sonhos intermitentes. Imagine-se que a dada altura vi uma televisão de ecrã a preto e branco. Nela, um antigo estúdio da RTP, decorado a reposteiro, encenava uma entrevista. Frente a frente, sentados a uma mesa fabricada pela Olaio, estavam, de um lado, os notáveis jornalistas (sem ironia) João Coito e José Mensurado e, do outro lado, António de Oliveira Salazar.
Neste anacronismo, o ditador repetia: "Quero contrapor a minha narrativa à narrativa posta a correr pelos inimigos do Estado Novo e que foi deixada vingar praticamente sem oposição."
Tens emprego? Primeiro tira aqui uma formação
Vamos lá dar dois mil e quinhentos caracteres de espaço ao País real: uma universitária conseguiu um trabalho na área da ação social. Salário? 600 euros mensais. Como conseguiu? Respondeu a um anúncio de uma autarquia que pedia candidatos abrangidos pela iniciativa "Impulso Jovem". Tudo bem? Não.
Aquele programa permite que o Estado devolva ao empregador, durante 18 meses, a taxa social única do posto de trabalho assim criado. Os candidatos, no entanto, só podem contar 18 a 30 anos de idade e têm de estar inscritos como desempregados há pelo menos seis meses.
Ao ver o anúncio, a mestre em psicologia dirigiu-se pela primeira vez na vida a um centro de emprego. Preencheu papéis, foi à entrevista na autarquia, saiu admitida. Feliz, regressou ao local de origem para finalizar o processo. Disseram-lhe: "Olhe que tem de frequentar primeiro um curso de formação de seis meses."
Belmiro de Azevedo e os diretores cagarolas
Na primeira, o magnata da Sonae diz que "os diretores são uns cagarolas e cada vez que um quer mexer numa peça é automaticamente acusado de censura".
Na segunda, o capitalista marca Continente declara que "os custos do Público estão bem identificados: 50% são encargos com pessoal, 38% são custos de produção do jornal e 12% são custos de telecomunicações e outros. Os custos com pessoal devem descer substancialmente".
Comecei nos jornais em 1983. Passámos da máquina de escrever ao computador, do telex à Internet, do filme em negativo à fotografia digital, da fotocomposição ao computer to plate, do suporte em papel aos websites, telemóveis e tablets. Trabalhamos agora com texto, fotos, gráficos, som e vídeo.
Nestes 30 anos a medida mais popular de gestão nos jornais em crise foi sempre a mesma: cortar custos salariais, despedir. Quase sempre a empresa jornalística que a aplicou ficou, depois, em pior situação financeira. Como diria Cavaco Silva, é uma espiral recessiva.
O pior da manifestação é mesmo o dia seguinte
No dia seguinte, dizem os defensores do Governo, ninguém apresenta alternativas às políticas de Pedro Passos Coelho. Isso não é, simplesmente, verdade. PS, PCP e Bloco, inúmeros economistas (independentes, de esquerda, do "centrão", gente biograficamente ligada ao PSD e ao PP), jornalistas, vários académicos, todos os parceiros sociais e até intelectuais estrangeiros têm listado, com maior ou menor arrojo, com maior ou menor dissonância em relação ao programa vigente, inúmeras ideias diferentes, de pormenor ou de fundo, para tentar melhorar a situação. Só por desonestidade intelectual se pode dizer que todas elas são irrealismo radical impraticável, demagogia populista ou ilusão revolucionária anacrónica.
A morte não é igual para todos
Todos temos um destino igual, a morte, mas todos somos diferentes na forma como a encaramos. A morte é o desenlace perplexo de todas as marcas feitas pela vida na nossa personalidade, intelectual e física; é a paragem de uma contínua e complexa soma de acontecimentos criadores de uma unidade orgânica irrepetível, a que chamamos indivíduo. A morte, o fim de uma história pessoal numa dada geografia física e social, nunca pode ser igual para todos, mesmo dentro de um grupo humano que procure, no governo da vida, igualdade de oportunidades para cada um se construir como indivíduo. A morte é ingovernável.
Hitchens foi estoico, foi esperançoso e foi ao ponto. Ele analisa os lugares mais comuns das mortes por doença prolongada: a tentativa de estender no tempo, até ao insuportável, aquilo a que chamamos uma vida normal; a relação com a família, os amigos íntimos e as resultantes da sua atividade profissional; os rituais da medicina e o carácter do pessoal de saúde; a violência dos tratamentos e os seus vários passos; a degradação das capacidades físicas; a dor.
Brinca, várias vezes, à medida que se sente cada vez mais fraco, com a ironia de uma expressão geralmente atribuída a Friedrich Nietzsche(1): “O que não me mata torna-me mais forte.” Expõe cruamente as esperanças e as desilusões dadas pelos vários tratamentos e pelos avanços mais recentes da medicina. Ilustra o medo pelos efeitos entorpecedores nas funções neurológicas das drogas administradas para controlar a dor. Nega, talvez com enganador orgulho, a teoria das etapas de Elisabeth Kübler-Ross(2) segundo a qual os doentes deste tipo passariam – embora, como explica em Educar para a Morte, João Carlos Gama Martins Macedo, sem sequências ou ritmos iguais – da negação da doença à revolta, da negociação à depressão, até chegarem, por fim, à aceitação.
É detalhado na descrição do sofrimento físico, mas nunca dá um sinal de verdadeiro desespero. Também não mostra qualquer tipo de abalo na sua convicção ateia nem sobre a existência, ou não, de outra vida para além desta. Nunca coloca, apesar do frequente, longo e violento sofrimento físico, que detalha, a questão de antecipar o fim, de morrer por suicídio assistido ou por eutanásia. Da primeira à última página escreve, aparentemente, um homem feliz.
Passos Coelho respeita a sua geração rasca
No dia seguinte o jornal Público coloca a fotografia do momento na capa e titula: "Geração rasca". Um editorial do diretor acusa os estudantes de transformarem a manifestação "num desfile de palavrões, cartazes e gestos obscenos, piadas de caserna ou trocadilhos no mais decrépito estilo das velhas 'repúblicas' coimbrãs" .
O Diário de Notícias titula na capa "Protesto Global" e guarda a foto de um traseiro ao léu para as páginas interiores. O diretor adjunto defende a atuação da PSP e acusa os estudantes de "se atirarem aos agentes e se ferirem ao 'chocar' com os bastões policiais".
Porque estamos com esta crise?… Foram os economistas, estúpido!
A história do combate ideológico e académico entre os dois economistas mais influentes do século XX é também a demonstração de como os economistas não escapam às culpas pela crise que vivemos hoje
JOHN MAYNARD KEYNES influenciou inúmeros governos para que não deixassem as economias dos seus países entregues aos caprichos e desumanidades do mercado. Exortou-os a utilizarem, em alturas de crise, uma intensa política de investimentos públicos, sem dar importância aos aumentos dos défices dos Estados, para relançarem as economias através da criação maciça de empregos. Este pragmático, que retirou aos socialistas o monopólio da ideologia de intervenção estatal na economia, com o fito deliberado de vencer o comunismo e melhor desenvolver o capitalismo, foi um homem que fez fortuna com investimentos pessoais certeiros – que lhe exigiam estudo e esforço diário – e, apesar de ter sido contratado com frequência para funções em organismos governamentais britânicos, recusou várias vezes receber salário do Estado.
Friedrich Hayek defendeu toda a vida que a liberdade e a justiça social só se alcançam se o mercado se regular a si próprio através dos seus próprios equilíbrios e das suas contradições. Para ele as crises devem resolver-se naturalmente e isso acontecerá mais facilmente se o Estado for mínimo e se quase tudo puder ser gerido por companhias privadas – educação,saúde, transportes, comunicações e, até, a emissão de moeda. Admitiu algumas exceções a estas regras: em primeiro lugar a defesa, claro, e (coisa que os seus adeptos muitas vezes parecem esquecer) seguros de saúde e subsídios de desemprego universais proporcionados pelo Estado. Este arauto da economia capitalista livre do controlo estatal, que tornou a defesa do mercado desregulado uma ideologia e um modelo utópico de sociedade, nunca conseguiu ter outra fonte de rendimento relevante que não fosse a do seu salário de académico universitário, várias vezes, em certos períodos dasuavida, pago no todo ou em parte por fundos governamentais. Também recebeu metade de um Prémio Nobel.