A viola do dia

Andei triste e, por isso, deixei-me de músicas… Agora estou melhorzito e volto ao assunto.

Eis um belo momento da guitarra de Coimbra, através do professor Edgar Nogueira, classificado aqui como “o melhor músico de guitarra portuguesa no mundo”

 

Ricardo Rodrigues, o moralista

O deputado socialista Ricardo Rodrigues acusou ontem o deputado bloquista João Semedo de ter "imaginação fértil" quando acusa o primeiro-ministro, José Sócrates - num relatório de onde sairão as conclusões da Comissão de Inquérito ao negócio PT/TVI -, de ter omitido, errado, faltado à verdade, mentido ou cometido outro pecado equivalente na Assembleia da República ao jurar desconhecer a intenção da Portugal Telecom em comprar a empresa proprietária da estação televisiva.
Nada tem de surpreendente a alegação do deputado socialista como, aliás, nada têm de surpreendentes as conclusões do deputado bloquista: não se esperaria outra coisa de quem está no partido do Governo - apoio incondicional ao primeiro-ministro, mesmo se este não tiver razão - nem de quem está na oposição - prosseguir na estratégia de fragilização do líder do Executivo, mesmo se ele até tiver razão.
O que é surpreendente é ser este deputado socialista, este Ricardo Rodrigues, o homem que está a tentar dar lições de moral aos deputados da oposição. Para quem esteja distraído, recordo que este é o mesmo

Coisas sem preço, como a honra

A Telefónica, empresa espanhola que, até hoje, divide com a Portugal Telecom o governo da brasileira Vivo, quer ficar com tudo. Dado esse facto, embrenhei-me nos jornais e nas secções especializadas. Durante uns dias, poucos, o tom heróico e paramilitar de cada artigo, notícia ou comentário quase sugeria estar a tocar, em fundo, uma versão ultramarcial d' A Portuguesa, com a banda da GNR a proclamar: "Contra os espanhóis, marchar! Marchar!" Pelo meio, estes arautos da alta finança anunciaram um aliado, ao estilo dos antigos mercenários ingleses que nos ajudaram em Aljubarrota: tratava-se do homem mais rico do mundo, Carlos Slim, disposto a contribuir para impedir a "invasão"... Era mentira.
A dada altura, Ricardo Salgado, dirigente máximo do Banco Espírito Santo e crónico candidato a pessoa mais influente do País, declarou, lapidar: "Tudo tem um preço, menos a honra." Faria de Oliveira, líder da

Uma ironia do destino...

Quando me demiti da direcção do 24horas, há um ano, recebi elogios públicos de apenas três pessoas: Ruben de Carvalho (é suspeito pela amizade que temos), Luís Delgado e Clara Pinto Correia.
Agora, após o fecho do jornal, recebi um elogio, totalmente inesperado, de Óscar Mascarenhas, antigo presidente do Conselho Deontológico e o melhor especialista nesta matéria que temos em Portugal.
É uma ironia receber este elogio, de onde não esperava, após tantas omissões pelo silêncio, de onde também não esperava.
Reproduzo o artigo do Óscar, que muito me sensibilizou, publicado no Jornal de Notícias a 5 de Julho passado com o título "O nome do palácio":
"O 'Público' e o 'Diário de Notícias' titularam algo como: «Primeira visita oficial do Presidente Cavaco Silva é ao Hospital da Estefânia.» O '24Horas' fez diferente: «Cavaco visita Hospital da Estefânia para pagar

Será que vão prender Sócrates?

No metropolitano de Londres é célebre o aviso oral mind the gap para recomendar aos passageiros precaução com a separação que há entre a carruagem e o cais. Uma tradução possível para a frase é "cuidado com fosso". O mais burro dos cidadãos percebe a ideia num segundo.
Aqui há uns dias, na estação do Marquês de Pombal, ouvi pela primeira vez uma réplica portuguesa. Era tão comprida que nem consegui decorar. Pareceu-me isto: "Esteja atento, nas entradas e nas saídas, ao intervalo entre o comboio e o cais..." Bolas! À quarta palavra já me perdi, já não sei o que me querem dizer, já vou, aliás, na escada rolante. Este vício talvez seja indelével ao carácter português. Tem um nome: complicador.
O complicador mais relevante da última semana foi ligado quando José Sócrates utilizou, na Portugal Telecom, a golden share (vejam como esta expressão, simples, teria mesmo de ser inglesa...). O primeiro-

O lugar na História de Cavaco Silva

Cavaco Silva tem um lugar de destaque na História ou, apenas, merecerá no futuro uma referência secundária?
No PSD, apesar de ter sido o seu líder com mais êxito político, pois foi o que assegurou ao partido o maior período de acesso ao poder executivo, nunca conseguiu ocupar o lugar dado pelo carisma, visão política, coragem e coerência ideológica de Francisco Sá Carneiro. Basta ouvir qualquer militante social-democrata, mesmo muito jovem - e não só os Pedros Santanas Lopes desta vida -, para perceber como essa decisiva influência perdura ao longo do tempo.
Como primeiro-ministro não é a sua actuação como governante que explica, nesse tempo, o inegável desenvolvimento económico de Portugal. Pelo contrário, muitas das suas opções são hoje postas em causa, a começar pelo próprio Cavaco Silva quando, por exemplo, critica agora a aposta no betão, o excesso de

Sócrates, o adorador de Chico Buarque

José Sócrates esteve com Chico Buarque... Ao ser desmentida a notícia, dada por fonte oficial, de que o músico pedira para conhecer o chefe do Governo português, foi a gargalhada. A credibilidade do primeiro-ministro sai outra vez chamuscada, a evidente falta de sentido de Estado da gente que o rodeia - para não dizer do próprio - fica comprovada. Mas não acho que esteja aí o busílis da questão...
Este Chico Buarque é o letrista que em 1975 saudou entusiasmado a nossa Revolução dos Cravos e, depois, lhe fez o funeral ao mudar o texto de "Tanto Mar" para proclamar, triste: "já murcharam tua festa pá" e "ainda guardo renitente um velho cravo para mim".
Este Chico Buarque é o músico que veio tocar a uma Festa do Avante!, do PCP. Este Chico Buarque é o escritor que visita com frequência Fidel Castro em Cuba. Este Chico Buarque é o cantor que, sobre uma "Morena de Angola" a declara "bichinha danada, minha camarada do MPLA". Este Chico Buarque é o

'Afinal' é uma palavra revolucionária?

Quando Portugal entrou para o euro, estava avisado: tinha uns anitos para colocar o défice anual das suas contas públicas abaixo dos três por cento. Se não cumprisse, tal como outros países "menos importantes", era expulso. No ano em que, no entanto, a Alemanha não cumpriu esse objectivo, os donos do euro bateram os recordes de utilização da palavra "afinal". "Afinal" um valor tão baixo para um défice público era um exagero. "Afinal", citando uma célebre frase de outro contexto, "há mais vida para além do défice". "Afinal", era melhor rever esses valores que tanto limitavam o papel dos Estados membros na economia, pois, "afinal", era bom dar-lhes a possibilidade de se endividarem mais... Assim foi.
Veio entretanto a crise. Uma crise provocada por os grandes banqueiros e os seus amigos negociarem dinheiro de poupanças e investimentos como se fossem a versão premium da dona Branca. Financiavam-se uns aos outros e pagavam juros e lucros dessas operações uns aos outros, arrecadando uma riqueza que

E o que faz Durão Barroso?

Um dos mitos que os portugueses gostam de alimentar é o de estarem naturalmente destinados a participar nas grandes decisões do mundo. Já não nos atrevemos a pretender liderar o planeta, como a História contada em versão patriótica garante ter acontecido nos séculos XV e XVI, mas no nosso íntimo permanecemos convictos da suposta influência de Portugal. Até temos Fátima e intervenção divina.
Outro facto da nossa personalidade é a de olharmos para o povo que aqui vive apontando-o, sem injustiça, como uma verdadeira desgraça da espécie humana. Contraditoriamente à nossa ânsia de estar no topo do mundo, autoclassificamo-nos como a fossa da Terra.
Um exemplo prático desta mansa esquizofrenia é a forma como falamos dos políticos. Enquanto andam por cá não passam, na opinião popular, de uns "trafulhas" que "querem é viver sem trabalhar" e "encher-se à conta do povo". E, no entanto, essas mesmas pessoas passam a ser respeitadas e admiradas logo que

A tolerância para Bento XVI

Tenho o azar na vida de ser ateu, de não conseguir encontrar motivo para adorar um qualquer criador do universo. Esta é uma declaração prévia de interesses - que neste tipo de situações me parece ser acto de lealdade imperativa perante o leitor - por ir abordar um assunto inevitável: a chegada a Portugal, hoje, do Papa Bento XVI.
Vejo, perplexo, escrito pelos jornais - incluindo aqui no Diário de Notícias - vários artigos de opinião a criticar as autoridades. A crítica mais recorrente tem a ver com a tolerância de ponto...
A estrada mais próxima da minha casa é caminho de peregrinos a Fátima. É impressionante o desfile de milhares, mesmo muitos milhares de pessoas, a pé, a cumprir o para mim incompreensível sacrifício de não sei que promessa. Serão todas estúpidas? Serão todas ignorantes? Serão gente que o Estado deve desprezar?
No fim-de-semana assisti a um casamento. Provavelmente os noivos e a maioria das 250 pessoas que ali estavam só entram numa igreja em momentos deste tipo. Ir aos domingos à missa não faz parte da vida

Os desempregados que paguem a crise

Pedro Passos Coelho decretou a si próprio a inevitabilidade de vir a ser primeiro-ministro no dia em que foi ter com José Sócrates para tomarem uma posição comum de "salvação do País
José Sócrates, por seu lado, confirmou-se a si próprio como mero poder transitório ao, no final dessa encenação política, anunciar aos portugueses que a resposta que tinha, a resposta do seu Partido Socialista para a "ofensiva" dos mercados financeiros, era um corte nos subsídios sociais. Traduzido por miúdos, foi o mesmo que ouvi-lo dizer, em horário nobre: "Os desempregados que paguem a crise!" Como suicídio político, foi do mais confrangedor que já se viu...
Mas o essencial da questão não é isso. O elemento mais relevante desse momento de suposta união nacional