Direito de Resposta:
Pedro Tadeu responde a Sousa Tavares
1 - A origem desta polémica está numa outra crónica publicada por mim em 2 de Março de 2010, intitulada "A vida privada segundo Francisco Assis" e que pode ser lida no site do DN (LINK). Aos leitores que tiverem paciência para isso, desafio-os a encontrarem nesse texto aquilo de que Sousa Tavares me acusa: que eu gostaria "de confirmar" (sic) salários de outros jornalistas através da divulgação pública das suas declarações de rendimentos. Sousa Tavares manipula e descontextualiza propositadamente essa crónica,
Direito de Resposta:
Sousa Tavares responde a Pedro Tadeu
1 - Pedro Tadeu, na sua injustificável coluna no DN, publicou há tempos um texto defendendo a divulgação pública das declarações fiscais de todos os cidadãos, indiscriminadamente - argumentando, entre outras coisas, que assim poderia confirmar os casos de "directores de jornais com salários de dez ou quinze mil euros e cronistas ou comentadores de TV a receber neste universo de remunerações".
2 - Comentando esta posição, eu escrevi na revista GQ que ele era, obviamente, movido pela mais antiga doença portuguesa, que é a inveja. E, recordando a sua passagem como director pelo jornal 24 Horas, por ele transformado num pasquim especializado na devassa da vida alheia (sufocando qualquer resistência deontológica de alguns bons profissionais que lá trabalham), referi que este era o mesmo Tadeu que fizera
A má consciência de Sousa Tavares
Depois de apontar o dedo - "vede, plebeus, vede que ali vai um invejoso!" -, Sousa Tavares cai em tentação. No Expresso indigna-se com os rendimentos de António Mexia: "Que pateta não conseguiria lucros a gerir uma empresa que funciona em monopólio, vendendo um bem essencial como a electricidade?",
Indiferentes a José Sócrates
Faz-me impressão o generoso José Sócrates - à época presidente da concelhia do PS na Covilhã, líder da federação do partido em Castelo Branco e deputado eleito pelo distrito - alegar em sua defesa ter elaborado estas 21 pérolas da engenharia civil beirã a pedido de amigos, sem receber um tostão… Como se assinar projectos "por cunha" e, pelo que parece ser sugerido, "de cruz", fosse actividade isenta de crítica e totalmente insuspeita!
Faz-me impressão o primeiro- -ministro José Sócrates insistir em atirar-se ao jornalismo: as notícias sobre a tentativa de controlo da comunicação social são "mau jornalismo". As notícias sobre o que fez ou não fez no Freeport são "mau jornalismo". As notícias sobre a licenciatura na Universidade Independente são "mau
O silêncio da ministra Ana Jorge
Não é verdade?... É! E para o comprovar basta constatarmos que quando qualquer milionário tem um problema de saúde sério entra para internamento num dos grandes hospitais do Estado e não num desses edifícios de aço e vidro da família Melo ou da banca. Temos o exemplo recente de Horácio Roque, no velhinho Hospital de São José, de Lisboa.
Nos últimos anos, vivemos uma nova fase desta delapidação de um dos poucos serviços do Estado que nos fazem acreditar valer a pena pagar impostos: agora escorraçam-se médicos do serviço público. Isto tem afectado mais os chamados cuidados de saúde primários, os centros de saúde. Desde o início do ano passaram à reforma, a maioria antecipadamente, 600 médicos do serviço público. É quase certo que a maioria destes reformados trabalha ou vai trabalhar no privado e, pasme-se, face à falta de médicos a ministra Ana Jorge estuda a hipótese de recontratar esses reformados, que, assim, passariam a receber deste Estado, que se diz quase falido, não só a reforma mas também um novo salário.
A Organização Mundial de Saúde afirmou há dias que Portugal era o País da União Europeia com maiores desigualdades no acesso aos cuidados de saúde. Há 700 mil portugueses sem médico de família. A distribuição de médicos está distorcida: por cada médico nos centros de saúde existem 3,6 médicos nos hospitais. Faltam cerca de 20 mil enfermeiros e apesar disto mais de três mil enfermeiros estão desempregados. Prevê-se que, no ano de 2015, cerca de 80% dos médicos terão mais de 55 anos. Mesmo assim, as entradas nas faculdades de Medicina são limitadíssimas. E o Programa de Estabilidade e Crescimento anuncia que irão ser cortados, até 2013, 715 milhões de euros nos serviços de saúde.
Face a este panorama, a este desgoverno, quando a ministra da Saúde Ana Jorge vê os utentes do centro de saúde de Valença do Minho protestarem desde domingo pelo fecho do SAP, deve sentir grande dificuldade para argumentar em defesa da sua medida. Talvez por isso, até agora, pouco ou nada tenha dito.
Como Santana Lopes sobrevive no PSD
Já toda a gente deu nota de que o congresso do PSD foi ofuscado pela chamada "lei da rolha" proposta por Santana e aprovada pelos militantes sociais-democratas num, oiço dizer agora, "infeliz momento colectivo de distracção".
Houve um tempo em que muito se teorizava sobre a capacidade de Santana Lopes hipnotizar plateias, mas entraríamos certamente no reino da loucura se acreditássemos que 352 pessoas votaram, em estado cataléptico, um taxativo "sim" à expulsão de militantes que criticassem a direcção do partido em período eleitoral.
Como essa alucinação colectiva, neste contexto, será impossível, só poderemos tirar uma conclusão: a proposta do antigo primeiro-ministro é efectivamente apoiada pela maioria dos militantes sociais-democratas.
O problema, portanto, dos candidatos a liderar o partido "laranja" não é o mero desacordo, que manifestam, com a ideia de Santana. Desconfio aliás que, passada a espuma destes dias, após o ciclo de eleições internas, a medida ficará, inerte, nos estatutos do PSD, sem alteração.
O problema está em que a "lei da rolha" surge depois de o partido ter passado meses e meses a bramar contra a "asfixia democrática" e a "tentativa de controlo da comunicação social" por parte de José Sócrates. A contradição, para um futuro candidato a primeiro- -ministro, é óbvia.
Acontece que a proposta de Santana Lopes - por uma vez, caramba! - é razoável, é justa. E foi por isso que os militantes a aprovaram.
Alguém aceita que um administrador de uma empresa arruíne a reputação financeira da sua firma quando se lançam acções em bolsa? Alguém aceita que um dirigente critique o treinador do seu clube de futebol antes de um jogo que decide o título? Então porque devemos aceitar que se diga mal do nosso partido quando ele luta para ganhar eleições?
Todos percebem isso: uma coisa é ter direito à liberdade de expressão, outra é ter direito a trair. O que os militantes do PSD disseram é que não gostam de ter traidores entre si. Eis algo que me parece muito razoável. E eis uma razão, simples, que explica porque Santana, apesar de tantas vezes ter sido dado como politicamente morto, acaba sempre por renascer das cinzas.
A denúncia de Henrique Granadeiro
no Parlamento
Acho oportuno, dado que o meu nome foi trazido à liça, recordar o que a 11 de Setembro de 2004 escrevi no 24horas, na sequência da demissão do seu administrador máximo: "Granadeiro é um homem da comunicação social. Entende a gestão deste tipo de empresas com base em duas ideias nucleares: liberdade e responsabilidade. Aqui tivemos, no 24horas, toda a liberdade. Aqui se exigiu a máxima responsabilidade. Parece simples mas, posso garantir, não é fácil. Nem muito vulgar. É encontrar alguém com visão de Estado sobre o papel da imprensa em democracia, disposto a pagar todos os preços para garantir a independência dos jornalistas mas sendo igualmente implacável perante obscuros interesses corporativos ou laxismos que, por vezes, minam a profissão. Para conjugar isto, nos dias de hoje, é preciso quase ser-se um herói."
Quero acrescentar, para que não haja qualquer equívoco, que a administração que se seguiu, liderada pelo jornalista Luís Delgado, nomeada pela Portugal Telecom no mesmo contexto político que vitimou Henrique Granadeiro, não só não me demitiu como foi outro caso exemplar: nunca tive da parte de Delgado uma reunião, uma crítica, uma análise, um telefonema, uma conversa de circunstância, uma mera interjeição de reprovação sobre quaisquer notícias publicadas pelos jornalistas do 24horas.
Essas duas administrações exigiram-me a prática do jornalismo e a recusa da traficância informativa. Se com Granadeiro me tinha saído a taluda da liberdade de imprensa, com Delgado dupliquei o prémio.
Para resistir aos ataques do poder político a imprensa precisa de várias coisas, desde estabilidade financeira a verdadeira diversificação de proprietários. Mas concluo também, por experiência própria, vivida, comprovada, que a imprensa necessita de ter à sua frente gente digna, firme e vertical. É preciso "quase ser-se um herói"… O problema é que hoje quase ninguém está para heroísmos.
Deu um "tilt" a António Vitorino
Esse foi o dia do tilt no flipper cerebral de António Vitorino. Foi o dia em que o homem, que 19 anos antes era apenas um deputado eleito pela Frente Republicana e Socialista, resolveu procurar mais verdejantes pastos. Em 1999, dois anos depois, era comissário europeu.
Ninguém sabe muito bem o que Vitorino andou a fazer pela Comissão Europeia - só porque ninguém sabe muito bem o que faz, de facto, a Comissão Europeia - mas como os portugueses adoram os compatriotas que brilham lá fora - na mesma proporção que odeiam os que têm êxito cá dentro - Vitorino passou ao estatuto de D. Sebastião, que se espera eternamente ver regressado ao poder... não se sabe é bem porquê.
Os portugueses voltaram a vê-lo na noite da vitória, com maioria absoluta, de José Sócrates. Na sede da candidatura do seu camarada, disparou um ríspido "habituem- -se" para justificar aos jornalistas uma ausência de declarações. E passaram a tê-lo como visita de casa quando, para servir de contraponto a Marcelo Rebelo de Sousa, falava semanalmente para lares sintonizados na RTP1.
Pois o sócio da firma Cuatrecasas, Gonçalves Pereira & Associados, o administrador não executivo do Portugal Telecom Internacional, o consultor jurídico da EDP, o consultor de Assuntos Sociais da José de Mello SGPS, o vice-presidente do Conselho de Planeamento da Universidade Internacional, o presidente do Centro de Estudos Euralgense, o administrador não executivo da Siemens Portugal, o presidente das assembleias gerais da Brisa, da Finipro e da Novabase, e o, ainda, presidente do Conselho de Administração da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (ufa!) - para além de ilustre cronista neste jornal e outras coisas que não vêm nos currículos oficiosos da Internet - resolveu, novamente, bater com a porta e sair da ribalta.
Uns dias depois do anúncio do fim do Notas Soltas, outra jornalista, desta vez Manuela Moura Guedes, voltou a meter-se com o homem. No Parlamento acusou o superconsultor e superadvogado de ser o responsável pelo fim do seu telejornal na TVI… Será que, tal como há 13 anos, voltou a dar um tilt a António Vitorino?
A vida privada segundo Francisco Assis
Ninguém é capaz - nem a lei o faz - de definir com facilidade o que é vida privada mas é em nome da sua defesa que Francisco Assis, líder parlamentar do PS, impede o debate de uma proposta que pretende tornar públicos os rendimentos dos contribuintes.
A riqueza de um país é um bem finito e a forma como essa riqueza está distribuída (e não a forma como cada um gasta o seu dinheiro, que isso, sim, parece-me indiscutível matéria de foro privado) deveria ser conhecida por todos. Por isso, as declarações de impostos, que a máquina do Estado possui, deveriam ser públicas.
Não se trata de um mero instrumento de combate à corrupção, trata-se de dar acesso generalizado a uma avaliação objectiva da existência, ou não, de justiça social - o cimento da construção do edifício democrático - e de aumentar a pressão sobre o poder para corrigir as distorções que existem.
Mas uma proposta dessas está condenada ao fracasso. Porquê? Porque há administradores de empresas em crise a levar para casa 50 ou 60 mil euros por mês. Porque há políticos profissionais a cobrar 25 mil euros mensais nos seus escritórios de advogados. Porque há directores de jornais com salários de 10 ou 15 mil euros. Porque há cronistas ou comentadores de TV a receber neste universo de remunerações, ditado por supostas tendências do mercado de trabalho que, afinal, ninguém conhece.
Esta gente, que lidera as ideias do País, nunca quererá revelar os seus rendimentos, nunca escreverá em defesa desta ideia. Eles têm êxito, mas também têm má consciência. E há ainda muito pavão, pelintra, com vergonha do seu fracasso financeiro, a querer escondê-lo da opinião pública.
Para uns e para outros essa informação afecta, como diz George Duby, como pensa Francisco Assis, "a honra" e, por isso, deverá ficar secreta... Só que isso não é honra, é hipocrisia.
Vivemos num país onde a maioria dos empregados ganha menos de mil euros por mês. Isto sim é uma desonra para Portugal... Defesa da vida privada, o tanas!
Excesso insuportável de palavras inúteis
Um miúdo de galochas e camisola interior contempla, plácido, sentado num tijolo, a persiana daquele que há minutos era o seu quarto. A janela espreita cá para fora, como um olho improvável, que a casa está lá em baixo, soterrada. Um corpo escondido por um lençol branco é levado sem vida, sem cor, numa maca carregada por bombeiros de capacete garrido, amarelo. Um braço estendido tira das águas revoltas um homem que luta contra o afogamento. Há excesso de imagens comoventes nas tragédias dos dias de hoje.
Procuramos sempre culpados. Antigamente era a fúria divina provocada pela nossa suposta vida licensiosa. Agora, que Deus já não tem fúrias e os pecados da carne são uma irrelevância moral, racionalizamos a hecatombe com a denuncia do pecado da imprevidência: sofremos, morremos, perdemos o que conquistámos à vida porque construímos onde não devemos, porque manipulamos a natureza a golpes de toneladas de betão e ferro, porque desafiamos o clima com agressões de fumo, gasolina e CO2. Há excesso de má consciência na civilização tecnológica dos dias de hoje.
Esquecemos a trica política. Guardamos o rancor para outro dia. Abraçamos o maior inimigo. Prometemos corrigir os erros do passado. Inventamos actos solidários de homenagem aos que foram embora. Destinamos milhões para pagar prejuízos. E vamos à missa. Há excesso de rituais normalizados nos dias políticos de hoje.
Nada há para dizer e, no entanto, ninguém pára de falar. Falou o Presidente. Falou o primeiro-ministro. Falou o líder do Governo Regional da Madeira. Falou o ministro. Falou o homem da Protecção Civil. Falou o comandante dos bombeiros. Falou o comentador profissional. E os jornalistas não se calam, horas e horas e horas a fio. Há demasiadas palavras inúteis na linguagem destes tempos que correm.
Maldita profissão esta, que me obriga, sem respeito pela morte, a somar as minhas palavras, mais palavras inúteis, ao ruído insuportável que me cerca...