A má consciência de Sousa Tavares

Sousa Tavares vive em contradição moral. Numa revista para homens acusa-me do pecado mortal da inveja. Os 10 ou 15 mil euros que uns poucos jornalistas ganham seriam o tormento da minha alma até porque, supõe-se, eu não receberei isso (será, camarada Miguel? Será verdade que a economia de mercado, que tanto elogia, lhe paga mais do que a mim? Tem a certeza? Será que sim? Será que não?... Que ansiedade, camarada Miguel!).
Depois de apontar o dedo - "vede, plebeus, vede que ali vai um invejoso!" -, Sousa Tavares cai em tentação. No Expresso indigna-se com os rendimentos de António Mexia: "Que pateta não conseguiria lucros a gerir uma empresa que funciona em monopólio, vendendo um bem essencial como a electricidade?",

Indiferentes a José Sócrates

Faz-me impressão as casas com assinatura do engenheiro-técnico José Sócrates serem, pelo que vi ontem no Público, sistematicamente medonhas. Como pode o autor desta sustentada poluição visual ter chegado a ministro do Ambiente?
Faz-me impressão o generoso José Sócrates - à época presidente da concelhia do PS na Covilhã, líder da federação do partido em Castelo Branco e deputado eleito pelo distrito - alegar em sua defesa ter elaborado estas 21 pérolas da engenharia civil beirã a pedido de amigos, sem receber um tostão… Como se assinar projectos "por cunha" e, pelo que parece ser sugerido, "de cruz", fosse actividade isenta de crítica e totalmente insuspeita!
Faz-me impressão o primeiro- -ministro José Sócrates insistir em atirar-se ao jornalismo: as notícias sobre a tentativa de controlo da comunicação social são "mau jornalismo". As notícias sobre o que fez ou não fez no Freeport são "mau jornalismo". As notícias sobre a licenciatura na Universidade Independente são "mau

O silêncio da ministra Ana Jorge

Os vários governos PS, PSD e CDS têm aplicado uma política de fragilização do Serviço Nacional de Saúde. Para isso, procederam a uma paulatina privatização de serviços, cujo rosto mais visível é o dos hospitais privados, razoáveis nas instalações e na hotelaria, mas frágeis em tudo o resto, a começar na gestão que acumula prejuízos e a acabar no que sai da rotina habitual da assistência médica básica ou quase básica.

Não é verdade?... É! E para o comprovar basta constatarmos que quando qualquer milionário tem um problema de saúde sério entra para internamento num dos grandes hospitais do Estado e não num desses edifícios de aço e vidro da família Melo ou da banca. Temos o exemplo recente de Horácio Roque, no velhinho Hospital de São José, de Lisboa.

Nos últimos anos, vivemos uma nova fase desta delapidação de um dos poucos serviços do Estado que nos fazem acreditar valer a pena pagar impostos: agora escorraçam-se médicos do serviço público. Isto tem afectado mais os chamados cuidados de saúde primários, os centros de saúde. Desde o início do ano passaram à reforma, a maioria antecipadamente, 600 médicos do serviço público. É quase certo que a maioria destes reformados trabalha ou vai trabalhar no privado e, pasme-se, face à falta de médicos a ministra Ana Jorge estuda a hipótese de recontratar esses reformados, que, assim, passariam a receber deste Estado, que se diz quase falido, não só a reforma mas também um novo salário.

A Organização Mundial de Saúde afirmou há dias que Portugal era o País da União Europeia com maiores desigualdades no acesso aos cuidados de saúde. Há 700 mil portugueses sem médico de família. A distribuição de médicos está distorcida: por cada médico nos centros de saúde existem 3,6 médicos nos hospitais. Faltam cerca de 20 mil enfermeiros e apesar disto mais de três mil enfermeiros estão desempregados. Prevê-se que, no ano de 2015, cerca de 80% dos médicos terão mais de 55 anos. Mesmo assim, as entradas nas faculdades de Medicina são limitadíssimas. E o Programa de Estabilidade e Crescimento anuncia que irão ser cortados, até 2013, 715 milhões de euros nos serviços de saúde.

Face a este panorama, a este desgoverno, quando a ministra da Saúde Ana Jorge vê os utentes do centro de saúde de Valença do Minho protestarem desde domingo pelo fecho do SAP, deve sentir grande dificuldade para argumentar em defesa da sua medida. Talvez por isso, até agora, pouco ou nada tenha dito.

in "Diário de Notícias", 30 de Março de 2010

Como Santana Lopes sobrevive no PSD

Para a semana, o PSD terá um líder e talvez ele enterre de vez a vida política relevante de Santana Lopes… Pronto, não vou exagerar: Para a semana o PSD terá um líder e talvez ele não tenha na sua vida política um Santana Lopes relevante.

Já toda a gente deu nota de que o congresso do PSD foi ofuscado pela chamada "lei da rolha" proposta por Santana e aprovada pelos militantes sociais-democratas num, oiço dizer agora, "infeliz momento colectivo de distracção".

Houve um tempo em que muito se teorizava sobre a capacidade de Santana Lopes hipnotizar plateias, mas entraríamos certamente no reino da loucura se acreditássemos que 352 pessoas votaram, em estado cataléptico, um taxativo "sim" à expulsão de militantes que criticassem a direcção do partido em período eleitoral.

Como essa alucinação colectiva, neste contexto, será impossível, só poderemos tirar uma conclusão: a proposta do antigo primeiro-ministro é efectivamente apoiada pela maioria dos militantes sociais-democratas.

O problema, portanto, dos candidatos a liderar o partido "laranja" não é o mero desacordo, que manifestam, com a ideia de Santana. Desconfio aliás que, passada a espuma destes dias, após o ciclo de eleições internas, a medida ficará, inerte, nos estatutos do PSD, sem alteração.

O problema está em que a "lei da rolha" surge depois de o partido ter passado meses e meses a bramar contra a "asfixia democrática" e a "tentativa de controlo da comunicação social" por parte de José Sócrates. A contradição, para um futuro candidato a primeiro- -ministro, é óbvia.

Acontece que a proposta de Santana Lopes - por uma vez, caramba! - é razoável, é justa. E foi por isso que os militantes a aprovaram.

Alguém aceita que um administrador de uma empresa arruíne a reputação financeira da sua firma quando se lançam acções em bolsa? Alguém aceita que um dirigente critique o treinador do seu clube de futebol antes de um jogo que decide o título? Então porque devemos aceitar que se diga mal do nosso partido quando ele luta para ganhar eleições?

Todos percebem isso: uma coisa é ter direito à liberdade de expressão, outra é ter direito a trair. O que os militantes do PSD disseram é que não gostam de ter traidores entre si. Eis algo que me parece muito razoável. E eis uma razão, simples, que explica porque Santana, apesar de tantas vezes ter sido dado como politicamente morto, acaba sempre por renascer das cinzas.

in "Diário de Notícias", 23 de Março de 2010

A denúncia de Henrique Granadeiro
no Parlamento

Aqui há uma semana Henrique Granadeiro disse, na Comissão de Ética parlamentar que discute uma tentativa governamental de controlo da comunicação social, ter sido obrigado a demitir-se da liderança da administração dos jornais que nessa altura pertenciam à Portugal Telecom. Afirmou ele que o Governo PSD lhe exigiu a cabeça de três directores: José Leite Pereira, ainda hoje director do Jornal de Notícias, Joaquim Vieira, director da entretanto extinta Grande Reportagem, e eu próprio, que nessa altura dirigia o jornal 24horas.

Acho oportuno, dado que o meu nome foi trazido à liça, recordar o que a 11 de Setembro de 2004 escrevi no 24horas, na sequência da demissão do seu administrador máximo: "Granadeiro é um homem da comunicação social. Entende a gestão deste tipo de empresas com base em duas ideias nucleares: liberdade e responsabilidade. Aqui tivemos, no 24horas, toda a liberdade. Aqui se exigiu a máxima responsabilidade. Parece simples mas, posso garantir, não é fácil. Nem muito vulgar. É encontrar alguém com visão de Estado sobre o papel da imprensa em democracia, disposto a pagar todos os preços para garantir a independência dos jornalistas mas sendo igualmente implacável perante obscuros interesses corporativos ou laxismos que, por vezes, minam a profissão. Para conjugar isto, nos dias de hoje, é preciso quase ser-se um herói."

Quero acrescentar, para que não haja qualquer equívoco, que a administração que se seguiu, liderada pelo jornalista Luís Delgado, nomeada pela Portugal Telecom no mesmo contexto político que vitimou Henrique Granadeiro, não só não me demitiu como foi outro caso exemplar: nunca tive da parte de Delgado uma reunião, uma crítica, uma análise, um telefonema, uma conversa de circunstância, uma mera interjeição de reprovação sobre quaisquer notícias publicadas pelos jornalistas do 24horas.

Essas duas administrações exigiram-me a prática do jornalismo e a recusa da traficância informativa. Se com Granadeiro me tinha saído a taluda da liberdade de imprensa, com Delgado dupliquei o prémio.

Para resistir aos ataques do poder político a imprensa precisa de várias coisas, desde estabilidade financeira a verdadeira diversificação de proprietários. Mas concluo também, por experiência própria, vivida, comprovada, que a imprensa necessita de ter à sua frente gente digna, firme e vertical. É preciso "quase ser-se um herói"… O problema é que hoje quase ninguém está para heroísmos.


in "Diário de Notícias", 16 de Março de 2010

Deu um "tilt" a António Vitorino

A António Vitorino saiu-lhe um dia a sorte grande quando o jornalista José António Cerejo, do jornal Público, em 1997, telefonou para o gabinete do então vice-primeiro-ministro a fazer perguntas sobre um pagamento de um imposto relativo à compra de uma casa em ruínas. Antes de o jornal do dia seguinte sair, Vitorino já pedira a demissão.

Esse foi o dia do tilt no flipper cerebral de António Vitorino. Foi o dia em que o homem, que 19 anos antes era apenas um deputado eleito pela Frente Republicana e Socialista, resolveu procurar mais verdejantes pastos. Em 1999, dois anos depois, era comissário europeu.

Ninguém sabe muito bem o que Vitorino andou a fazer pela Comissão Europeia - só porque ninguém sabe muito bem o que faz, de facto, a Comissão Europeia - mas como os portugueses adoram os compatriotas que brilham lá fora - na mesma proporção que odeiam os que têm êxito cá dentro - Vitorino passou ao estatuto de D. Sebastião, que se espera eternamente ver regressado ao poder... não se sabe é bem porquê.

Os portugueses voltaram a vê-lo na noite da vitória, com maioria absoluta, de José Sócrates. Na sede da candidatura do seu camarada, disparou um ríspido "habituem- -se" para justificar aos jornalistas uma ausência de declarações. E passaram a tê-lo como visita de casa quando, para servir de contraponto a Marcelo Rebelo de Sousa, falava semanalmente para lares sintonizados na RTP1.

Pois o sócio da firma Cuatrecasas, Gonçalves Pereira & Associados, o administrador não executivo do Portugal Telecom Internacional, o consultor jurídico da EDP, o consultor de Assuntos Sociais da José de Mello SGPS, o vice-presidente do Conselho de Planeamento da Universidade Internacional, o presidente do Centro de Estudos Euralgense, o administrador não executivo da Siemens Portugal, o presidente das assembleias gerais da Brisa, da Finipro e da Novabase, e o, ainda, presidente do Conselho de Administração da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (ufa!) - para além de ilustre cronista neste jornal e outras coisas que não vêm nos currículos oficiosos da Internet - resolveu, novamente, bater com a porta e sair da ribalta.

Uns dias depois do anúncio do fim do Notas Soltas, outra jornalista, desta vez Manuela Moura Guedes, voltou a meter-se com o homem. No Parlamento acusou o superconsultor e superadvogado de ser o responsável pelo fim do seu telejornal na TVI… Será que, tal como há 13 anos, voltou a dar um tilt a António Vitorino?

in "Diário de Notícias", 9 de Março de 2010

A vida privada segundo Francisco Assis

Na História da Vida Privada, George Duby afirma que o conceito diz respeito "ao que possuímos de mais precioso, que pertence somente a nós mesmos, que não diz respeito a mais ninguém, que não deve ser divulgado, exposto, pois é muito diferente das aparências que a honra exige guardar em público"... Até Duby se sentiu obrigado, para traçar uma fronteira entre o que é público e o que é privado, a usar um conceito tão maltratado, tão difuso, tão volátil e tão subjectivo como o da "honra"!

Ninguém é capaz - nem a lei o faz - de definir com facilidade o que é vida privada mas é em nome da sua defesa que Francisco Assis, líder parlamentar do PS, impede o debate de uma proposta que pretende tornar públicos os rendimentos dos contribuintes.

A riqueza de um país é um bem finito e a forma como essa riqueza está distribuída (e não a forma como cada um gasta o seu dinheiro, que isso, sim, parece-me indiscutível matéria de foro privado) deveria ser conhecida por todos. Por isso, as declarações de impostos, que a máquina do Estado possui, deveriam ser públicas.

Não se trata de um mero instrumento de combate à corrupção, trata-se de dar acesso generalizado a uma avaliação objectiva da existência, ou não, de justiça social - o cimento da construção do edifício democrático - e de aumentar a pressão sobre o poder para corrigir as distorções que existem.

Mas uma proposta dessas está condenada ao fracasso. Porquê? Porque há administradores de empresas em crise a levar para casa 50 ou 60 mil euros por mês. Porque há políticos profissionais a cobrar 25 mil euros mensais nos seus escritórios de advogados. Porque há directores de jornais com salários de 10 ou 15 mil euros. Porque há cronistas ou comentadores de TV a receber neste universo de remunerações, ditado por supostas tendências do mercado de trabalho que, afinal, ninguém conhece.

Esta gente, que lidera as ideias do País, nunca quererá revelar os seus rendimentos, nunca escreverá em defesa desta ideia. Eles têm êxito, mas também têm má consciência. E há ainda muito pavão, pelintra, com vergonha do seu fracasso financeiro, a querer escondê-lo da opinião pública.

Para uns e para outros essa informação afecta, como diz George Duby, como pensa Francisco Assis, "a honra" e, por isso, deverá ficar secreta... Só que isso não é honra, é hipocrisia.

Vivemos num país onde a maioria dos empregados ganha menos de mil euros por mês. Isto sim é uma desonra para Portugal... Defesa da vida privada, o tanas!

in "Diário de Notícias", 2 de Março de 2010

Excesso insuportável de palavras inúteis

Uma mulher rodeada por quilómetros de terra, lama, pedra e destroços tenta, com um pequeno ramo de árvore, desenterrar qualquer coisa minúscula no lodaçal. Um monte de automóveis desfeitos, empoleirado numa pilha de troncos e barro, ameaça desabar sobre o telhado vermelho de um edifício. Um cão busca, por debaixo de uma montanha de escombros, o odor de um cadáver. Uma tromba avassaladora de líquido castanho corre, desabrida, por uma viela. É um gigante Adamastor que tudo destrói, em luta por espaço e mais espaço e mais espaço. Há falta de proporções humanas nos cataclismos dos dias de hoje.

Um miúdo de galochas e camisola interior contempla, plácido, sentado num tijolo, a persiana daquele que há minutos era o seu quarto. A janela espreita cá para fora, como um olho improvável, que a casa está lá em baixo, soterrada. Um corpo escondido por um lençol branco é levado sem vida, sem cor, numa maca carregada por bombeiros de capacete garrido, amarelo. Um braço estendido tira das águas revoltas um homem que luta contra o afogamento. Há excesso de imagens comoventes nas tragédias dos dias de hoje.

Procuramos sempre culpados. Antigamente era a fúria divina provocada pela nossa suposta vida licensiosa. Agora, que Deus já não tem fúrias e os pecados da carne são uma irrelevância moral, racionalizamos a hecatombe com a denuncia do pecado da imprevidência: sofremos, morremos, perdemos o que conquistámos à vida porque construímos onde não devemos, porque manipulamos a natureza a golpes de toneladas de betão e ferro, porque desafiamos o clima com agressões de fumo, gasolina e CO2. Há excesso de má consciência na civilização tecnológica dos dias de hoje.
Esquecemos a trica política. Guardamos o rancor para outro dia. Abraçamos o maior inimigo. Prometemos corrigir os erros do passado. Inventamos actos solidários de homenagem aos que foram embora. Destinamos milhões para pagar prejuízos. E vamos à missa. Há excesso de rituais normalizados nos dias políticos de hoje.

Nada há para dizer e, no entanto, ninguém pára de falar. Falou o Presidente. Falou o primeiro-ministro. Falou o líder do Governo Regional da Madeira. Falou o ministro. Falou o homem da Protecção Civil. Falou o comandante dos bombeiros. Falou o comentador profissional. E os jornalistas não se calam, horas e horas e horas a fio. Há demasiadas palavras inúteis na linguagem destes tempos que correm.

Maldita profissão esta, que me obriga, sem respeito pela morte, a somar as minhas palavras, mais palavras inúteis, ao ruído insuportável que me cerca...

In "Diário de Notícias", 23 de Fevereiro de 2010

Companheiros de Alberto João Jardim

Os jornalistas portugueses conquistaram alguma liberdade de acção nas últimas décadas. Não sei se conquistaram uma verdadeira liberdade de imprensa. Talvez sim, talvez não... Sei é que cada centímetro perdido neste terreno dificilmente voltará a ser recuperado.

Portugal precisa de contraditório público ao poder (ou poderes) mesmo que tenha por detrás o trabalho subterrâneo de outro poder (ou de outros poderes) como, já ouvi insinuar, teria acontecido na chamada "perseguição a Sócrates" levada a cabo pela TVI e/ou pelo semanário Sol.

Impedir a flutuação pela opinião pública de notícias que põem em xeque os poderosos, desde que estejam ancoradas num rochedo de verdade (e mesmo que essa rocha tenha sedimentos de traficância, engano, ilusão, promiscuidade e sacanice), significa abrir mais caminho para o abuso do poder; significa menor capacidade de fiscalização e controlo desse mesmo poder; significa permitir a perpetuação de tiranetes abençoados pelo voto.

A informação livre é como uma vacina: utiliza toxinas, bactérias e vírus para combater uma doença. Pode não ser um processo bonito, pode até ser um pouco perigoso, mas funciona e não há substituto mais seguro.

Portanto, ainda bem que ficámos a saber que um grupo de idiotas do PS montou uma infame operação de eliminação de Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz do comando da TVI. Um facto incontestável.

Contestável é a turba de políticos, comentadores profissionais e jornalistas repetir horas e horas a fio, numa chinfrineira acéfala, acrítica, ignorante e insensata, opiniões e conclusões incrivelmente assombrosas.

Pelo que vi na TV, o País - sim, é Portugal inteiro, pois o tom desta gente não admite contestação - pensa que há censura prévia em Portugal. O País acha mesmo que o golpe dos mentecaptos, para além da TVI, abarcava a Impresa, a Cofina e esta casa onde trabalho, a Controlinveste. O País, depois de ler o Sol de sexta-feira, ficou cheio de certezas, eliminou todas as dúvidas sobre os tentáculos do "polvo". O País ignora que, no seu tempo, Mário Soares interferiu na imprensa. E Cavaco Silva. E Guterres. E Durão. E Santana...

O País que me desculpe, mas quando vejo Alberto João Jardim, putativo tirano do Funchal, surgir na linha da frente dos defensores da liberdade de imprensa, barricado ao lado de Pacheco Pereira, um batalhão dogmático de jornalistas em ajuste de contas e um contingente de comentadores oficiais do regime, sou obrigado a concluir que o País está estúpido.

in "Diário de Notícias", 16 de Fevereiro de 2010

Sócrates, Moniz, Manela e Crespo

Fiquei com a impressão de que o PS (ou seja, José Sócrates) conseguiu convencer a Portugal Telecom (ou seja, Zeinal Bava) a gastar uns valentes milhões de euros para dominar a TVI. Este investimento tinha como retorno o fim do noticiário de Manuela Moura Guedes. Que loucura!

Fiquei com a impressão de que José Eduardo Moniz soube de toda esta conspiração e aceitou ir embora, provisoriamente calado depois de negociar uma indemnização paga pela Media Capital. Que loucura!

Fiquei com a impressão de que a Ongoing ajudou à festa e aceitou empregar Moniz. Não percebo é porque Nuno Vasconcelos, o dono dessa empresa, se apresta para dominar a Media Capital. Será que, no final, Moniz volta à TVI? Que loucura!

E acho que Moniz estava há anos à espera do momento em que pudesse exigir a Cavaco Silva a demissão de José Sócrates. E que a Media Capital aceitou afastar Manuela Moura Guedes a troco de coisa nenhuma. Fiquei com a convicção de que todos aqueles senhores são doidos a gerir dinheiro. Que loucura!

Fiquei com a certeza de que Manuela Moura Guedes foi perseguida. Ela foi vítima de um atentado contra a liberdade de imprensa. Mas lembro-me de que Moniz e Manela não foram tão combativos quando o perseguido, na mesma TVI, foi Marcelo Rebelo de Sousa, o patrão se chamava Pais do Amaral e o perseguidor PSD (ou seja, Durão Barroso e/ou Santana Lopes). Nessa altura acabaram por meter a viola no saco. Que loucura!

Fiquei com a impressão de que Mário Crespo é um paladino da liberdade de imprensa, o que é esquisito, pois, quando o jornal 24horas foi invadido ilegalmente pelo Ministério Público (ilegalidade confirmada em todos os tribunais que julgaram o caso e os respectivos recursos), este grande jornalista recusou subscrever um abaixo-assinado de apoio aos seus camaradas de profissão. “Sabe-se lá quem está por detrás daquela gente!” ou “o texto do abaixo-assinado é um bocado radical”, ouviram-no dizer no bar da SIC (nota: à luz dos critérios de Mário Crespo, informações obtidas por tagarelice em ambiente hoteleiro são jornalisticamente válidas). Que loucura!

Fiquei com a convicção de que o primeiro-ministro acha que Crespo é doido e que este mesmo Sócrates tem muita sorte por a justiça em Portugal ser, simplesmente, maluca e conseguir o que o factor opositor, da lógica matemática, garante ser impossível: menos por menos dá… ainda menos.
Quanto a mim, viciado em jornais, não consigo parar de ler. Resta-me, para resistir ao contágio e não ficar lelé da cuca, intoxicar-me em antipsicóticos. Que loucura! Que loucura!

in Diário de Notícias, 9 de Fevereiro de 2010

Os investimentos de Isabel dos Santos

Isabel dos Santos, a empresária angolana que deixa as mentes colonialistas portuguesas em sobressalto por comprar posições importantes em empresas cá do burgo, acaba de gastar mais de 74 milhões de euros para adquirir 4,53% da Zon. Alguma coisa contra? Não. E no entanto…

… E no entanto vi um documentário intitulado "Mãe Fátima", da realizadora alemã, radicada em Portugal, Cristhine Reeh. Foi filmado o ano passado e mostra a aventura de uma enfermeira, de 70 anos, que volta a Angola para participar numa acção dos Médicos do Mundo.

A missão da enfermeira angolana é esta: recuperar o trabalho de um hospital e de um centro de saúde, situados na região da cidade de Menongue, no Sul do país, local que foi particularmente massacrado pela guerra. O centro de saúde, de resto, é vizinho de um cemitério ferrugento de tanques de guerra, serena, lenta e milimetricamente engolido por uma onda de mato.

O que Fátima encontra é terrível. Não há água corrente. O lixo, as moscas, os micróbios e as infecções entram livremente pela respiração dos doentes. Os edifícios, carcomidos, sem vidros nas janelas, parecem não ser capazes de resistir à próxima trovoada. As ligaduras são um bem raro. Uma tesoura é um objecto precioso.

Fazem-se cirurgias sem oxigénio, que não há. Pessoas entram e saem livremente do bloco operatório, como se fosse sala comum. Um enfermeiro, desenrascado, improvisa umas talas numa perna partida, antes de ver os resultados de uma obrigatória radiografia, que ninguém fez. Vacinas para o tétano até existem, mas não estão no hospital porque o serviço que as armazena, no quarteirão ao lado, não recebeu a burocrática requisição.

A doença da moda é o coma alcoólico. Alguns não falam português. Há pelos menos três dialectos locais. Médicos angolanos, disponíveis, são dois. O pessoal de saúde está a ficar derrotado, entregue à lassidão da impotência. Cresce o absentismo. E o que há mais são médicos da... Coreia do Norte!

Um doente de malária, que ostentava no peito convulsivo, estampada na T-shirt, uma fotografia do Presidente José Eduardo dos Santos, o pai da empresária que investe em Portugal, morreu. Porquê? Porque os remédios, receitados há dias, não chegaram a tempo.

No telhado deste hospital podre espeta-se uma antena parabólica. Talvez capte a Zon… Se eu tenho alguma coisa contra os investimentos de Isabel dos Santos em Portugal? Não, não tenho. A sério que não. Mas, também é verdade, não vivo em Menongue.



in Diário de Notícias, 2 de Fevereiro de 2010