Deu um "tilt" a António Vitorino

A António Vitorino saiu-lhe um dia a sorte grande quando o jornalista José António Cerejo, do jornal Público, em 1997, telefonou para o gabinete do então vice-primeiro-ministro a fazer perguntas sobre um pagamento de um imposto relativo à compra de uma casa em ruínas. Antes de o jornal do dia seguinte sair, Vitorino já pedira a demissão.

Esse foi o dia do tilt no flipper cerebral de António Vitorino. Foi o dia em que o homem, que 19 anos antes era apenas um deputado eleito pela Frente Republicana e Socialista, resolveu procurar mais verdejantes pastos. Em 1999, dois anos depois, era comissário europeu.

Ninguém sabe muito bem o que Vitorino andou a fazer pela Comissão Europeia - só porque ninguém sabe muito bem o que faz, de facto, a Comissão Europeia - mas como os portugueses adoram os compatriotas que brilham lá fora - na mesma proporção que odeiam os que têm êxito cá dentro - Vitorino passou ao estatuto de D. Sebastião, que se espera eternamente ver regressado ao poder... não se sabe é bem porquê.

Os portugueses voltaram a vê-lo na noite da vitória, com maioria absoluta, de José Sócrates. Na sede da candidatura do seu camarada, disparou um ríspido "habituem- -se" para justificar aos jornalistas uma ausência de declarações. E passaram a tê-lo como visita de casa quando, para servir de contraponto a Marcelo Rebelo de Sousa, falava semanalmente para lares sintonizados na RTP1.

Pois o sócio da firma Cuatrecasas, Gonçalves Pereira & Associados, o administrador não executivo do Portugal Telecom Internacional, o consultor jurídico da EDP, o consultor de Assuntos Sociais da José de Mello SGPS, o vice-presidente do Conselho de Planeamento da Universidade Internacional, o presidente do Centro de Estudos Euralgense, o administrador não executivo da Siemens Portugal, o presidente das assembleias gerais da Brisa, da Finipro e da Novabase, e o, ainda, presidente do Conselho de Administração da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (ufa!) - para além de ilustre cronista neste jornal e outras coisas que não vêm nos currículos oficiosos da Internet - resolveu, novamente, bater com a porta e sair da ribalta.

Uns dias depois do anúncio do fim do Notas Soltas, outra jornalista, desta vez Manuela Moura Guedes, voltou a meter-se com o homem. No Parlamento acusou o superconsultor e superadvogado de ser o responsável pelo fim do seu telejornal na TVI… Será que, tal como há 13 anos, voltou a dar um tilt a António Vitorino?

in "Diário de Notícias", 9 de Março de 2010

A vida privada segundo Francisco Assis

Na História da Vida Privada, George Duby afirma que o conceito diz respeito "ao que possuímos de mais precioso, que pertence somente a nós mesmos, que não diz respeito a mais ninguém, que não deve ser divulgado, exposto, pois é muito diferente das aparências que a honra exige guardar em público"... Até Duby se sentiu obrigado, para traçar uma fronteira entre o que é público e o que é privado, a usar um conceito tão maltratado, tão difuso, tão volátil e tão subjectivo como o da "honra"!

Ninguém é capaz - nem a lei o faz - de definir com facilidade o que é vida privada mas é em nome da sua defesa que Francisco Assis, líder parlamentar do PS, impede o debate de uma proposta que pretende tornar públicos os rendimentos dos contribuintes.

A riqueza de um país é um bem finito e a forma como essa riqueza está distribuída (e não a forma como cada um gasta o seu dinheiro, que isso, sim, parece-me indiscutível matéria de foro privado) deveria ser conhecida por todos. Por isso, as declarações de impostos, que a máquina do Estado possui, deveriam ser públicas.

Não se trata de um mero instrumento de combate à corrupção, trata-se de dar acesso generalizado a uma avaliação objectiva da existência, ou não, de justiça social - o cimento da construção do edifício democrático - e de aumentar a pressão sobre o poder para corrigir as distorções que existem.

Mas uma proposta dessas está condenada ao fracasso. Porquê? Porque há administradores de empresas em crise a levar para casa 50 ou 60 mil euros por mês. Porque há políticos profissionais a cobrar 25 mil euros mensais nos seus escritórios de advogados. Porque há directores de jornais com salários de 10 ou 15 mil euros. Porque há cronistas ou comentadores de TV a receber neste universo de remunerações, ditado por supostas tendências do mercado de trabalho que, afinal, ninguém conhece.

Esta gente, que lidera as ideias do País, nunca quererá revelar os seus rendimentos, nunca escreverá em defesa desta ideia. Eles têm êxito, mas também têm má consciência. E há ainda muito pavão, pelintra, com vergonha do seu fracasso financeiro, a querer escondê-lo da opinião pública.

Para uns e para outros essa informação afecta, como diz George Duby, como pensa Francisco Assis, "a honra" e, por isso, deverá ficar secreta... Só que isso não é honra, é hipocrisia.

Vivemos num país onde a maioria dos empregados ganha menos de mil euros por mês. Isto sim é uma desonra para Portugal... Defesa da vida privada, o tanas!

in "Diário de Notícias", 2 de Março de 2010

Excesso insuportável de palavras inúteis

Uma mulher rodeada por quilómetros de terra, lama, pedra e destroços tenta, com um pequeno ramo de árvore, desenterrar qualquer coisa minúscula no lodaçal. Um monte de automóveis desfeitos, empoleirado numa pilha de troncos e barro, ameaça desabar sobre o telhado vermelho de um edifício. Um cão busca, por debaixo de uma montanha de escombros, o odor de um cadáver. Uma tromba avassaladora de líquido castanho corre, desabrida, por uma viela. É um gigante Adamastor que tudo destrói, em luta por espaço e mais espaço e mais espaço. Há falta de proporções humanas nos cataclismos dos dias de hoje.

Um miúdo de galochas e camisola interior contempla, plácido, sentado num tijolo, a persiana daquele que há minutos era o seu quarto. A janela espreita cá para fora, como um olho improvável, que a casa está lá em baixo, soterrada. Um corpo escondido por um lençol branco é levado sem vida, sem cor, numa maca carregada por bombeiros de capacete garrido, amarelo. Um braço estendido tira das águas revoltas um homem que luta contra o afogamento. Há excesso de imagens comoventes nas tragédias dos dias de hoje.

Procuramos sempre culpados. Antigamente era a fúria divina provocada pela nossa suposta vida licensiosa. Agora, que Deus já não tem fúrias e os pecados da carne são uma irrelevância moral, racionalizamos a hecatombe com a denuncia do pecado da imprevidência: sofremos, morremos, perdemos o que conquistámos à vida porque construímos onde não devemos, porque manipulamos a natureza a golpes de toneladas de betão e ferro, porque desafiamos o clima com agressões de fumo, gasolina e CO2. Há excesso de má consciência na civilização tecnológica dos dias de hoje.
Esquecemos a trica política. Guardamos o rancor para outro dia. Abraçamos o maior inimigo. Prometemos corrigir os erros do passado. Inventamos actos solidários de homenagem aos que foram embora. Destinamos milhões para pagar prejuízos. E vamos à missa. Há excesso de rituais normalizados nos dias políticos de hoje.

Nada há para dizer e, no entanto, ninguém pára de falar. Falou o Presidente. Falou o primeiro-ministro. Falou o líder do Governo Regional da Madeira. Falou o ministro. Falou o homem da Protecção Civil. Falou o comandante dos bombeiros. Falou o comentador profissional. E os jornalistas não se calam, horas e horas e horas a fio. Há demasiadas palavras inúteis na linguagem destes tempos que correm.

Maldita profissão esta, que me obriga, sem respeito pela morte, a somar as minhas palavras, mais palavras inúteis, ao ruído insuportável que me cerca...

In "Diário de Notícias", 23 de Fevereiro de 2010

Companheiros de Alberto João Jardim

Os jornalistas portugueses conquistaram alguma liberdade de acção nas últimas décadas. Não sei se conquistaram uma verdadeira liberdade de imprensa. Talvez sim, talvez não... Sei é que cada centímetro perdido neste terreno dificilmente voltará a ser recuperado.

Portugal precisa de contraditório público ao poder (ou poderes) mesmo que tenha por detrás o trabalho subterrâneo de outro poder (ou de outros poderes) como, já ouvi insinuar, teria acontecido na chamada "perseguição a Sócrates" levada a cabo pela TVI e/ou pelo semanário Sol.

Impedir a flutuação pela opinião pública de notícias que põem em xeque os poderosos, desde que estejam ancoradas num rochedo de verdade (e mesmo que essa rocha tenha sedimentos de traficância, engano, ilusão, promiscuidade e sacanice), significa abrir mais caminho para o abuso do poder; significa menor capacidade de fiscalização e controlo desse mesmo poder; significa permitir a perpetuação de tiranetes abençoados pelo voto.

A informação livre é como uma vacina: utiliza toxinas, bactérias e vírus para combater uma doença. Pode não ser um processo bonito, pode até ser um pouco perigoso, mas funciona e não há substituto mais seguro.

Portanto, ainda bem que ficámos a saber que um grupo de idiotas do PS montou uma infame operação de eliminação de Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz do comando da TVI. Um facto incontestável.

Contestável é a turba de políticos, comentadores profissionais e jornalistas repetir horas e horas a fio, numa chinfrineira acéfala, acrítica, ignorante e insensata, opiniões e conclusões incrivelmente assombrosas.

Pelo que vi na TV, o País - sim, é Portugal inteiro, pois o tom desta gente não admite contestação - pensa que há censura prévia em Portugal. O País acha mesmo que o golpe dos mentecaptos, para além da TVI, abarcava a Impresa, a Cofina e esta casa onde trabalho, a Controlinveste. O País, depois de ler o Sol de sexta-feira, ficou cheio de certezas, eliminou todas as dúvidas sobre os tentáculos do "polvo". O País ignora que, no seu tempo, Mário Soares interferiu na imprensa. E Cavaco Silva. E Guterres. E Durão. E Santana...

O País que me desculpe, mas quando vejo Alberto João Jardim, putativo tirano do Funchal, surgir na linha da frente dos defensores da liberdade de imprensa, barricado ao lado de Pacheco Pereira, um batalhão dogmático de jornalistas em ajuste de contas e um contingente de comentadores oficiais do regime, sou obrigado a concluir que o País está estúpido.

in "Diário de Notícias", 16 de Fevereiro de 2010

Sócrates, Moniz, Manela e Crespo

Fiquei com a impressão de que o PS (ou seja, José Sócrates) conseguiu convencer a Portugal Telecom (ou seja, Zeinal Bava) a gastar uns valentes milhões de euros para dominar a TVI. Este investimento tinha como retorno o fim do noticiário de Manuela Moura Guedes. Que loucura!

Fiquei com a impressão de que José Eduardo Moniz soube de toda esta conspiração e aceitou ir embora, provisoriamente calado depois de negociar uma indemnização paga pela Media Capital. Que loucura!

Fiquei com a impressão de que a Ongoing ajudou à festa e aceitou empregar Moniz. Não percebo é porque Nuno Vasconcelos, o dono dessa empresa, se apresta para dominar a Media Capital. Será que, no final, Moniz volta à TVI? Que loucura!

E acho que Moniz estava há anos à espera do momento em que pudesse exigir a Cavaco Silva a demissão de José Sócrates. E que a Media Capital aceitou afastar Manuela Moura Guedes a troco de coisa nenhuma. Fiquei com a convicção de que todos aqueles senhores são doidos a gerir dinheiro. Que loucura!

Fiquei com a certeza de que Manuela Moura Guedes foi perseguida. Ela foi vítima de um atentado contra a liberdade de imprensa. Mas lembro-me de que Moniz e Manela não foram tão combativos quando o perseguido, na mesma TVI, foi Marcelo Rebelo de Sousa, o patrão se chamava Pais do Amaral e o perseguidor PSD (ou seja, Durão Barroso e/ou Santana Lopes). Nessa altura acabaram por meter a viola no saco. Que loucura!

Fiquei com a impressão de que Mário Crespo é um paladino da liberdade de imprensa, o que é esquisito, pois, quando o jornal 24horas foi invadido ilegalmente pelo Ministério Público (ilegalidade confirmada em todos os tribunais que julgaram o caso e os respectivos recursos), este grande jornalista recusou subscrever um abaixo-assinado de apoio aos seus camaradas de profissão. “Sabe-se lá quem está por detrás daquela gente!” ou “o texto do abaixo-assinado é um bocado radical”, ouviram-no dizer no bar da SIC (nota: à luz dos critérios de Mário Crespo, informações obtidas por tagarelice em ambiente hoteleiro são jornalisticamente válidas). Que loucura!

Fiquei com a convicção de que o primeiro-ministro acha que Crespo é doido e que este mesmo Sócrates tem muita sorte por a justiça em Portugal ser, simplesmente, maluca e conseguir o que o factor opositor, da lógica matemática, garante ser impossível: menos por menos dá… ainda menos.
Quanto a mim, viciado em jornais, não consigo parar de ler. Resta-me, para resistir ao contágio e não ficar lelé da cuca, intoxicar-me em antipsicóticos. Que loucura! Que loucura!

in Diário de Notícias, 9 de Fevereiro de 2010

Os investimentos de Isabel dos Santos

Isabel dos Santos, a empresária angolana que deixa as mentes colonialistas portuguesas em sobressalto por comprar posições importantes em empresas cá do burgo, acaba de gastar mais de 74 milhões de euros para adquirir 4,53% da Zon. Alguma coisa contra? Não. E no entanto…

… E no entanto vi um documentário intitulado "Mãe Fátima", da realizadora alemã, radicada em Portugal, Cristhine Reeh. Foi filmado o ano passado e mostra a aventura de uma enfermeira, de 70 anos, que volta a Angola para participar numa acção dos Médicos do Mundo.

A missão da enfermeira angolana é esta: recuperar o trabalho de um hospital e de um centro de saúde, situados na região da cidade de Menongue, no Sul do país, local que foi particularmente massacrado pela guerra. O centro de saúde, de resto, é vizinho de um cemitério ferrugento de tanques de guerra, serena, lenta e milimetricamente engolido por uma onda de mato.

O que Fátima encontra é terrível. Não há água corrente. O lixo, as moscas, os micróbios e as infecções entram livremente pela respiração dos doentes. Os edifícios, carcomidos, sem vidros nas janelas, parecem não ser capazes de resistir à próxima trovoada. As ligaduras são um bem raro. Uma tesoura é um objecto precioso.

Fazem-se cirurgias sem oxigénio, que não há. Pessoas entram e saem livremente do bloco operatório, como se fosse sala comum. Um enfermeiro, desenrascado, improvisa umas talas numa perna partida, antes de ver os resultados de uma obrigatória radiografia, que ninguém fez. Vacinas para o tétano até existem, mas não estão no hospital porque o serviço que as armazena, no quarteirão ao lado, não recebeu a burocrática requisição.

A doença da moda é o coma alcoólico. Alguns não falam português. Há pelos menos três dialectos locais. Médicos angolanos, disponíveis, são dois. O pessoal de saúde está a ficar derrotado, entregue à lassidão da impotência. Cresce o absentismo. E o que há mais são médicos da... Coreia do Norte!

Um doente de malária, que ostentava no peito convulsivo, estampada na T-shirt, uma fotografia do Presidente José Eduardo dos Santos, o pai da empresária que investe em Portugal, morreu. Porquê? Porque os remédios, receitados há dias, não chegaram a tempo.

No telhado deste hospital podre espeta-se uma antena parabólica. Talvez capte a Zon… Se eu tenho alguma coisa contra os investimentos de Isabel dos Santos em Portugal? Não, não tenho. A sério que não. Mas, também é verdade, não vivo em Menongue.



in Diário de Notícias, 2 de Fevereiro de 2010

Pedro Passos Coelho,
o jovial e bom rapaz

Pedro Passos Coelho já não é um miúdo, mas mantém, apesar dos 45 anos, um jovial aspecto de bom rapaz. Como ser bom rapaz é maneira garantida de ser, em política, perdedor, nunca encarei a hipótese de este Pedro vir um dia a governar Portugal. Por isso, nunca liguei muito ao que dizia o homem que não se importa de ser apresentado na Wikipédia como "um dos braços direitos do engenheiro Ângelo Correia".

Mas isto de ver caras corresponde a não ver corações e, afinal, o eterno jovem arrisca-se a ser líder do PSD e, a partir daí, a correr para derrubar Sócrates e o PS. Há dias lançou um livro, intitulado "Mudar", onde explana o seu pensamento político.

Resolvi tentar saber o que vai por ali. Mas como também me custa dar 15 euros por um texto certamente maçador, resolvi ir ao site passoscoelho-mudar.com e ver, gratuitamente, as 18 páginas que lá estão.

A primeira frase que pude ler foi esta: "Nós, portugueses, como acontece certamente com todos os outros povos, nunca estaremos conjuntamente de acordo quanto ao conteúdo das políticas que devemos prosseguir." Esta evidência está ao nível do "se não estivesse morto, estaria vivo" que celebrizou o marechal La Palice. Belo!

Não me deixei ir abaixo e prossegui: Fiquei então a saber que este Pedro acha que o Estado deve preocupar-se com apenas quatro questões: segurança, justiça, defesa e diplomacia.

Fiquei a saber que este jovial político defende "a passagem de um Estado prestador de serviços para um Estado regulador", assim uma espécie de Alta Autoridade de coisas genéricas.

Fiquei a saber que, para este bom rapaz, a educação e a saúde devem ser asseguradas pelo sector privado ou pagos ("co-financiados", diz ele) pelos utilizadores. Fiquei a suspeitar, nas entrelinhas, que ele está quase convencido a cobrar propinas no ensino obrigatório, a exigir lucros no tratamento do cancro ou a aliviar os ricos de taxas para a Segurança Social. Mas, querido povo, descansai que ficará o Estado "a regular" tudo…

E, finalmente, fiquei a saber que a profundidade deste cérebro acha que o Estado "precisa de ter, para além do controlo democrático do Parlamento, o que podemos chamar de conselhos de opinião ou conselhos consultivos". Para quê? Para, pagos pelo Estado, "regular" o próprio Estado. Que belo instrumento de controlo político e de distribuição de "tachos"!

Não preciso de ficar a saber mais. Com Passos Coelho poderemos ganhar um bom rapaz no Governo, mas os maus rapazes do costume, na noite em que ele for eleito, abrirão garrafas de champanhe.

in Diário de Notícias, 26 de Janeiro de 2010

Como é óbvio, Sócrates não desilude

Não interessa que a esquerda some mais deputados, nas questões económicas o PS alia-se sempre à direita. Ao menos neste aspecto José Sócrates não desilude e prepara, com PSD e PP, um orçamento do Estado a coberto do "papão grego", da crise financeira, da desconfiança dos mercados, do défice orçamental excessivo, do "sentido de responsabilidade", da competitividade e de todo um longo argumentário, sonolento e conformista, habitual na ideologia tecnocrática dominante.

No final a receita será a do costume: exigir mais sacrifícios para quem trabalha, deixar que as empresas despeçam com facilidade, não permitir ou limitar aumentos salariais e limpar a consciência com uns apoios piedosos aos profissionais da caça ao subsídio.

Tudo o resto será para o Estado sustentar a sua própria gordura ou para distribuir favores a quem gere em nome dos ricos. É assim há mais de 30 anos.

Se há rosto para a crise é o rosto da banca. Em Portugal e lá fora. Nos últimos dois anos, José Sócrates disponibilizou não sei quantos milhares de milhões de euros para salvar bancos portugueses. Só que eles não estavam propriamente em crise, exceptuando o BPN, por motivos criminais, e o BPP, por bebedeira especulativa.

Os cinco maiores bancos portugueses somaram 2.100 milhões de euros de lucro no ano de 2005, 2.660 milhões em 2006 e 2.900 milhões em 2007. No auge da crise financeira mundial, em 2008, estes mesmos bancos conseguiram lucrar 1.730 milhões. E só nos primeiros noves meses de 2009, BES, BCP, BPI, CGD e Santander Totta lucraram 1.448 milhões. Ao longo destes cinco anos estes cinco bancos ganharam mais de seis milhões de euros por dia.

Em contrapartida, em 2005, a banca em Portugal pagou impostos sobre apenas 11,7% dos seus rendimentos. Em 2006 este valor subiu para 19,4%. Em 2007 desceu para 14,5%. Em 2008 voltou a descer para 12,8%. E, segundo a Associação Portuguesa de Bancos, no primeiro semestre de 2009 a banca pagou impostos sobre, apenas, 9,9% das suas receitas! Como isto é possível, não sei.

Sei é que Barack Obama, que não é um perigoso comunista ou um inimigo da economia de mercado, anunciou quinta-feira um novo imposto à banca. Acabada a crise e as ajudas financeiras, o cofre do Estado norte-americano espera cobrar de volta, em 10 anos, 90 mil milhões de dólares.

Por cá ninguém fala disto. Para a esquerda José Sócrates oferece bandeiras como o "casamento gay", de resto uma lei um bocado maricas por proibir a adopção por casais homossexuais. Para a direita reservou a arma que realmente interessa: um orçamento que não incomoda a banca.

in "Diário de Notícias", 19 de Janeiro de 2010

Pedro Tadeu e o jornalismo geneticamente modificado

"O Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes, na TVI, foi silenciado há três meses. Talvez para celebrar a efeméride a jornalista anunciou nos últimos dias que se constituíra assistente no processo "Face Oculta". Disse que o fez para "auxiliar o Ministério Público na procura da verdade".

(...)

Para o jornalismo, que supostamente terá no ADN um cromossoma de garantia de total independência face aos poderes político, económico, judicial ou outros, esta posição de serventia face a uma das partes de um conflito jurídico é, embora não inédita, no mínimo bizarra e, em princípio, condenável. E não é por, neste caso, uma das partes desse conflito jurídico ser o representante do Estado que o problema da falta de independência jornalística fica sanado, pelo contrário. "

Pedro Tadeu assentou arraiais como comentador no DN. Teria importância nula, caso fosse mais um, mas não é assim. Foi director do famigerado 24Horas, apostando num jornalismo de "famosos, dinheiro e crime" e escreve agora como figura de referência jornalística, com ética de profissão para dar e vender, pelos vistos.

O que escreve na crónica de hoje, sobre o facto de a jornalista Manuela Moura Guedes ter optado por se constituir assistente no processo Face Oculta, destapa a ignorância e enviezamento profissional do antigo director do 24 Horas.

Ao escrever que o MP é um representante do Estado e uma das partes no processo penal, onde segundo o mesmo cronista, há um conflito jurídico, de partes e em que o MP é uma delas, mostra que sabe nada de nada do b+a=ba do assunto.

Ao escrever que "o jornalismo, supostamente terá no ADN um cromossoma de garantia de total independência face aos poderes político, económico, judicial ou outros," só denota que lhe falta esse cromossoma básico e de tal modo que nem o reconhece nos outros.

O que espanta no caso de Pedro Tadeu, é que haja pessoas assim a escrever em jornais. Ou que os dirijam. O que, aliás, pode ser menos grave, como se verifica em alguns casos.

in "Porta da Loja" em 12 de Janeiro de 2010

Manuela Moura Guedes
auxilia Ministério Público

O Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes, na TVI, foi silenciado há três meses. Talvez para celebrar a efeméride a jornalista anunciou nos últimos dias que se constituíra assistente no processo "Face Oculta". Disse que o fez para "auxiliar o Ministério Público na procura da verdade".

Moura Guedes pretende assim levar à letra aquilo que o Código do Processo Penal determina sobre o papel dos assistentes num processo judicial e que é o seguinte: "Os assistentes têm a posição de colaboradores do Ministério Público, a cuja actividade subordinam a sua intervenção no processo, salvas as excepções da lei." Temos pois esta jornalista a oferecer-se para "colaborar" com o Ministério Público, estando mesmo disposta a "subordinar-se à sua intervenção".

Para o jornalismo, que supostamente terá no ADN um cromossoma de garantia de total independência face aos poderes político, económico, judicial ou outros, esta posição de serventia face a uma das partes de um conflito jurídico é, embora não inédita, no mínimo bizarra e, em princípio, condenável. E não é por, neste caso, uma das partes desse conflito jurídico ser o representante do Estado que o problema da falta de independência jornalística fica sanado, pelo contrário.

Não sabemos o que liquidou, a 19 de Outubro passado, o Jornal Nacional. Não sabemos se Moura Guedes foi mesmo calada pelo poder político ou se, apenas, se estampou sozinha por andar a perseguir, sem razão, o poder político.

Mas se for verdade que Manuela Moura Guedes foi afastada da TVI por motivos políticos? Pode ela manter uma "independência" bacteriologicamente pura? Não.

Mas se for verdade que Manuela Moura Guedes foi vítima de um poder que não se identifica, que não se mostra, que é subterrâneo e mais forte ainda que o poder do Ministério Público? Terá de ficar quieta? Terá de ficar resignada? Não.

Mas se for verdade que Manuela Moura Guedes foi calada para impedir que as notícias desfavoráveis a José Sócrates tivessem a repercussão que tinham, quando ela comandava o principal telejornal do País? Teria ela de ficar quietinha à espera da carta final de despedimento da TVI? Não.

O caso de Manuela Moura Guedes é ilustrável por um dos velhos princípios de Newton, que todos aprendemos na escola: para toda uma acção há uma reacção, oposta e de igual intensidade. A acção que determinou o fim do Jornal Nacional da TVI levou a uma reacção de igual intensidade, cuja consequência será, inevitavelmente, esta: um novo passo atrás na liberdade de imprensa, seja por Moura Guedes ter sido perseguida por José Sócrates, seja por Moura Guedes ter andado a perseguir José Sócrates.

in "Diário de Notícias", 12 de Janeiro de 2010

A viola do dia

Este é Kelly Valleau a tocar um "clássico" dos Pink Floyd: Another Brick in the Wall. O site do m+usuico pode ser visto aqui.