Lá que há muita coisa oculta, ai lá isso há!
São ocultas as interpretações jurídicas que motivam um procurador e um juiz a acharem que ouviram um crime onde, garante agora Noronha de Nascimento, não haverá afinal nada que dê “sugestão de algum comportamento com valor para ser ponderado em dimensão de ilícito penal”.
São ocultas as atracções fatais que empurram para o precipício do descrédito, cada vez que abrem a boca em público, mentes brilhantes como as do presidente do Supremo Tribunal de Justiça ou do procurador-geral da República.
São ocultas as leituras que levaram um juiz de instrução criminal a achar que deviam ser válidas escutas com o primeiro-ministro, quando a Lei diz o contrário. Mais obscuros ainda são os raciocínios que ditaram a existência dessa Lei, escrita para “salvar”da coscuvilhice judiciária, em casos que não envolvem o exercício de funções de Estado, o Presidente da República, o primeiro-ministro e o presidente da AR, num abuso de privilégio de Poder digno de sinistras ditaduras.
São ocultos os acordos de corredor feitos a seguir a processos-crime com políticos e quelevam a uma repetida modificação “a la carte”de partes do Código Penal e do Código do Processo Penal.
São ocultas as investigações que começam por “prometer” à opinião pública um suborno de 10 mil euros e acabam com uma pífia acusação de “crime de tráfico de influência”. Mas também são ocultos os mecanismos que levam a, na paz dos anjos, o arguido Armando Vara ter ontem regressado ao banco onde jurou não voltar até tudo estar esclarecido.
São ocultas as alavancas que empurram José Sócrates para a suspeita constante: O homem já mastigou insinuações de alegada homossexualidade, dúvidas acerca da obtenção de um diploma universitário, um hipotético caso de suborno no licenciamento do Freeport e conversas que poderiam configurar um crime contra o Estado de Direito.
São ocultos os caminhos que levam as sucessivas investigações ao primeiro-ministro, jornalísticas e criminais, acabarem num desencantado silêncio ilibatório. É insólito haver tanto tiro contra um homem só mas, ao mesmo tempo, é muito mais estranho a pontaria de tantos atiradores estar coerente e aparentemente desafinada.
Conclusão: O irónico homem que inventou o nome “Face Oculta” para identificar uma fraude sucateira conhece mesmo muito bem o país onde vive.
As minhas férias preferidas
Eu não sei como a minha família me aguenta, mas a verdade, a verdadinha, é esta: detesto ir à praia, detesto viajar, detesto calor, detesto agitação, detesto discotecas e, para ser franco, não gosto muito de férias, pois, dado o que atrás ficou explanado, não sei o que fazer nesse período.
Para mim as férias só têm uma vantagem: licença para dormir. Na primeira semana de paragem de trabalho a actividade mais assinalável a que me dedico é viajar da cama para o sofá frente ao televisor e, em ambos os locais, dedicar-me ao acto criativo de ressonar melodias interessantes. No intervalo viajo lentamente até à mesa de jantar para trincar alguma coisa, mas, depressa, depressinha, volto a deitar- -me perante as imagens das velharias transmitidas pela SIC Comédia – uma droga soporífera ultra-eficaz.
Os outros dias das férias são mais difíceis para mim, mas aceito fazer algumas concessões de sociabilidade. Passo-os, no entanto, da forma mais introspectiva possível: não faço projectos nem planos, não tomo iniciativas, não dou sugestões. Olho para o infinito como se estivesse a pensar em algo e, simplesmente, vou atrás, arrastando-me, da minha mulher e da minha filha para onde elas quiserem. De vez em quando refilo um bocadinho a ver se consigo voltar para casa.
Conclusão: tendo eu uma vida tão desinteressante só me restava mesmo ser jornalista e dedicar-me a bisbilhotar a vida dos outros. Boas férias, leitor.
A trabalheira de criar filhos
Mas sei que lhe mudei dezenas de vezes as fraldas. Sei que andei quilómetros em círculo, às escuras, horas e horas, carregando-a no colo à espera do bendito sono dela. Sei que acordei milhares de vezes, assustado, e fui a correr à sua cama para acabar com o que a fazia chorar. Sei que lhe limpei um milhão de vezes a boca suja de papa. Sei que lhe segurei a mão quando, pela primeira vez, ela conseguiu andar. Sei que a ensinei a lavar as mãos com sabonete. Sei que arranjei um truque para ela deixar de dizer “mánica fotogáfrica”. Sei que a segurei pelos pés e a virei ao contrário para ela rir às gargalhadas. Sei que inventei uma maneira de brincarmos na rua, a passear, que era só nossa. Sei que a levantava até ela lá chegar e a deixava marcar os códigos e tirar o dinheiro das caixas multibanco, para desespero dos coitados que ficavam atrás de mim, na fila, à espera. Sei que lhe expliquei o que era a morte quando ela perguntou o que acontecera a um primo nosso. E sei que me lembro disto tudo, do tempo em que ela foi bebé, e que ela agora, quase uma mulher, não se lembra de quase nada.
Enquanto os nossos filhos são pequeninos nós temos essa grande vantagem sobre eles: tudo o que eles nos deram é mesmo só nosso, toda essa memória feliz ficou guardada cá dentro e mais ninguém, nem eles, sabem voltar a vê-la, ouvila, senti-la ou cheirá-la. É por isso que para nós, os afortunados da vida, os favorecidos pela sorte, não houve sacrifício, cansaço, insónia, confusão, medos ou gritos. Houve, apenas, sorrisos, sorrisos e sorrisos.
O mundo secreto das grávidas
Aqui na redacção há, neste momento, três mulheres a atravessar essa fase mansa da gravidez. Cada vez que tenho de falar com alguma recebo um ligeiríssimo sobressalto, como quem acorda de um sono ligeiro. Sinto sempre que estou a interromper qualquer coisa que não devia, mas lá ponho a minha carantonha de director e trato dos im-por-tan-tís-si-mos afazeres profissionais que motorizam a minha vida. Mas, claro, elas relativizam a minha pressa, a minha ansiedade, porque acerca de coisas verdadeiramente importantes, agora, elas é que sabem tudo, não eu. E lá ando, pequenino, humilde, a pedir atenção e o favor de, no intervalo dos segredinhos com a barriga, elas escreverem a noticiazinha de capa deste jornal...
Bom... Acho que vou ali fazer uma escala de serviço para as mulheres desta redacção engravidarem à vez...
A educação dos filhos da televisão
Juntou-se agora a “Floribella”, o êxito repete-se, soma-se e chega para os dois programas, apesar de me parecer que a aposta da SIC terá adeptos um pouco mais novos que a produção da TVI. Mas isso, para a questão que me traz aqui, é irrelevante.
E a questão que me traz aqui é esta: os “Morangos” e a “Floribella” estão a fazer bem ou mal aos nossos adolescentes? Vou falar pela minha experiência que vale o mesmo que a de qualquer outro pai. Quando os “Morangos” começaram a ser transmitidos a minha filha estava na idade de se interessar e, disfarçadamente – como fiz com séries brasileiras congéneres como a “Malhação” – espreitei, não fosse o Diabo tecê-las...
E tenho a dizer bem. As séries deste tipo tratam os adolescentes como gente inteligente. Não lhes impingem um mundo cor-de-rosa e ajudam-nos a problematizar temas centrais na vida deles, como as primeiras relações amorosas, os conflitos na escola e em casa, a droga, etc. Há um sentido de bem e de mal que se sobrepõe ao próprio enredo da série que corresponde ao sentido de bem e de mal que nós desejamos que os nossos filhos adquiram. Há um frequente apelo à solidariedade e ao empenhamento cívico que me parece relevante. E com a vantagem de tudo isto ser servido sem ponta de paternalismo. Por mim, acho brilhante e, como pai, agradeço a ajudinha.
Utilização do corpo na publicidade
Durante muito tempo ouvi mulheres a protestar por esse tipo de publicidade ser sexista, discriminatório e imoral. Tinham razão mas ninguém as levou a sério. O protesto não lhes valeu de nada e, de há 20 anos para cá, perdeu um bocado de sentido por também o corpo masculino ter começado a aparecer em preparos semelhantes. Ou seja, as femininistas tiverem uma vitória de Pirro.
Como sou director de jornal e pagam-me para escrever todos os dias, sou obrigado a ter teorias sobre tudo, mesmo que a maior parte delas seja, simplesmente, idiota. A minha teoria de hoje é que com o excesso de corpos seminus na publicidade e na comunicação social, o poder da sugestão sensual com fins comerciais vai, pura e simplesmente, desaparecer, pois acabaremos todos por ficar fartos...
Claro, é uma teoria parva e, por via das dúvidas, até pus na capa desta revista uma foto lindíssima da Mónica Sofia – uma das mulheres mais bonitas de Portugal – para ver se o convencia a si, seduzível leitor ou leitora, a comprar o 24horas. Pronto, pode chamar-me, também, grande hipócrita.
O problema do tampo da sanita
Pior. Um dia lá tive de ir a casa da mãe da Catarina para ser apresentado como namorado oficial. Fui simpático, como me competia, não me atrapalhei muito com o previsível inquérito policial a que fui sujeito. Jantei lá e, ao fim da noite, pediram-me para ir à cozinha buscar qualquer coisa. Pouco antes de voltar a entrar na sala ouvi este diálogo: – Então mãe? Que achas dele? – Parece bom rapaz. Mas, de certeza, não fecha a tampa da sanita. Pronto, ficou-me o trauma e de vez em quando, durante anos, dei por mim a pensar: “Mas que obsessão têm as mulheres com esta questão da tampa da sanita? Qual é o drama? Será por razões estéticas? Será uma fobia? Porquê?”
Só ao fim de uns anos é que tive coragem para falar disto à minha mulher e a resposta dela foi exactamente igual à explicação que Sofia Ribeiro dá no caso de Tallon: “É que vocês, homens, esquecem-se que nós podemos precisar de utilizar a sanita a seguir a vocês, pelo que podiam facilitar-nos a vida e deixar o tampo para baixo”.
Conclusão? Como é óbvio, o problema não está no subir ou no baixar do tal tampo, coisa fácil que demora meio segundo. O problema está é que nem na casa-de-banho as mulheres admitem que nós, homens, deixemos de pensar nelas.
A viola do dia
Um clássico: Paco de Lucia, Al Di Meola e John Mclaughlin a tocar "Mediterranean Sundance".
Alice Vieira mete-se na minha vida
Uma vez fui à festa do “Avante!” com a minha menina e lá, numa tenda que funcionava como livraria, estava José Saramago a dar autógrafos. A fila de fãs do prémio Nobel era imensa, o ar estava abafado, o calor era insuportável e a Joana, agarrada à minha mão, parecia estar prestes a cair para o lado, de cansaço. Resolvi sair para voltar mais tarde, com mais sossego, ver os escaparates. Mas a Joana, que teria na altura uns 6 ou 7 anos, de repente, começou a dar-me puxões à camisa e a gritar excitada: “Ó pai! Ó pai!, está ali a Alice Vieira!”. A escritora entrava na tenda para, por sua vez, iniciar também uma sessão de autógrafos. E já não consegui sair dali sem gramar com meia hora de fila indiana para recolher um rabisco e uma saudação da, na altura, escritora preferida da minha filha que, de resto, achou o prémio Nobel José Saramago – que prosseguia a sua odisseia de assinaturas ao lado da heroína dos miúdos – um velhote um bocado carrancudo.
Por estas e por outras, sempre que oiço falar em Alice Vieira, instintivamente, como os cães, fico logo de orelha espetada. E, antes de tudo o que tive de fazer para esta revista ir para as bancas, fui ler a entrevista que hoje publicamos. Diverti-me imenso e acho que ela deve ser uma mulher extraordinária. Não sei é se a Joana, se agora a visse, seria capaz de a reconhecer.