A carne sabe sempre melhor



O título é "The Dog and the Butcher" e conta uma história simples que todos os que já tiveram um cão viveram.

A viola do dia

Excepcionalmente hoje apresento uma canção.

Julian Lennon (filho de John Lennon, dos The Beatles) e o seu amigo James Scott Cook promovem uma campanha para uma fundação de combate ao lúpus. Fizeram uma canção para o efeito, chamada Lucy. Julian esteve na origem da criação de um tema famosos dos The Beatles - "Lucy In The Sky With Diamonds" - quando, aos quatro anos, fez um desenho sobre a sua amiga Lucy. Essa amiga de infância de Julian morreu há pouco tempo, aos 46 anos, por causa da doença. Cook teve uma avó, também chamada Lucy, também doente de lúpus, que morreu aos 96 anos. Essa é a história que aqui se conta, seguida da canção.

A queda na valeta da fama

Todas as crianças querem ser artistas famosas. E o problema maior é que os paizinhos também querem que as suas crianças sejam artistas famosas. Nas classes sociais remediadas – sem meios para dar formação artística a sério aos seus rebentos, mas onde se anseia e alimenta uma congénita ilusão acerca deste assunto – isso justifica o elevado número de inscrições de raparigas fisicamente desproporcionadas em fictícias escolas de dança jazz e hip-hop ou o extraordinário número da rapazes de ouvido duro que dedicam duas horas por semana do seu tempo a martelar um piano numa escola de música de vão de escada. Em 90 por cento dos casos essas miúdas e esses miúdos, ao fim de três meses, estão a pedir para sair dali, naquela que será a primeira de muitas desistências que farão na vida. Mas, muito francamente, as consequências negativas de tudo isto são diminutas e, na verdade, eles até ficam a ganhar alguma coisa com a experiência.

A indústria da televisão, ou melhor, a indústria das novelas e séries que a TVI e a NBP construíram em Portugal, mais os “Ídolos” e quejandos, vieram abrir uma variante a este panorama. É a geração de jovens – por ano são muitos milhares – que se atira à sorte de um casting. Os que acabam por entrar – às dezenas por ano – chegam verdinhos a um demolidor mundo profissional para o qual nada os preparou. E, ao contrário da fantasia das meninas e meninos das escolas de dança e música, aqui não há recuo, ninguém – pais, produtores, managers, agências – aceitará que eles desistam, a não ser quando a pórpria indústria decide desistir deles, mandando-os para uma espécie de valeta da fama. O problema está em que, depois, ninguém vai lá tirá-los da fossa.

in 24horas, 3 de Junho de 2006

Os tempos antes do CD

Quando os Xutos & Pontapés já eram gente ainda não havia CD. Numa dada fase da minha vida andei a pôr discos em discotecas e festas. Ainda há bocadinho lembraram-me que numa dessas festas, por acaso um festival organizado na antiga FIL, um amigo meu alugou aos organizadores um leitor de discos compactos, o primeiro modelo comercializado em Portugal, da Philips. O “DJ” da festa era eu. Os promotores do evento (nessa altura não se usava esta expressão, mas agora seria assim que os designariam nos jornais) resolveram, na publicidade, anunciar o facto com relevância: o dito festival ia passar – passo a citar como se destacava no cartaz colocado à entrada – “música laser”!

Entre as 20 ou 30 gravações de discos compactos disponíveis no mercado nada havia, nessa altura, de Xutos & Pontapés, mas tínhamos, de facto, qualquer coisa a soar a “música laser”: Vangelis. Era música terrível, ainda por cima impossível de dançar, mas... era o que havia. Uns 15 anos depois desconfiei que António Guterres passou por esse “evento”, quando o vi na TV a subir a um palanque, aplaudido pela multidão, ao som dessa “música laser”.

Os Xutos & Pontapés nasceram, portanto, antes da época da “música laser”, venceram nela e vencem na época do mp3. O Vangelis, não. Qual é o segredo dos Xutos? Fácil, leiam por exemplo esta letra: “Se isto não te diz nada/Olha para a rapaziada/Vê a vida que o povo tem/Vê a vida que o povo tem/Vê a vida que o povo tem”. Pronto, é só ver a vida que o povo tem e, depois, escrever uma canção.

in 24horas, 27 de Maio de 2006

A viola do dia


Hoje são seis violas. Trata-se do duo Siqueira/Lima (que já mostrei aqui) a acompanhar outros músicos participantes no último Brazilian Music Institute, que anualmente é organizado por Welson Tremura em Gainesville, Florida, nos Estados Unidos da América. Para além de Cecília Siqueira, Fernando Lima e Welson Tremura, tocam ainda Juan Cendan, Sílvio dos Santos e Dan McCoy. Larry Crook bate o pandeiro. A composição é de Dilermando Reis.

Como deixei de ser incomodado

Como não sou um tipo famoso nunca fui assediado por fãs. Mas é verdade que ao longo desta minha vidinha de jornalista recebi, de vez em quando, cartas ameaçadoras ou telefonemas incómodos. Os mais aborrecidos e insistentes ocorreram há cerca de três anos, quando o noticiário sobre o processo Casa Pia reflectia a recente prisão de Carlos Cruz: inúmeros SMS e até algumas chamadas de voz para o meu telemóvel informaram-me que havia alguém que achava que eu estava feito com os pedófilos, que eu tinha sido comprado pelos pedófilos, que eu próprio era pedófilo, que um dia esse alguém trataria, de forma sexual e violenta, de me mostrar o castigo que um pedófilo merece e, finalmente, que todos os que trabalhavam no 24horas eram (adivinhem lá...) pedófilos. Era um bocado chato e muita pedofilia para um telemóvel só.

Mas foi muito fácil resolver o problema. Não mudei de número nem dei o aparelho à minha secretária para ela passar a atender as chamadas: simplesmente desliguei-o. Ao fim de uns dias desistiram. Agora só o ligo quando preciso de fazer chamadas ou em alturas, raras, onde quem me interessa não me pode contactar de outra maneira.

Devo dizer que sou obrigado a agradecer aos senhores que tanto me insultaram, pois assim proporcionaram-me uma alteração de hábitos que melhorou substancialmente a qualidade da minha vida: todos os que me rodeiam já sabem que, no telemóvel, raramente me apanham e, por isso, a quantidade de vezes que me chateiam por razões tolas é mínima. Foi uma espécie de libertação de um escravo: agora quase só tenho conversas realmente úteis. Adeus stresse de jornalista, adeus boatos e tricas, adeus “não publique essa notícia!”, adeus choque tecnológico. Conclusão? O problema nestas sociedades da comunicação é mesmo o “blá blá” a mais.

in 24horas, 20 de Maio de 2006

O jogo que eu já não quero jogar

Estava a discutir o título para a capa desta revista quando me saí com uma frase pateta: “Bem, no trabalho eu também passo muitas horas por dia com raparigas e não me ponho por aí a apaixonar-me”. Uma das jornalistas presentes nessa reunião, sem me deixar tempo para respirar, atirou: “O Tadeu desculpe, mas o Tadeu é casado!...”. Portanto, a mim, no consenso generalizado das mulheres que me rodeiam, desde há 18 anos, desde o dia em que dei o nó, já não se aplica o estatuto de pessoa que pode apaixonar-se. Está proibido, acabou, finito... Eis qualquer coisa que me chocou.

Há 18 anos jurei fidelidade à minha mulher e o problema que se coloca é este: estando fora de causa um envolvimento sexual com alguém – por favor, não vamos por aí! –, será motivo para alegar infidelidade uma paixoneta platónica, um simples encantamento até legitimado pelo facto de à minha volta trabalharem várias mulheres inteligentes, bonitas e excelentes pessoas? Não poderia, no recato da minha consciência, no segredo dos meus pensamentos secretos, reservar algum tipo de sentimento romântico que, mesmo sem se manifestar exteriormente, me alimentasse os sonhos, o ego, a autoestima?

A coisa está moralmente resolvida por uma regra simples que tento seguir: “não faças aos outros o que não queres que façam a ti”. A minha opção, portanto, é nunca me apaixonar. Portanto, meninas, têm razão, para mim a excitação do jogo da conquista terminou, essa competição já não me serve, estou fora. Podem ver-me como um eunuco, que as alegrias do matrimónio são mais que muitas.

Então qual é o meu problema? É que aquela frase daquela jornalista, naquela reunião, no fundo, no fundo, lembrou-me que tenho saudades de jogar uma, só uma partidinha mais...

in 24horas, 13 de Maio de 2006

Os pivôs de telejornal são deuses?

Aquilo que geralmente se pede a um apresentador de telejornal é uma impossibilidade física: por um lado, de modo a garantir a credibilidade da sua estação, tem de manter uma atitude fria e distante em relação aos palpitantes acontecimentos que relata; por outro lado, exigem-lhe, para assegurar audiências, que encante e cative o telespectador. É coisa para um deus. A excepção que conheço foi a de Manuela Moura Guedes, que se estava nas tintas para o papel de deusa mas acabou por se transformar numa espécie de terror justiceiro para os alvos das notícias que apresentava. Tiraram-na do ar.

O jornalista de imprensa, como eu, está muito mais protegido. No secretismo da minha redacção, eu posso, se me apetecer, soltar um palavrão indignado perante uma medida errada do Governo, rir a rolar no chão com um “número” do José Castelo Branco ou chorar comovido ao saber de um assassinato de uma criança pela própria mãe. Depois, mais calmo, com as emoções já controladas, lá penso como vou transmitir a notícia aos leitores do 24horas...

Eu gosto dos principais e mais solicitados pivôs portugueses. Mas atenção: conheço meia dúzia deles pessoalmente e, para dizer a verdade, já apanhei tremendas desilusões. Porquê? Ao desempenharem tão bem a sua profissão, ao conseguirem de forma tão natural aquela irrealizável mistura de frieza distante e cumplicidade cativante, atingem, mesmo aos meus olhos cínicos, o estatuto de verdadeiros deuses. O problema é quando lhes apertamos a mão e falamos com eles de futebol, política, cinema, livros, qualquer coisa terrena: descobrimos que, afinal, eles são mesmo humanos e, caramba, o trambolhão do céu à terra é mesmo muito grande.

in 24horas, 6 de Maio de 2006

Ganhar dinheiro só por ir ao sítio

Um dos negócios mais estranhos que as notícias do 24horas e de algumas revistas revelaram ao País, ao fim de anos de clandestinidade mal escondida, é este: famosos ou candidatos a famosos que obtêm o estatuto suficiente para conseguirem receber dinheiro em troca de agraciarem os pagantes com a sua “presença” numlocal. E o que é uma “presença”? É ir a um sítio, beber uns copos, comer uns canapés, sorrir, assinar uns autógrafos, deixar-se fotografar na companhia da pessoa que paga e, depois, ir-se embora com o cheque no bolso.

Discotecas, bares, lançamentos de livros, de discos ou de artigos de moda, inaugurações, tudo serve para alguém vender as sua ida ao local e alguém querer comprar o direito de mostrar essa pessoa ao mundo, anunciando-a à comunicação social que, se os nomes prometidos no evento forem suficientemente apelativos, não faltará com um batalhão de fotógrafos e câmaras de televisão.

A coisa está altamente profissionalizada, há agências que gerem esta “carreira” para os seus “artistas” e nelas estão inscritas as mais fantásticas pessoas: modelos, actores, escritores, empresários, gente de boas famílias, gente gira, eu sei lá! Tudo isto já movimenta milhões de contos por ano. Carla Matadinho, por exemplo, conta nesta revista que ganha mais com uma “presença” dessas do que muita gente com um mês de trabalho e há, por dia, dezenas de iniciativas com a “presença” de famosos pagos. As Finanças, se soubessem, eram capazes de achar muita graça mas, como nós no 24horas, não resolveriam o eterno problema do ovo e da galinha: quem nasce primeiro, a fama ou o proveito?

E porque é que isto é um negócio estranho? Porque, na minha cabecinha de quarentão, quem vai a um bar ou a uma discoteca não recebe dinheiro – paga e não é pouco. Mas, pelos vistos, isso é coisa desactualizada.

in 24horas, 29 de Abril de 2009

Bronca com Jorge Lima Barreto

Não é só nas televisões que acontecem broncas monumentais. Um dia, há uns 20 anos, mandaram-me entrevistar um génio da teoria musical, Jorge Lima Barreto, e um génio da sensibilidade musical, o guitarrista Vítor Rua. Juntos formam um duo que é, “apenas”, uma referência mundial da música de vanguarda: o Telectu. Com Jorge Lima Barreto não se pode ter uma conversa simples e desapaixonada. O fulano é uma inteligência superior e cultiva o estatuto de provocador profissional. Virou-se para o ignorante jornalista e fuzilou-o com uma conversa enciclopédica sobre música minimal repetitiva, música mimética, música concreta, música funcional, música totalmente improvisada, música electro-acústica, nova música, eu sei lá!... Sei que era género musical a mais para a minha pequena camioneta cultural. E ainda tive de levar uma formação acelerada em temas como “performance”, “instalação artística”, “rock de vanguarda”, “tecno-pop”, “concerto multimédia” e não sei já quantas outras expressões da gíria vanguardista dos anos 80... que banho! Às tantas, ao fim de duas horas de aula, aproveitei um momento em que Lima Barreto precisou, finalmente, de respirar, e fugi para conversar uns minutos com Vítor Rua que, acho, estava com pena de mim. Fiz-lhe umas perguntas sobre uma guitarra estranha que ele estava a experimentar, um aparelho electrónico já não me lembro se com 8 ou 10 cordas simples, sem caixa, apenas com braço, como se fosse um longo pau.

Quando fui para a redacção escrever só tinha uma preocupação: reproduzir fielmente e com rigor todo o jargão complicado de Lima Barreto, batalha vencida a golpes de dicionários especializados e incursões arrojadas no arquivo do jornal. No fim, para amenizar, lá pus um texto pequeno sobre o novo instrumento do Vítor Rua. No dia seguinte recebi um telefonema. Era Lima Barreto. “Então, gostou da entrevista?”, perguntei. Do lado de lá a voz ironizava: “Estava óptima, estava até muito bem mas, francamente, ter posto o Vítor Rua agarrado ao bife é que não me parece coisa razoável...” Fui ver e... nem queria acreditar. A tal guitarra tinha um nome bastante simples: era um “stick” que em inglês significa também pau, vara, bengala, bastão, etc. Mas o que é que o Tadeu escreveu, pelo menos uma dezena de vezes, no meio da sua baralhação de termos e conceitos complicados? Nada mais, nada menos que Vítor Rua tocava “steak”, ou seja, e realmente, bife... E ainda perorava sobre os extraordinários sons que saíam do tal “bife”. Que vergonha!

in 24horas, 22 de Abril de 2006