Ganhar dinheiro só por ir ao sítio

Um dos negócios mais estranhos que as notícias do 24horas e de algumas revistas revelaram ao País, ao fim de anos de clandestinidade mal escondida, é este: famosos ou candidatos a famosos que obtêm o estatuto suficiente para conseguirem receber dinheiro em troca de agraciarem os pagantes com a sua “presença” numlocal. E o que é uma “presença”? É ir a um sítio, beber uns copos, comer uns canapés, sorrir, assinar uns autógrafos, deixar-se fotografar na companhia da pessoa que paga e, depois, ir-se embora com o cheque no bolso.

Discotecas, bares, lançamentos de livros, de discos ou de artigos de moda, inaugurações, tudo serve para alguém vender as sua ida ao local e alguém querer comprar o direito de mostrar essa pessoa ao mundo, anunciando-a à comunicação social que, se os nomes prometidos no evento forem suficientemente apelativos, não faltará com um batalhão de fotógrafos e câmaras de televisão.

A coisa está altamente profissionalizada, há agências que gerem esta “carreira” para os seus “artistas” e nelas estão inscritas as mais fantásticas pessoas: modelos, actores, escritores, empresários, gente de boas famílias, gente gira, eu sei lá! Tudo isto já movimenta milhões de contos por ano. Carla Matadinho, por exemplo, conta nesta revista que ganha mais com uma “presença” dessas do que muita gente com um mês de trabalho e há, por dia, dezenas de iniciativas com a “presença” de famosos pagos. As Finanças, se soubessem, eram capazes de achar muita graça mas, como nós no 24horas, não resolveriam o eterno problema do ovo e da galinha: quem nasce primeiro, a fama ou o proveito?

E porque é que isto é um negócio estranho? Porque, na minha cabecinha de quarentão, quem vai a um bar ou a uma discoteca não recebe dinheiro – paga e não é pouco. Mas, pelos vistos, isso é coisa desactualizada.

in 24horas, 29 de Abril de 2009

Bronca com Jorge Lima Barreto

Não é só nas televisões que acontecem broncas monumentais. Um dia, há uns 20 anos, mandaram-me entrevistar um génio da teoria musical, Jorge Lima Barreto, e um génio da sensibilidade musical, o guitarrista Vítor Rua. Juntos formam um duo que é, “apenas”, uma referência mundial da música de vanguarda: o Telectu. Com Jorge Lima Barreto não se pode ter uma conversa simples e desapaixonada. O fulano é uma inteligência superior e cultiva o estatuto de provocador profissional. Virou-se para o ignorante jornalista e fuzilou-o com uma conversa enciclopédica sobre música minimal repetitiva, música mimética, música concreta, música funcional, música totalmente improvisada, música electro-acústica, nova música, eu sei lá!... Sei que era género musical a mais para a minha pequena camioneta cultural. E ainda tive de levar uma formação acelerada em temas como “performance”, “instalação artística”, “rock de vanguarda”, “tecno-pop”, “concerto multimédia” e não sei já quantas outras expressões da gíria vanguardista dos anos 80... que banho! Às tantas, ao fim de duas horas de aula, aproveitei um momento em que Lima Barreto precisou, finalmente, de respirar, e fugi para conversar uns minutos com Vítor Rua que, acho, estava com pena de mim. Fiz-lhe umas perguntas sobre uma guitarra estranha que ele estava a experimentar, um aparelho electrónico já não me lembro se com 8 ou 10 cordas simples, sem caixa, apenas com braço, como se fosse um longo pau.

Quando fui para a redacção escrever só tinha uma preocupação: reproduzir fielmente e com rigor todo o jargão complicado de Lima Barreto, batalha vencida a golpes de dicionários especializados e incursões arrojadas no arquivo do jornal. No fim, para amenizar, lá pus um texto pequeno sobre o novo instrumento do Vítor Rua. No dia seguinte recebi um telefonema. Era Lima Barreto. “Então, gostou da entrevista?”, perguntei. Do lado de lá a voz ironizava: “Estava óptima, estava até muito bem mas, francamente, ter posto o Vítor Rua agarrado ao bife é que não me parece coisa razoável...” Fui ver e... nem queria acreditar. A tal guitarra tinha um nome bastante simples: era um “stick” que em inglês significa também pau, vara, bengala, bastão, etc. Mas o que é que o Tadeu escreveu, pelo menos uma dezena de vezes, no meio da sua baralhação de termos e conceitos complicados? Nada mais, nada menos que Vítor Rua tocava “steak”, ou seja, e realmente, bife... E ainda perorava sobre os extraordinários sons que saíam do tal “bife”. Que vergonha!

in 24horas, 22 de Abril de 2006

Tudo o que sei sobre divórcios

Estou casado vai para 18 anos mas, não fosse eu jornalista, é claro que tenho opiniões muito definitivas, inteligentes e inúteis acerca do divórcio. Vou dar três...

Em primeiro lugar, o divórcio não é um negócio de duas pessoas mas sim, no mínimo, do casal e mais uma: ou um amante, ou uma mãe, ou uma sogra, ou um amigo, ou um advogado, ou um agente imobiliário; há sempre alguém exterior que ajuda a desatar o nó do casamento. Duas pessoas sozinhas nunca o conseguem. Até Adão e Eva, condenados à eternidade no Paraíso, à falta de melhor procuraram a serpente para se libertarem da jura de fidelidade a Deus.

Em segundo lugar, o divórcio é mesmo uma morte, é mesmo o fim de uma vida e, tragicamente, há muita gente incapaz de renascer depois desse corte abrupto consigo próprio, desse confronto com a fraude do seu amor, dessa vergonha pelo tempo de falsificação da sua representação pública como indivíduo acasalado. É verdade que há quem aproveite as lágrimas – inevitáveis – para regar a alma e sair do processo florido e viçoso, pronto para outra metamorfose. Só que, lamento, mesmo esse renascimento é feito à custa da perda da inocência, da perda de tempo, da perda da juventude, da perda da espontaneidade, da perda... Nunca mais seremos os mesmos.

Em terceiro lugar, o divórcio é a prova que a Matemática é obra do demónio (talvez da mesma serpente que ajudou Adão e Eva): a divisão dos livros, a divisão das fotografias, a divisão dos discos, a divisão da casa, a divisão dos animais domésticos, a divisão das loiças, a divisão dos quadros, a divisão dos filhos (sim, até eles!), é a multiplicação de problemas insolúveis, é um somatário de agressões violentas, é a subtracção da nossa capacidade de discernimento.

A propósito de contas, reparo que me enganei no número de anos em que estou casado. Espero, por isso, não vir a aprender alguma coisa realmente útil acerca de divórcios...

in 24horas, 15 de Abril de 2006

A viola do dia



Aluna do mesmo professor de Lie Jie, mostro hoje aqui Yang Xuefei, que demonstra bem o valor da escola de Chen Zhi, o maior mestre de guitarra clássica da República Popular da China.

O drama da falta de originalidade

Até há uns anos atrás odiava parecer banal. Estava mesmo convencido que se não misturasse sabiamente um certo ar de superioridade intelectual com uma dose apropriada de indiferença pelo mundo terreno corria o risco de passar por estúpido. Portanto, estúpida e banalmente, andava na vida a fingir uma originalidade bizarra, tal como todos os milhares de aspirantes a intelectuais que me rodeavam. O mais patético era a voz afectada e grave com que me dirigia ao mundo, uma distorção que só não arrasou de vez as minhas cordas vocais graças a toneladas de comprimidos Bradoral. Doía mas eu não desistia!

Uma manhã tive a sorte de estar no Louvre. Passei duas horas e meia numa fila até conseguir entrar e, claro, quando saí, no fim da tarde, ficou um mundo por ver. Não me modifiquei por causa disso, mantive-me o imbecil do costume e até tive a grandessíssima lata de comentar na roda de amigos ser o Louvre, em muitos aspectos, “uma desilusão” . Ser-se novo e arrogante é mesmo um perigo!

Mas, agora que sou um bocado velho e já não me importo com o que os outros pensam de mim, posso confessar que foi no Louvre que tive uma das maiores emoções estéticas de toda a minha vida. Foi no Louvre que percebi que uma obra-prima da arte visual se reconhece ao primeiro olhar, ao primeiro impacto, sem apelo nem agravo, sem que a procuremos: ela chama-nos, de longe e, simplesmente, não resistimos, embrenhamo-nos e, depois, deixamos cair uma lagrimita.

Mas como poderia eu confessar, palhaço diletante, ter sentido tudo isso no meio de uma overdose da história da pintura ocidental, cheia de frescos geniais, apenas por ter reparado num quadrito tão vulgar, tão trivial, tão pouco original como... a “Gioconda” de Da Vinci. Isto de ser-se humano é uma grande fatalidade!


in 24horas, 8 de Abril de 2006

Branquinho como a cal

Eu lido muito mal com as mentiras. O problema começa logo na pele branca que a natureza me deu. Esta tez pálida e um pouco adoentada com que me apresento ao mundo impossibilita qualquer veleidade de conseguir concretizar uma peta com êxito: a aceleração sanguínea, impossível de evitar, faz com que inevitavelmente eu core como um pimentão e pumba, fico logo denunciado. Mesmo as mentiras piedosas que todos nós, legitima e sensatamente, de vez em quando aplicamos, saem da minha voz e da minha expressão facial totalmente pífias.

Por exemplo, se uma amiga me pergunta a opinião acerca de um novo penteado eu respondo, clara e invariavelmente, mesmo sem pensar nem ver muito bem o aspecto da trunfa: “Está sensacional!”. Eu bem tento dar uma entoação convincente a esta diplomática exclamação aprovadora. Mas, infelizmente, quando reparo a seguir na experiência capilar, nove em cada 10 vezes (até porque detesto mudanças na cara das pessoas) lá me sobe o sangue às faces e a mentira fica denunciada. Um embaraço.

E se um amigo me apresenta uma nova namorada e depois, à socapa, pede a aprovação com um piscar de olho e um cúmplice “Então? Que é que dizes da Sandra?”, eu bem respondo ser a moça uma simpatia, ainda por cima giríssima, mas ele sai dali convencido que anda com um estafermo imbecil ou que está a cometer um dos sete pecados mortais e, por isso, vai ser condenado à eternidade no Inferno.

Por isso é que quando tomei posse como director do 24horas, decretei que nem no dia 1 de Abril este jornal e esta revista publicariam mentiras: é que nem a brincar, nesta matéria, eu tenho hipótese de me sair bem. Não acreditam? Olhem que eu escrevi isto tudo e, vi agora ali no espelho, mantenho-me branquinho como a cal...

in 24horas, 1 de Abril de 2006

A viola do dia



Li Jie é uma guitarrista de música erudita absolutamente excepcional. Aqui toca o "Capricho de Paganini n.º 24". Uma demonstração soberba das capacidades desta chinesa.
AMANHÃ: PEDRO CALDEIRA CABRAL

A viola do dia

Este é Peter Ciluzzi, a tocar “Nocturne”, em outro exemplo de utilização de técnicas pouco habituais. O músico pode ser encontrado aqui

AMANHÃ: LI JIE

Controlinveste cria agência
para fornecer fotos e vídeos

A Controlinveste anunciou às suas  publicações a criação de uma agência de imagens para fornecer fotografias e vídeos internamente e para outros órgãos como forma de cortar custos e criar novas receitas, disse à Lusa um dos directores.

"A nova agência de imagens vai fornecer, numa primeira fase, fotografias e vídeos ao grupo, e depois, também para o mercado externo", explicou Pedro Tadeu, que vai dirigir a nova unidade em conjunto com o fotógrafo Alfredo Cunha.

O objectivo, avançou, é "fazer economias de escala" dentro da Controlinveste e, ao mesmo tempo, "criar um novo negócio" cujas receitas estimadas não foram adiantadas pelo director.

A ideia de criar este novo negócio já cerca de um ano, já que já tinha sido mencionada num comunicado divulgado pelo conselho de redacção de O Jogo, em Janeiro deste ano, em reacção ao despedimento colectivo de 122 colaboradores do grupo, 11 dos quais fotógrafos.

De acordo com Pedro Tadeu, que deixou a direcção do 24 Horas em Junho passado para criar a agência, "todos os fotógrafos das várias redacções do grupo estarão integrados, somando mais de 20".

Fotógrafos serão responsáveis por fornecer grande parte fotografias que os jornais do grupo publicam todos os anos, tendo sido criado "um modelo de funcionamento que visa garantir a qualidade de cada título", adiantou.

Escusando-se a explicar o funcionamento da agência por se tratar "de uma coisa interna", Pedro Tadeu assegurou que o novo método não irá eliminar a exclusividade de imagens de cada jornal da Controlinveste, sendo a gestão de serviços combinada com as direcções das publicações.

O objectivo é também fornecer imagens para outros órgãos de comunicação social, mas isso só começará a acontecer quando "o fluxo interno de trabalho estiver a funcionar bem", referiu o director, apontando esta primeira fase para o primeiro trimestre de 2010.

Dirigido por Joaquim Oliveira, o grupo Controlinveste publica jornais como o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, o 24 Horas e O Jogo e revistas como a Volta ao Mundo e Evasões.
PMC.

in “Diário de Notícias” online, 30 de Novembro de 2009


Nota: Saí do 24horas em Agosto, não em Junho
P.T.

A viola do dia



Este vídeo é uma curiosidade histórica: Al di Meola toca num clube argentino de Buenos Aires, o Oliverio Pub, de supresa e sem anuncio público, numa sexta-feira à noite de Setembro de 1995. O motivo foi um espectáculo de Mario Parmisano, habitual teclista de Di Meola, que o convidou. São variações em cima de uma composição de Astor Piazzolla.
AMANHÃ:PETER CILUZZI