A viola do dia



Este vídeo é uma curiosidade histórica: Al di Meola toca num clube argentino de Buenos Aires, o Oliverio Pub, de supresa e sem anuncio público, numa sexta-feira à noite de Setembro de 1995. O motivo foi um espectáculo de Mario Parmisano, habitual teclista de Di Meola, que o convidou. São variações em cima de uma composição de Astor Piazzolla.
AMANHÃ:PETER CILUZZI

A viola do dia


Este é o "Concerto Mediterrânico" que aconteceu em 1989, de John McLaughlin com a Filarmónica de Munique. Só tenho pena que McLaughlin seja mais rápido do que expressivo, mais cérebro que coração.
AMANHÃ: AL DI MEOLA

As OPA são uma coisa boa?

Ando a ler nos últimos tempos nos jornais especializados que isto de estarem a suceder-se no mercado umas OPA atrás das outras é um sinal positivo para Portugal. A tese é que essas operações, que envolvem investimentos bancários de muitos e muitos milhões, endividamentos monstruosos de empresas portuguesas, movimentos de capitais vindos de fundos estrangeiros mais ou menos desconhecidos para o comum dos mortais, revelam que quem tem dinheiro a sério antevê um relançamento da economia portuguesa e por isso aposta no nosso mercado para ganhar, claro, muito mais dinheiro. 

Tirando o facto de eu constatar que quase sempre, no mundo da alta finança, quem ganhou muito dinheiro fez com que alguém perdesse muito dinheiro, não me parece que essa visão tão optimista da situação seja assim muito realista. 

Esta minha observação à “velho do Restelo” decorre de umas dúvidas que eu, ignorante em assuntos deste tipo, tenho e não vejo respondidas na tal imprensa especializada. Como temos a certeza que o valor que hoje tem para o País a Portugal Telecom, a Sonae, o BCP e o BPI consegue sobreviver a este teste convulsivo? Como pode alguém garantir que nesta luta sem tréguas, onde se decide o destino a dar a milhões de contos e o emprego de milhares de pessoas, não se irão cometer erros fatais, capazes de liquidar, de um dia para o outro, o que ainda temos de vida financeira no País? Como podemos ter a certeza que, no deve e haver final, na contabilidade dos ganhos e perdas, não acabaremos por nos deparar com uma calamidade? Quem nos garante que, afinal, tudo isto não passa de uma suicida fuga para a frente rumo a um angustiante abismo? Sim, estou muito preocupado e com um bocado de medo. 
in 24horas, 25 de Março de 2006

Os primeiros sons da minha filha

O dia em que me apercebi que a minha filha estava viva foi quando o médico pôs um aparelho na barriga da minha mulher para ouvirmos bater o coração do bebé. Era um barulho furioso, à velocidade única de quem corre (e nunca mais chega) à procura de ver a luz do sol, de respirar o ar, de beber água, de saborear comida, de sentir um beijo, de experimentar um colo. Tirando o dia do nascimento da Joana – o único da minha vida em que, juro, voei –, foi a maior emoção de todos estes 16 anos de experiência da paternidade, muito maior, por exemplo, do que a visualização da primeira ecografia, frustrante, pois durante largos minutos descodifiquei apenas borrões e borrões e borrões... 

Memorizei aquela batucada cardíaca para o resto da vida: é um dos sons mais impressionantes do universo. E desde esse dia sinto uma inveja apaixonada de todas as mulheres: esta capacidade de levar na barriga um ser vivo, de ajudá-lo a crescer, escondido e devagarinho, ao longo de nove meses, dá-lhes um poder de deusas e atribuilhes um mistério impossível de desvendar. Eu sei lá o que é essa coisa animal de ter um filho na barriga! Eu sei lá o que é isso de pô-lo cá fora! Eu sei lá, no fundo, o que é realmente a vida! E, mais angustiante ainda, por muitas vezes que faça filhos, por muitas conversas que tenha com mães, por muitos livros que leia, nunca terei hipótese de o saber! Nós, os homens, somos uns seres incompletos. 

Sou incapaz de passar por uma mulher grávida, qualquer uma, sem olhar directamente para aquelas barrigas majestosas, sem me enternecer um pouco, sem voltar a sentir o prazer de ouvir, na minha cabeça, os primeiros sons da minha filha. Bárbara Norton de Matos, linda como quase todas as grávidas, está na capa desta revista a recordar-me tudo. Obrigado. 
in 24horas, 18 de Março de 2006

A viola do dia


Gosto de músicos amadores que, mesmo com limitações técnicas ou com instrumentos fracos, conseguem obter belos sons. É o caso desta canção, Girl, dos The Beatles, tocada numa versão que encontrei no YouTube identificada apenas por ter sido feita em 1996. Eles parecem ser da Europa do Leste, talvez russos e, suponho, não são músicos profissionais. Tudo ali – a melodia, o cenário da casa, o aspecto dos artistas, a forma como abordam o instrumento – respira candura.

A imaginação do mundo da moda

Já publicámos aqui no 24horas inúmeras entrevistas com modelos famosas, encantadoras e deslumbrantes estrelas das passarelas, pessoas de carácter perturbante, gente insensível ao peso dos olhares lúbricos e à exibição erótica do próprio corpo. Mas, para ser sincero, fico perplexo quando elas se põem a falar da adolescência e descrevem, quase invariavelmente, terem sido alcunhadas pelos colegas de carteira de “magrizelas” ou “escanzeladas”. Sugerem assim ser a magreza que as lançou na carreira algo natural, metabólico, e não o fruto de dietas milagrosas ou de plásticas habilidosas. 

O primeiro contacto que tive com o mundo da moda já foi no tempo em que os animais falavam, a televisão era a preto e branco e a patroa do meio era uma senhora chamada Maria Leonor, emblemática locutora dos primórdios da RTP, com um bocado de mau feitio, repleta de arrogância e fatos saia- -casaco. 


Uma amiga minha, já não me lembro como, foi escolhida para desfilar uns vestidos numa passagem que era apresentada e produzida por Maria Leonor. Essa minha amiga era uma morena de cabelos pretos compridos, lindíssima, de corpo muito bem desenhado (sim, estive apaixonado por ela, mas depois passou-me...), que preferia ler Álvaro de Campos a andar naqueles preparos. Mas a perspectiva de ganhar uns tostões e a pressão dos que a rodeavam lá a decidiram. 


O desastre aconteceu quando subiu à passarela: Maria Leonor anunciava ao estimado público que a Ana nascera em Luanda. Daí, insistia, a sua beleza exótica, “com sabor a África”, “selvagem e perturbante”, ideal para vestir as criações de já não sei que costureiro, adepto das “paletas de cores quentes e sensuais, típicas das paisagens africanas”. A Ana, nascida em Lisboa numa qualquer Alfredo da Costa ali ao virar da esquina, ao ouvir tanta aldrabice ia torcendo o pé nos sapatos de salto alto. Perdeu-se assim uma modelo: ela voltou para o Fernando Pessoa e nunca mais quis ouvir falar em moda.
in 24horas, 11 de Março de 2006

A viola do dia


O verdadeiro mestre da guitarra de 10 cordas é Narciso Yepes, que aqui aparece numa excelente gravação, apesar de antiga, a tocar Bach. As quatro cordas adicionais, as mais graves, raramente são dedilhadas mas, por efeito de simpatia, ressoam e dão um timbre especial ao instrumento, que Narciso achava ser mais natural do que o da guitarra de seis cordas.



AMANHÃ: AMADORES TOCAM BEATLES

O irrelevante pontapé do Marco


Na crónica anterior lembrei-me do impacto que o primeiro Big Brother teve no país. O pontapé do Marco abriu o noticiário das 7 da manhã da TSF e, depois, foi chamada de capa dos jornais de referência que, com essa cedência, deram uma vitória para o 24horas da altura, o único diário que tratava o assunto de forma sistemática.

Depois disso seguiram-se debates na televisão sobre os malefícios dos reality shows, crónicas incendiárias contra o programa e o caso dominou, durante semanas, as conversas dos portugueses.A TVI nunca mais deixou de liderar audiências. Deu na queda de Emídio Rangel, que dirigia a SIC e recusou comprar o programa à produtora Endemol. Foi a glória de José Eduardo Moniz, que aceitou os restos recusados pela estação rival. O Correio da Manhã passa a acompanhar o 24horas na cobertura a este tipo de assuntos, as revistas de TV e famosos amplificam o fenómeno e os outros jornais, da classe dos circunspectos, acabam, com maior ou menor destaque e no meio de um coro nas redacções de que "isto não é notícia", por fazer o mesmo que  os tablóides... Até hoje, com a vantagem de já ninguém protestar.

Quanto a estes personagens, que mudaram para sempre o país, é só escolher a pequena história trágico-irrelevante: Do esquecimento à cadeia, da depressão profunda à tentativa patética de voltar à ribalta, nenhum deles consegue na vida real entusiasmar qualquer audiência.

O preço que a fama cobra

Quando se estreou o “Big Brother” andávamos com a cabeça feita num oito. A coisa indignava-nos por haver pessoas que se dispunham a expor toda a sua intimidade às câmaras de televisão. A coisa deixava o País cheio de sentimentos de culpa por os telespectadores se comportarem como uma tribo de voyeurs que espreita pelo buraco da fechadura. A coisa era arrumada na secção dos problemas de consciência que se resolveriam mais tarde pelo facto, inultrapassável, de nos estarmos nas tintas para a moralidade e mamarmos, viciados, os episódios todos, uns atrás dos outros. 

Já passaram cinco anos e hoje já ninguém se impressiona muito com reality shows e a questão moral levantada por estes programas não foi resolvida: está esquecida de vez. A maioria de nós, até, segue os programas com alguma curiosidade mas sem uma pinga de paixão. 

Quando o fenómeno apareceu sonhei logo vir a fazer e a escrever, meia dúzia de anos depois, a reportagem sobre o que aconteceu aos primeiros personagens que entraram na casa da produtora Endemol. Adivinhava as tragédias de vida inevitáveis ao desgaste pessoal que, com o tempo, cada um daqueles rapazes e daquelas raparigas iria sofrer por ter sido famoso e depois ter caído no esquecimento, por ter tentado ser famoso e não o ter conseguido, por ter sonhado ser famoso e, afinal, ter odiado a fama, etc., etc.. 

A prisão de Mário, já depois da dupla tentativa de suicídio de Zé Maria, o primeiro vencedor do programa que alcançou o estatuto de herói nacional, já impunham que esse trabalho se publicasse. Procurámos então saber o que aconteceu a todos os que passaram pelo “Big Brother”. Infelizmente para mim não seria eu a escrever esta reportagem. Mas nesta revista fica documentado, de forma simples e clara, que, mesmo se às vezes for suave, o tempo cobra sempre algum preço à fama. 
in 24horas, 4 de Março de 2006

A viola do dia

Dominique Frasca é um músico experimentalista, de Nova Iorque, que aqui toca, em primeiro lugar, uma viola de 10 cordas (mexendo nela como se fosse um piano, isto é, com as duas mãos “a teclar”) e, em segundo lugar, uma viola de seis cordas, preparada.

AMANHÃ:
NARCISO YEPES

Como se fazem os bebés


A propósito da crónica anterior (ler aqui), confesso que na altura em que me foram relatados "os factos da vida" ainda não era possível utlizarmos recursos audiovisuais como este, proporcionado pelo grupo humorístico britânico dos anos 70/80 The Goodies, que se atreveram, na pública BBC, a abordar este assunto, que tanto medo mete aos pais de filhos pré-adolescentes...