Revelaram-me os factos da vida

meu pai morreu muito cedo por causa de um acidente automóvel e a minha mãe viu-se, de repente, sozinha com três filhos. Naquele tempo uma mulher como a minha mãe tirava um curso menor e inútil na escola, saía directamente de casa dos pais para casa do marido, não trabalhava e diziam-lhe que não devia trabalhar, tinha empregada em casa. Se enviuvasse, o melhor que poderia esperar era que a família a ajudasse. Aos 30 anos a minha mãe não foi nisso e, sem passado ou educação profissional, sem dinheiro, sem contactos, vendo-se numa situação aflitiva num mundo machista e paternalista, não se intimidou, partiu para a luta e venceu. 

Uma das preocupações da minha mãe foi sempre tentar dar aos filhos uma educação adequada aos tempos, longe da austeridade afectiva da sua infância e, apesar das dificuldades implícitas à necessidade de trabalhar de dia e estudar à noite, acompanhando-nos muito de perto e muito “em cima” do crescimento e das mudanças de idade, desde a infância até ao final da adolescência, passando por todas as fases intermédias ou, se quiserem, as diversas “idades do armário”. 

Um dos momentos mais bonitos que passei com a minha mãe foi quando, tinha eu uns 11 ou 12 anos, ela decidiu chamar-me para ter uma conversa séria. O assunto era “falar das coisas da vida”, algo que, em princípio, segundo explicava balbuciante, estaria a cargo do meu pai mas, dadas as circunstâncias, teria de ser ela a fazer. E assim comunicou- -me que afinal aquilo da cegonha trazer crianças era apenas uma fábula, que os meninos e as meninas eram diferentes por uma razão e por aí fora... Tudo terminou com a explicação do que era o preservativo e a pílula. Tenho a dizer que ouvi tudo com muita atenção e toda aquela informação dada assim de repente veio a ser muito útil, uma data de anos mais tarde. E tenho a declarar, para concluir esta história escrita quando já tenho uma filha quase adulta, que, para além de amor, quanto mais velho fico maior admiração sinto pela minha mãe. 
in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

A viola do dia

Hoje volto à guitarra portuguesa,  e apresento uma gravação antiga da RTP 2 com o então ainda “puto” Ricardo Rocha. É pena a qualidade de som…

 

AMANHÃ:
DOMINIC FRASCA

Vejam as cores que eu tenho

Guarda-rios2  Este é um guarda-rios fotografado por um português que se identifica como “Faísca” e que tem uma espectacular galeria de imagens de pássaros, Pode ser vista aqui. Charles Darwin, se no tempo dele tivesse uma máquina fotográfica, não faria certamente melhor.

Tudo se resume a isto: quem come a melhor refeição é que sobrevive

Eis um vídeo da Amnistia Internacional que pode muito bem ser visto no dia em que se celebra a publicação do livro que explica como as espécies mais aptas sobreviveram à lei da evolução…

É difícil andar bem vestido

 Por causa do senhor procurador-geral da República, doutor Souto Moura, tenho aparecido na televisão mais vezes do que gostaria. E, claro, fico sempre irritado com a figura ridícula que faço, com os (des)penteados com que apareço e as roupitas maçadoras que envergo. Resumindo: sou um triste. 

Aminha ideia de guarda-roupa ideal é esta: calças, camisa (camisola no Inverno), sapatos e casaco. Todo este equipamento deve ter uma qualidade única: a de me fazer passar despercebido. Se fosse eu a fazer as compras adquiria o mesmo conjunto de roupas sete vezes e ia mudando à medida das necessidades de lavagem. Por obrigação institucional, guardava no armário, no meio de bolas de naftalina, um conjunto engravatado ao qual me tentaria escapar sempre que possível. 

Infelizmente nunca me consegui organizar de forma a concretizar estes simples objectivos e a minha mulher tem feito tudo para sabotar esta operação. Ainda há bocado, tinha acabado de sair do meu gabinete um procurador que veio fazer uma busca à redacção do 24horas, tocou o meu telefone. Era lá de casa. Perguntaram-me se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Respondi que não, que ela estivesse descansada. Passado um bocado dei por mim a discutir o número de calças que visto, pois como deixei de fumar há um ano e engordei uns 10 quilos, a Catarina tinha dúvidas se o 38 ainda servia. Serve. E pronto, já sei que daqui a uns dias terei umas calcitas lá em casa para substituir as que tenho um bocado coçadas. Se não fosse ela, que compra o que lhe peço, eu não andava vestido como um triste. Andava mas era nu. 
in 24horas, 18 de Fevereiro de 2006

Espécies que já não querem sobreviver

Este vídeo foi produzido pela McCann Eriksson de Portugal para a Quercus, há um ano, a propósito das mudanças climáticas. A linguagem é primária, brutal, mas tremendamente eficaz. No dia em que se comemoram os 150 anos do livro que explicou a sobrevivência das espécies, isto deixa-nos um aperto no coração e um enorme sentimento de culpa…

A viola do dia

Este é o vídeo de uma fracção de um espectáculo de Toquinho na Suíça em 1983, ainda ele tinha muito cabelo escuro e bigode. É uma interpretação de um clássico de Ary Barroso:: “Na Baixa do Sapateiro”.
AMANHÃ:
RICARDO ROCHA

A origem das espécies


Aqui fica uma curta homenagem a Charles Darwin e ao seu revolucionário livro "A Origem das Espécies". Hoje passam 150 anos sobre a data da publicação da primeira edição.




Clique na fotografia para ler um artigo sobre o livro de Darwin

O amor à bandeira é muito bonito

OlegIgorinOleg Igorin é um fotógrafo de moda e publicidade, nascido e criado em Nova Iorque. Pode ser visitado aqui. Este é um trabalho com uma modelo chamada Ioanna e é também mais uma demonstração de que uma das razões porque os Estados Unidos lideram o mundo está nesta permanente exaltação que a sua sociedade faz dos seus símbolos unificadores e identificadores. Uma maçada para os europeus, que já não acham graça nenhuma a coisas como bandeiras, hinos, pátrias… a não ser quando se trata de futebol, claro… Mas já estou a estragar a fotografia com tanta parvoíce.

Dançam com ar de serem muito maus


A propósito da crónica anterior, aqui fica um vídeo que explica a dança Haka do povo Maori da Nova Zelândia, celebrizada mundialmente através dos jogadores de râguebi do país. Mesmo nesta manifestação guerreira há aqui qualquer coisa de sexual, de exibição de virilidade...

O sexo e a dança são perigosos

Já não me lembro qual foi o cerebrozinho que se saiu com esta, mas a frase é a seguinte: “a dança é a expressão vertical de um desejo horizontal”. Tiro desta tenebrosa generalização, claro, as danças de guerra, de desafio ou de trabalho, como a Haka dos Maori da Nova Zelândia, o fandango ribatejano ou o breakdance da Nova Iorque negra. Mas não compliquemos... 


O que quero dizer é que um casal a dançar a valsa, o twist, o sapateado, o disco, o samba, a gafieira, tango, maxixe, swing, salsa, bolero, rumba, o que quiserem – até patinagem artística – parece sempre estar a fazer uma única, exclusiva e significativa coisa: a simulação do acto sexual. É a minha cabecinha imoral que me impele a ver o que lá não está? Precisarei de ajuda psiquiátrica? Talvez de limpar os óculos? Ir mais vezes a casa? Calma aí! Não é preciso ser-se muito observador, não é preciso ser--se muito perspicaz, não é preciso serse muito inteligente para perceber que a dança de que aqui falo é mesmo disso que trata: procura, desafio, sedução, paixão, criação, explosão e agradecimento. Isto é, ou não é, a descrição de um acto sexual? 


Encontrada esta verdade de senhor de la Palisse vem a parte mais complicada: o ciúme. E o ciúme corrói-me por dentro, a mim que não sei dançar, que troco os pés, que sinto vergonha da hesitação destes braços nervosos e incertos, que meneio fora de tempo esta cabeça ridícula, que gingo as pernas aos tropeções descoordenados. E ciúme de quê? De todos os homens e mulheres que dançam. Porquê? Porque exibem ao mundo, espampanantes – belos e leves –, o mais lindo, íntimo e secreto dos desejos humanos. Eu não o posso fazer. E isso é uma terrível impotência. 
in 24horas, 11de Fevereiro de 2006