A viola do dia


Andrés Segóvia, o homem que impôs a viola na música erudita, toca Bach. A clareza da execução é estarrecedora, e impressiona ainda mais pela idade que, na altura desta gravação, o músico já tinha e que, pelos vistos, em nada o prejudicou.
AMANHÃ: TOQUINHO

Se houvesse degraus na Terra


Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.



herberto.helder Herberto Hélder, autor deste poema, nasceu neste dia 23 de Novembro em 1930, faz hoje 79 anos

O mundo é mais simples do que parece

Edgar Martins
Edgar Martins nasceu português, em Macau, estudou e vive em Londres e é habitualmente apresentado como um dos fotógrafos mais influentes da actualidade. Tem uma notável capacidade para depurar a realidade em composições de geometria linear. Gosta da luz e gosta do negro. É um esteta.

Mudamos, sim, mas vamos sempre
dando passinhos até ao fim


Martin Schmidt criou este desenho animado, intitulado “George Grows”  que, na perfeição, ilustra a crónica anterior que publiquei aqui

Todos vivemos sete vidas

Quase todos temos sete vidas para experimentar, como os gatos. Vamos lá ver. Com 1 ano tive pena de deixar de mamar. Com 3 anos adorei ir para a escola e o meu quarto tinha muitos brinquedos. Aos 5 anos planeava ser astronauta e achava as raparigas parvas. Esta foi a minha primeira vida. Foi curta mas diverti-me imenso.

Aos 9 anos planeava guiar autocarros da Carris e namorar uma data de raparigas. Aos 12 anos planeava ganhar um prémio Nobel e namorar uma data de raparigas. Aos 15 anos planeava ser guarda-redes no Sporting e namorar uma data de raparigas. Aos 16 anos planeava mudar o mundo e namorar uma data de raparigas. Aos 18 anos deixei de fazer planos. Esta foi a minha segunda vida. Foi curta e, ainda por cima, não namorei uma data de raparigas.

Aos 20 anos planeava ser uma vedeta da rádio, ajudar o meu partido, encontrar a mulher da minha vida e ter um filho. Aos 25 anos era locutor, trabalhava no meu partido e casei-me. Aos 26 anos tinha uma filha. Aos 30 anos apeteceu-me mudar de vida. Esta foi a minha terceira vida. A felicidade.

Quis ir para os jornais, quis mudar de casa, quis, apenas, mudar. Eu, a minha mulher e a minha filha mudámos. Passei a chefiar a redacção de um jornal diário e isso fazia-me cócegas ao sono, acordava a sorrir. Aos 39 anos puseram-me a dirigir o 24horas e entrei em delírio. Esta é a minha vida actual, a quarta. Ainda é curta, mas deu-me tudo o que quis ter e está a ser óptima.

Tenho um bocadito de medo das três vidas que ainda poderão vir: a maturidade, a reforma, a velhice. Não tenho brinquedos, não tenho planos, não terei mais filhos, acabarei a profissão... Mas, como um gato, se me deixarem, não resistirei à curiosidade de as experimentar. Afinal, estas sete vidas são três dias. Há que aproveitar.

in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

A viola do dia

O Cuarteto de Guitarras Aranjuez fez um arranjo com o tema principal da série televisiva “The Simpsons”. Está óptimo, apesar da captação de som não ser famosa.

AMANHÃ: ANDRÉS SEGÓVIA

Juro! Sou mesmo um rapaz pacato

Eu, conforme tenho desesperadamente tentado demonstrar nestas crónicas, sou um rapaz pacato, nada dado a aventuras amorosas.

Comigo é casa-trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho, dia após dia, após dia, após dia. Comigo não há fitas, não há distracções, não há sorrisinhos cúmplices, não há cafezinhos a meio da tarde. Comigo não há conversas sobre cinema, não há conversas sobre a infância, não há conversas sobre romances de Dostoievski, não há conversas sobre músicas de Marvin Gaye, não há conversas sobre anúncios eróticos de TV, comigo, em suma, não há conversas. É tudo casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho.

Sou mesmo um rapaz pacato. Juro!, que me caia já aqui um raio (noc!, noc!, noc!, o diabo seja cego, surdo e mudo!) se for mentira. Comigo não há trocadilhos inteligentes, comigo não há prendinhas despropositadas, comigo não há carícias teatralmente casuais e inocentes, encostos de cabeças a provocar intimidade, tons de voz macios e melosos, piscares de olhos despropositados ou partidinhas infantis. É como vos digo: casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho. Juro! (entrou agora um tipo no meu gabinete a perguntar-me porque estou a fazer figas com os dedos), mas eu só penso em coisas sérias e o flirt não é uma coisa séria.

Sim, a minha vida é um bocado chata, é verdade, as mulheres olham para mim como se eu sofresse de gota histérica, seja lá o que for essa doença maluca. Mas uma coisa não me acontecerá: o 24horas não publicará a minha fotografia na capa com a frase “a partir corações”, como hoje acontece ao doutor Miguel Beleza (o tipo que entrou há bocado no meu gabinete olhou agora para o ecrã do meu computador e está a dizer “coitado de ti, precisas de um ombro amigo?”, o sacana!).

in 24horas, 28 de Janeiro de 2006

A viola do dia



O espantoso Andy McKee, num exemplo de guitarra percutida, a tocar uma das faixas do seu álbum Art of Motion. Visite-o no My Space
AMANHÃ: CUARTETO DE GUITARRAS ARANJUEZ

Salazar, Espírito Santo, Mello, Champalimaud e os outros todos

O jornalista da revista Sábado, antigo director-adjunto do jornal 24horas e meu amigo, Pedro Jorge Castro, lançou um livro onde revela correspondência e imagens inéditas sobre as relações pessoais entre o ditador Salazar e os chefes da meia-dúzia de famílias ricas que dominavam a economia portuguesa da altura.

Diz a contracapa deste "Salazar e os milionários": “Durante o Estado Novo, quando os milionários portugueses precisavam de um favor politico, sentavam-se à secretária e escreviam a um homem pobre, de origem rural, mas que durante dezenas de anos concentrou em Portugal todo o poder politico.

Com base em cartas, relatórios e documentos, a maior parte inéditos, este livro desenha a surpreendente teia de ligações entre Salazar e as famílias mais ricas de Portugal: os encontros de domingo à noite com Ricardo Espírito Santo, a proximidade com os Mello, os pedidos de Champalimaud ou a aproximação de Cupertino de Miranda no final do regime. Aqui se revela também a relação pessoal que o ditador mantinha com o dinheiro, a sua intervenção nas guerras do petróleo e no comércio dos diamantes de Angola, e as enormes facilidades concedidas aos empresários que, a pedido do próprio governante, fundaram o Hotel Ritz. Uma história recheada de episódios de veneração, discordâncias veladas - e intensas manobras de bastidores”.

Do que vi – ainda só desfolhei - gostei: a edição da Quetzal, apesar de ser em capa mole, é cuidada e tem pormenores engraçados, como o de explicar a origem da fonte de letra usada na impressão; algumas das cartas que li são surpreendentes; as fotografias, em muitos aspectos, são uma revelação e até já fiquei a saber que o par das famosas botas do ditador custou 140 escudos, uma exorbitância para a época…

Já agora, para não nos esquecermos de como era o espírito da coisa, fica aqui um bocadinho do discurso de Salazar no 10.º aniversário da ditadura.



Ai esta televisão que eu amo!

É só para recordar que hoje é Dia Mundial da Televisão.

Bad-Television-Reception-35293Este é um trabalho de Photoshop assinado por AZRainam
para um concurso do site FreakingNews.com

Mas onde é que está o Liu?

Liu Bolin 5
Um artista chinês está a deixar os internautas parvos com o efeito visual que consegue na série de fotografias intituladas “Camuflagem”. Liu Bolin tem 35 anos, nasceu em Shandong, na China, e percorre o mundo para se fotografar coberto de tintas que o fazem ficar “embrulhado” no cenário..