Agora querem
que o pecado seja uma coisa bonita!

Alessandro Bavari
Sodoma e Gomorra é vista assim por Alessandro Bavari, um italiano nascido em 1963 que desde que começou a misturar fotografia, técnicas de manipulação digital e pintura, desatou a coleccionar prémios internacionais. Esta fotografia é a primeira de uma série dedicada às cidades do pecado que o Deus do Velho Testamento exterminou e pode ser vista aqui.

Car Wash no telejornal

Este vídeo sugere uma sucessão de contrastes que nos traz  de volta à realidade de um mundo que, neste conforto burguês, ocidental, europeu, do grupo dos 30 ou 35 países mais ricos do mundo, nos leva a dar como garantido um montão de coisas que só uma pequena parte do planeta pode, afinal, usufruir.

Pois o que se passa é isto: uma reportagem na televisão do Quénia dá dois minutos e 25 segundos de tempo de antena ao facto de ter aberto em Nairobi – a capital do país – um novo serviço de lavagem automática de automóveis, que não será o primeiro, suponho, mas que é suficientemente importante para ter direito a tão notável transmissão.

Primeiro contraste: este atraso de, talvez, 40 ou 50 anos em relação a algo que para nós faz tão parte da vulgaridade do dia-a-dia que nunca motivaria dois segundos, sequer, de espaço do pequeno ecrã, é compensado por o sistema, que tanto entusiasmo suscita à NTV queniana, ser computorizado e ter capacidade para reciclar a água que utiliza – o que deve ser bastante invulgar cá no nosso burgo tecnologicamente desenvolvido.

Segundo contraste: o automóvel que é utilizado no final da reportagem pelo jornalista para “testar” a lavagem automática de carros é um Volkswagen Passat de última geração, que fará inveja a muito automobilista “tuga” montado no seu utilitário Clio. O de um cliente é uma carrinha de caixa aberta 4 por 4 bastante cara.

Terceiro contraste: a técnica jornalística seguida é bem melhor do que muita coisa que se vê por aí nas nossas televisões, em situações similares, mesmo se o tema for a inauguração de uma fábrica de circuitos integrados ou o lançamento de uma nova versão do iPhone.

Invadido de cartões de Boas Festas

Nas últimas semanas a minha secretária de trabalho foi invadida por cartões de felicitações de festas felizes e próspero ano novo. Tenho a dizer que grande parte dessas missivas vêm de pessoas ou entidades que eu não conheço mas que, de alguma forma, a minha actividade jornalística e o cargo de director do 24horas levam a que se sintam na obrigação de proceder a esta delicadeza.

Há mesmo alguns que exageram e, a acompanhar o cartão, mandam garrafas de vinho, agendas, bolas de árvores de Natal e um infinito cardápio de produtos de promoção que me deixam irritadíssimo. Porquê? Porque tudo o que tenha valor que se veja é devolvido à procedência – não vá o diabo tecê-las e alguém pensar que se está a comprar um favor qualquer – e tudo o que não tem valor, para ser franco, encaminha-se rapidamente para o lixo, a juntarse aos milhões de toneladas de coisas não biodegradáveis que andam a poluir este mundo. No meio desta confusão acabo por me sentir uma besta insensível, por não ficar grato ao gesto de simpatia dos outros. É um embaraço para mim e para as pessoas e empresas que tentam ser agradáveis comigo e acabam por ter de dirimir um pequeno conflito institucional.

Nesta altura do ano criámos esta necessidade de darmos palmadinhas nas costas uns dos outros, de nos ofertarmos como se fossemos irmãos, apesar de no resto do ano termos andado mutuamente a planear homicídios de carácter, a espalhar rasteiras traiçoeiras e a espetar facadas nas costas. Nesta altura somos santos, no resto do ano somos soezes.

Mas a verdade é que as pessoas fazem isto por bem, eu sei. Sinto-me, portanto, obrigado a participar neste belo movimento social. Mas como sou forreta e já não vou a tempo de comprar cartões de Boas Festas, aproveito este espaço e a todos os esforçados ofertantes retribuo o marketing profissional com os desejos de um feliz Natal e um fantástico ano de 2006.
in 24horas, 24 de Dezembro de 2005

A viola do dia



O Brasil Guitar Duo toca "Zita", de Astor Piazzolla. O site do grupo é aqui.
AMANHÃ: Georgia Guitar Quartet

Quero rir com este peso tão leve

Vanessa Muñoz

Vanessa Muñoz é uma fotógrafa residente em Inglaterra mas que, parece ( o site dela pouco diz sobre ela própria) terá nascido ou terá ascendência mexicana. E isso é importante? Não. O que é importante nesta fotografia são as saudades que ela me atira dos tempos em que brincava com balões.

King Kong contra o dinossauro
e, afinal, quanto dura a memória?


A propósito da recordação de uma crónica minha no 24horas (ver mensagem anterior) lembrei-me de rever uma cena do King Kong de 1933 – onde, para salvar a menina que guincha insuportavelmente, o enorme gorila acaba a lutar com uma espécie de dinossauro de pano…

Está muito bem filmado!

É curioso como são cíclicos estes movimentos de permanente reciclagem do cinema de aventura, sobretudo nos lançamentos de Natal, previsíveis ao ritmo de relógios: O ano passado tivemos Batman – O Cavaleiro das Trevas; em 2007 foi a vez de Spider-man 3; em 2006  tivemos Piratas das Caraíbas – O Cofre do Morto e em 2005, no ano em que escrevi aquela crónica no 24horas, Peter Jackson apresentou a sua versão de King Kong. Este ano já ressuscitaram Star Trek, os Transformers, Harry Potter, o Exterminador e eu sei lá que mais!…

E a pergunta é esta: Isto significa que a memória das pessoas é curta ou, pelo contrário, é duradoura? Não tenho a certeza da resposta, mas lá que as produtoras de Hollywood sabem usar em seu proveito os mistérios da memória colectiva, ai lá isso sabem.

A absurda imaginação humana

Já conheci na vida grandes macacões. O maior foi o King Kong, a moda cinematográfica deste Natal. O que mais impressiona no King Kong não é a sua gigantesca dimensão, a sua força brutal ou a extraordinária capacidade de palitar os dentes com aviões biplanos. O que mais impressiona em King Kong é o facto de, fora de qualquer dúvida, ele representar o maior totó da história do planeta Terra. Vamos lá ver: apesar daquele corpanzil todo, o bicho deixou-se raptar. Acabou por ser transformado em animal de circo, ainda por cima sem receber um salário. Ainda assim conseguiu apaixonar-se perdidamente por um membro da espécie humana, raça que tantos maus tratos lhe infligia. Se isto não é de totó, não sei o que será.

Aliás, nunca percebi qual era a finalidade da paixão do gorila de oito metros e meio de altura. Ao agarrar na moça com uma mão para levá-la ao topo do Empire State Building, que objectivo tinha King Kong? Uma vida de casal numa penthouse de luxo? Não se estava mesmo a ver que o arrendamento do apartamento estava fora do alcance de um nativo do Terceiro Mundo? Já nem quero falar de outra questão: a funcionalidade desse amor estava obviamente comprometida, dada a diferença de estatura entre os amantes... A moça acabaria por trocá-lo por outro, estava-se mesmo a ver!

Sim, toda a história de King Kong é um absurdo. Isso não impede que o filme original, de 1933, tenha o estatuto de obra-prima da cultura norte-americana e esteja sob preservação no National Film Registry. Tiremos, portanto, duas conclusões. A primeira é que a imaginação humana pode seguir por vias ridículas e incongruentes, mas, surpreendentemente, ser capaz de nos maravilhar – e isto é apenas uma das coisas que fazem de nós seres especiais. A segunda conclusão é que, afinal, dos totós também reza a história.

in 24horas, 17 de DEzembro de 2005

A viola do dia


Não é viola. É guitarra portuguesa e, claro, Carlos Paredes a tocar "Verdes Anos".

AMANHÃ: Brasil Guitar Duo

O melhor jogo de futebol
de todos os tempos

E aqui fica (com uma imagem bera, mas é o que se pode arranjar)), o, para mim, melhor jogo de futebol de todos os tempos: Inglaterra 2 – Portugal 3. A explicação para isto, recordo, está na crónica que coloquei aqui e no vídeo que pus aqui.  O autor da montagem pode ser visitado aqui.

Uma correria infinita pelo deserto infinito

Ben Taher

Não sei o que Ben Taher, o autor desta fotografia que assim se identifica no Flicr, pensa do filme Lawrence da Arábia. Ele é libanês, conhece o deserto e tem um contacto relativamente frequente com as tribos tuaregues. Talvez, por isso, ache o clássico cinematográfico do inglês David Lean uma mera visão folclórica e colonialista da cultura e modo de vida desta gente. Ou talvez não. O que tenho a certeza é que este fotógrafo amador encheria as medidas de Lean (ou deixá-lo-ia a roer-se de inveja) pois, tal como ele, manufactura o pó, a luz, as linhas da areia, o horizonte, o sol, os cavalos e as pessoas para nos atirar à cara uma esmagadora emoção estética. Veja mais neste endereço. O nome desta fotografia é “The Hooves of the Horses”.