Há aqui qualquer coisa que nos separa

 Sator Arepo

Rafael Elias apresenta-se no Flicr como Sator Arepo (clique no nome para o visitar). Nasceu em Barcelona e vive em Lérida. O título que ele deu a esta fotografia pode traduzir-se desta forma: “Um caso sério de distância”. E, de facto,  é. Pelo menos entre estes dois passageiros do metro de Budapeste, Hungria. E entre eles e o fotógrafo catalão que os registou. E entre todos eles e o cartaz que, por cima das suas cabeças, traz uma referência a um mito da história da fotografia: Robert Capa.

O meu poder de jornalista

A experiência de decidir quais são os 10 melhores filmes de todos os tempos é muito engraçada, como podem verificar mais à frente pelo relato do jornalista Hugo Soares acerca das angústias do júri convidado pelo 24horas a tentar o feito. 

Um livro de divulgação do cinema que adorei em miúdo foi escrito por Luís de Pina e tinha lá um ranking deste tipo. Já não me recordo o método seguido, mas creio que a eleição tinha sido feita na América e era dada como muito credível. O primeiro lugar foi conseguido por “E Tudo o Vento Levou”. Hoje, passados uns 35 anos, só um dos elementos do nosso júri o referiu como um filme elegível entre os 10 melhores e apenas em terceiro lugar. O segundo lugar era “O Couraçado Potemkin”, do russo Sergei Eisenstein. Este já nem aparece, embora Miguel Portas ainda cite, do mesmo cineasta, “Ivan, o Terrível”. “Casablanca”, é claro, estava no livro de Pina. No ranking do 24horas houve apenas uma pessoa que se lembrou dele. 

Quando decidimos fazer esta classificação desejei, mentalmente, que a vitória acabasse por ir para “Citizen Kane”, de Orson Wells. Queria vingar a injustiça cometida sobre o filme no tal livro do malogrado Luís de Pina, que o classificava, “apenas”, em quinto ou sexto lugar. E o júri do24horas, por magra vantagem e sem o saber, fez-me a vontade. Foi feita justiça e eu, prova-se, sou um tipo poderoso, capaz de reparar erros de décadas! 

É estranho que um filme que denuncia os males do jornalismo tenha sido tão decisivo para a minha vida. Bem, se calhar isso nada tem de estranho... Mas juro, juro mesmo: nunca comecei uma guerra internacional para conseguir vender mais jornais. 


in 24horas, 29 de Outubro de 2005

O problema da existência de Deus

A religião é um assunto que me embaraça. Em primeiro lugar acho que, das duas uma, ou Deus não existe ou se existe não quer saber de nós, o que vai dar ao mesmo no que diz respeito à necessidade de o adorarmos. Mas o meu embaraço é provocado por outra razão: pelas muitas pessoas que amo ou respeito e, genuinamente, têm fé. Há uma boa parte da personalidade delas que não entendo, que não atinjo, e isso cria um fosso e uma distância inultrapassáveis entre nós. É uma angústia.

Outro nível de embaraço é um terrível sentimento transmitido por muitos dos supostos católicos que me rodeiam: pura hipocrisia. Ou só são religiosos na hora de aflição, ou só são religiosos para tirarem vantagens do meio social onde se inserem ou, até, só são religiosos quando isso dá direito a farra, como casamentos e baptizados. Aqui o embaraço é provocado por isto: eu terei de admitir que esta minha apreciação pode ser absolutamente injusta, pois como não tenho fé não posso entender quaisquer manifestações de fé, ainda por cima heterodoxas. Fico, portanto, caladinho.

Mas nesta questão a hora da verdade é mesmo a hora da morte. E, nestes 42 anos de vida, já vi muito ateu, muito agnóstico, a fraquejar nos momentos finais e a receber os sacramentos religiosos como o mais devoto dos católicos. Eles levaram uma vida de costas voltadas para Deus, mas, no fim, encomendam-lhes a alma. Talvez, quando chegar a minha vez, acabe por fazer o mesmo. Acho que não mas... e se Ele existe? Ficará muito zangado comigo? Afinal eu até sou bom rapaz. E uma eternidade no inferno é uma carrada de tempo...


in 24horas, 22 de Outubro de 2005

Netbooks com Windows 7
têm menos autonomia


A notícia completa pode ser lida aqui. Em resumo: do Windows XP para o Windows 7 perde-se à volta de uma hora de autonomia nos netbooks se tivermos o wireless sempre ligado.

A vida de espião não é boa

Para quase todos nós vida de espião é vida de James Bond, com belas mulheres, assassinas e tudo. Ou seja, não existe. Espião deprimido e de espírito pardacento, ou se encontra nos livros de John le Carré, onde a aventura tem um peso na consciência, ou não nos desperta qualquer tipo de cumplicidade. 

Em Portugal desconfio que os espiões que temos passam a vida, das 9 às 5, de segunda a sexta, dentro de um escritório igual a muitos outros, a bocejar enquanto preenchem boletins do Euromilhões nos intervalos dos recortes de jornais que lentamente vão fazendo. Às vezes colam a jornalada em formulários A4, que guardam em pastas beges. Um dia, algum chefe de serviço, um director, talvez mesmo um ministro, lerá os relatórios daí saídos. O momento mais excitante do dia deve ser quando o tubo de cola se acaba e é preciso preencher um requerimento a solicitar a respectiva substituição. Mas isto sou eu a adivinhar, porque, juro, todos os cromos que se me apresentaram intitulando-se de “espiões” – normalmente uns fulanos a querer revelar pretensas e falsas informações bombásticas – foram arquivados no armário dos “malucos” que, de vez em quando, visitam os jornais. 

Imagino, portanto, o estado de perplexidade da senhora Anne Wright ao perceber, ao fim de 30 anos, que o seu inquilino das águas-furtadas, introspectivo e engelhado, tinha sido um garboso espião do tempo da guerra contra Hitler! A história está hoje contada nesta revista, umas páginas adiante. E parece a base para um livro de John le Carré. Eu, depois de a ler, comecei a revisitar a memória, não vá algum daqueles malucos que se cruzaram comigo, afinal, estar a falar verdade. 

in 24horas, 15 de Outubro de 2005

Como se foge da advocacia

Tinha eu uns 14 anos quando a minha mãe, preocupada, decidiu mandar-me fazer aquilo que na altura chamávamos de “psicoteste”. A finalidade era perceber se, afinal, eu era estúpido que nem um calhau ou se ainda havia esperança e existia alguma faísca dentro deste obscuro cérebro que iluminasse o meu futuro profissional.

Após dois dias de preenchimento de testes de cruzinhas e de respostas a coisas tão idiotas como “Quem escreveu os ‘Lusíadas’ não foi Luís de Camões mas sim outro poeta com o mesmo nome. Quem escreveu os ‘Lusíadas’?”, chegaram à conclusão que eu era capaz de apertar os atacadores dos sapatos sem entalar os dedos. “Portanto”, disse-me uma senhora gorda com óculos na ponta do nariz e um diploma emoldurado na parede do gabinete, “você vai ser advogado”. Inscrevi-me num curso de electrotecnia para ser engenheiro, chumbei, e acabei um pobre e modesto jornalista.

O que tornou impossível a minha adesão à advocacia foi a prosápia. Eles falam, falam, horas e horas e, de facto, não dizem nada. Pronunciam frases gongóricas com ar sério, representam tragédias gregas num palco onde se decide o destino dos coitados, dramatizam intensamente argumentos de vida e de morte para, assim que o espectáculo acaba, se comportarem como se tivessem acabado de discutir o futebol do fim-de-semana num grupo de amigos. É uma esquizofrenia que eu não aguentaria. Por outro lado, confesso, não me estava a ver vestido de toga. Fui um pateta? Sim. Mas ser pateta é coisa que não me tira o sono.


in 24horas, 8 de Outubro de 2005

A viola do dia



Jimmy Wahlsteen toca aqui com um grupo de sopros sueco. O tema faz parte do seu primeiro álbum, "181st Songs", disponível em http://www.candyrat.com/, no amazon.com e no itunes. O site dele é http://www.myspace.com/jimmywahlsteen

AMANHÃ: Peter Horton

Nus a favor da aluna da minissaia


Em apoio à aluna Geisy Arruda, da universidade Uniban, que foi expulsa da faculdade por usar minissaia e apupada por centenas de colegas aos gritos de "puta! puta!", dezenas de alunos de outra universidade brasileira, UnB, foram ontem para as aulas quase nus. Leia mais aqui

As roupas de bebé são um perigo

Como todos os homens, faço gala em odiar compras. Sempre que a minha mulher, de pistola em punho, me obriga a entrar numa loja de roupa, ponho umas trombas daqui até à China, critico os preços de tudo o que vejo, faço filosofia barata sobre a sociedade de consumo e, logo que a apanho distraída, raspo-me para uma loja de música ou informática, doidinho por gastar um dinheirão nas coisas de que gosto.

A única vez que eu e ela partilhámos o gosto pelas compras foi aquando do nascimento da nossa filha. Fazer compras para um bebé é mesmo um divertimento e passámos horas e horas juntos a remexer em prateleiras de expositores. E porquê? Simplesmente porque é tudo pequenino: os dedos entram nos sapatos, a cama cabe debaixo do braço, os casacos, os barretes, as calças, os macacos, os pijamas, até as fraldas... É muito enternecedor!

Sim, é verdade, o comércio aproveita-se desta tendência humana de adorar brincadeiras com bonecas, de se fascinar com o que é pequenino e de formas arredondadas, para tentar sacar-nos todos os euros que puder. Mas alguém é capaz de se revoltar contra isso? Acho que não. Cada um de nós não resiste, conforma-se, procura álibis morais para o despesismo ("queremos o melhor para o nosso filho, não é?") e vai até ao limite das suas capacidades financeiras para conseguir levar tudo para casa.

Se calhar, como tenho este problema de incompatibilidade nas compras com a minha mulher, o melhor era arranjarmos outro bebé para nos voltarmos a divertir juntos nas lojas...

in 24horas, 1 de Outubro de 2005

Celebração da vida

William Hoffman (ver aqui o site, espectacular) é um realizador de Nova Iorque que, a propósito de um livro de David Eagleman, "Sum.”, pôs no You Tube este video: uma sequência de piscadelas de olho a detalhes sensíveis do quotidiano.