Consegui o cromo mais difícil

Quando era miúdo e sonhava que um dia seria jornalista, fazia uma colecção, que não era de cromos da bola, como a dos meus amigos, mas podia ser: gravava mentalmente o estilo e a técnica dos jornalistas de que mais gostava – da TV, da rádio, da escrita – para, um dia, ser como eles. Para cada uma dessas vedetas ficava um retrato mental – o tal que podia muito bem ser um cromo coleccionável – que tanto podia ser a cara, como a voz, como uma frase memorável. 


Carlos Pinto Coelho fazia parte dessa minha colecção de cromos privada. Primeiro por causa da rádio e dos noticiários que ele comandava nas manhãs da, penso, Rádio Comercial. Aquilo era uma revelação: então o noticiário de rádio podia durar 10 minutos ou mais e ter depoimentos, reportagens, entrevistas, curtos debates, notícias sobre tudo? Então um noticiário de rádio não era, simplesmente, um senhor que se punha a ler durante uma data de tempo, com voz oficiosa e engravatada, coisas sem interesse algum? Pouco tempo depois gravo na memória outra revelação: Carlos Pinto Coelho era pivô de telejornal e... punha paixão em cada notícia. Foi tão marcante que deu “boneco” de Herman José, o que é consagração maior do que ganhar um Globo de Ouro. Já era eu jornalista e um dia vejo-o no “Acontece”. Pois, outra revelação: um programa de informação cultural que ao longo dos anos moldou este país – foi mais influente que muitos ministros da Cultura – apenas por ter um segredo: não ser chato. 


Tive sorte e um dia acabei por conhecer esse cromo. E calhou que, hoje, pudesse publicar fotografias suas (é o seu hobbi) tiradas em Nova Orleães, de locais que já não existem, antes do furacão Katrina, no dia em que a América declarou guerra ao Iraque. É um favor que ele me está a fazer, só para dar prazer aos leitores do 24horas. Estou, portanto, feliz que nem um cuco... E até me sinto mais crescidinho. 
in 24horas, 17 de Setembro de 2005

As origens de uma possível
guerra com o Irão

Eis uma visão pertinente do que está na origem da actual crise entre EUA, Europa e Irão


Google Wave e jornalismo vendido
por um prato de lentinhas

Repare-se que na apresentação do Google Wave (ler aqui) o anfitrião diz logo no início à plateia de programadores e, certamente, de jornalistas vindos de todo o mundo esperar que eles tivessem gostado do telemóvel Andróide - que tem um sistema operativo da Google - que lhes fora oferecido na véspera. Uma prenda de qualquer coisa como 500 euros, um preço baixito para fazer do Google Wave um sucesso, pelo menos na versão do que será escrito nas publicações ali representadas, é quase certo. O senhor, aliás, foi de imediato aplaudido na sala pelos, nota-se, já amestrados e agradecidos espectadores...

Infelizmente há cada vez mais jornalistas em todo o mundo a achar este tipo de prendas normal - e depois esperam que os cidadãos confiem nas coisas que publicam.

Estão a matar a minha profissão.

Bebés choram
em línguas diferentes

Os resultados de um estudo da Universidade de Wuerzburg, na Alemanha, dizem que os bebés captam o idioma materno ainda na barriga das mães e depois revelam esse mesmo idoma no choro, muito antes das primeiras palavras.

Este estudo, disponível na ScienceDirect gravou e analisou o choro de 60 recém-nascidos de origem francesa e alemã, tendo a equipa de cientistas concluiu que o choro dos bebés era diferente e tinha características da língua do país.

A apresentação
do Google Wave

Para quem tiver paciência (dura mais de uma hora) eis aqui uma parte da apresentação da, actualmente, maior aposta da Google



Não há traidores
nesta vidinha

Não acredito que alguém de boa índole ache que tenha, alguma vez, traído. Por exemplo, estou farto de encontrar homens casados, frequentemente enrolados com amantes de curta duração, como se fossem adolescentes de liceu, a proclamar aos quatro ventos a sua extraordinária e invulgar lealdade perante a família e os amigos, no emprego, ao partido, ao clube, eu sei lá. Vejo-os até a gabarem-se de ser essa a sua maior qualidade, mais do que a inteligência, a sensibilidade, os bíceps, ou outro disparate qualquer. E acho que eles acreditam mesmo que estão a dizer a verdade. 



A traição já não é pecado,  passou ao estatuto de necessidade básica: não se tem sucesso ou prazer na vida se, ao que parece, não se trair. E como vivemos numa sociedade de sucesso e prazer há, portanto, que trair. Um remoto pudor, no entanto, obriga-nos a encontrar um álibi para a traição. No amor esse álibi chama-se “carência”: o traidor está “carente” e, coitado, tem desculpa para ir dar umas cambalhotas proibidas. E a culpa até é do traído, pois ele é que não percebe que o traidor está “carente” e nada fez para o curar desse tenebroso mal. 



Na profissão e na política a traição tem outro álibi: “projecto”. Aqui o traidor dá uma cotovelada no colega porque o “projecto” precisa de nova “dinâmica” no qual o traído – obviamente um bom rapaz ou uma excelente moça – “não se enquadra”. Por isso, para o bem de todos no partido ou no emprego, para o bem do “projecto”, há que escorraçar esse grande companheiro ou aquela rapariga tão simpática, “com a dignidade possível”. O traidor está, portanto, a fazer um bem à sociedade. E, por isso, não há mesmo traidores nesta nossa vidinha. 
in 24horas, 10 de Setembro de 2005

As cidades de Afremov

Leonid Afremov nasceu em 1955. É um pintor da Bielorussia com uma técnica original, especializado em paisagens urbanas. É impressionante e pode ser visto aqui




Novo método
de simulação de som

Um novo modelo computacional, não linear, para simular sons promete trazer uma revolução para o cinema, televisão, rádio e indústria discográfica. Vem na New Scientist.

Gente a quem tenho de agradecer

Nem todas as pessoas estão emocionalmente preparadas para fazer coisas como esta: ir, semana a semana, como voluntário, ajudar crianças que sofrem de cancro. É preciso uma fibra especial.


Uma pessoa que eu conheço passou, há uns anos, por essa experiência. Com o tempo, aquilo que era feito com generosidade a favor dos outros passou, gradualmente, a um egoísmo dos outros contra si própria: um denso medo de desiludir mandava mais que o básico instinto de sobrevivência. Foi devastador e ia arruinando a sua personalidade: a sucessão de mortes e de dor transformou-se num calvário permanente, à beira do insuportável, no limiar, desconfio, da tentação da própria morte. Teve de parar e demorou muito tempo a recuperar da desilusão de si própria que esta falência dos sentimentos lhe provocou... 


Eu, que me considero um “tipo duro”, que tenho uma profissão que me obriga a ser “duro”, que treinei ao longo dos anos essa “dureza”, nunca tive a oportunidade nem, sobretudo, a vontade de me colocar na situação daquela pessoa. E, francamente, desconfio que não aguentaria. Tenho medo. 


Felizmente há gente que enfrenta este tipo de relacionamento com doentes terminais – mesmo crianças – com uma solidez que nos reconforta. E mais admiráveis são quando, sendo famosos, o fazem fugindo à publicidade fácil que isso lhes podia proporcionar. Merecem, como seres humanos, toda a nossa admiração. Eu, daqui, quero agradecer-lhes por fazerem, por mim, aquilo que eu não sou capaz de fazer pelos outros. 
in 24horas, 3 de Setembro de 2005

O que exijo a Herman José

 Herman José faz parte da minha vida. Só estive com ele pessoalmente uma vez – o que foi uma grande excitação – e falámos apenas uma vez ao telefone, quando ele decidiu deixar de escrever no 24horas – o que foi uma pena. Mas, mesmo com tão insípida convivência, ele faz parte da minha vida.

Não faço a mínima ideia se ele é boa ou má pessoa, se é sensível ou duro, se é generoso ou egoísta, se transparente ou perverso, se gosta de ler livros policiais ou de ver filmes românticos, se é do Benfica ou do Sporting, se gosta de si próprio ou se se detesta. Para ser honesto, eu não sei nada sobre Herman José. Mas ele faz parte da minha vida.


Conheço aquilo que ele próprio deixa transparecer de si na televisão e nos jornais, o que, posso garantir pela experiência que tenho destas coisas, é no mínimo enganador. Portanto, eu nada sei sobre Herman José e o pouco que sei deve estar errado. Mesmo assim, ele faz parte da minha vida.


Tenho uma única absoluta certeza acerca de Herman José: ele é genial. Como passa pela minha vida a mostrar esse génio há mais de 20 anos, transformou-se num ídolo. E isto de ser-se ídolo de jornalista – o profissional do cinismo – é qualquer coisa de verdadeiramente homérica: é ter de realizar todos os dias os 12 trabalhos de Hércules e no final levar uma reprimenda por não se ter feito a coisa mais depressa, ou com maior elegância, ou com uma perna às costas.


Eu não imaginava a minha vida sem que por ela passasse Herman José. Dele exijo sempre mais. Quero que ele volte ao trono absoluto do humor. Já! Senão, a minha vida é um inferno! Senão, eu fico mais pobre.
in 24horas, 9 de Julho de 2005


O mundo fantástico
de Mattijn Franssen

Este holandês é um artista polivalente que faz fotomontagens. Mistura fotografia, pintura a óleo, colagens e ilustrações. Também é músico. O ambiente geral é um bocadinho "Senhor dos Anéis", mas não deixa de ser tecnicamente espantoso. Veja aqui, na sua homepage, ou uma galeria no flickr.