Não há traidores
nesta vidinha

Não acredito que alguém de boa índole ache que tenha, alguma vez, traído. Por exemplo, estou farto de encontrar homens casados, frequentemente enrolados com amantes de curta duração, como se fossem adolescentes de liceu, a proclamar aos quatro ventos a sua extraordinária e invulgar lealdade perante a família e os amigos, no emprego, ao partido, ao clube, eu sei lá. Vejo-os até a gabarem-se de ser essa a sua maior qualidade, mais do que a inteligência, a sensibilidade, os bíceps, ou outro disparate qualquer. E acho que eles acreditam mesmo que estão a dizer a verdade. 



A traição já não é pecado,  passou ao estatuto de necessidade básica: não se tem sucesso ou prazer na vida se, ao que parece, não se trair. E como vivemos numa sociedade de sucesso e prazer há, portanto, que trair. Um remoto pudor, no entanto, obriga-nos a encontrar um álibi para a traição. No amor esse álibi chama-se “carência”: o traidor está “carente” e, coitado, tem desculpa para ir dar umas cambalhotas proibidas. E a culpa até é do traído, pois ele é que não percebe que o traidor está “carente” e nada fez para o curar desse tenebroso mal. 



Na profissão e na política a traição tem outro álibi: “projecto”. Aqui o traidor dá uma cotovelada no colega porque o “projecto” precisa de nova “dinâmica” no qual o traído – obviamente um bom rapaz ou uma excelente moça – “não se enquadra”. Por isso, para o bem de todos no partido ou no emprego, para o bem do “projecto”, há que escorraçar esse grande companheiro ou aquela rapariga tão simpática, “com a dignidade possível”. O traidor está, portanto, a fazer um bem à sociedade. E, por isso, não há mesmo traidores nesta nossa vidinha. 
in 24horas, 10 de Setembro de 2005

As cidades de Afremov

Leonid Afremov nasceu em 1955. É um pintor da Bielorussia com uma técnica original, especializado em paisagens urbanas. É impressionante e pode ser visto aqui




Novo método
de simulação de som

Um novo modelo computacional, não linear, para simular sons promete trazer uma revolução para o cinema, televisão, rádio e indústria discográfica. Vem na New Scientist.

Gente a quem tenho de agradecer

Nem todas as pessoas estão emocionalmente preparadas para fazer coisas como esta: ir, semana a semana, como voluntário, ajudar crianças que sofrem de cancro. É preciso uma fibra especial.


Uma pessoa que eu conheço passou, há uns anos, por essa experiência. Com o tempo, aquilo que era feito com generosidade a favor dos outros passou, gradualmente, a um egoísmo dos outros contra si própria: um denso medo de desiludir mandava mais que o básico instinto de sobrevivência. Foi devastador e ia arruinando a sua personalidade: a sucessão de mortes e de dor transformou-se num calvário permanente, à beira do insuportável, no limiar, desconfio, da tentação da própria morte. Teve de parar e demorou muito tempo a recuperar da desilusão de si própria que esta falência dos sentimentos lhe provocou... 


Eu, que me considero um “tipo duro”, que tenho uma profissão que me obriga a ser “duro”, que treinei ao longo dos anos essa “dureza”, nunca tive a oportunidade nem, sobretudo, a vontade de me colocar na situação daquela pessoa. E, francamente, desconfio que não aguentaria. Tenho medo. 


Felizmente há gente que enfrenta este tipo de relacionamento com doentes terminais – mesmo crianças – com uma solidez que nos reconforta. E mais admiráveis são quando, sendo famosos, o fazem fugindo à publicidade fácil que isso lhes podia proporcionar. Merecem, como seres humanos, toda a nossa admiração. Eu, daqui, quero agradecer-lhes por fazerem, por mim, aquilo que eu não sou capaz de fazer pelos outros. 
in 24horas, 3 de Setembro de 2005

O que exijo a Herman José

 Herman José faz parte da minha vida. Só estive com ele pessoalmente uma vez – o que foi uma grande excitação – e falámos apenas uma vez ao telefone, quando ele decidiu deixar de escrever no 24horas – o que foi uma pena. Mas, mesmo com tão insípida convivência, ele faz parte da minha vida.

Não faço a mínima ideia se ele é boa ou má pessoa, se é sensível ou duro, se é generoso ou egoísta, se transparente ou perverso, se gosta de ler livros policiais ou de ver filmes românticos, se é do Benfica ou do Sporting, se gosta de si próprio ou se se detesta. Para ser honesto, eu não sei nada sobre Herman José. Mas ele faz parte da minha vida.


Conheço aquilo que ele próprio deixa transparecer de si na televisão e nos jornais, o que, posso garantir pela experiência que tenho destas coisas, é no mínimo enganador. Portanto, eu nada sei sobre Herman José e o pouco que sei deve estar errado. Mesmo assim, ele faz parte da minha vida.


Tenho uma única absoluta certeza acerca de Herman José: ele é genial. Como passa pela minha vida a mostrar esse génio há mais de 20 anos, transformou-se num ídolo. E isto de ser-se ídolo de jornalista – o profissional do cinismo – é qualquer coisa de verdadeiramente homérica: é ter de realizar todos os dias os 12 trabalhos de Hércules e no final levar uma reprimenda por não se ter feito a coisa mais depressa, ou com maior elegância, ou com uma perna às costas.


Eu não imaginava a minha vida sem que por ela passasse Herman José. Dele exijo sempre mais. Quero que ele volte ao trono absoluto do humor. Já! Senão, a minha vida é um inferno! Senão, eu fico mais pobre.
in 24horas, 9 de Julho de 2005


O mundo fantástico
de Mattijn Franssen

Este holandês é um artista polivalente que faz fotomontagens. Mistura fotografia, pintura a óleo, colagens e ilustrações. Também é músico. O ambiente geral é um bocadinho "Senhor dos Anéis", mas não deixa de ser tecnicamente espantoso. Veja aqui, na sua homepage, ou uma galeria no flickr.

A promoção do novo filme
de Michael Moore

Eis o trailer do novo filme de MIchael Moore chamado CAPITALISM: A LOVE STORY. É sobre o colapso financeiro mundial e o subsequente financiamento a grandes empresas que Moore apelida de "o maior roubo da história".


Desesperadas
por ficarem em casa

Nunca consegui interessar-me por uma rapariga que pensasse ser dona de casa. No meu tempo de adolescência e jovem adulto qualquer mulher que ambicionasse ser fada do lar era, no mínimo, imbecil. Como eu, que tinha a presunção de ser um tipo inteligente, juntava às minhas características pessoais a arrogância de não ter paciência para a estupidez, fugia a sete pés de todo o exemplar feminino que se dedicasse ao croché ou mesmo à moda de então: o suspeito mas equívoco (havia meninos a fazê-lo também) macramé. Portanto, a coisa marcou-me. 


Casei, portanto, com uma mulher inteligentíssima, o que teve inúmeras vantagens – entre elas a de poder discutir o reaccionarismo da “Metafísica do Amor” de Schopenhaeur – mas também alguns inconvenientes, entre os quais a de eu próprio ter passado muito mais tempo na cozinha do que alguma vez pensei na vida ou, numa altura de aperto financeiro, sem mulher-a-dias, ser obrigado a fazer da companhia do pano do pó um momento excitante das manhãs de domingo. 


De repente, de há uns anitos para cá, comecei a ver inúmeras mulheres com estatuto de inteligentes (com quem até se poderia discutir Karl Popper, que o Schopenhaeur, na galeria de reaccionários, já está fora de moda) a dizerem que querem regressar ao lar, cuidar das criancinhas, e viverem felizes para sempre, superprotegidas do mundo violento que anda lá fora.


Custa-me compreender esta mudança, num tempo onde a maioria das mulheres procura, em primeiro lugar, o êxito profissional. Mas a busca da felicidade é uma coisa muito pessoal. Sermos todos iguaizinhos, de resto, é que seria, mesmo, intolerável.
in 24horas, 23 de Julho de 2005

Ser conduzido é que é bom

Tenho muita prática de andar no lugar do morto. Não conduzo, pelo que conduzi toda a minha vida na base de que alguém tem de me conduzir. Nessa forma tão original de condução sou particularmente habilidoso, pois ao longo de 42 anos nunca tive um acidente ou fiquei sequer apeado. Como piloto de boleias sou, portanto, um verdadeiro ás. E não tenho que me preocupar com percursos, combustíveis, documentos, revisões, estacionamento, polícias, peões, automobilistas ou seguros. 


Na minha vida pessoal e profissional tive assim oportunidade de viajar em todo o tipo de carros, desde os antigos 2 cavalos aos mais fantásticos Porsche, desde os Fiat 600 às limusinas de Estado da Mercedes. Apesar de não ter sequer a carta de condução, como arranjei sempre maneira de me levarem tornei-me um especialista: conheço, na prática e com exactidão, as virtudes e defeitos de uma grande parte dos carros que por aí circulam e de muitos outros modelos que já deixaram de circular. 


E posso testemunhar que cada comportamento automóvel corresponde, em 90 e tal por cento dos casos, ao comportamento dos seus donos condutores: sim, é verdade que um carro “nervoso” geralmente tem um tipo de espírito agressivo, imaturo ou inseguro ao volante, e que um modelo confortável, “macio”, mesmo “ronceiro” tem alguém satisfeito com a vida a acariciar suavemente a alavanca das mudanças. Como serão os compradores portugueses do Porsche Carrera GT que custa mais de105 mil contos? Eu digo: são danados para a brincadeira. 


Deles, não quero mesmo ter boleias. Andar na Terra a 330 km/hora ou chegar dos 0 aos 100 em três segundos e picos não é coisa humanamente suportável... Livra! 
in 24horas, 27 de Agosto de 2005

Um robô dentro do carro

A revista New Scientist anuncia a chegada de um robô "humanizado" para os painéis de instrumentos dos automóveis


Quatro mãos numa única guitarra (II) - agora mais sexy

A coisa passou dos Estados Unidos para a Rússia... Aqui temos o grupo 4-tissimo, que é constituído por músicos russos, ucranianos e da Bielorussia, a tocar o Tico Tico no Fubá. Tal como o Duo Siqueira Lima, do Brasil, fez no espectáculo nos Estados Unidos que aqui mostrei, este quarteto também toca a quatro mãos, numa única guitarra, mas duplica o número de circo - ou seja, apresenta oito mãos em duas guitarras.

Talvez esta versão seja tecnicamente menos brilhante - embora bastante imaginativa - do que a que mostrei antes aqui, mas é muito mais sexy, graças aos meneios das belas raparigas.



Os músicos são: Dimitri Illarionov (Russia), Nadja Kossinskaja (Ucrânia), Yuliya Lonskaya (Bielorussia)  e Oksana Shelyazhenko (Ucrânia). O site do grupo´pode ser visto aqui