Apanhámos um bando de vigaristas

Fomos tentar saber quem são os 10 escritores portugueses vivos que venderam mais livros durante o ano de 2004. Primeiro batemos à porta da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, que representa a esmagadora maioria dos patrões dos livros em Portugal. Disseram-nos que não sabiam responder-nos. Depois, apelámos às editoras, uma a uma. Pois, caro leitor, muitas tiveram a lata de nos dizer que não sabiam o que tinham vendido em 2004! Alguém, neste tempo de computadores, contabilistas e gestores de fato cinzento, acredita nesta maravilhosa resposta?


Também houve quem não fosse tão descarado e fugisse com o rabo à seringa, argumentando de outra maneira: “Mas que interesse tem saber quem vende mais ou menos?”, ou ainda “Compilar esses dados é uma trabalheira imensa...”. E houve quem, cinicamente, prometesse responder mais tarde para, a seguir, deixar de atender telefonemas.


Para que conste, aqui informo que as editoras Caminho, Oficina do Livro, Presença, Gradiva e Temas e Debates entregaram-nos esses dados. Todas as outras que contactámos arranjaram maneira de não o fazer. O que nos valeu foi a Fnac, que, em três tempos, nos deu as suas vendas na loja do Colombo – a maior livraria do País – e os próprios autores, que forneceram informações adicionais que a suas editoras recusaram dar.


Bem. Que posso eu pensar sobre isto? Vou fazer uma frase simples: as editoras que não nos responderam são dirigidas por um bando de vigaristas que, em nome da cultura, montou um negócio de fuga aos impostos. Há alguma outra hipótese para explicar este fenómeno?


in 24horas, 21 de Maio de 2005

Mata-me este medo das doenças

Faço o possível por não ir ao médico. Quando era miúdo e ia lá para uma visita de rotina saía sempre doente, com uma receita de comprimidos passada e uma lista infindável de exames e análises a fazer, o que era muito inconveniente para as minhas saudáveis tardes a jogar futebol com os amigos.

Assim que tive autonomia para isso deixei de ir ao médico. Em vinte e tal anos fui lá uma primeira vez por ter apanhado uma pneumonia, uma segunda vez para fazer um seguro de vida e uma terceira para ouvir conselhos sobre a maneira de deixar de fumar.

Da primeira vez curaram-me a doença à força de antibióticos mas ameaçaram- -me com a morte para breve caso eu não fizesse uma vida decente. Prossegui a vida indecente do costume e ainda cá ando. Da segunda vez chegaram à conclusão que a companhia de seguros perdia dinheiro se eu não arranjasse maneira de me transformar num tipo saudável. Preferi pagar um prémio mais caro. Da terceira vez encorajaram-me a deixar de fumar mas acharam que eu tinha poucas hipóteses de êxito. À traição, aproveitaram-se da minha fraqueza e enfiaram-me a vacina contra o tétano, o que não tinha nada a ver com o assunto. (A propósito: senhora doutora, não fumo há cinco meses!).

No fundo, como toda a gente, eu tenho é um medo louco de morrer e, como toda a gente, sempre que sei mais coisas sobre a minha saúde ou leio artigos como o ranking desta semana nesta revista onde vejo sintomas de doenças fatais que imagino logo ter, esse receio cresce até ao nível do pânico.

A ignorância é perigosa mas o saber mata de medo. Pelo menos para um mariquinhas como eu.
in 24horas, 30 de Abril de 2005

Isto não é só uma questão de sorte

Tenho uma filha de 15 anos que é a melhor filha do mundo: é bonita, inteligente, divertida, não dá problemas. É verdade que namora um tipo com 1,90m, o que é um bocado acima do recomendável, mas como eu acho que não devo abusar da sorte, trato de não me queixar e até sou simpático para ele.
Quando eu e a minha mulher decidimos fazer esta menina, eu já tinha cá na cabeça a ideia de não fazer outros filhos. Porquê? Por achar que não tinha condições de vida para dar a dois ou a três o que achava essencial e podia, apenas, dar a um.

Sim, é verdade, sou um ignorante

Não me quero armar em carapau de corrida (há anos que me apetecia escrever esta expressão nos jornais), mas a peça nesta revista sobre hobbies dos ministros proporcionou-me uma curiosa reflexão (esta, então, queria mesmo escrevê-la há décadas...).

A extraordinária rapariga esotérica

Numa fase do liceu fiz parte de um grupo de 20 ou 30 adolescentes que saíam juntos para todo o lado. A maioria eram raparigas. Pertenciam a uma tribo que nós, os machões atrevidotes, designávamos por “freaks-betas”. O que eram as “freak-betas”? Poderei descrever desta forma: apesar de usarem saias indianas compridas a esconder o corpo, apesar de preferirem botas caneleiras a sapatos de cabedal, apesar de se matarem por um lenço palestiniano e ignorarem olimpicamente qualquer pedaço de seda Chanel... eram lindas de morrer!

Este texto é um bocado piegas

Sim, é verdade, eu tenho mesmo um feitio um bocado piegas e é com lágrima ao canto do olho que estou a escrever estas notas. O que se passa é que ao fim de dois anos de direcção do jornal 24horas conseguimos hoje dar um grande salto e apresentar ao leitor um novo e aliciante formato para levar até si a nossa maneira de ver o jornalismo.

Anedota

Começo a achar que este Governo ainda pode vir a ter tanta piada como o anterior. O primeiro-ministro mandou os seus homens andarem calados. Ontem, Freitas do Amaral, apanhado pelos jornalistas após uma reunião em Bruxelas, viu-se na situação de, pela lei do bom senso, dever dizer alguma coisa à imprensa mas, pela tal lei da rolha, dever manter-se caladinho. Vai daí, para resolver o assunto, lança um bombástico: “mais logo falo em off”, que é como quem diz, “conto-vos tudo mas não digam que fui eu o bufo”. Lindo!
in 24horas, 17 de Março de 2005

Teresa

A história de Teresa Machado, a única atleta portuguesa que chegou a uma final de Jogos Olímpicos no lançamento do disco, é inacreditável e mostra bem a miséria de país que somos. Para ganhar a vida ela trabalha como mulher a dias, o que não tem mal nenhum, mas os cortes financeiros nos clubes - que morrem às mãos do futebol - e nos apoios do Estado - agonizante pelos excessos no défice - fazem dos treinos e das competições de Teresa verdadeiras odisseias. Tratamos mal o que temos de melhor. É criminoso.
in 24horas, 16 de Março de 2005

Paciência

Desta vez Eduardo Cintra Torres, cronista do “Público” (jornal que é o mais directo concorrente do 24horas), estudou as nossas capas sobre Santana Lopes. Escreve mais de 7.500 caracteres e, no meio da poeira de muitas palavras inúteis, conclui: de Setembro a Dezembro houve três manchetes – três – do 24horas que, lidas com muuuuuita atenção, foram, em relação a Santana, favoráveis (ó traição!, ó pecado!, ó perdição do jornalismo!, ) ou, no mínimo, neutras (ó blasfémia!, ó lesmas rastejantes da comunicação social!). “Santana é o mais pobre do Governo”; “Chefe de Gabinete de Santana promove negócio do marido” e “Santana tem de ser operado” são os títulos em causa. Releio as manchetes que denunciam a suposta cobardia do 24horas, leio as explicações para a teoria de Cintra Torres, fico perplexo e só posso concluir: o homem até estuda mas, afinal, é parvo!
E ele também adianta: o Tadeu é comunista, mal educado, arrogante, não tem pêlos no peito, mistifica o passado, está armado em herói, fez das manchetes sobre Santana um troféu e não devia ser director. Bem, fico sempre a ganhar, pois é preferível ter aqueles defeitos todos a, apenas, ser parvo e não perceber o que se lê. Tenhamos paciência.
in 24horas, 15 de Março de 2005

Que se lixe!

Santana Lopes vai para a Câmara de Lisboa, embora, como o homem é de imprevistos, só mesmo na segunda-feira será desfeito, de vez, este tabu. Ele não deveria tirar o lugar a Carmona mas tem direito a lá estar, por isso, paciência... E, pelos vistos, Santana já tem uma casa mas vai usar a residência oficial de presidente da Câmara. Também acho que ele não o deveria fazer, mas como tem todo o direito a lá estar, paciência... Conclusão? Santana está numa de usar tudo a que tenha direito e o resto... que se lixe!
in 24horas, 12 de Março de 2005

Mulheres

As socialistas queixam-se de Sócrates por não ter mais mulheres no Governo. Têm razão. Têm razão porque o PS agita há muitos anos a bandeira da paridade entre homens e mulheres. Agora, que chega ao Poder, o PS deita fora tal estandarte, o que objectivamente é uma traição, mesmo se não estivermos de acordo com esse ideal paritário. Sócrates explicou-se dizendo que na busca de um governo forte não encontrou mulheres adequadas. Procurou pouco ou não quer ter sexo fraco no tal governo forte?
in 24horas, 11 de Março de 2005