Silêncio

Sócrates tem com a imprensa uma relação complicada. Como todos os políticos, precisa um pouco dela. Mas desconfia... Aliás, pelos relatos que tive do que se passou ao longo da campanha eleitoral, fiquei a achar que ele, pura e simplesmente, nos odeia. Se o silêncio for política essencial do futuro Governo, ele vai durar pouco, tal como o Governo anterior, que morreu pela incontinência verbal. O Poder tem de comunicar para ser transparente. Se não for transparente, morre às mãos da desconfiança do povo. Mesmo com maiorias absolutas.
in 24horas, 9 de Março de 2005

O Tom

Eduardo Cintra Torres, cronista do jornal “Público” (que está a competir com o 24horas pelo terceiro lugar em vendas de diários), escreveu ontem que a pressão de Santana Lopes “conseguiu mudar o tom das manchetes” deste nosso jornal. Que quereria ele dizer? Afinal, qual é o “tom” das manchetes do 24horas? Crítico? Dramático? Irónico? Apelativo? Divertido? Emocionante? Eu não sei. Tento é que sejam todas verdadeiras, coisa que não sei se preocupa Cintra Torres, pois ao responder sobre este caso a uma jornalista do 24horas o melhor que conseguiu dizer foi: “Pergunte ao seu director!” e “Isso que está a fazer é eticamente reprovável” (porquê, senhor, porquê!?).


Conclusão: o cronista acusou o 24horas de fazer fretes a Santana Lopes, mas, confrontado com a sua própria afirmação, não foi capaz de dizer que ela era, de facto, verdadeira. Para que não restem dúvidas, publicamos, mais uma vez (já o fizeramos no dia seguinte às legislativas), todas as manchetes do 24horas com Santana Lopes. Convido o leitor a tirar as suas próprias conclusões.
Quanto a Cintra Torres, perdoem-me, mas tenho de endurecer o tom: ou é parvo – o que é pena – ou estuda pouco – o que é grave.
in 24horas, 8 de Março de 2005

Governo

Temos Governo. O essencial soube-se antes de tempo, pela imprensa: Freitas nos Estrangeiros, Vitorino fora do Executivo, António Costa de volta de Bruxelas, Alberto Costa na Justiça, etc. Soa pífio o “habituem-se!” de Vitorino sobre os novos tempos de sigilo para a comunicação social. Quanto aos receios do regresso da “tralha guterrista”, não sei se é tralha, mas metade dos novos ministros trabalhou nos governos desses tempos. Mas, também, alguém esperava mesmo outra coisa?
in 24horas, 5 de Março de 2005

Saúde

O centro de cirurgia cardiotorácica do Hospital da Universidade de Coimbra é do Estado. Não tem lista de espera, tem um elevado sucesso médico, dá lucro e até distribui prémios de produtividade aos funcionários. Aqui há dias soube-se que os resultados dos Hospitais S.A. são, com duas excepções, uma vergonha. Para quem defende uma maior privatização da Saúde isto é uma enorme machadada. Para quem defende que é preciso é ter gente competente, isto é uma vitória. Qual é a dúvida?
in 24horas, 4 de Março de 2005

Impostos


Um descuido, uma dificuldade, qualquer um tem. Mas ouvir um político explicar um atraso nas suas obrigações fiscais por isso acontecer também a muito cidadão honrado é tão insólito quanto se um padre dissesse que não vai à missa tal como muito católico convicto. Aconteceu com Ferreira Leite e agora com Santana Lopes. Ninguém lhes levaria a mal se, simplesmente, pedissem desculpa pelo lapso, dado que entretanto pagaram tudo, antes até de os jornais levantarem a questão. Mas eles preferem, sempre, tentar iludir-nos...
in 24horas, 28 de Janeiro de 2005. Foto de Inácio Rosa/Agência Lusa

Estudos

Há estudos que mais valia não se fazerem. Hoje damos conta de um alerta: atenção a essa coisa de andar descalço na relva ou na terra! Os parasitas podem atacar! Eu, por um lado, aturo parasitas há muitos anos e tenho sobrevivido (sim, é uma graça que nada tem a ver com o caso) e, por outro lado, vejo aos fins-de-semana milhares e milhares de miúdos e graúdos a brincar assim , pelos vistos de forma irresponsável, nos jardins e praias deste País. Acho que o perigo é muito pequeno para tanta felicidade. Deixem-nos sossegados.
in 24horas, 25 de Fevereiro de 2005

Alcunhas

Ao longo da vida tive várias alcunhas. Nenhuma durou muito tempo, talvez por não colarem muito bem à minha figura. Fui “Tadinho” por causa do meu apelido. Fui “Marteleda” já não sei porquê. Fui “O Velho” por andar no liceu de fato e gravata (que parvo!). E fui “Salsicha” por ser magrinho. A alcunha é para muita gente um anátema. Pois eu acho que é uma marca distintiva da nossa personalidade, uma forma de sublinhar a nossa individualidade. Portanto, façam favor, chamem-me nomes.
in 24horas, 24 de Fevereiro de 2005

Ele volta

Santana Lopes anunciou que não se candidata à presidência do PSD. Não é notícia. A notícia seria se ele, depois da tareia enorme que levou no domingo, ainda anunciasse que iria à luta. Era a notícia do suicídio do louco moribundo. Uma espécie de eutanásia sem assistência médica. Depois dos resultados eleitorais, Santana quis permitir-se uma pequena vingança e não se demitiu logo para deixar os seus adversários enervaditos. Agora, vai à inevitável travessia do deserto com, aposto, a certeza que voltará.
in 24horas, 23 de Fevereiro de 2005

Apelo

A história de amor, dedicação e esforço para melhorar a vida do agente Dinis, o homem morto com 24 balas a semana passada na Cova da Moura, é comovedora. Não sei porque sucessivos governos não tratam bem os polícias. Uns diziam que era a esquerda que tinha um complexo antiautoridade. Outros que os governos de direita são autistas às organizações sindicais destas forças. Não sei. Sei que é incrível andarmos todos descansados em relação ao assunto e eles, nas ruas, a morrerem por nós.
in 24horas, 22 de Fevereiro de 2005

Contas

O Presidente da República fez bem em convocar eleições. Santana Lopes teve a maior derrota eleitoral de todos os primeiros-ministros da democracia portuguesa. Foi bebé, foi incubadora, foi tudo. Portas, que achou que fez tudo bem, deve a esta hora maldizer um erro: ter aceite, depois da saída de Durão, fazer um Governo com Santana em vez de ter ido logo a eleições. José Sócrates deu ao PS aquilo que só Cavaco conseguira: uma maioria absoluta. O pânico é pensar que os socialistas a podem usar num forrobodó de mordomias distribuídas pelos camaradas. Mas, para já, ele tem o benefício da dúvida e um definitivo lugar na história, que nenhum líder do PS conseguiu, nem Mário Soares. Jerónimo de Sousa é um vencedor e deixa apardalados a esmagadora maioria dos comentadores que há pelo menos 20 anos anunciam a extinção do PCP. É o prémio da seriedade, das convicções e da escolha dos militantes do PCP. Francisco Louçã tem uma subida extraordinária e o Bloco, nas grandes zonas urbanas, está cada vez mais forte. O partido dos comentadores já é um pouco mais que uma moda elitista. Os 60% de votos à esquerda mostram uma coisa: mais do que os líderes, a economia e a justiça social voltaram a contar para ganhar eleições.
in 24horas, 21 de Fevereiro de 2005

Obrigado

O agente Dinis tinha como missão combater o crime numa zona onde há gente capaz de enfiar 24 balas no corpo de alguém. O agente Dinis aceitou fazer essa tarefa em troca, para aí, de uns 120 contos por mês. 
agente Dinis ia num carro para a zona onde há gente capaz de enfiar 24 balas no corpo de alguém. Levava uma pistola, um cassetete e um colega. Se quisesse ter um colete à prova de tiros, tinha de o comprar. Custa, para aí, uns 140 contos. 
agente Dinis visitava a terra nas folgas. Depois de escapar vivo a alguém que lhe podia enfiar 24 balas no corpo, ia matar-se a trabalhar no campo para ajudar a mãe, que recebe uma pensão de viuvez de, para aí, uns 20 contos por mês. 
agente Dinis, que enfrentava quem quisesse enfiar-lhe 24 balas no corpo, tinha fé no futuro. Queria casar, alargar a família, tomar conta de mais pessoas, apesar de já tomar conta de nós. Era tudo uma questão de arranjar mais uns, para aí, 50 ou 60 contos por mês. 
agente Dinis morreu com 24 balas no corpo. Podemos, simbolicamente, mostrar o nosso agradecimento. Ajudando um pouco aqueles que o seu coração queria amparar, como nos amparou a nós por causa da profissão. Se comprou este jornal, obrigado.
in 24horas, 18 de Fevereiro de 2005