in 24horas, 28 de Janeiro de 2005. Foto de Inácio Rosa/Agência Lusa
Impostos
Um descuido, uma dificuldade, qualquer um tem. Mas ouvir um político explicar um atraso nas suas obrigações fiscais por isso acontecer também a muito cidadão honrado é tão insólito quanto se um padre dissesse que não vai à missa tal como muito católico convicto. Aconteceu com Ferreira Leite e agora com Santana Lopes. Ninguém lhes levaria a mal se, simplesmente, pedissem desculpa pelo lapso, dado que entretanto pagaram tudo, antes até de os jornais levantarem a questão. Mas eles preferem, sempre, tentar iludir-nos...
Estudos
Há estudos que mais valia não se fazerem. Hoje damos conta de um alerta: atenção a essa coisa de andar descalço na relva ou na terra! Os parasitas podem atacar! Eu, por um lado, aturo parasitas há muitos anos e tenho sobrevivido (sim, é uma graça que nada tem a ver com o caso) e, por outro lado, vejo aos fins-de-semana milhares e milhares de miúdos e graúdos a brincar assim , pelos vistos de forma irresponsável, nos jardins e praias deste País. Acho que o perigo é muito pequeno para tanta felicidade. Deixem-nos sossegados.
in 24horas, 25 de Fevereiro de 2005
Alcunhas
Ao longo da vida tive várias alcunhas. Nenhuma durou muito tempo, talvez por não colarem muito bem à minha figura. Fui “Tadinho” por causa do meu apelido. Fui “Marteleda” já não sei porquê. Fui “O Velho” por andar no liceu de fato e gravata (que parvo!). E fui “Salsicha” por ser magrinho. A alcunha é para muita gente um anátema. Pois eu acho que é uma marca distintiva da nossa personalidade, uma forma de sublinhar a nossa individualidade. Portanto, façam favor, chamem-me nomes.
in 24horas, 24 de Fevereiro de 2005
Ele volta
Santana Lopes anunciou que não se candidata à presidência do PSD. Não é notícia. A notícia seria se ele, depois da tareia enorme que levou no domingo, ainda anunciasse que iria à luta. Era a notícia do suicídio do louco moribundo. Uma espécie de eutanásia sem assistência médica. Depois dos resultados eleitorais, Santana quis permitir-se uma pequena vingança e não se demitiu logo para deixar os seus adversários enervaditos. Agora, vai à inevitável travessia do deserto com, aposto, a certeza que voltará.
in 24horas, 23 de Fevereiro de 2005
Apelo
A história de amor, dedicação e esforço para melhorar a vida do agente Dinis, o homem morto com 24 balas a semana passada na Cova da Moura, é comovedora. Não sei porque sucessivos governos não tratam bem os polícias. Uns diziam que era a esquerda que tinha um complexo antiautoridade. Outros que os governos de direita são autistas às organizações sindicais destas forças. Não sei. Sei que é incrível andarmos todos descansados em relação ao assunto e eles, nas ruas, a morrerem por nós.
in 24horas, 22 de Fevereiro de 2005
Contas
O Presidente da República fez bem em convocar eleições. Santana Lopes teve a maior derrota eleitoral de todos os primeiros-ministros da democracia portuguesa. Foi bebé, foi incubadora, foi tudo. Portas, que achou que fez tudo bem, deve a esta hora maldizer um erro: ter aceite, depois da saída de Durão, fazer um Governo com Santana em vez de ter ido logo a eleições. José Sócrates deu ao PS aquilo que só Cavaco conseguira: uma maioria absoluta. O pânico é pensar que os socialistas a podem usar num forrobodó de mordomias distribuídas pelos camaradas. Mas, para já, ele tem o benefício da dúvida e um definitivo lugar na história, que nenhum líder do PS conseguiu, nem Mário Soares. Jerónimo de Sousa é um vencedor e deixa apardalados a esmagadora maioria dos comentadores que há pelo menos 20 anos anunciam a extinção do PCP. É o prémio da seriedade, das convicções e da escolha dos militantes do PCP. Francisco Louçã tem uma subida extraordinária e o Bloco, nas grandes zonas urbanas, está cada vez mais forte. O partido dos comentadores já é um pouco mais que uma moda elitista. Os 60% de votos à esquerda mostram uma coisa: mais do que os líderes, a economia e a justiça social voltaram a contar para ganhar eleições.
in 24horas, 21 de Fevereiro de 2005
Obrigado
O agente Dinis tinha como missão combater o crime numa zona onde há gente capaz de enfiar 24 balas no corpo de alguém. O agente Dinis aceitou fazer essa tarefa em troca, para aí, de uns 120 contos por mês.
O agente Dinis ia num carro para a zona onde há gente capaz de enfiar 24 balas no corpo de alguém. Levava uma pistola, um cassetete e um colega. Se quisesse ter um colete à prova de tiros, tinha de o comprar. Custa, para aí, uns 140 contos.
O agente Dinis visitava a terra nas folgas. Depois de escapar vivo a alguém que lhe podia enfiar 24 balas no corpo, ia matar-se a trabalhar no campo para ajudar a mãe, que recebe uma pensão de viuvez de, para aí, uns 20 contos por mês.
O agente Dinis, que enfrentava quem quisesse enfiar-lhe 24 balas no corpo, tinha fé no futuro. Queria casar, alargar a família, tomar conta de mais pessoas, apesar de já tomar conta de nós. Era tudo uma questão de arranjar mais uns, para aí, 50 ou 60 contos por mês.
O agente Dinis morreu com 24 balas no corpo. Podemos, simbolicamente, mostrar o nosso agradecimento. Ajudando um pouco aqueles que o seu coração queria amparar, como nos amparou a nós por causa da profissão. Se comprou este jornal, obrigado.
in 24horas, 18 de Fevereiro de 2005
Palavrões
Evitar que os nossos filhos digam palavrões e passem por mal-educados – que é a forma de passagem de atestado de incompetência a nós, pais – está cada vez mais difícil. Não me estou a queixar de o palavrão ser utilizado em programas de televisão populares, ou até em desenhos animados. Nem me lamento por nos transportes públicos e escolas ele fazer parte do vocabulário corrente. Queixo-me ao dar-me conta que já nem eu, pai, consigo evitar soltar uma série de palavrões cada vez que leio notícias da campanha eleitoral.
in 24horas, 17 de Fevereiro de 2005
A Seca
Ainda estamos em Fevereiro, note-se bem, e já os nossos governantes se conformam com a ausência da chuva para informar que, em breve, vai faltar água em casa de, pelo menos, 1 milhão de portugueses do Alentejo e Algarve. Não compreendo como um país que construiu o Alqueva pode estar à míngua de água naquela região. Então a obra não era para resolver essa questão? Não deveria já estar mais que pronto um sistema de aproveitamento do maior lago artificial da Europa? O que é que se passa?
in 24horas, 15 de Fevereiro de 2005
Campanha
Primeiro foram os boatos sobre a sexualidade de Sócrates e os namoros de Santana. Depois a falsa notícia de que Cavaco "apostava" no PS. Depois uma"cacha" de "o Independente", sobre uma investigação da PJ que envolveria Sócrates. E, afinal, o suposto exclusivo saiu em todos os jornais e até na agência Lusa, já com a posição do PS e tudo. E depois Souto Moura veio jurar que Sócrates não é suspeito de coisa alguma... pelo menos para já. Este jogo sujo para garantir o poder no dia 20 é um verdadeiro susto.
in 24horas, 12 de Fevereiro de 2005
Heróis
Fui totalmente contra o envio de forças da GNR para o Iraque. Com essa participação o nosso país passou a ser cúmplice de uma operação que só trouxe mais desgraça ao mundo. Mas nestes tempos de cinismo e falta de generosidade fiz questão de hoje, quando se noticia o regresso dos nossos últimos soldados, dedicar a capa deste jornal a quem se dispôs a correr risco de vida em nome de Portugal. Avisaram-me que, se calhar, o 24horas de hoje não ia vender bem. Não faz mal. É bom noticiar que ainda há verdadeiros heróis.
in 24horas, 11 de Fevereiro de 2005
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