Contas

O Presidente da República fez bem em convocar eleições. Santana Lopes teve a maior derrota eleitoral de todos os primeiros-ministros da democracia portuguesa. Foi bebé, foi incubadora, foi tudo. Portas, que achou que fez tudo bem, deve a esta hora maldizer um erro: ter aceite, depois da saída de Durão, fazer um Governo com Santana em vez de ter ido logo a eleições. José Sócrates deu ao PS aquilo que só Cavaco conseguira: uma maioria absoluta. O pânico é pensar que os socialistas a podem usar num forrobodó de mordomias distribuídas pelos camaradas. Mas, para já, ele tem o benefício da dúvida e um definitivo lugar na história, que nenhum líder do PS conseguiu, nem Mário Soares. Jerónimo de Sousa é um vencedor e deixa apardalados a esmagadora maioria dos comentadores que há pelo menos 20 anos anunciam a extinção do PCP. É o prémio da seriedade, das convicções e da escolha dos militantes do PCP. Francisco Louçã tem uma subida extraordinária e o Bloco, nas grandes zonas urbanas, está cada vez mais forte. O partido dos comentadores já é um pouco mais que uma moda elitista. Os 60% de votos à esquerda mostram uma coisa: mais do que os líderes, a economia e a justiça social voltaram a contar para ganhar eleições.
in 24horas, 21 de Fevereiro de 2005

Obrigado

O agente Dinis tinha como missão combater o crime numa zona onde há gente capaz de enfiar 24 balas no corpo de alguém. O agente Dinis aceitou fazer essa tarefa em troca, para aí, de uns 120 contos por mês. 
agente Dinis ia num carro para a zona onde há gente capaz de enfiar 24 balas no corpo de alguém. Levava uma pistola, um cassetete e um colega. Se quisesse ter um colete à prova de tiros, tinha de o comprar. Custa, para aí, uns 140 contos. 
agente Dinis visitava a terra nas folgas. Depois de escapar vivo a alguém que lhe podia enfiar 24 balas no corpo, ia matar-se a trabalhar no campo para ajudar a mãe, que recebe uma pensão de viuvez de, para aí, uns 20 contos por mês. 
agente Dinis, que enfrentava quem quisesse enfiar-lhe 24 balas no corpo, tinha fé no futuro. Queria casar, alargar a família, tomar conta de mais pessoas, apesar de já tomar conta de nós. Era tudo uma questão de arranjar mais uns, para aí, 50 ou 60 contos por mês. 
agente Dinis morreu com 24 balas no corpo. Podemos, simbolicamente, mostrar o nosso agradecimento. Ajudando um pouco aqueles que o seu coração queria amparar, como nos amparou a nós por causa da profissão. Se comprou este jornal, obrigado.
in 24horas, 18 de Fevereiro de 2005

Palavrões

Evitar que os nossos filhos digam palavrões e passem por mal-educados – que é a forma de passagem de atestado de incompetência a nós, pais – está cada vez mais difícil. Não me estou a queixar de o palavrão ser utilizado em programas de televisão populares, ou até em desenhos animados. Nem me lamento por nos transportes públicos e escolas ele fazer parte do vocabulário corrente. Queixo-me ao dar-me conta que já nem eu, pai, consigo evitar soltar uma série de palavrões cada vez que leio notícias da campanha eleitoral.
in 24horas, 17 de Fevereiro de 2005

A Seca

Ainda estamos em Fevereiro, note-se bem, e já os nossos governantes se conformam com a ausência da chuva para informar que, em breve, vai faltar água em casa de, pelo menos, 1 milhão de portugueses do Alentejo e Algarve. Não compreendo como um país que construiu o Alqueva pode estar à míngua de água naquela região. Então a obra não era para resolver essa questão? Não deveria já estar mais que pronto um sistema de aproveitamento do maior lago artificial da Europa? O que é que se passa?
in 24horas, 15 de Fevereiro de 2005

Campanha

Primeiro foram os boatos sobre a sexualidade de Sócrates e os namoros de Santana. Depois a falsa notícia de que Cavaco "apostava" no PS. Depois uma"cacha" de "o Independente", sobre uma investigação da PJ que envolveria Sócrates. E, afinal, o suposto exclusivo saiu em todos os jornais e até na agência Lusa, já com a posição do PS e tudo. E depois Souto Moura veio jurar que Sócrates não é suspeito de coisa alguma... pelo menos para já. Este jogo sujo para garantir o poder no dia 20 é um verdadeiro susto.
in 24horas, 12 de Fevereiro de 2005

Heróis

Fui totalmente contra o envio de forças da GNR para o Iraque. Com essa participação o nosso país passou a ser cúmplice de uma operação que só trouxe mais desgraça ao mundo. Mas nestes tempos de cinismo e falta de generosidade fiz questão de hoje, quando se noticia o regresso dos nossos últimos soldados, dedicar a capa deste jornal a quem se dispôs a correr risco de vida em nome de Portugal. Avisaram-me que, se calhar, o 24horas de hoje não ia vender bem. Não faz mal. É bom noticiar que ainda há verdadeiros heróis.
in 24horas, 11 de Fevereiro de 2005

Desastres

Provavelmente os líderes dos partidos e possíveis governantes deste país acham que têm boas razões para violar as regras mais elementares do Código da Estrada. E também é natural que quem provocou os acidentes de trânsito que mataram 1.188 pessoas o ano passado em Portugal achasse que tinha boas razões para conduzir de forma assassina. A segurança na estrada é um dos problemas mais graves deste país. O comportamento dos nossos políticos, neste aspecto, é pura e simplesmente imperdoável. 
In 24horas, 10 de Fevereiro de 2005

Árbitros

Pedro Proença um árbitro da Primeira Liga, bem classificado, diz que foi confrontado com umas escutas feitas pela Judiciária e verificou que alguns dirigentes do futebol tentaram tramá-lo na sua carreira. Por isso vai fazer queixa contra eles, associando-se assim ao Ministério Público no chamado processo “Apito Dourado”. Todos os domingos os árbitros são insultados por esses campos de futebol fora. Mas se calhar, no final deste “Apito Dourado”, vamos concluir que eles ainda são do melhor que o futebol tem...
in 24horas, 1 de Fevereiro de 2005

Serenidade

Passaram dois anos desde o dia em que Carlos Cruz foi preso, momento a partir do qual se desencadeou uma série de factos que abriram uma verdadeira crise na Justiça portuguesa. Há ainda muito por saber em relação a culpados e inocentes neste caso. Mas já repararam que desde que o processo se tornou público, desde que os jornalistas puderam assistir ao trabalho da Justiça em tribunal, sem defrontar segredos nem subterfúgios, anda tudo muito mais sereno? É que as coisas secretas são mesmo perigosas.
in 24horas, 31 de Janeiro de 2005

Bush

Em novo meti na cabeça que usar ceroulas era foleiro. Nunca corri o risco de testar o apetrecho até pelo medo de, sei lá, logo nesse dia ser o tal dia e ter, por qualquer razão, de despir as calças frente a uma rapariga. Lutei toda a vida bravamente contra Invernos de rigor superior sem nunca recorrer a esse artifício. Mas tenho a impressão que, com o frio que anda por aí, passarei mesmo a usar as ridículas ceroulas.Que remédio! A culpa é das mudanças climáticas, do protocolo de Quioto e, claro, do George W. Bush.
in 24horas, 26 de Janeiro de 2005