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A "notícia" do consultor

Aguardo publicação no jornal Diário Económico do seguinte exercício de direito de resposta, acerca de declarações do líder da empresa de consultores em comunicação, Cunha Vaz & Associados:
"António Cunha Vaz enganou os leitores do Diário Económico.
"Na edição de 29 de Agosto passado do Diário Económico, António Cunha Vaz declarou, numa entrevista intitulada "Há jornalistas dispostos a fazer favores a amigos", o seguinte: "Um tal Pedro Tadeu, que foi diretor do 24horas, já aceitou uma encomenda num processo que eu pus ao Manuel Maria Carrilho. Esse indivíduo foi testemunhar contra mim em tribunal".
"1 - Nunca depus, nunca fui chamado a depor nem, tanto quanto sei, alguma vez constei da lista de qualquer rol de testemunhas relativas a processos que envolvessem António Cunha Vaz e Manuel Maria Carrilho.

Uma ironia do destino...

Quando me demiti da direcção do 24horas, há um ano, recebi elogios públicos de apenas três pessoas: Ruben de Carvalho (é suspeito pela amizade que temos), Luís Delgado e Clara Pinto Correia.
Agora, após o fecho do jornal, recebi um elogio, totalmente inesperado, de Óscar Mascarenhas, antigo presidente do Conselho Deontológico e o melhor especialista nesta matéria que temos em Portugal.
É uma ironia receber este elogio, de onde não esperava, após tantas omissões pelo silêncio, de onde também não esperava.
Reproduzo o artigo do Óscar, que muito me sensibilizou, publicado no Jornal de Notícias a 5 de Julho passado com o título "O nome do palácio":
"O 'Público' e o 'Diário de Notícias' titularam algo como: «Primeira visita oficial do Presidente Cavaco Silva é ao Hospital da Estefânia.» O '24Horas' fez diferente: «Cavaco visita Hospital da Estefânia para pagar

Direito de Resposta:
Pedro Tadeu responde a Sousa Tavares

Miguel Sousa Tavares fez publicar ontem no Diário de Notícias um direito de resposta a um artigo meu, publicado neste jornal na passada terça-feira, sob o título "A má consciência de Sousa Tavares". Sobre esse direito de resposta, gostaria de prestar os seguintes esclarecimentos:
1 - A origem desta polémica está numa outra crónica publicada por mim em 2 de Março de 2010, intitulada "A vida privada segundo Francisco Assis" e que pode ser lida no site do DN (LINK). Aos leitores que tiverem paciência para isso, desafio-os a encontrarem nesse texto aquilo de que Sousa Tavares me acusa: que eu gostaria "de confirmar" (sic) salários de outros jornalistas através da divulgação pública das suas declarações de rendimentos. Sousa Tavares manipula e descontextualiza propositadamente essa crónica,

Direito de Resposta:
Sousa Tavares responde a Pedro Tadeu

"Na edição desse jornal de 13.04.10, o jornalista Pedro Tadeu publicou um texto intitulado "A má consciência de Sousa Tavares", em relação ao qual venho exercer o meu direito de resposta, nos termos legais e por o mesmo conter matéria falsa e injuriosa. Assim:
1 - Pedro Tadeu, na sua injustificável coluna no DN, publicou há tempos um texto defendendo a divulgação pública das declarações fiscais de todos os cidadãos, indiscriminadamente - argumentando, entre outras coisas, que assim poderia confirmar os casos de "directores de jornais com salários de dez ou quinze mil euros e cronistas ou comentadores de TV a receber neste universo de remunerações".
2 - Comentando esta posição, eu escrevi na revista GQ que ele era, obviamente, movido pela mais antiga doença portuguesa, que é a inveja. E, recordando a sua passagem como director pelo jornal 24 Horas, por ele transformado num pasquim especializado na devassa da vida alheia (sufocando qualquer resistência deontológica de alguns bons profissionais que lá trabalham), referi que este era o mesmo Tadeu que fizera

A má consciência de Sousa Tavares

Sousa Tavares vive em contradição moral. Numa revista para homens acusa-me do pecado mortal da inveja. Os 10 ou 15 mil euros que uns poucos jornalistas ganham seriam o tormento da minha alma até porque, supõe-se, eu não receberei isso (será, camarada Miguel? Será verdade que a economia de mercado, que tanto elogia, lhe paga mais do que a mim? Tem a certeza? Será que sim? Será que não?... Que ansiedade, camarada Miguel!).
Depois de apontar o dedo - "vede, plebeus, vede que ali vai um invejoso!" -, Sousa Tavares cai em tentação. No Expresso indigna-se com os rendimentos de António Mexia: "Que pateta não conseguiria lucros a gerir uma empresa que funciona em monopólio, vendendo um bem essencial como a electricidade?",

A denúncia de Henrique Granadeiro
no Parlamento

Aqui há uma semana Henrique Granadeiro disse, na Comissão de Ética parlamentar que discute uma tentativa governamental de controlo da comunicação social, ter sido obrigado a demitir-se da liderança da administração dos jornais que nessa altura pertenciam à Portugal Telecom. Afirmou ele que o Governo PSD lhe exigiu a cabeça de três directores: José Leite Pereira, ainda hoje director do Jornal de Notícias, Joaquim Vieira, director da entretanto extinta Grande Reportagem, e eu próprio, que nessa altura dirigia o jornal 24horas.

Acho oportuno, dado que o meu nome foi trazido à liça, recordar o que a 11 de Setembro de 2004 escrevi no 24horas, na sequência da demissão do seu administrador máximo: "Granadeiro é um homem da comunicação social. Entende a gestão deste tipo de empresas com base em duas ideias nucleares: liberdade e responsabilidade. Aqui tivemos, no 24horas, toda a liberdade. Aqui se exigiu a máxima responsabilidade. Parece simples mas, posso garantir, não é fácil. Nem muito vulgar. É encontrar alguém com visão de Estado sobre o papel da imprensa em democracia, disposto a pagar todos os preços para garantir a independência dos jornalistas mas sendo igualmente implacável perante obscuros interesses corporativos ou laxismos que, por vezes, minam a profissão. Para conjugar isto, nos dias de hoje, é preciso quase ser-se um herói."

Quero acrescentar, para que não haja qualquer equívoco, que a administração que se seguiu, liderada pelo jornalista Luís Delgado, nomeada pela Portugal Telecom no mesmo contexto político que vitimou Henrique Granadeiro, não só não me demitiu como foi outro caso exemplar: nunca tive da parte de Delgado uma reunião, uma crítica, uma análise, um telefonema, uma conversa de circunstância, uma mera interjeição de reprovação sobre quaisquer notícias publicadas pelos jornalistas do 24horas.

Essas duas administrações exigiram-me a prática do jornalismo e a recusa da traficância informativa. Se com Granadeiro me tinha saído a taluda da liberdade de imprensa, com Delgado dupliquei o prémio.

Para resistir aos ataques do poder político a imprensa precisa de várias coisas, desde estabilidade financeira a verdadeira diversificação de proprietários. Mas concluo também, por experiência própria, vivida, comprovada, que a imprensa necessita de ter à sua frente gente digna, firme e vertical. É preciso "quase ser-se um herói"… O problema é que hoje quase ninguém está para heroísmos.


in "Diário de Notícias", 16 de Março de 2010

Pedro Tadeu e o jornalismo geneticamente modificado

"O Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes, na TVI, foi silenciado há três meses. Talvez para celebrar a efeméride a jornalista anunciou nos últimos dias que se constituíra assistente no processo "Face Oculta". Disse que o fez para "auxiliar o Ministério Público na procura da verdade".

(...)

Para o jornalismo, que supostamente terá no ADN um cromossoma de garantia de total independência face aos poderes político, económico, judicial ou outros, esta posição de serventia face a uma das partes de um conflito jurídico é, embora não inédita, no mínimo bizarra e, em princípio, condenável. E não é por, neste caso, uma das partes desse conflito jurídico ser o representante do Estado que o problema da falta de independência jornalística fica sanado, pelo contrário. "

Pedro Tadeu assentou arraiais como comentador no DN. Teria importância nula, caso fosse mais um, mas não é assim. Foi director do famigerado 24Horas, apostando num jornalismo de "famosos, dinheiro e crime" e escreve agora como figura de referência jornalística, com ética de profissão para dar e vender, pelos vistos.

O que escreve na crónica de hoje, sobre o facto de a jornalista Manuela Moura Guedes ter optado por se constituir assistente no processo Face Oculta, destapa a ignorância e enviezamento profissional do antigo director do 24 Horas.

Ao escrever que o MP é um representante do Estado e uma das partes no processo penal, onde segundo o mesmo cronista, há um conflito jurídico, de partes e em que o MP é uma delas, mostra que sabe nada de nada do b+a=ba do assunto.

Ao escrever que "o jornalismo, supostamente terá no ADN um cromossoma de garantia de total independência face aos poderes político, económico, judicial ou outros," só denota que lhe falta esse cromossoma básico e de tal modo que nem o reconhece nos outros.

O que espanta no caso de Pedro Tadeu, é que haja pessoas assim a escrever em jornais. Ou que os dirijam. O que, aliás, pode ser menos grave, como se verifica em alguns casos.

in "Porta da Loja" em 12 de Janeiro de 2010

O apóstolo da verdade

Pedro Tadeu, o famoso antigo director do 24 Horas, de onde saiu sem dizer água vai e onde deixou um rasto de apóstolo de notícias sobre os "famosos, o dinheiro e o crime", sempre ao lado da "verdade, verdade, verdade", é agora cronista do jornal arregimentado ao governo que está, depois de afundar o jornal onde esteve.

A sua crónica sobre os fenómenos ocultos da Face Oculta, suscita leitura em tom de paródia: Pedro Tadeu ainda não explicou os motivos ocultos da sua defesa intransigente dos arguidos da Casa Pia...e que o levou a atacar o antigo PGR Souto Moura com uma raiva incontida de perseguição mediática ignóbil.

Um cheirinho da croniqueta:

"São ocultas as razões que levam os mais distintos magistrados, juristas, juízes e advogados da Nação a envolverem-se numa zaragata pública sempre que um político é investigado.

São ocultas as interpretações jurídicas que motivam um procurador e um juiz a acharem que ouviram um crime onde, garante agora Noronha de Nascimento, não haverá afinal nada que dê "sugestão de algum comportamento com valor para ser ponderado em dimensão de ilícito penal".

Continua aqui.

in "Porta da Loja", 6 de Janeiro de 2010

A Lei de Tadeu

Descobri esta bizarria neste site... Como é possível?!




O problema do tampo da sanita

Mandei uma rapariga fazer uma reportagem sobre os defeitos dos maridos portugueses e, pimba!, levei logo com a história do homem que não baixa o tampo da sanita, no caso o coitado do José Maria Tallon. Quando eu e a minha mulher começámos a namorar tínhamos uma amiga comum que fazia jogo duplo e me contava tudo – pensava eu – sobre o que a Catarina comentava a meu respeito. Pois apesar de ela achar que eu poderia vir a ser o pai dos filhos dela, indicava como um dos meus defeitos insuportáveis esse de não baixar o tampo da sanita.

Pior. Um dia lá tive de ir a casa da mãe da Catarina para ser apresentado como namorado oficial. Fui simpático, como me competia, não me atrapalhei muito com o previsível inquérito policial a que fui sujeito. Jantei lá e, ao fim da noite, pediram-me para ir à cozinha buscar qualquer coisa. Pouco antes de voltar a entrar na sala ouvi este diálogo: – Então mãe? Que achas dele? – Parece bom rapaz. Mas, de certeza, não fecha a tampa da sanita. Pronto, ficou-me o trauma e de vez em quando, durante anos, dei por mim a pensar: “Mas que obsessão têm as mulheres com esta questão da tampa da sanita? Qual é o drama? Será por razões estéticas? Será uma fobia? Porquê?”

Só ao fim de uns anos é que tive coragem para falar disto à minha mulher e a resposta dela foi exactamente igual à explicação que Sofia Ribeiro dá no caso de Tallon: “É que vocês, homens, esquecem-se que nós podemos precisar de utilizar a sanita a seguir a vocês, pelo que podiam facilitar-nos a vida e deixar o tampo para baixo”.

Conclusão? Como é óbvio, o problema não está no subir ou no baixar do tal tampo, coisa fácil que demora meio segundo. O problema está é que nem na casa-de-banho as mulheres admitem que nós, homens, deixemos de pensar nelas.

in 24horas, 24 de Junho de 2006

Alice Vieira mete-se na minha vida

A história mais encantadora que hoje publicamos nesta revista é contada na primeira pessoa e resulta da entrevista a Alice Vieira. Entre outras coisas boas que fez na vida, Alice Vieira ensinou a minha filha a ler. Não no sentido de ela aprender a juntar letras – isso foi a professora primária, claro – mas no sentido de a Joana ter descoberto com ela a excitação de explorar uma narrativa em livro.

Uma vez fui à festa do “Avante!” com a minha menina e lá, numa tenda que funcionava como livraria, estava José Saramago a dar autógrafos. A fila de fãs do prémio Nobel era imensa, o ar estava abafado, o calor era insuportável e a Joana, agarrada à minha mão, parecia estar prestes a cair para o lado, de cansaço. Resolvi sair para voltar mais tarde, com mais sossego, ver os escaparates. Mas a Joana, que teria na altura uns 6 ou 7 anos, de repente, começou a dar-me puxões à camisa e a gritar excitada: “Ó pai! Ó pai!, está ali a Alice Vieira!”. A escritora entrava na tenda para, por sua vez, iniciar também uma sessão de autógrafos. E já não consegui sair dali sem gramar com meia hora de fila indiana para recolher um rabisco e uma saudação da, na altura, escritora preferida da minha filha que, de resto, achou o prémio Nobel José Saramago – que prosseguia a sua odisseia de assinaturas ao lado da heroína dos miúdos – um velhote um bocado carrancudo.

Por estas e por outras, sempre que oiço falar em Alice Vieira, instintivamente, como os cães, fico logo de orelha espetada. E, antes de tudo o que tive de fazer para esta revista ir para as bancas, fui ler a entrevista que hoje publicamos. Diverti-me imenso e acho que ela deve ser uma mulher extraordinária. Não sei é se a Joana, se agora a visse, seria capaz de a reconhecer.

in 24horas, 17 de Junho de 2006

Os tempos antes do CD

Quando os Xutos & Pontapés já eram gente ainda não havia CD. Numa dada fase da minha vida andei a pôr discos em discotecas e festas. Ainda há bocadinho lembraram-me que numa dessas festas, por acaso um festival organizado na antiga FIL, um amigo meu alugou aos organizadores um leitor de discos compactos, o primeiro modelo comercializado em Portugal, da Philips. O “DJ” da festa era eu. Os promotores do evento (nessa altura não se usava esta expressão, mas agora seria assim que os designariam nos jornais) resolveram, na publicidade, anunciar o facto com relevância: o dito festival ia passar – passo a citar como se destacava no cartaz colocado à entrada – “música laser”!

Entre as 20 ou 30 gravações de discos compactos disponíveis no mercado nada havia, nessa altura, de Xutos & Pontapés, mas tínhamos, de facto, qualquer coisa a soar a “música laser”: Vangelis. Era música terrível, ainda por cima impossível de dançar, mas... era o que havia. Uns 15 anos depois desconfiei que António Guterres passou por esse “evento”, quando o vi na TV a subir a um palanque, aplaudido pela multidão, ao som dessa “música laser”.

Os Xutos & Pontapés nasceram, portanto, antes da época da “música laser”, venceram nela e vencem na época do mp3. O Vangelis, não. Qual é o segredo dos Xutos? Fácil, leiam por exemplo esta letra: “Se isto não te diz nada/Olha para a rapaziada/Vê a vida que o povo tem/Vê a vida que o povo tem/Vê a vida que o povo tem”. Pronto, é só ver a vida que o povo tem e, depois, escrever uma canção.

in 24horas, 27 de Maio de 2006

Como deixei de ser incomodado

Como não sou um tipo famoso nunca fui assediado por fãs. Mas é verdade que ao longo desta minha vidinha de jornalista recebi, de vez em quando, cartas ameaçadoras ou telefonemas incómodos. Os mais aborrecidos e insistentes ocorreram há cerca de três anos, quando o noticiário sobre o processo Casa Pia reflectia a recente prisão de Carlos Cruz: inúmeros SMS e até algumas chamadas de voz para o meu telemóvel informaram-me que havia alguém que achava que eu estava feito com os pedófilos, que eu tinha sido comprado pelos pedófilos, que eu próprio era pedófilo, que um dia esse alguém trataria, de forma sexual e violenta, de me mostrar o castigo que um pedófilo merece e, finalmente, que todos os que trabalhavam no 24horas eram (adivinhem lá...) pedófilos. Era um bocado chato e muita pedofilia para um telemóvel só.

Mas foi muito fácil resolver o problema. Não mudei de número nem dei o aparelho à minha secretária para ela passar a atender as chamadas: simplesmente desliguei-o. Ao fim de uns dias desistiram. Agora só o ligo quando preciso de fazer chamadas ou em alturas, raras, onde quem me interessa não me pode contactar de outra maneira.

Devo dizer que sou obrigado a agradecer aos senhores que tanto me insultaram, pois assim proporcionaram-me uma alteração de hábitos que melhorou substancialmente a qualidade da minha vida: todos os que me rodeiam já sabem que, no telemóvel, raramente me apanham e, por isso, a quantidade de vezes que me chateiam por razões tolas é mínima. Foi uma espécie de libertação de um escravo: agora quase só tenho conversas realmente úteis. Adeus stresse de jornalista, adeus boatos e tricas, adeus “não publique essa notícia!”, adeus choque tecnológico. Conclusão? O problema nestas sociedades da comunicação é mesmo o “blá blá” a mais.

in 24horas, 20 de Maio de 2006

Bronca com Jorge Lima Barreto

Não é só nas televisões que acontecem broncas monumentais. Um dia, há uns 20 anos, mandaram-me entrevistar um génio da teoria musical, Jorge Lima Barreto, e um génio da sensibilidade musical, o guitarrista Vítor Rua. Juntos formam um duo que é, “apenas”, uma referência mundial da música de vanguarda: o Telectu. Com Jorge Lima Barreto não se pode ter uma conversa simples e desapaixonada. O fulano é uma inteligência superior e cultiva o estatuto de provocador profissional. Virou-se para o ignorante jornalista e fuzilou-o com uma conversa enciclopédica sobre música minimal repetitiva, música mimética, música concreta, música funcional, música totalmente improvisada, música electro-acústica, nova música, eu sei lá!... Sei que era género musical a mais para a minha pequena camioneta cultural. E ainda tive de levar uma formação acelerada em temas como “performance”, “instalação artística”, “rock de vanguarda”, “tecno-pop”, “concerto multimédia” e não sei já quantas outras expressões da gíria vanguardista dos anos 80... que banho! Às tantas, ao fim de duas horas de aula, aproveitei um momento em que Lima Barreto precisou, finalmente, de respirar, e fugi para conversar uns minutos com Vítor Rua que, acho, estava com pena de mim. Fiz-lhe umas perguntas sobre uma guitarra estranha que ele estava a experimentar, um aparelho electrónico já não me lembro se com 8 ou 10 cordas simples, sem caixa, apenas com braço, como se fosse um longo pau.

Quando fui para a redacção escrever só tinha uma preocupação: reproduzir fielmente e com rigor todo o jargão complicado de Lima Barreto, batalha vencida a golpes de dicionários especializados e incursões arrojadas no arquivo do jornal. No fim, para amenizar, lá pus um texto pequeno sobre o novo instrumento do Vítor Rua. No dia seguinte recebi um telefonema. Era Lima Barreto. “Então, gostou da entrevista?”, perguntei. Do lado de lá a voz ironizava: “Estava óptima, estava até muito bem mas, francamente, ter posto o Vítor Rua agarrado ao bife é que não me parece coisa razoável...” Fui ver e... nem queria acreditar. A tal guitarra tinha um nome bastante simples: era um “stick” que em inglês significa também pau, vara, bengala, bastão, etc. Mas o que é que o Tadeu escreveu, pelo menos uma dezena de vezes, no meio da sua baralhação de termos e conceitos complicados? Nada mais, nada menos que Vítor Rua tocava “steak”, ou seja, e realmente, bife... E ainda perorava sobre os extraordinários sons que saíam do tal “bife”. Que vergonha!

in 24horas, 22 de Abril de 2006

O drama da falta de originalidade

Até há uns anos atrás odiava parecer banal. Estava mesmo convencido que se não misturasse sabiamente um certo ar de superioridade intelectual com uma dose apropriada de indiferença pelo mundo terreno corria o risco de passar por estúpido. Portanto, estúpida e banalmente, andava na vida a fingir uma originalidade bizarra, tal como todos os milhares de aspirantes a intelectuais que me rodeavam. O mais patético era a voz afectada e grave com que me dirigia ao mundo, uma distorção que só não arrasou de vez as minhas cordas vocais graças a toneladas de comprimidos Bradoral. Doía mas eu não desistia!

Uma manhã tive a sorte de estar no Louvre. Passei duas horas e meia numa fila até conseguir entrar e, claro, quando saí, no fim da tarde, ficou um mundo por ver. Não me modifiquei por causa disso, mantive-me o imbecil do costume e até tive a grandessíssima lata de comentar na roda de amigos ser o Louvre, em muitos aspectos, “uma desilusão” . Ser-se novo e arrogante é mesmo um perigo!

Mas, agora que sou um bocado velho e já não me importo com o que os outros pensam de mim, posso confessar que foi no Louvre que tive uma das maiores emoções estéticas de toda a minha vida. Foi no Louvre que percebi que uma obra-prima da arte visual se reconhece ao primeiro olhar, ao primeiro impacto, sem apelo nem agravo, sem que a procuremos: ela chama-nos, de longe e, simplesmente, não resistimos, embrenhamo-nos e, depois, deixamos cair uma lagrimita.

Mas como poderia eu confessar, palhaço diletante, ter sentido tudo isso no meio de uma overdose da história da pintura ocidental, cheia de frescos geniais, apenas por ter reparado num quadrito tão vulgar, tão trivial, tão pouco original como... a “Gioconda” de Da Vinci. Isto de ser-se humano é uma grande fatalidade!


in 24horas, 8 de Abril de 2006

Branquinho como a cal

Eu lido muito mal com as mentiras. O problema começa logo na pele branca que a natureza me deu. Esta tez pálida e um pouco adoentada com que me apresento ao mundo impossibilita qualquer veleidade de conseguir concretizar uma peta com êxito: a aceleração sanguínea, impossível de evitar, faz com que inevitavelmente eu core como um pimentão e pumba, fico logo denunciado. Mesmo as mentiras piedosas que todos nós, legitima e sensatamente, de vez em quando aplicamos, saem da minha voz e da minha expressão facial totalmente pífias.

Por exemplo, se uma amiga me pergunta a opinião acerca de um novo penteado eu respondo, clara e invariavelmente, mesmo sem pensar nem ver muito bem o aspecto da trunfa: “Está sensacional!”. Eu bem tento dar uma entoação convincente a esta diplomática exclamação aprovadora. Mas, infelizmente, quando reparo a seguir na experiência capilar, nove em cada 10 vezes (até porque detesto mudanças na cara das pessoas) lá me sobe o sangue às faces e a mentira fica denunciada. Um embaraço.

E se um amigo me apresenta uma nova namorada e depois, à socapa, pede a aprovação com um piscar de olho e um cúmplice “Então? Que é que dizes da Sandra?”, eu bem respondo ser a moça uma simpatia, ainda por cima giríssima, mas ele sai dali convencido que anda com um estafermo imbecil ou que está a cometer um dos sete pecados mortais e, por isso, vai ser condenado à eternidade no Inferno.

Por isso é que quando tomei posse como director do 24horas, decretei que nem no dia 1 de Abril este jornal e esta revista publicariam mentiras: é que nem a brincar, nesta matéria, eu tenho hipótese de me sair bem. Não acreditam? Olhem que eu escrevi isto tudo e, vi agora ali no espelho, mantenho-me branquinho como a cal...

in 24horas, 1 de Abril de 2006

Controlinveste cria agência
para fornecer fotos e vídeos

A Controlinveste anunciou às suas  publicações a criação de uma agência de imagens para fornecer fotografias e vídeos internamente e para outros órgãos como forma de cortar custos e criar novas receitas, disse à Lusa um dos directores.

"A nova agência de imagens vai fornecer, numa primeira fase, fotografias e vídeos ao grupo, e depois, também para o mercado externo", explicou Pedro Tadeu, que vai dirigir a nova unidade em conjunto com o fotógrafo Alfredo Cunha.

O objectivo, avançou, é "fazer economias de escala" dentro da Controlinveste e, ao mesmo tempo, "criar um novo negócio" cujas receitas estimadas não foram adiantadas pelo director.

A ideia de criar este novo negócio já cerca de um ano, já que já tinha sido mencionada num comunicado divulgado pelo conselho de redacção de O Jogo, em Janeiro deste ano, em reacção ao despedimento colectivo de 122 colaboradores do grupo, 11 dos quais fotógrafos.

De acordo com Pedro Tadeu, que deixou a direcção do 24 Horas em Junho passado para criar a agência, "todos os fotógrafos das várias redacções do grupo estarão integrados, somando mais de 20".

Fotógrafos serão responsáveis por fornecer grande parte fotografias que os jornais do grupo publicam todos os anos, tendo sido criado "um modelo de funcionamento que visa garantir a qualidade de cada título", adiantou.

Escusando-se a explicar o funcionamento da agência por se tratar "de uma coisa interna", Pedro Tadeu assegurou que o novo método não irá eliminar a exclusividade de imagens de cada jornal da Controlinveste, sendo a gestão de serviços combinada com as direcções das publicações.

O objectivo é também fornecer imagens para outros órgãos de comunicação social, mas isso só começará a acontecer quando "o fluxo interno de trabalho estiver a funcionar bem", referiu o director, apontando esta primeira fase para o primeiro trimestre de 2010.

Dirigido por Joaquim Oliveira, o grupo Controlinveste publica jornais como o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, o 24 Horas e O Jogo e revistas como a Volta ao Mundo e Evasões.
PMC.

in “Diário de Notícias” online, 30 de Novembro de 2009


Nota: Saí do 24horas em Agosto, não em Junho
P.T.

Os primeiros sons da minha filha

O dia em que me apercebi que a minha filha estava viva foi quando o médico pôs um aparelho na barriga da minha mulher para ouvirmos bater o coração do bebé. Era um barulho furioso, à velocidade única de quem corre (e nunca mais chega) à procura de ver a luz do sol, de respirar o ar, de beber água, de saborear comida, de sentir um beijo, de experimentar um colo. Tirando o dia do nascimento da Joana – o único da minha vida em que, juro, voei –, foi a maior emoção de todos estes 16 anos de experiência da paternidade, muito maior, por exemplo, do que a visualização da primeira ecografia, frustrante, pois durante largos minutos descodifiquei apenas borrões e borrões e borrões... 

Memorizei aquela batucada cardíaca para o resto da vida: é um dos sons mais impressionantes do universo. E desde esse dia sinto uma inveja apaixonada de todas as mulheres: esta capacidade de levar na barriga um ser vivo, de ajudá-lo a crescer, escondido e devagarinho, ao longo de nove meses, dá-lhes um poder de deusas e atribuilhes um mistério impossível de desvendar. Eu sei lá o que é essa coisa animal de ter um filho na barriga! Eu sei lá o que é isso de pô-lo cá fora! Eu sei lá, no fundo, o que é realmente a vida! E, mais angustiante ainda, por muitas vezes que faça filhos, por muitas conversas que tenha com mães, por muitos livros que leia, nunca terei hipótese de o saber! Nós, os homens, somos uns seres incompletos. 

Sou incapaz de passar por uma mulher grávida, qualquer uma, sem olhar directamente para aquelas barrigas majestosas, sem me enternecer um pouco, sem voltar a sentir o prazer de ouvir, na minha cabeça, os primeiros sons da minha filha. Bárbara Norton de Matos, linda como quase todas as grávidas, está na capa desta revista a recordar-me tudo. Obrigado. 
in 24horas, 18 de Março de 2006

Revelaram-me os factos da vida

meu pai morreu muito cedo por causa de um acidente automóvel e a minha mãe viu-se, de repente, sozinha com três filhos. Naquele tempo uma mulher como a minha mãe tirava um curso menor e inútil na escola, saía directamente de casa dos pais para casa do marido, não trabalhava e diziam-lhe que não devia trabalhar, tinha empregada em casa. Se enviuvasse, o melhor que poderia esperar era que a família a ajudasse. Aos 30 anos a minha mãe não foi nisso e, sem passado ou educação profissional, sem dinheiro, sem contactos, vendo-se numa situação aflitiva num mundo machista e paternalista, não se intimidou, partiu para a luta e venceu. 

Uma das preocupações da minha mãe foi sempre tentar dar aos filhos uma educação adequada aos tempos, longe da austeridade afectiva da sua infância e, apesar das dificuldades implícitas à necessidade de trabalhar de dia e estudar à noite, acompanhando-nos muito de perto e muito “em cima” do crescimento e das mudanças de idade, desde a infância até ao final da adolescência, passando por todas as fases intermédias ou, se quiserem, as diversas “idades do armário”. 

Um dos momentos mais bonitos que passei com a minha mãe foi quando, tinha eu uns 11 ou 12 anos, ela decidiu chamar-me para ter uma conversa séria. O assunto era “falar das coisas da vida”, algo que, em princípio, segundo explicava balbuciante, estaria a cargo do meu pai mas, dadas as circunstâncias, teria de ser ela a fazer. E assim comunicou- -me que afinal aquilo da cegonha trazer crianças era apenas uma fábula, que os meninos e as meninas eram diferentes por uma razão e por aí fora... Tudo terminou com a explicação do que era o preservativo e a pílula. Tenho a dizer que ouvi tudo com muita atenção e toda aquela informação dada assim de repente veio a ser muito útil, uma data de anos mais tarde. E tenho a declarar, para concluir esta história escrita quando já tenho uma filha quase adulta, que, para além de amor, quanto mais velho fico maior admiração sinto pela minha mãe. 
in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

É difícil andar bem vestido

 Por causa do senhor procurador-geral da República, doutor Souto Moura, tenho aparecido na televisão mais vezes do que gostaria. E, claro, fico sempre irritado com a figura ridícula que faço, com os (des)penteados com que apareço e as roupitas maçadoras que envergo. Resumindo: sou um triste. 

Aminha ideia de guarda-roupa ideal é esta: calças, camisa (camisola no Inverno), sapatos e casaco. Todo este equipamento deve ter uma qualidade única: a de me fazer passar despercebido. Se fosse eu a fazer as compras adquiria o mesmo conjunto de roupas sete vezes e ia mudando à medida das necessidades de lavagem. Por obrigação institucional, guardava no armário, no meio de bolas de naftalina, um conjunto engravatado ao qual me tentaria escapar sempre que possível. 

Infelizmente nunca me consegui organizar de forma a concretizar estes simples objectivos e a minha mulher tem feito tudo para sabotar esta operação. Ainda há bocado, tinha acabado de sair do meu gabinete um procurador que veio fazer uma busca à redacção do 24horas, tocou o meu telefone. Era lá de casa. Perguntaram-me se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Respondi que não, que ela estivesse descansada. Passado um bocado dei por mim a discutir o número de calças que visto, pois como deixei de fumar há um ano e engordei uns 10 quilos, a Catarina tinha dúvidas se o 38 ainda servia. Serve. E pronto, já sei que daqui a uns dias terei umas calcitas lá em casa para substituir as que tenho um bocado coçadas. Se não fosse ela, que compra o que lhe peço, eu não andava vestido como um triste. Andava mas era nu. 
in 24horas, 18 de Fevereiro de 2006