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Utilização do corpo na publicidade

Na publicidade o corpo feminino é explorado há centena e meia de anos, com maior ou menor despudor, para nos chamar a atenção e, dessa forma, queimar a primeira etapa do processo de sedução que nos acaba por convencer a comprar qualquer coisa. A maior caricatura da coisa são os clássicos anúncios de automóveis, em cima dos quais se deitam mulheres lindíssimas, seminuas. É uma técnica publicitária com barbas, que deve resultar imenso, pois resiste ao tempo e às modas, mas que ultrapassa a minha compreensão, pois não consigo vislumbrar no automóvel qualquer conotação sexual e não consigo ler na mulher deitada qualquer informação relevante.

Durante muito tempo ouvi mulheres a protestar por esse tipo de publicidade ser sexista, discriminatório e imoral. Tinham razão mas ninguém as levou a sério. O protesto não lhes valeu de nada e, de há 20 anos para cá, perdeu um bocado de sentido por também o corpo masculino ter começado a aparecer em preparos semelhantes. Ou seja, as femininistas tiverem uma vitória de Pirro.

Como sou director de jornal e pagam-me para escrever todos os dias, sou obrigado a ter teorias sobre tudo, mesmo que a maior parte delas seja, simplesmente, idiota. A minha teoria de hoje é que com o excesso de corpos seminus na publicidade e na comunicação social, o poder da sugestão sensual com fins comerciais vai, pura e simplesmente, desaparecer, pois acabaremos todos por ficar fartos...

Claro, é uma teoria parva e, por via das dúvidas, até pus na capa desta revista uma foto lindíssima da Mónica Sofia – uma das mulheres mais bonitas de Portugal – para ver se o convencia a si, seduzível leitor ou leitora, a comprar o 24horas. Pronto, pode chamar-me, também, grande hipócrita.


in 24horas, 1 de Julho de 2006

O problema do tampo da sanita

Mandei uma rapariga fazer uma reportagem sobre os defeitos dos maridos portugueses e, pimba!, levei logo com a história do homem que não baixa o tampo da sanita, no caso o coitado do José Maria Tallon. Quando eu e a minha mulher começámos a namorar tínhamos uma amiga comum que fazia jogo duplo e me contava tudo – pensava eu – sobre o que a Catarina comentava a meu respeito. Pois apesar de ela achar que eu poderia vir a ser o pai dos filhos dela, indicava como um dos meus defeitos insuportáveis esse de não baixar o tampo da sanita.

Pior. Um dia lá tive de ir a casa da mãe da Catarina para ser apresentado como namorado oficial. Fui simpático, como me competia, não me atrapalhei muito com o previsível inquérito policial a que fui sujeito. Jantei lá e, ao fim da noite, pediram-me para ir à cozinha buscar qualquer coisa. Pouco antes de voltar a entrar na sala ouvi este diálogo: – Então mãe? Que achas dele? – Parece bom rapaz. Mas, de certeza, não fecha a tampa da sanita. Pronto, ficou-me o trauma e de vez em quando, durante anos, dei por mim a pensar: “Mas que obsessão têm as mulheres com esta questão da tampa da sanita? Qual é o drama? Será por razões estéticas? Será uma fobia? Porquê?”

Só ao fim de uns anos é que tive coragem para falar disto à minha mulher e a resposta dela foi exactamente igual à explicação que Sofia Ribeiro dá no caso de Tallon: “É que vocês, homens, esquecem-se que nós podemos precisar de utilizar a sanita a seguir a vocês, pelo que podiam facilitar-nos a vida e deixar o tampo para baixo”.

Conclusão? Como é óbvio, o problema não está no subir ou no baixar do tal tampo, coisa fácil que demora meio segundo. O problema está é que nem na casa-de-banho as mulheres admitem que nós, homens, deixemos de pensar nelas.

in 24horas, 24 de Junho de 2006

O jogo que eu já não quero jogar

Estava a discutir o título para a capa desta revista quando me saí com uma frase pateta: “Bem, no trabalho eu também passo muitas horas por dia com raparigas e não me ponho por aí a apaixonar-me”. Uma das jornalistas presentes nessa reunião, sem me deixar tempo para respirar, atirou: “O Tadeu desculpe, mas o Tadeu é casado!...”. Portanto, a mim, no consenso generalizado das mulheres que me rodeiam, desde há 18 anos, desde o dia em que dei o nó, já não se aplica o estatuto de pessoa que pode apaixonar-se. Está proibido, acabou, finito... Eis qualquer coisa que me chocou.

Há 18 anos jurei fidelidade à minha mulher e o problema que se coloca é este: estando fora de causa um envolvimento sexual com alguém – por favor, não vamos por aí! –, será motivo para alegar infidelidade uma paixoneta platónica, um simples encantamento até legitimado pelo facto de à minha volta trabalharem várias mulheres inteligentes, bonitas e excelentes pessoas? Não poderia, no recato da minha consciência, no segredo dos meus pensamentos secretos, reservar algum tipo de sentimento romântico que, mesmo sem se manifestar exteriormente, me alimentasse os sonhos, o ego, a autoestima?

A coisa está moralmente resolvida por uma regra simples que tento seguir: “não faças aos outros o que não queres que façam a ti”. A minha opção, portanto, é nunca me apaixonar. Portanto, meninas, têm razão, para mim a excitação do jogo da conquista terminou, essa competição já não me serve, estou fora. Podem ver-me como um eunuco, que as alegrias do matrimónio são mais que muitas.

Então qual é o meu problema? É que aquela frase daquela jornalista, naquela reunião, no fundo, no fundo, lembrou-me que tenho saudades de jogar uma, só uma partidinha mais...

in 24horas, 13 de Maio de 2006

Tudo o que sei sobre divórcios

Estou casado vai para 18 anos mas, não fosse eu jornalista, é claro que tenho opiniões muito definitivas, inteligentes e inúteis acerca do divórcio. Vou dar três...

Em primeiro lugar, o divórcio não é um negócio de duas pessoas mas sim, no mínimo, do casal e mais uma: ou um amante, ou uma mãe, ou uma sogra, ou um amigo, ou um advogado, ou um agente imobiliário; há sempre alguém exterior que ajuda a desatar o nó do casamento. Duas pessoas sozinhas nunca o conseguem. Até Adão e Eva, condenados à eternidade no Paraíso, à falta de melhor procuraram a serpente para se libertarem da jura de fidelidade a Deus.

Em segundo lugar, o divórcio é mesmo uma morte, é mesmo o fim de uma vida e, tragicamente, há muita gente incapaz de renascer depois desse corte abrupto consigo próprio, desse confronto com a fraude do seu amor, dessa vergonha pelo tempo de falsificação da sua representação pública como indivíduo acasalado. É verdade que há quem aproveite as lágrimas – inevitáveis – para regar a alma e sair do processo florido e viçoso, pronto para outra metamorfose. Só que, lamento, mesmo esse renascimento é feito à custa da perda da inocência, da perda de tempo, da perda da juventude, da perda da espontaneidade, da perda... Nunca mais seremos os mesmos.

Em terceiro lugar, o divórcio é a prova que a Matemática é obra do demónio (talvez da mesma serpente que ajudou Adão e Eva): a divisão dos livros, a divisão das fotografias, a divisão dos discos, a divisão da casa, a divisão dos animais domésticos, a divisão das loiças, a divisão dos quadros, a divisão dos filhos (sim, até eles!), é a multiplicação de problemas insolúveis, é um somatário de agressões violentas, é a subtracção da nossa capacidade de discernimento.

A propósito de contas, reparo que me enganei no número de anos em que estou casado. Espero, por isso, não vir a aprender alguma coisa realmente útil acerca de divórcios...

in 24horas, 15 de Abril de 2006

Revelaram-me os factos da vida

meu pai morreu muito cedo por causa de um acidente automóvel e a minha mãe viu-se, de repente, sozinha com três filhos. Naquele tempo uma mulher como a minha mãe tirava um curso menor e inútil na escola, saía directamente de casa dos pais para casa do marido, não trabalhava e diziam-lhe que não devia trabalhar, tinha empregada em casa. Se enviuvasse, o melhor que poderia esperar era que a família a ajudasse. Aos 30 anos a minha mãe não foi nisso e, sem passado ou educação profissional, sem dinheiro, sem contactos, vendo-se numa situação aflitiva num mundo machista e paternalista, não se intimidou, partiu para a luta e venceu. 

Uma das preocupações da minha mãe foi sempre tentar dar aos filhos uma educação adequada aos tempos, longe da austeridade afectiva da sua infância e, apesar das dificuldades implícitas à necessidade de trabalhar de dia e estudar à noite, acompanhando-nos muito de perto e muito “em cima” do crescimento e das mudanças de idade, desde a infância até ao final da adolescência, passando por todas as fases intermédias ou, se quiserem, as diversas “idades do armário”. 

Um dos momentos mais bonitos que passei com a minha mãe foi quando, tinha eu uns 11 ou 12 anos, ela decidiu chamar-me para ter uma conversa séria. O assunto era “falar das coisas da vida”, algo que, em princípio, segundo explicava balbuciante, estaria a cargo do meu pai mas, dadas as circunstâncias, teria de ser ela a fazer. E assim comunicou- -me que afinal aquilo da cegonha trazer crianças era apenas uma fábula, que os meninos e as meninas eram diferentes por uma razão e por aí fora... Tudo terminou com a explicação do que era o preservativo e a pílula. Tenho a dizer que ouvi tudo com muita atenção e toda aquela informação dada assim de repente veio a ser muito útil, uma data de anos mais tarde. E tenho a declarar, para concluir esta história escrita quando já tenho uma filha quase adulta, que, para além de amor, quanto mais velho fico maior admiração sinto pela minha mãe. 
in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

É difícil andar bem vestido

 Por causa do senhor procurador-geral da República, doutor Souto Moura, tenho aparecido na televisão mais vezes do que gostaria. E, claro, fico sempre irritado com a figura ridícula que faço, com os (des)penteados com que apareço e as roupitas maçadoras que envergo. Resumindo: sou um triste. 

Aminha ideia de guarda-roupa ideal é esta: calças, camisa (camisola no Inverno), sapatos e casaco. Todo este equipamento deve ter uma qualidade única: a de me fazer passar despercebido. Se fosse eu a fazer as compras adquiria o mesmo conjunto de roupas sete vezes e ia mudando à medida das necessidades de lavagem. Por obrigação institucional, guardava no armário, no meio de bolas de naftalina, um conjunto engravatado ao qual me tentaria escapar sempre que possível. 

Infelizmente nunca me consegui organizar de forma a concretizar estes simples objectivos e a minha mulher tem feito tudo para sabotar esta operação. Ainda há bocado, tinha acabado de sair do meu gabinete um procurador que veio fazer uma busca à redacção do 24horas, tocou o meu telefone. Era lá de casa. Perguntaram-me se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Respondi que não, que ela estivesse descansada. Passado um bocado dei por mim a discutir o número de calças que visto, pois como deixei de fumar há um ano e engordei uns 10 quilos, a Catarina tinha dúvidas se o 38 ainda servia. Serve. E pronto, já sei que daqui a uns dias terei umas calcitas lá em casa para substituir as que tenho um bocado coçadas. Se não fosse ela, que compra o que lhe peço, eu não andava vestido como um triste. Andava mas era nu. 
in 24horas, 18 de Fevereiro de 2006

O sexo e a dança são perigosos

Já não me lembro qual foi o cerebrozinho que se saiu com esta, mas a frase é a seguinte: “a dança é a expressão vertical de um desejo horizontal”. Tiro desta tenebrosa generalização, claro, as danças de guerra, de desafio ou de trabalho, como a Haka dos Maori da Nova Zelândia, o fandango ribatejano ou o breakdance da Nova Iorque negra. Mas não compliquemos... 


O que quero dizer é que um casal a dançar a valsa, o twist, o sapateado, o disco, o samba, a gafieira, tango, maxixe, swing, salsa, bolero, rumba, o que quiserem – até patinagem artística – parece sempre estar a fazer uma única, exclusiva e significativa coisa: a simulação do acto sexual. É a minha cabecinha imoral que me impele a ver o que lá não está? Precisarei de ajuda psiquiátrica? Talvez de limpar os óculos? Ir mais vezes a casa? Calma aí! Não é preciso ser-se muito observador, não é preciso ser--se muito perspicaz, não é preciso serse muito inteligente para perceber que a dança de que aqui falo é mesmo disso que trata: procura, desafio, sedução, paixão, criação, explosão e agradecimento. Isto é, ou não é, a descrição de um acto sexual? 


Encontrada esta verdade de senhor de la Palisse vem a parte mais complicada: o ciúme. E o ciúme corrói-me por dentro, a mim que não sei dançar, que troco os pés, que sinto vergonha da hesitação destes braços nervosos e incertos, que meneio fora de tempo esta cabeça ridícula, que gingo as pernas aos tropeções descoordenados. E ciúme de quê? De todos os homens e mulheres que dançam. Porquê? Porque exibem ao mundo, espampanantes – belos e leves –, o mais lindo, íntimo e secreto dos desejos humanos. Eu não o posso fazer. E isso é uma terrível impotência. 
in 24horas, 11de Fevereiro de 2006

Todos vivemos sete vidas

Quase todos temos sete vidas para experimentar, como os gatos. Vamos lá ver. Com 1 ano tive pena de deixar de mamar. Com 3 anos adorei ir para a escola e o meu quarto tinha muitos brinquedos. Aos 5 anos planeava ser astronauta e achava as raparigas parvas. Esta foi a minha primeira vida. Foi curta mas diverti-me imenso.

Aos 9 anos planeava guiar autocarros da Carris e namorar uma data de raparigas. Aos 12 anos planeava ganhar um prémio Nobel e namorar uma data de raparigas. Aos 15 anos planeava ser guarda-redes no Sporting e namorar uma data de raparigas. Aos 16 anos planeava mudar o mundo e namorar uma data de raparigas. Aos 18 anos deixei de fazer planos. Esta foi a minha segunda vida. Foi curta e, ainda por cima, não namorei uma data de raparigas.

Aos 20 anos planeava ser uma vedeta da rádio, ajudar o meu partido, encontrar a mulher da minha vida e ter um filho. Aos 25 anos era locutor, trabalhava no meu partido e casei-me. Aos 26 anos tinha uma filha. Aos 30 anos apeteceu-me mudar de vida. Esta foi a minha terceira vida. A felicidade.

Quis ir para os jornais, quis mudar de casa, quis, apenas, mudar. Eu, a minha mulher e a minha filha mudámos. Passei a chefiar a redacção de um jornal diário e isso fazia-me cócegas ao sono, acordava a sorrir. Aos 39 anos puseram-me a dirigir o 24horas e entrei em delírio. Esta é a minha vida actual, a quarta. Ainda é curta, mas deu-me tudo o que quis ter e está a ser óptima.

Tenho um bocadito de medo das três vidas que ainda poderão vir: a maturidade, a reforma, a velhice. Não tenho brinquedos, não tenho planos, não terei mais filhos, acabarei a profissão... Mas, como um gato, se me deixarem, não resistirei à curiosidade de as experimentar. Afinal, estas sete vidas são três dias. Há que aproveitar.

in 24horas, 4 de Fevereiro de 2006

Juro! Sou mesmo um rapaz pacato

Eu, conforme tenho desesperadamente tentado demonstrar nestas crónicas, sou um rapaz pacato, nada dado a aventuras amorosas.

Comigo é casa-trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho, dia após dia, após dia, após dia. Comigo não há fitas, não há distracções, não há sorrisinhos cúmplices, não há cafezinhos a meio da tarde. Comigo não há conversas sobre cinema, não há conversas sobre a infância, não há conversas sobre romances de Dostoievski, não há conversas sobre músicas de Marvin Gaye, não há conversas sobre anúncios eróticos de TV, comigo, em suma, não há conversas. É tudo casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho.

Sou mesmo um rapaz pacato. Juro!, que me caia já aqui um raio (noc!, noc!, noc!, o diabo seja cego, surdo e mudo!) se for mentira. Comigo não há trocadilhos inteligentes, comigo não há prendinhas despropositadas, comigo não há carícias teatralmente casuais e inocentes, encostos de cabeças a provocar intimidade, tons de voz macios e melosos, piscares de olhos despropositados ou partidinhas infantis. É como vos digo: casa- -trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho. Juro! (entrou agora um tipo no meu gabinete a perguntar-me porque estou a fazer figas com os dedos), mas eu só penso em coisas sérias e o flirt não é uma coisa séria.

Sim, a minha vida é um bocado chata, é verdade, as mulheres olham para mim como se eu sofresse de gota histérica, seja lá o que for essa doença maluca. Mas uma coisa não me acontecerá: o 24horas não publicará a minha fotografia na capa com a frase “a partir corações”, como hoje acontece ao doutor Miguel Beleza (o tipo que entrou há bocado no meu gabinete olhou agora para o ecrã do meu computador e está a dizer “coitado de ti, precisas de um ombro amigo?”, o sacana!).

in 24horas, 28 de Janeiro de 2006

O segredo de Soraia Chaves

Hoje o tema desta revista é “cenas de sexo” e, desconfio, não há maneira de me sair bem do empreendimento de escrever sobre ele: inevitavelmente acabarei comprometido. Em primeiro lugar perante a minha mulher que, das duas uma, ou se zanga a sério ou gozará comigo o resto da vida. Em segundo lugar perante os leitores, que ou vão achar que me estou a armar em bom ou pensarão que sofro de uma frustração qualquer.

Vou então para o truque da falsa sociologia (como se houvesse sociologia verdadeira...), não falarei de mim e tentarei responder a uma curiosidade meramente científica (claro...): será que todos os portugueses querem fazer sexo com a Soraia Chaves? Sim, porque o facto de 363.312 pessoas já terem ido a correr ao cinema para ver a cena em que a modelo, nua, dá umas cambalhotas com Jorge Corrula merece reflexão... E como as mulheres que viram “O Crime do Padre Amaro” estavam apenas a tomar conta dos seus homens, a questão é pertinente, até porque há por aí muito filme estrangeiro bastante mais escaldante que este e com êxito muito menor.

A resposta que encontrei, depois de aturada reflexão e investigação estatística, é simples: a Soraia, além de bonita, é portuguesa. No meu tempo os machos iam aos magotes ao Condes ver a Helena Isabel sair nua de uma suposta nave espacial construída em plástico Domplex. Era o máximo do erotismo nacional. Agora os padrões são outros e as cenas mais picantes, mas o mecanismo básico é igual: ao ver uma actriz portuguesa numa cena de sexo, há um fenómeno de proximidade que não se sente com uma actriz americana ou francesa.

É como espreitar o quarto da vizinha. Não somos, portanto, uns tarados sexuais. Somos, apenas, uns impenitentes bisbilhoteiros. Até porque, quanto a sexo fazêmo- lo com alguém que tentamos esconder das bisbilhotices dos outros, debaixo de lençóis e com as cortinas das janelas corridas.
in 24horas, 21 de Janeiro de 2006

Invadido de cartões de Boas Festas

Nas últimas semanas a minha secretária de trabalho foi invadida por cartões de felicitações de festas felizes e próspero ano novo. Tenho a dizer que grande parte dessas missivas vêm de pessoas ou entidades que eu não conheço mas que, de alguma forma, a minha actividade jornalística e o cargo de director do 24horas levam a que se sintam na obrigação de proceder a esta delicadeza.

Há mesmo alguns que exageram e, a acompanhar o cartão, mandam garrafas de vinho, agendas, bolas de árvores de Natal e um infinito cardápio de produtos de promoção que me deixam irritadíssimo. Porquê? Porque tudo o que tenha valor que se veja é devolvido à procedência – não vá o diabo tecê-las e alguém pensar que se está a comprar um favor qualquer – e tudo o que não tem valor, para ser franco, encaminha-se rapidamente para o lixo, a juntarse aos milhões de toneladas de coisas não biodegradáveis que andam a poluir este mundo. No meio desta confusão acabo por me sentir uma besta insensível, por não ficar grato ao gesto de simpatia dos outros. É um embaraço para mim e para as pessoas e empresas que tentam ser agradáveis comigo e acabam por ter de dirimir um pequeno conflito institucional.

Nesta altura do ano criámos esta necessidade de darmos palmadinhas nas costas uns dos outros, de nos ofertarmos como se fossemos irmãos, apesar de no resto do ano termos andado mutuamente a planear homicídios de carácter, a espalhar rasteiras traiçoeiras e a espetar facadas nas costas. Nesta altura somos santos, no resto do ano somos soezes.

Mas a verdade é que as pessoas fazem isto por bem, eu sei. Sinto-me, portanto, obrigado a participar neste belo movimento social. Mas como sou forreta e já não vou a tempo de comprar cartões de Boas Festas, aproveito este espaço e a todos os esforçados ofertantes retribuo o marketing profissional com os desejos de um feliz Natal e um fantástico ano de 2006.
in 24horas, 24 de Dezembro de 2005

A absurda imaginação humana

Já conheci na vida grandes macacões. O maior foi o King Kong, a moda cinematográfica deste Natal. O que mais impressiona no King Kong não é a sua gigantesca dimensão, a sua força brutal ou a extraordinária capacidade de palitar os dentes com aviões biplanos. O que mais impressiona em King Kong é o facto de, fora de qualquer dúvida, ele representar o maior totó da história do planeta Terra. Vamos lá ver: apesar daquele corpanzil todo, o bicho deixou-se raptar. Acabou por ser transformado em animal de circo, ainda por cima sem receber um salário. Ainda assim conseguiu apaixonar-se perdidamente por um membro da espécie humana, raça que tantos maus tratos lhe infligia. Se isto não é de totó, não sei o que será.

Aliás, nunca percebi qual era a finalidade da paixão do gorila de oito metros e meio de altura. Ao agarrar na moça com uma mão para levá-la ao topo do Empire State Building, que objectivo tinha King Kong? Uma vida de casal numa penthouse de luxo? Não se estava mesmo a ver que o arrendamento do apartamento estava fora do alcance de um nativo do Terceiro Mundo? Já nem quero falar de outra questão: a funcionalidade desse amor estava obviamente comprometida, dada a diferença de estatura entre os amantes... A moça acabaria por trocá-lo por outro, estava-se mesmo a ver!

Sim, toda a história de King Kong é um absurdo. Isso não impede que o filme original, de 1933, tenha o estatuto de obra-prima da cultura norte-americana e esteja sob preservação no National Film Registry. Tiremos, portanto, duas conclusões. A primeira é que a imaginação humana pode seguir por vias ridículas e incongruentes, mas, surpreendentemente, ser capaz de nos maravilhar – e isto é apenas uma das coisas que fazem de nós seres especiais. A segunda conclusão é que, afinal, dos totós também reza a história.

in 24horas, 17 de DEzembro de 2005

O Natal como uma Guerra Fria

Eu adoro o Natal, a festa da família. Mas há um grande problema no Natal: a família. E a família é um grande problema porque o melhor que há na vida é, de facto, a família.

Lá em casa, no Natal, enchemo-nos de expectativas. Queremos juntar toda a gente à mesa, na noite de 24 de Dezembro: as crianças, os pais, os avós, as tias, os primos, os cães, os gatos, os periquitos e o meu irmão solteiro (ia-me esquecendo dele). Em Setembro, no fim das férias, começa a guerra: “Então, este ano, o Natal é em casa de quem?”, pergunta um desordeiro qualquer do clã. Todas as mulheres deste agrupamento de apelidos iniciam então um processo comparável à Guerra Fria: cada bloco ameaça o outro com armas nucleares – tudo serve para assustar o inimigo, desde a hipótese de deserdar dissidentes até brandir o fantasma de as crianças deixarem de ter contacto com os adultos “do outro lado”. A finalidade é conseguir organizar a grande festa do ano. Os homens fingem ignorar o assunto. Até vão para os copos juntos mas, quando regressam para as suas esposas, delatam as confissões dos companheiros: “Vê lá tu que a Luísa disse ao Francisco que vai comprar um peru congelado. Onde já se viu, peru congelado no Natal!?”.

Em Novembro já quase ninguém se fala e cada núcleo familiar pensa que vai passar o Natal sozinho. Mas em pleno Dezembro, debaixo da pressão do tempo, uma das mulheres promove uma reunião de emergência feminina e, não se sabe como (os homens nunca conseguiram lá entrar nem nunca obtiveram um relato fiável do acontecimento), a paz é decretada. O Natal, por consenso, passa-se em casa de uma das negociadoras e todos ajudam, com trabalho e géneros, para o êxito da festa. A comida é sempre óptima, as prendas fantásticas e as crianças riem toda a noite... Ah!, no dia 24 de Dezembro, às três da tarde, o meu irmão solteiro telefona: “Olha lá, afinal vou ter aonde?”. Não sei porquê mas, todos os anos, esquecemo-nos dele...

in 24horas, 3 de Dezembro de 2005

Como atingir a felicidade pessoal

Fui um privilegiado na infância e sempre tive um montão de brinquedos. A abastança era tal que me dava ao luxo de dar bolas, carrinhos e bonecos aos meus amigos, para embaraço da minha mãe, aflita quando as mães dos outros meninos apareciam lá em casa a devolver as coisas. Mas os brinquedos que realmente definiram a minha vida foram construídos por mim.

O primeiro foi o “Pequeno Jornal”, do qual saíram umas cinco ou seis edições, feitas nas férias grandes. Manuscrito, com capa em cartolina, lembro como peças gloriosas a entrevista ao senhor Pedra, um vizinho praticamente meu avô e dono de uma loja de hortícolas, e uma reportagem sobre o trabalho dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, graças à ajuda do senhor Zé, vizinho de cima e membro da dita corporação que, por acaso, é vizinha aqui do 24horas. O jornal só tinha um exemplar que, em vez de vendido, era alugado aos leitores por dez tostões. Fartei-me de comprar rebuçados à conta deste brilhante negócio. 

O outro brinquedo da minha vida foi a simulação de uma mesa de mistura de som. Construída com base numa fotografia que ilustrava um artigo de enciclopédia sobre radiodifusão, fi-la unindo caixas de Nestum umas às outras, cobrindo as, para simular os botões, com peões de plástico de vários jogos de salão. A cada peão correspondia uma função: mais e menos volume de som, mais e menos graves, mais e menos agudos, etc. O brilhante da coisa é que, já adulto, trabalhei de facto em rádio e lidei com mesas de mistura reais praticamente iguais à que concebi para brincar. Ainda hoje tenho o ego cheio à conta de tanta esperteza. 

Sim, acabei por ser jornalista e acredito que os brinquedos da minha vida tiveram muito a ver com isso. E graças a eles tenho uma certeza: um caminho para a felicidade pessoal é poder ter um trabalho que é, também, o brinquedo da nossa vida. 

in 24horas, 12 de Novembro de 2005

A vida de espião não é boa

Para quase todos nós vida de espião é vida de James Bond, com belas mulheres, assassinas e tudo. Ou seja, não existe. Espião deprimido e de espírito pardacento, ou se encontra nos livros de John le Carré, onde a aventura tem um peso na consciência, ou não nos desperta qualquer tipo de cumplicidade. 

Em Portugal desconfio que os espiões que temos passam a vida, das 9 às 5, de segunda a sexta, dentro de um escritório igual a muitos outros, a bocejar enquanto preenchem boletins do Euromilhões nos intervalos dos recortes de jornais que lentamente vão fazendo. Às vezes colam a jornalada em formulários A4, que guardam em pastas beges. Um dia, algum chefe de serviço, um director, talvez mesmo um ministro, lerá os relatórios daí saídos. O momento mais excitante do dia deve ser quando o tubo de cola se acaba e é preciso preencher um requerimento a solicitar a respectiva substituição. Mas isto sou eu a adivinhar, porque, juro, todos os cromos que se me apresentaram intitulando-se de “espiões” – normalmente uns fulanos a querer revelar pretensas e falsas informações bombásticas – foram arquivados no armário dos “malucos” que, de vez em quando, visitam os jornais. 

Imagino, portanto, o estado de perplexidade da senhora Anne Wright ao perceber, ao fim de 30 anos, que o seu inquilino das águas-furtadas, introspectivo e engelhado, tinha sido um garboso espião do tempo da guerra contra Hitler! A história está hoje contada nesta revista, umas páginas adiante. E parece a base para um livro de John le Carré. Eu, depois de a ler, comecei a revisitar a memória, não vá algum daqueles malucos que se cruzaram comigo, afinal, estar a falar verdade. 

in 24horas, 15 de Outubro de 2005

Como se foge da advocacia

Tinha eu uns 14 anos quando a minha mãe, preocupada, decidiu mandar-me fazer aquilo que na altura chamávamos de “psicoteste”. A finalidade era perceber se, afinal, eu era estúpido que nem um calhau ou se ainda havia esperança e existia alguma faísca dentro deste obscuro cérebro que iluminasse o meu futuro profissional.

Após dois dias de preenchimento de testes de cruzinhas e de respostas a coisas tão idiotas como “Quem escreveu os ‘Lusíadas’ não foi Luís de Camões mas sim outro poeta com o mesmo nome. Quem escreveu os ‘Lusíadas’?”, chegaram à conclusão que eu era capaz de apertar os atacadores dos sapatos sem entalar os dedos. “Portanto”, disse-me uma senhora gorda com óculos na ponta do nariz e um diploma emoldurado na parede do gabinete, “você vai ser advogado”. Inscrevi-me num curso de electrotecnia para ser engenheiro, chumbei, e acabei um pobre e modesto jornalista.

O que tornou impossível a minha adesão à advocacia foi a prosápia. Eles falam, falam, horas e horas e, de facto, não dizem nada. Pronunciam frases gongóricas com ar sério, representam tragédias gregas num palco onde se decide o destino dos coitados, dramatizam intensamente argumentos de vida e de morte para, assim que o espectáculo acaba, se comportarem como se tivessem acabado de discutir o futebol do fim-de-semana num grupo de amigos. É uma esquizofrenia que eu não aguentaria. Por outro lado, confesso, não me estava a ver vestido de toga. Fui um pateta? Sim. Mas ser pateta é coisa que não me tira o sono.


in 24horas, 8 de Outubro de 2005

As roupas de bebé são um perigo

Como todos os homens, faço gala em odiar compras. Sempre que a minha mulher, de pistola em punho, me obriga a entrar numa loja de roupa, ponho umas trombas daqui até à China, critico os preços de tudo o que vejo, faço filosofia barata sobre a sociedade de consumo e, logo que a apanho distraída, raspo-me para uma loja de música ou informática, doidinho por gastar um dinheirão nas coisas de que gosto.

A única vez que eu e ela partilhámos o gosto pelas compras foi aquando do nascimento da nossa filha. Fazer compras para um bebé é mesmo um divertimento e passámos horas e horas juntos a remexer em prateleiras de expositores. E porquê? Simplesmente porque é tudo pequenino: os dedos entram nos sapatos, a cama cabe debaixo do braço, os casacos, os barretes, as calças, os macacos, os pijamas, até as fraldas... É muito enternecedor!

Sim, é verdade, o comércio aproveita-se desta tendência humana de adorar brincadeiras com bonecas, de se fascinar com o que é pequenino e de formas arredondadas, para tentar sacar-nos todos os euros que puder. Mas alguém é capaz de se revoltar contra isso? Acho que não. Cada um de nós não resiste, conforma-se, procura álibis morais para o despesismo ("queremos o melhor para o nosso filho, não é?") e vai até ao limite das suas capacidades financeiras para conseguir levar tudo para casa.

Se calhar, como tenho este problema de incompatibilidade nas compras com a minha mulher, o melhor era arranjarmos outro bebé para nos voltarmos a divertir juntos nas lojas...

in 24horas, 1 de Outubro de 2005

As 10 músicas da minha vida

Espero nunca ter de responder a um inquérito como aquele que o 24horas fez aos candidatos às câmaras do Porto e Lisboa: “quais são as suas 10 músicas preferidas?”. Acho que a resposta, se for sincera – e presumo que quem respondeu tenha sido inteiramente sincero –, revela mais sobre a pessoa que a dá do que se ela confessasse as suas 10 fantasias sexuais que estão por concretizar. Caso eu vivesse em Lisboa ou no Porto decidiria o meu voto ao ler o artigo que saiu das respostas dos candidatos. 

Como trabalhei uma série de anos em rádio, escrevi em jornais sobre música e espectáculos e sempre gastei dinheiro a comprar discos, até reuni uma discoteca jeitosa. Em algumas áreas da música popular acho-me um perito. E toco 32 acordes de guitarra. Tenho, portanto, pretensões na matéria. 

Mas nomear 10 músicas de uma vida é um grande sarilho. Para não me acharem um ignorante, teria de incluir um tema de música clássica. Para não desconfiarem que tal erudição é forçada, teria de mostrar que conheço um álbum de jazz fora dos standards do género. Para não me acharem um traidor à pátria, teria de indicar uma canção portuguesa. Para não me apontarem a velhice, teria de inventar que gosto de uma vedeta pop actual. Para mostrar abertura de espírito teria de indicar um tema de música totalmente improvisada. Para mostrar que sou um homem do mundo, escolheria uma sonoridade africana... Conclusão: a discoteca assim obtida até seria honesta e corresponderia a discos que passaram com alguma notoriedade pela minha vida. Mas era também uma grande chatice, o que, posso garantir, a minha vida não foi. 
in 24horas, 24 de Setembro de 2005

O que exijo a Herman José

 Herman José faz parte da minha vida. Só estive com ele pessoalmente uma vez – o que foi uma grande excitação – e falámos apenas uma vez ao telefone, quando ele decidiu deixar de escrever no 24horas – o que foi uma pena. Mas, mesmo com tão insípida convivência, ele faz parte da minha vida.

Não faço a mínima ideia se ele é boa ou má pessoa, se é sensível ou duro, se é generoso ou egoísta, se transparente ou perverso, se gosta de ler livros policiais ou de ver filmes românticos, se é do Benfica ou do Sporting, se gosta de si próprio ou se se detesta. Para ser honesto, eu não sei nada sobre Herman José. Mas ele faz parte da minha vida.


Conheço aquilo que ele próprio deixa transparecer de si na televisão e nos jornais, o que, posso garantir pela experiência que tenho destas coisas, é no mínimo enganador. Portanto, eu nada sei sobre Herman José e o pouco que sei deve estar errado. Mesmo assim, ele faz parte da minha vida.


Tenho uma única absoluta certeza acerca de Herman José: ele é genial. Como passa pela minha vida a mostrar esse génio há mais de 20 anos, transformou-se num ídolo. E isto de ser-se ídolo de jornalista – o profissional do cinismo – é qualquer coisa de verdadeiramente homérica: é ter de realizar todos os dias os 12 trabalhos de Hércules e no final levar uma reprimenda por não se ter feito a coisa mais depressa, ou com maior elegância, ou com uma perna às costas.


Eu não imaginava a minha vida sem que por ela passasse Herman José. Dele exijo sempre mais. Quero que ele volte ao trono absoluto do humor. Já! Senão, a minha vida é um inferno! Senão, eu fico mais pobre.
in 24horas, 9 de Julho de 2005


Ser conduzido é que é bom

Tenho muita prática de andar no lugar do morto. Não conduzo, pelo que conduzi toda a minha vida na base de que alguém tem de me conduzir. Nessa forma tão original de condução sou particularmente habilidoso, pois ao longo de 42 anos nunca tive um acidente ou fiquei sequer apeado. Como piloto de boleias sou, portanto, um verdadeiro ás. E não tenho que me preocupar com percursos, combustíveis, documentos, revisões, estacionamento, polícias, peões, automobilistas ou seguros. 


Na minha vida pessoal e profissional tive assim oportunidade de viajar em todo o tipo de carros, desde os antigos 2 cavalos aos mais fantásticos Porsche, desde os Fiat 600 às limusinas de Estado da Mercedes. Apesar de não ter sequer a carta de condução, como arranjei sempre maneira de me levarem tornei-me um especialista: conheço, na prática e com exactidão, as virtudes e defeitos de uma grande parte dos carros que por aí circulam e de muitos outros modelos que já deixaram de circular. 


E posso testemunhar que cada comportamento automóvel corresponde, em 90 e tal por cento dos casos, ao comportamento dos seus donos condutores: sim, é verdade que um carro “nervoso” geralmente tem um tipo de espírito agressivo, imaturo ou inseguro ao volante, e que um modelo confortável, “macio”, mesmo “ronceiro” tem alguém satisfeito com a vida a acariciar suavemente a alavanca das mudanças. Como serão os compradores portugueses do Porsche Carrera GT que custa mais de105 mil contos? Eu digo: são danados para a brincadeira. 


Deles, não quero mesmo ter boleias. Andar na Terra a 330 km/hora ou chegar dos 0 aos 100 em três segundos e picos não é coisa humanamente suportável... Livra! 
in 24horas, 27 de Agosto de 2005