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Lições com Paulo Portas

Ficámos a saber que Paulo Portas é homem capaz de trair na sexta-feira a consciência pessoal que invocara na terça-feira para tomar a decisão "irrevogável" de sair do Governo.

Apreendemos as maravilhas de ser país do Eurogrupo com dívida de 72 mil milhões de euros ao FMI, à Comissão Europeia e ao BCE: só podemos ter um ministro das Finanças se aquela troika gostar, só podemos antecipar eleições se essa troika não se importar, só podemos mudar de governo se a dita troika nada objetar. E sem discussão!

Não sabemos, caso tenhamos eleições regulares em 2015, se os resultados terão, também, de ser previamente aprovados. Talvez não.

O "briefing" de Maria Luís Albuquerque

Quem se interessa pelos problemas sérios desta sociedade terá ignorado a novidade: os briefing (a tradução literal deste termo inglês é "instruções") que todos os dias úteis, às 12 horas, serão dados aos jornalistas pelo Governo. Ontem foi o primeiro.

Às 10 da manhã os jornalistas credenciados foram avisados: o tema a tratar duas horas depois seria o dos swaps (tradução literal: "trocas") e estaria lá a secretária de Estado Maria Luís Albuquerque.

Pedro Lomba, o mestre de cerimónias destes eventos, graduado em secretário de Estado, recebeu os antigos colegas de profissão e explicou as regras: uma delas era que poderia acontecer haver momentos em que as declarações feitas aos 30 ou 40 jornalistas presentes seriam em on (que mania têm pelo inglês!) e poderiam ser publicadas identificando a fonte da informação ou, em alternativa, em off (irra!), situação em que as ditas declarações passariam a ser citáveis sem atribuição de fonte.

... Portanto, espero não estar a ser mais um totó

A lista já pesa: assim, de repente e de memória, sou capaz de citar uma série de casos onde as autoridades e o poder executivo, judicial e legislativo tentam apertar os limites de utilização da liberdade de expressão. O leitor ou leitora não está preocupado com isso? Eu também não mas, já agora, repare nas notícias.

Temos Miguel Sousa Tavares,a palavra palhaço usada como possível insulto a Cavaco Silva e um processo levantado pelo Ministério Público, depois de um pedido de intervenção feito pelo Presidente da República.

Temos um cidadão em Elvas, totalmente desenquadrado de manifestações autorizadas, que no Dia de Portugal decide verberar o Presidente da República. Acabou detido e, em 24 horas, levado e condenado em tribunal - sentença que, por não poder ser julgada em processo sumário, o Ministério Público pretende agora anular.

Os professores em greve traíram ontem o País?

Este texto sintetiza o pensamento e o discurso de qualquer governante, militante do PS, do PSD, do CDS ou alegado independente que nos últimos 30 anos tenha opinado sobre a greve. Qualquer greve. É toda uma filosofia política. Passo, então, a citar.

"Os professores podem fazer greve, é um direito, mas essa luta não pode afetar a vida dos alunos. Os maquinistas, os ferroviários, os motoristas da Carris e da STCP também, é legítimo, mas devem salvaguardar o transporte das pessoas que querem trabalhar."

"A greve é um direito inalienável, mas os estivadores devem levar em conta o superior interesse nacional e descarregar os navios. Também os pilotos e os controladores aéreos podem fazer greve se os aviões importantes voarem. Os bombeiros têm direito à greve se ficarem em alerta para emergências. Os guardas prisionais grevistas devem levar os presos a passear ao pátio da cadeia. Mas, repito, não pode estar em causa o direito à greve."

Miguel Sousa Tavares, afinal, está safo!

Nem queria acreditar! O professor Cavaco Silva, num discurso oficial , enquanto Chefe do Estado, no Dia de Portugal e no pior ano que vivemos de crise, achou ser boa altura tentar reabilitar o seu passado como primeiro-ministro (José Sócrates tem, afinal, um mestre!) e resume assim 25 anos de política agrícola (dos quais os primeiros 10 comandou): "apesar de o número de agricultores ser então muito superior ao atual - cerca de 600 mil, contra cerca de 300 mil nos dias de hoje - a produtividade da terra cresceu 22% e a produtividade do trabalho agrícola aumentou 180%."

Cavaco Silva discursou aquele raciocínio sem se rir. Explicou querer desfazer assim "ideias feitas e preconceitos"... Como?!

Entre 1989 e 2009, o número de explorações agrícolas caiu 50% e a superfície agrícola utilizada diminuiu 9%. O valor acrescentado bruto criado pelo sector primário caiu de 10% para 2% - o peso do sector primário na riqueza criada no País dividiu-se assim por cinco.

António José Seguro é contrarrevolucionário?

Quase todos os dias, nas notícias ou na publicidade, aparece a palavra "revolucionário" associada a um novo medicamento, a um automóvel, a um champô, a um aparelho eletrónico. Essa sedução pela mudança, pela rutura com o caduco, esse desejo de chegar mais rapidamente ao melhor está tão arreigado à natureza humana que se tornou instrumento de comércio global.

Ser "revolucionário" é, no entanto, no nosso mundo ocidental, um conceito político delatado, combatido, ridicularizado ou temido.

Cavaco e Sousa Tavares

A investigação do Ministério Público a uma declaração de Miguel Sousa Tavares sobre Cavaco Silva não tem piada. Os assuntos de Estado são sérios, muito sérios.

O Código Penal prevê cadeia e multas para quem ofenda a honra do Presidente da República e para quem "ultraja" (sic) os símbolos nacionais: bandeira e hino. O Presidente representa a República, garante a independênia nacional, a unidade do Estado, o regular funcionamento das instituições e jura fazer cumprir a Constitução.

Num país que levasse os seus símbolos e a honra do Presidente a sério, todas as escolas, esquadras, tribunais, hospitais e outros edifícios públicos teriam, neste momento, a bandeira nacional hasteada e o retrato de Cavaco Silva exposto nos locais mais frequentados. Todos os funcionários da administração central ou autárquica saudariam a bandeira e cantariam o hino em diversas reuniões coletivas, formais ou informais.

O Conselho de Estado adivinha o futuro?

Estava a pensar na reunião do Conselho de Estado que ontem ocupou o Presidente da República. Aceitando de barato a agenda tornada pública, mais ou menos validada por dois membros da simpática sinecura que se dedicam à atividade bem mais lucrativa e prestigiante do comentário político em canal televisivo de sinal aberto, ter-se-á discutido o Portugal do pós-troika, o destino a dar ao pouco que sobrará da chacina financeira em curso .

Para visionar esse futuro, a um ano e picos de distância, se tudo correr como previsto - o que seria extraordinário, pois nos últimos dois anos nada do que a troika e o Governo programaram veio a acontecer, a não ser a espoliação generalizada dos bens dos cidadãos - temos sentado numa das 19 cadeiras reservadas a cérebros da Nação, aceites em Belém, um brilhante neurologista.

E não se discutem os salários do PSI-20?

Somam 61 milhões de euros as remunerações anuais recebidas pelos gestores de 19 empresas do PSI-20 (o Jornal de Negócios, que me referencia, não sabe os valores de uma das cotadas deste índice da Bolsa de Lisboa, a Portucel).

101 gestores de segunda linha receberam uma média de 608 mil euros, umas 55 vezes acima do salário médio anual de um trabalhador, que estimo em 11 mil euros (sim, estou a ser otimista). Estes 101 doutores e engenheiros criam, por si só, individualmente considerados, a riqueza produzida por 55 trabalhadores?... Duvido.

Os 19 presidentes de conselhos de administração destas empresas, que em média receberam 812 826 euros, valem, com o seu talento, esforço, dedicação e sabedoria (nunca postos em causa), o talento, o esforço, a dedicação e a sabedoria de 120 trabalhadores (sempre postos em causa e, nestes tempos, a caminho do despedimento) contratados pelo salário mínimo? Este fosso justifica-se?

A esquizofrenia moral do doutor Paulo Portas

Foi o próprio Paulo Portas que colocou a questão em termos éticos e morais: "Vivo a circunstância política em que tenho de cumprir com o meu dever perante o País e devo também procurar ser quem sou, o que significa estar em paz com a minha consciência."

Imagino que a consciência do cidadão Portas pense que "a liderança é antes de tudo o mais um mistério que nem sempre pode ser explicado pela racionalidade lógica". Talvez por isso o ministro de Estado imponha aos funcionários públicos a chantagem da escolha entre a mobilidade especial - 18 meses com salário reduzido e, depois, desemprego - ou a aceitação de rescisões imediatas.

Imagino que a consciência do líder democrata-cristão se interrogue: "Haverá alguma coisa mais humilhante do que estar condenado a não poder ganhar o seu próprio sustento?" Mas o dever do líder do PP conforma-se em atirar para o desemprego, sem direito a subsídio, mais 30 mil pessoas.

É com o consenso que o País se trama

Foi consensual aderir à Comunidade Económica Europeia. Foi consensual aderir à Zona Euro. Foi consensual vivermos 25 anos a engordar com os investimentos financiados pelos Quadros Comunitários de Apoio.
Foi consensual destruirmos inúmeras produções na indústria, na agricultura e nas pescas. Foi consensual passar a viver de crédito bancário. Foi consensual construir autoestradas, a Expo 98, o Euro 2004. Foi consensual deixar as câmaras municipais licenciarem selvas urbanísticas.
Foi consensual deixar crescer o Estado de uma maneira clientelar, corrompendo o seu papel na sociedade. Foi consensual desvalorizar a profissão de político até a tornar atraente, apenas, a malucos idealistas ou a imbecis carreiristas.

A entrevista a Sócrates deu-me cabo do sono

Na quarta-feira deitei-me tarde. Dormi mal, sonhos intermitentes. Imagine-se que a dada altura vi uma televisão de ecrã a preto e branco. Nela, um antigo estúdio da RTP, decorado a reposteiro, encenava uma entrevista. Frente a frente, sentados a uma mesa fabricada pela Olaio, estavam, de um lado, os notáveis jornalistas (sem ironia) João Coito e José Mensurado e, do outro lado, António de Oliveira Salazar.

Neste anacronismo, o ditador repetia: "Quero contrapor a minha narrativa à narrativa posta a correr pelos inimigos do Estado Novo e que foi deixada vingar praticamente sem oposição."

Tens emprego? Primeiro tira aqui uma formação

Vamos lá dar dois mil e quinhentos caracteres de espaço ao País real: uma universitária conseguiu um trabalho na área da ação social. Salário? 600 euros mensais. Como conseguiu? Respondeu a um anúncio de uma autarquia que pedia candidatos abrangidos pela iniciativa "Impulso Jovem". Tudo bem? Não.

Aquele programa permite que o Estado devolva ao empregador, durante 18 meses, a taxa social única do posto de trabalho assim criado. Os candidatos, no entanto, só podem contar 18 a 30 anos de idade e têm de estar inscritos como desempregados há pelo menos seis meses.

Ao ver o anúncio, a mestre em psicologia dirigiu-se pela primeira vez na vida a um centro de emprego. Preencheu papéis, foi à entrevista na autarquia, saiu admitida. Feliz, regressou ao local de origem para finalizar o processo. Disseram-lhe: "Olhe que tem de frequentar primeiro um curso de formação de seis meses."

Belmiro de Azevedo e os diretores cagarolas

O engenheiro Belmiro de Azevedo, dono há 23 anos do Público, fez, em entrevista ao seu próprio jornal, múltiplos comentários sobre o diário e sobre os seus jornalistas. As afirmações que me interessam são, no entanto, apenas duas.

Na primeira, o magnata da Sonae diz que "os diretores são uns cagarolas e cada vez que um quer mexer numa peça é automaticamente acusado de censura".

Na segunda, o capitalista marca Continente declara que "os custos do Público estão bem identificados: 50% são encargos com pessoal, 38% são custos de produção do jornal e 12% são custos de telecomunicações e outros. Os custos com pessoal devem descer substancialmente".

Comecei nos jornais em 1983. Passámos da máquina de escrever ao computador, do telex à Internet, do filme em negativo à fotografia digital, da fotocomposição ao computer to plate, do suporte em papel aos websites, telemóveis e tablets. Trabalhamos agora com texto, fotos, gráficos, som e vídeo.

Nestes 30 anos a medida mais popular de gestão nos jornais em crise foi sempre a mesma: cortar custos salariais, despedir. Quase sempre a empresa jornalística que a aplicou ficou, depois, em pior situação financeira. Como diria Cavaco Silva, é uma espiral recessiva.

O pior da manifestação é mesmo o dia seguinte

O problema das enormes manifestações, como a de sábado passado, é o dia seguinte, quando se exige um pouco mais de nós do que uma pueril discussão sobre o alegado milhão ou os supostos 500 mil que realmente protestaram nas ruas.

No dia seguinte, dizem os defensores do Governo, ninguém apresenta alternativas às políticas de Pedro Passos Coelho. Isso não é, simplesmente, verdade. PS, PCP e Bloco, inúmeros economistas (independentes, de esquerda, do "centrão", gente biograficamente ligada ao PSD e ao PP), jornalistas, vários académicos, todos os parceiros sociais e até intelectuais estrangeiros têm listado, com maior ou menor arrojo, com maior ou menor dissonância em relação ao programa vigente, inúmeras ideias diferentes, de pormenor ou de fundo, para tentar melhorar a situação. Só por desonestidade intelectual se pode dizer que todas elas são irrealismo radical impraticável, demagogia populista ou ilusão revolucionária anacrónica.

Passos Coelho respeita a sua geração rasca

No dia 5 de maio de 1994 uns milhares de estudantes manifestam-se frente à Assembleia da República, em Lisboa, contra a realização de uma prova global no 10.º ano de escolaridade. Saltam insultos contra a ministra da Educação, Manuela Ferreira Leite, e contra o primeiro-ministro Cavaco Silva. Alguns estudantes equilibram-se nos ombros de outros, virados de costas para o Parlamento, apontados para as objetivas dos fotógrafos e para as câmaras das televisões: baixam as calças e mostram o rabo.

No dia seguinte o jornal Público coloca a fotografia do momento na capa e titula: "Geração rasca". Um editorial do diretor acusa os estudantes de transformarem a manifestação "num desfile de palavrões, cartazes e gestos obscenos, piadas de caserna ou trocadilhos no mais decrépito estilo das velhas 'repúblicas' coimbrãs" .

O Diário de Notícias titula na capa "Protesto Global" e guarda a foto de um traseiro ao léu para as páginas interiores. O diretor adjunto defende a atuação da PSP e acusa os estudantes de "se atirarem aos agentes e se ferirem ao 'chocar' com os bastões policiais".

Amamentar num corredor de tribunal

"Mãe Coragem" é o nome abreviado como habitualmente nos referimos a uma célebre peça de Bertolt Brecht, a "Mãe Coragem e os seus filhos". A primeira forma, a mais curta, foi a do título escolhido para encabeçar uma história, contada no número de Junho passado no boletim da Ordem dos Advogados, por José Rodrigues Lourenço, causídico de Lamego. A cena passa-se nos corredores do tribunal daquela comarca. Transcrevo:
"Certo dia, uma senhora com o seu bebé de dois ou três meses esperava atendimento do Ministério Público, buscando auxílio para que o pai fosse compelido a pagar pensão de alimentos. Via-se que era extremamente

"Estou tramado!", pensa o procurador

Não é obviamente verdade que o Procurador-Geral da República tenha poucos poderes. Nem que os magistrados que investigaram o Freeport não tiveram tempo para interrogar José Sócrates. Nem que as perguntas que ficaram por fazer ao Primeiro-ministro fossem irrelevantes. Nem que Cândida Almeida e os seus subordinados se entenderam às mil maravilhas. Nem que o grande problema do Ministério Público em Portugal seja o seu sindicato. Nem que o sindicato do Ministério Público seja uma associação de anjinhos.
É obviamente verdade que o caso Freeport foi instrumentalizado - quer para liquidar José Sócrates, por um lado, quer para liquidar a investigação a José Sócrates, por outro.
Existe um problema de pressão política às investigações em Portugal - há excesso abusivo (com sinais

A morte de António Dias Lourenço

Estava na redacção do Avante!, com a Ivone Dias Lourenço, quando olhei para a janela. Frente ao prédio da Rua Soeiro Pereira Gomes, em Lisboa, vi a descer, por uma ladeira de terra batida então frontal à sede do PCP, o António Dias Lourenço. "Está ali o teu pai!", alertei. A resposta na cara da Ivone misturou pasmo, preocupação e irritação: "Mas o que é que ele está a fazer?!"
Um dos olhos de Dias Lourenço estava tapado por uma gaze, o que explicava as razões da filha: Ele fora nessa manhã para o Hospital de Santa Maria, ali perto, fazer uma cirurgia à vista. O internamento previsto era de 24 a 48 horas. Mas, assim que acordou da anestesia, raspou-se, a pé.
Não foi uma fuga heróica, como a do forte de Peniche em 1954, mas não deixou de ser algo temerária para quem já contava 70 e tal anos de idade... "Ó Ivone, estás farta de saber que não gosto de ficar preso!", foi a

O caixão de Gabriela Canavilhas

O Estado tem de subsidiar alguma actividade artística. Porquê? Para satisfazer os prazeres caros de meia dúzia de elitistas? Não. O motivo é muito mais pragmático e, talvez, igualmente um pouco cínico.
Um país perde competitividade se não tiver actores, músicos, cantores, escritores, encenadores, pintores, escultores, bailarinos e cineastas que trabalhem e produzam regularmente, de forma a que surjam de vez em quando alguns cidadãos que façam parte do topo mundial da criação artística.
Portugal seria materialmente mais pobre, menos interessante, menos apelativo se não tivesse para oferecer ao mundo o prestígio, a referência, os nomes, os trabalhos e as obras de José Saramago, Manoel de